Dar à luz no escuro

Chegou o momento por que ela esperou a vida toda e, em particular, os últimos meses. É agora.

Vai, finalmente, conhecer a cara da sua princesa, segurar-lhe as mãos, chamá-la de ‘meu amor’, prendê-la junto ao peito.

O trabalho de parto torna-se coisa menor perante a expectativa de ver, de mexer, de aconchegar o seu bebé.

Um pai nervoso leva-a para o hospital – grande palco do milagre da vida.

As coisas não correm como esperado. O pai nervoso é deixado à porta: os blocos de parto estão lotados e, por respeito às demais parturientes, ninguém pode ter acompanhantes.

Agora a mãe está nervosa também. Precisava daquela mão na sua. Precisava daquela voz familiar dizendo-lhe que ia correr tudo bem.

O trabalho de parto começa a arrastar-se. Ouve o pessoal médico a falar de relaxantes musculares, de cesarianas, de tudo. Como se ela não estivesse ali. Ninguém lhe pergunta nada. Ninguém reconhece a sua existência salvo para dizer-lhe que não grite.

Não grite, porque se na hora de fazer não pensou, agora aguente sem se queixar.

O desconforto aumenta. O trabalho de parto pára.

Aquele momento bonito, único na sua vida, quebra-se em todo o encanto com que foi sonhado. Agora é só dor, solidão, desespero.

Porque é que ninguém a consola? Porque é que ninguém lhe diz o que se passa? Mais, porque é que ninguém a ouve? Já perdeu a conta ao número de pessoas que invadiram com as mãos a sua privacidade, que entraram e saíram do espaço onde a depositaram, sozinha e vulnerável, que debocharam dos seus ‘ais’.

Passaram-se horas e horas e a princesa parece preparada, finalmente. Ela quer sentar-se, mas não a deixam. Ela não quer que lhe empurrem a barriga, mas ninguém respeita o seu desejo.

Ela é gado.

Com o tempo, tudo passou, porque tudo (ou quase tudo) passa. Mas ela levou para casa uma filha linda e uma ferida aberta na alma.

‘Dar à luz’ não se aplica a nada do que lhe aconteceu. Ela deu à luz no escuro.

***

A Associação Portuguesa para os Direitos da Mulher na Gravidez e no Parto disponibiliza, no separador ‘documentos’ um conjunto de informação muito relevante e essencialmente preventiva da violência obstétrica. Num momento de especial fragilidade da mulher e até do acompanhante (seja o pai, seja outra pessoa) é cada vez mais importante não ser apanhado de surpresa e estar-se seguro do que são os limites da actuação dos profissionais de saúde.

A violência obstétrica precisa de ser denunciada sempre. Se por acaso alguma das pessoas que me lêem é profissional de saúde: não compactuem com a violência obstétrica. Denunciem se a presenciarem e incentivem a denúncia.

Existe uma petição pública pelo fim da violência obstétrica nos blocos de parto dos hospitais portugueses. Peço-vos que assinem.

Porque nem só quase metade das mulheres portuguesas merece ter o parto que deseja (podem ver os pressupostos e resultados integrais do inquérito a que me refiro aqui). TODAS as mulheres merecem que se façam todos os esforços para que tenham a melhor experiência de parto. A experiência que eu tive a sorte de ter nos meus dois partos. A experiência que me entristece ter que apelidar de ‘sorte’.

Pelo fim da ‘sorte’. Pelo fim da violência obstétrica. Para que esta história passe a ser, verdadeiramente e não apenas vagamente, fictícia.

#PeloFimdaViolênciaObstétrica #PartoRespeitado