Dormir com os filhos… eu não gosto. E daí?

 

Não gosto de dormir com os meus filhos.

Pronto. Falei.

Não gosto mesmo.

Até gostava de gostar porque tornava algumas noites bastantes mais fáceis, mas não gosto, é desconfortável.

Gosto de adormecer com eles, agarradinha, sentir aquelas respirações tranquilas de quem não tem uma única preocupação no Universo, de quem se sente seguro nos braços da mamã, gosto de poder amachucá-los e fazer-lhes festinhas nos cabelos sem que fujam para fazer outras coisas ou me afastem o braço quando se fartam.

Mas uma noite inteira disso é só tortura.

Durmo na ponta da cama, porque eles me empurram para lá.

Metade do meu corpo dormita enquanto a outra metade teme pelo abismo.

Os meus braços ficam invariavelmente dormentes.

A minha bexiga adora dar sinal em todas essas fatídicas noites em que me vejo forçada a trazer um, outro ou os dois para a minha cama (sendo que, obviamente, não importa o espaço que haja disponível, eles deitar-se-ão em cima de mim).

Com tanta proximidade, tenho medo que a minha respiração os incomode, que faça vento na cabeça deles, que os acorde e por isso até respirar se torna um gesto consciente e pouco natural.

Sou sistematicamente agredida com cabeçadas, cotoveladas, pontapés.

Cada criança a mais na minha cama é uma hipótese a menos de uma noite minimamente bem passada.

Sim, prefiro levantar-me algumas vezes durante a noite para colocar chuchas caídas, para levar meninos ao xixi, para amparar pesadelos, para dar água, beijinhos ou o que for preciso.

Pelos menos nessas ocasiões, enquanto congelo de pé junto às camas deles, o meu pensamento rejubila com a promessa da minha cama quentinha.

Não gosto de dormir com os meus filhos.

Sabem com quem eu gosto de dormir? 

Com o meu marido. 

Sabem o que torna isso difícil?

Duas crianças na cama connosco.

 

 

 

Adormecer – o deles e o meu

O Martim sempre foi uma cobaia de independência.

O que quero dizer com isto? Que raras vezes dormiu na minha cama, passou algumas horas a chorar na dele, tinha três meses quando deixou de dormir no nosso quarto (já não mamava e acordava pouquíssimo durante a noite) e foi habituado a adormecer deitado na cama dele, ainda que com companhia.

Em suma, uma parte de mim achava que ‘uma vez dependente, sempre dependente’ e quis desde cedo quebrar esse suposto ciclo. Isto, durante a noite, porque durante o dia sempre dormimos longas sestas juntos.

Com o Miguel as coisas são um pouco diferentes. Respeito mais o ritmo de cada um deles e não tenho grandes pressas. Afinal de contas, pressa para quê, se caminhamos todos na mesma direcção?

Na verdade, e da mesma forma que o irmão, raras foram as vezes que o Miguel dormiu na nossa cama. Mas já não por imposição nossa (vá, minha). Ele é que, genuinamente, dorme mais confortável na cama dele (foi aliás também esse o motivo porque passou a dormir no quarto com o irmão, ao invés de colado à minha cama, já com mais de seis meses).

Mas o Miguel adormece ao meu colo todas as noites e eu não tento que seja diferente.

É um facto que às vezes me sinto capaz de cortar um mindinho para mergulhar na minha cama o mais rapidamente possível mas, mesmo nessas noites, o Miguel adormece ao meu colo. E mesmo nessas noites eu não tento que seja diferente.

Foram precisos dois filhos para eu aprender a apreciar o momento em que eles adormecem. O Martim com um abraço apertado e uma história, lida ou inventada, o Miguel ao meu colo.

Não tem preço aquele primeiro longo suspiro de quem está totalmente seguro e descansado.

Não têm preço as respirações profundas dos dois.

E não tem preço a tranquilidade com que eu própria adormeço depois de os adormecer a eles, sem pressas e sem tentar que nada seja diferente do que é.