O regresso – voltar é bom, ter ido é essencial.

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No Rio de Janeiro, um motorista de Uber contou-nos porque conduzia: com 60 anos, tinha-se reformado e separado da mulher pouco depois. Ficou com pouco dinheiro e muito sozinho, portanto. Havia, por isso, decidido pegar no pouco que tinha de seu – o carro – e usá-lo para resolver ambos os problemas.

***

Oi gente!!! Que saudade de aparecer por aqui! Voltámos revigorados, ligeiramente mais coloridos e absolutamente apaixonados pelo Rio de Janeiro (a bem dizer, eu já ia apaixonada, mas voltei mais ainda).

Posto isto, chegou a hora de cair na realidade e, felizmente, a realidade tem coisas boas: os risos, os abraços, as saudades finalmente mortinhas que eu tinha dos meus M’s…

Estava com alguns receios em relação ao nosso regresso, sobretudo em relação à reacção do Miguel, que ficou, pela primeira vez, alguns dias sem nos ver.

As reminiscências da primeira viagem do género, que fizemos quando o Martim era (mais) pequeno não ajudaram. Ele tinha um ano e oito meses quando casámos e fomos de lua-de-mel. Pelo que nos contaram ficou óptimo, divertido, mimado e entretido por avós e tios durante os dez dias que passámos fora. No entanto, quando voltámos surpreendeu-nos, ainda no aeroporto, com uma recepção gélida. Nós, cheios de vontade de o apertar e ele, quase sem olhar para a nossa cara, claramente muito zangado com o nosso desaparecimento repentino e mais ainda com a cara de pau de voltarmos como nada se tivesse passado.

Durante o mês seguinte, o Martim acordou todas as noites aos gritos. Pareciam terrores nocturnos, mas não eram. Eram protestos sonoros pela ausência dos pais. Ou melhor, sendo rigorosa, pela ausência da mãe. Porque o Martim acordava a gritar, a plenos pulmões ‘Mamã! Mamã! A mamã fugiu!’.

Acabei pagando pela lua-de-mel muito mais do que apenas o quanto a viagem economicamente me custou… Paguei em sono perdido e em facas espetadas no coração a cada nova acusação de fuga pela madrugada adentro. Passou. Hoje o Martim é um menino descontraído no que respeita às escapadinhas dos pais para namorar. Agora ele sabe que voltaremos sempre para ele.

Mas o Miguel ainda não…

Quando fomos buscá-los o Martim fez a festa normal de quem tinha saudades, correu, gritou de entusiasmo, quis contar mil histórias. O Miguel… Quando nos viu deu um longo suspiro, como se estivesse exausto. Estendeu-me os braços para vir ao meu colo, encostou a cabecinha no meu peito e suspirou, suspirou… Depois quis ir ao colo do pai, onde fez o mesmo, e de novo ao meu, onde se deixou ficar, assim mesmo, cansado da espera, aliviado por estarmos ali os dois.

A primeira noite foi complicada. Acho que trocaram a cama do Miguel na nossa ausência e colocaram uma cheia de picos, porque não houve maneira de o manter lá. Dormiu em cima de mim. Não ao lado. Em cima. Marcando território, como se só a dormência do meu corpo inteiro por baixo dele fosse capaz de garantir que não voltaria a ir a lugar nenhum sem o meu bebé. Sempre que escorregava, por algum motivo e se sentia longe do contacto físico, choramingava até que o pusesse novamente em cima de mim.

O dia amanheceu e não se tornou mais fácil, o Miguel não quis largar o meu colo para (quase) nada. Fiz todas as refeições com ele sentado em cima de mim e todos os meus afazeres do dia com ele montado nos meus braços e com protestos infinitos sempre que o pus no ovo para circular de carro.

Espero que restaure a confiança em nós. Que aprenda com o tempo que voltaremos sempre para ele também.

Tudo visto, não me importo de pagar este preço por momentos a dois. No caso, pela viagem que eu sempre quis fazer. Não me importo porque estes momentos sem filhos, sem fraldas, sem noites mal dormidas, sem a loiça, a roupa, os compromissos escolares, lúdicos e médicos deles nos permitem olhar um para o outro sem distracções. Conversar. Criar memórias que não envolvem os nossos filhos.

Porque um dia, se tudo correr bem, eles irão embora de casa e se tudo tiver corrido igualmente bem até aí, nós voltaremos a ficar apenas na companhia um do outro.

De que falaremos se não tivermos feito nada nos últimos 25 anos senão viver em torno dos nossos filhos?

Memórias com eles são maravilhosas. Mas memórias só nossas também são imprescindíveis.

***

Não conheço a história do casamento ou da separação daquele motorista super bem-humorado e cheio de experiência de vida com quem trocámos 20 minutos de agradável conversa. Mas, na minha cabeça, aquele homem e a sua ex-mulher viram os filhos crescerem e saírem de casa. Na minha cabeça, aquele ex-casal viu-se estranho ao fim de tantos anos debaixo do mesmo tecto. Tão estranho que não encontrou outra solução senão, à beira da velhice, irem cada um para seu lado. Aprenderem a ser fisicamente o que já eram sem saber até aí: duas pessoas sozinhas. É um acto de coragem sentir que nunca é tarde para ser feliz de outra maneira. E acredito piamente que nunca é! Mas à mesa do pequeno-almoço, sentada a olhar para o homem por quem sou apaixonada não pude evitar pensar que não queria que esta história que, na minha cabeça, inventei para aquela pessoa, fosse a nossa.

Que haja muitas viagens a dois, nem que seja ao quarteirão adiante do nosso, de mãos dadas, para um beijo roubado sem olhares de gente pequenina e atenta.

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