Ainda sobre os palpites: o silêncio alimenta o monstro?

Nem de propósito, depois do post da semana passada sobre os muitos pais que os nossos filhos têm, mesmo não tendo (quem perdeu, pode ler aqui), passei por uma situação de palpite flagrante no último fim-de-semana…

Fomos a Fátima no Sábado porque o Mário estava ainda mais receoso que eu com a nossa viagem (falei sobre isso aqui) e achou por bem comemorar de forma mais espiritual o facto de regressarmos vivos e em (relativamente) bom estado de conservação.

No restaurante onde almoçámos levei o Miguel ao fraldário. Ele está numa fase em que odeia trocar a fralda. O-dei-a. Esperneia, chora e chateia durante todo o processo, a menos que tenha um biberão na boca (ah… comer! A sua actividade predilecta!).

Obviamente, para ele é indiferente encontrar-se em casa ou fora dela e faz exactamente o mesmo barulho e escabeche independentemente de onde estejamos.

Eis que uma senhora, cheia de dó, aproximou-se, tentou consolá-lo, conversar com ele e aquelas coisas a que as senhoras não resistem quando tudo o que queremos é despachar o assunto, na certeza (que as mil experiências anteriores com o NOSSO filho nos deram) de que ele se calará assim que voltar ao nosso colo, feliz, como se nada se tivesse passado.

Às tanta,s perguntou se ele fazia isso sempre que trocava a fralda. Respondi que tinha fases e que estava numa em que sim, fazia isso em todas as mudas. Não convencida, perguntou o seguinte:

Não estará a magoar a cabecinha aqui em cima?’

Revirei os olhos (aliás, acabei de fazer o mesmo ao escrever).

‘Não. Não estará.’

Fui um poço de simpatia tão profundo que a senhora lá se convenceu a ir embora sem mais comentários.

Fiquei a pensar…

A senhora estava lá com os filhos. Com os netos. Aquela senhora engoliu muito palpite de que não gostou, como qualquer outra mãe.

Então se praticamente todas as 100% sofrem com estas ingerências na forma como lidam ou deixam de lidar com os seus filhos em situações que só a si dizem respeito, com certeza muitas, muitas mães são também elas palpiteiras além de alvos… Como aquela senhora! Não acredito que o façam de forma consciente, afinal, perpetuar o ciclo do palpite não aparenta ser agradável para ninguém… O que me leva a questionar:

Será que os palpiteiros são todos ou maioritariamente pessoas inconscientes de que estão apenas a ser metediços e ninguém quer saber da sua opinião?

Será que eu sou uma palpiteira e não sei?

Confesso que, depois de pensar um pouco, consegui identificar algumas situações em que talvez tivesse ficado melhor na fotografia de boca fechada. Quando utilizei um tom um pouquinho mais julgador ao pronunciar-me sobre o uso de tecnologias por uma criança com a idade do Martim (que na minha opinião era excessivo) ou quando identifiquei, exemplificando ainda com situações concretas, uma dependência desnecessária, não da filha em relação à mãe, mas da mãe em relação à filha, também da idade do Martim.

Curiosamente ambas as situações ocorreram com amigas bem próximas. Nenhuma delas me disse nada. Não sei se por não as ter incomodado verdadeiramente ou se por adoptarem, ao contrário de mim, que sou incapaz, uma táctica similar aos pinguins do Madagáscar nestas situações, limitando-se a ‘sorrir e acenar’.

Em todo o caso, em retrospectiva, desejava que o tivessem feito. Afinal… O que é que eu tenho a ver com isso se ninguém me perguntou? São ambas mulheres adultas, que tenho como inteligentes, com o mesmíssimo acesso à informação que eu, felizmente, e sem a menor dúvida que querem para os seus filhos o mesmo que eu quero para os meus: nada menos do que o melhor.

A minha opinião é a minha. Mantenho-a em qualquer dos casos que relatei. Mas não passa disso mesmo e vale zero, menos que zero até, se pais e filhos estão confortáveis com aquele modo de gerir as coisas…

Talvez seja mais disto que nos falta a nós, mães alvos de palpites: um pouco menos de ‘sorrir e acenar’ e um pouco mais de ‘obrigada pela preocupação, sei que é totalmente inocente, mas eu sei o que estou a fazer, afinal, o filho é meu’.

Quantos palpiteiros inconscientes não ganhariam essa consciência e prestariam mais atenção antes de falar numa próxima vez, quiçá com outra mãe?

Quantos palpiteiros conscientes não se sentiriam pelo menos um pouquinho mais inibidos de tecer comentários despropositados?

Pela minha parte, a todos quantos se sentiram alguma vez ‘palpitados’ por mim apresento as minhas mais sinceras desculpas e convido todas as mamãs fartinhas de palpites a juntarem-se num movimento por palpiteiros mais conscientes (isto é, com mais vergonha na cara). Falem! Quebremos o ciclo do palpite!

 

(By the way, quem ainda não participou no passatempo ‘poupe nos palpites?’ O tempo urge e acaba hoje às 23h59!)

 

Esta é a história da minha t-shirt (o cabelo do Miguel e o raio dos palpites)

Introdução

Esta é a história da minha t-shirt.

E para a introduzir pergunto: quem nunca teve vontade de dar um bom chega para lá num palpiteiro de plantão e dizer ‘poupe nos palpites que a mãe sou eu’?!

Eu sou muitas vezes acusada de ser ‘senhora da razão’ e, talvez porque isso tenha qualquer coisa de verdade, sou pouco tolerante a palpites não solicitados.

Sou ainda mais intolerante quando o tema são os meus filhos e é muito difícil apanhar-me a fazer ‘sorrisos amarelos’ nessas ocasiões. São meus, porra! Que mania de haver sempre um doutorado naquilo que se passa na minha casa e, muitas mais vezes do que consigo contar, no meu colo!

Mas o pior é quando os palpites passam a transgressões expressas da vontade dos pais.

Posso dizer-vos que foi de uma dessas transgressões que nasceu a minha t-shirt.

Sério.

Continuem comigo…

O cabelo do Miguel

Pouco depois do Martim completar um ano cortámos-lhe, pela primeira vez, o cabelinho. Guardei-o todo. Aqueles caracóis lindões de cabelo sedoso de bebé.

Claro está que nunca voltou a tê-los e muitas vezes dei por mim a suspirar por ter, talvez, cortado o cabelo dele cedo demais.

Com o Miguel decidi que não queria cair no mesmo ‘erro’. Só que o cabelo do Miguel não tem caracóis lindões. É só… louco. Muito louco. Comprido nuns sítios, inexistente noutros.

Mas ele também é um louquinho e por isso, mesmo perante investidas recorrentes do Mário para lho cortarmos, finquei pé e gritei aos quatro ventos que ninguém tocaria no cabelo louco do meu bebé ainda mais louco.

Disse-o ao Mário, vezes sem conta. Disse-o à minha irmã quando brincou ameaçando que iria buscar uma tesoura sem eu dar por nada. Disse-o vezes sem conta à minha mãe sempre que ela insistia no discurso do ‘coitadinho, que tem o cabelo nos olhos’.

Um belo dia de manhã o Mário pergunta-me: o que aconteceu ao cabelo do Miguel?

Ele tinha vindo de casa dos meus pais já a dormir no dia anterior, de pijama vestido e de gorro na cabeça, por isso, quanto a mim, não tinha acontecido nada.

Mas aconteceu.

Aconteceu a minha mãe decidir, não só por mim como contra mim, dar uma tesourada na franja do Miguel. Bem torta, bem rente à testa, para ter certeza que cabeleireiro algum no Universo poderia consertar. Bem às escondidas. Bem… mal.

Da raiva ao papel, do papel ao algodão

Fiquei furiosa.

Fiquei furiosa muitos dias.

Furiosa a ponto da insónia.

Ainda fico, um pouco, quando penso que não vou guardar o primeiro cabelo cortado do meu bebé, porque alguém decidiu passar-me por cima e fazer o que entendeu melhor para ele quando não tinha que entender coisa nenhuma.

Bolas, não me interessa o que acham melhor para os meus filhos! Só há duas pessoas cuja opinião pesa quanto a isso: a minha e a do pai. Fim.

Na noite da insónia peguei no telemóvel (ainda antes da regra modo avião) e escrevi ‘a mãe sou eu’.

Mas o telemóvel não é sensível à raiva como uma caneta a pressionar o papel…

Por isso no dia seguinte quando me apanhei de papel e caneta em punho escrevi novamente ‘a mãe sou eu’. Em minúsculas, em maiúsculas. Em hastag.

Mas porque é que as pessoas não guardam para si o que pensam que é melhor? Porquê? Porque raio não poupam nos palpites que ninguém lhes pediu? Nas acções que ninguém lhes encomendou?

E fui escrevendo…

No final sobrou o que lêem na minha t-shirt.

‘Poupe nos palpites
#amãesoueu’

Apeguei-me rapidamente à ideia de passar a mensagem sem falar.

Daí a procurar uma empresa que estampasse o meu apelo desesperado para eu ostentar sem ter que ser (demasiado) desagradável com ninguém foi um piscar de olhos.

E cá está ela.

Esta é a história da minha t-shirt.

Gostam?

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