“Tantos meninos castanhos!”

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Tantos meninos castanhos! – exclamou o Martim perante uma peça jornalística filmada num país africano.

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Cresci num cadinho de culturas, raças e religiões, pertíssimo de uma mesquita e de um bairro social maioritariamente habitado por ciganos, na margem sul, local para onde foram morar muitos brasileiros imigrados em Portugal.

As minhas turmas sempre tiveram meninos de todas as cores e credos e na minha rua – onde antes das tecnologias as crianças costumavam divertir-se, lembram-se? – a única coisa que interessava a todas as crianças era a disponibilidade das demais para brincar.

Tudo isso me tornou muito cega à cor da pele, à origem, à fé.

Compreenderão, por isso, o meu espanto perante a exclamação – tão reveladora da ignorância em relação ao Mundo – do meu filho mais velho.

A verdade é que a realidade dele, nos seus curtos quatro anos, não é idêntica à minha.

É que, se ele tem muitos ‘tios’ e ‘tias’ castanhos, adultos que nos rodeiam e cujo tom de pele varia muitíssimo – lá está, os nossos amigos de infância, meus e do Mário -, o mesmo já não acontece com as crianças que estão ao seu redor. Pensando friamente, na sua escolinha actual não me recordo de ver senão meninos e meninas de pele clara por isso, para o situar, tive que referenciar alguém da sua escola antiga.

Perguntei-lhe se se lembrava do Lucas, um coleguinha dessa primeira escola.

Os olhos dele brilharam ao lembrar-se ‘Pois é! Ele também era castanho!! Eramos bué amigos…’

Percebi aí que a exclamação inicial dele era toda feita de falta de familiaridade com a coexistência de muitos meninos não brancos no mesmo espaço (meninos = crianças, já tinham aparecido no plano várias imagens de adultos sem que ele estranhasse alguma delas) e expliquei-lhe que, da mesma maneira que aqui onde ele vive a maior parte das pessoas tem a pele como ele, eu, o papá e o mano, existem muitos países onde a maior parte das pessoas tem a pele de outras cores e que, naquele da televisão, a maior parte das pessoas, crianças incluídas naturalmente, tinha pele ‘castanha’.

Percebi na cara dele a curiosidade genuína com que me ouviu. Falámos depois sobre alguns desses países. Quis vê-los no mapa. Mostrei-lhes esses e outros, entusiasmou-se com o tamanho da Rússia, com o quão longe eram a Austrália e a Nova Zelândia com o caminho de avião que eu e o pai fizemos para o Brasil e a conversa fluiu para outros temas.

Não, não tinham sido os olhos de um princípio de preconceito a fazer aquele comentário.

Tinha sido apenas uma observação empírica relativamente a uma realidade com nunca tinha sido confrontado antes.

Confesso, respirei de alívio…

Frequentará outras escolas, terá muitos amigos, verá e conhecerá muitas pessoas diferentes.

Um dia, espero eu, olhará para trás e perceberá que naquela imagem estavam apenas ‘tantos meninos’.

Sem mais.

Entretanto, acho que vamos fazer uns desenhos com os tão bem recebidos lápis de ‘cor-de-pele’ da Giotto.

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