E se A cegonha criasse um blog?

«Mãe, de onde vêm os bebés?»

«São trazidos por uma cegonha, filho»

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Acredito que esta já não seja uma ‘saída’ tão comum para este aperto no qual, enquanto pais, nos veremos mais cedo ou mais tarde mas, ainda assim, quem não conhece esta resposta?

Pois bem, os meus M’s, não tendo sido trazidos por uma cegonha, foram-me ambos entregues nos braços pela mesma pessoa, o mesmo enfermeiro, a minha cegonha: o Bruno Rito.

Quem é ele? Tenho a certeza de que já o mencionei algures por aqui. De há dez anos para cá é enfermeiro parteiro no Hospital Garcia de Orta, percursor do parto vertical naquelas instalações, com o banco e a cadeira de parto onde tive a felicidade de me sentar para ter cada um dos meus meninos e criador dos programas pré e pós parto que ministra no Clubcare, na margem sul.

Frequentei o curso de preparação para a parentalidade que o Bruno dá por indicação de uma amiga. Uma vez lá, arrastei comigo uma outra amiga. Depois disso, várias outras amigas e conhecidas minhas já lá foram parar. Esqueçam o currículo do homem: ouçam os pais. Todos, sem excepção, vos dirão, como eu própria ouvi, experienciei, e passei a dizer, que é o dinheiro mais bem gasto na vidinha de uns quase pais. Guru, Deus dos partos e, para mim, mais modestamente mas com todo o significado, A Cegonha, são coisas que frequentemente ouvirão dizer sobre ele a quem já frequentou as suas aulas.

É tão bom que quando engravidei do Miguel, voltei. Não que não me recordasse de praticamente tudo o que tinha aprendido. Não que não tivesse ainda todos os meus (muitos) apontamentos. Não que, verdadeiramente, precisasse. Mas o Bruno tem uma maneira de explicar os porquês de todas as coisas que envolvem os antes, durantes e depois de um parto que tranquiliza, além de muitas histórias para contar, exemplos para dar e dois pés muito bem assentes na terra… pelo menos na terra das mães. E isso faz com que a voz dele entre connosco para o bloco de parto e com que cada passo de tudo o que acontece seja identificado e reconhecido por nós. A resposta é automática, porque foi tão minuciosamente explicada e praticada que não pode haver outra no nosso cérebro. E tudo corre melhor quando estamos descontraídas, certo?

Como vos referi, o Bruno apresentou-me ao parto vertical em banco de parto. Sumariamente, o Bruno mandou fazer um banco de madeira cujo assento se assemelha muito ao de uma sanita, onde as parturientes podem parir, sentadas (em posição vertical, portanto), beneficiando das bençãos que a gravidade traz, com todo o conforto, metade da dor e muito menos trabalho, lacerações e outras coisitas desagradáveis. Quando se deparou com algumas dificuldades em convencer a instituição onde trabalha a utilizá-lo, virou o jogo e convenceu as mães. Quantas mais o utilizavam, mais apareciam a pedir para fazê-lo. Inevitavelmente, um Bruno só tornou-se parco para tanta demanda e os colegas começaram a aceder em aprender a técnica.

Eu tive, além de tudo, a sorte de ele estar de serviço quando chegou a hora dos meus dois partos. É alguém que está inevitavelmente ligado para sempre a dois dos momentos mais felizes e marcantes da minha vida. A minha gratidão só é igualada ao meu orgulho por fazer parte do leque das famílias que ajudou a aumentar e só pode ser superada pela minha vontade de gritar aos quatro ventos como ele é fantástico no que faz e como toooodas as grávidas que possam fazê-lo DEVEM recorrer aos seus serviços.

Mas… Nem todas podem, porque o Clubcare é so um e não sai do local onde está. E, por isso, quando A cegonha cria um blog, a gente faz serviço público e divulga (ah, se eu fosse uma blogger famosa, seria cá uma troca de @…). Tenho a certeza de que todas as informações que lá constarem serão úteis e divulgadas de uma forma simples, fundamentada, bem humorada e absolutamente esclarecedora.

Não sei, honestamente, onde irá desencantar tempo para escrever um blog, já que está sempre, sempre, sempre disponível por sms ou whatsapp para responder às nossas dúvidas existenciais e crises de maternidade, enquanto faz partos uns atrás dos outros, ensina turmas cheias na preparação para a parentalidade e na recuperação pós-parto e ainda recebe grávidas no Clubcare para CTG’s, vacinas e ajudas com probleminhas de amamentação, cólicas e afins. Ah! Não esquecendo que tem a sua própria família e que haverá, suponho, momentos em que dorme (mas só acredito, vendo).

Se quiserem conhecer mais, aqui ficam, para espreitar e seguir o blog e a página de Facebook do Bruno, acabadinhas de nascer e também o site do Clubcare, a quem possa interessar!

Blog: www.brunorito.pt

Facebook: www.facebook.com/BrunoRitoEnfermeiroParteiro/

Clubcare: www.clubcare.pt

Dar à luz no escuro

Chegou o momento por que ela esperou a vida toda e, em particular, os últimos meses. É agora.

Vai, finalmente, conhecer a cara da sua princesa, segurar-lhe as mãos, chamá-la de ‘meu amor’, prendê-la junto ao peito.

O trabalho de parto torna-se coisa menor perante a expectativa de ver, de mexer, de aconchegar o seu bebé.

Um pai nervoso leva-a para o hospital – grande palco do milagre da vida.

As coisas não correm como esperado. O pai nervoso é deixado à porta: os blocos de parto estão lotados e, por respeito às demais parturientes, ninguém pode ter acompanhantes.

Agora a mãe está nervosa também. Precisava daquela mão na sua. Precisava daquela voz familiar dizendo-lhe que ia correr tudo bem.

O trabalho de parto começa a arrastar-se. Ouve o pessoal médico a falar de relaxantes musculares, de cesarianas, de tudo. Como se ela não estivesse ali. Ninguém lhe pergunta nada. Ninguém reconhece a sua existência salvo para dizer-lhe que não grite.

Não grite, porque se na hora de fazer não pensou, agora aguente sem se queixar.

O desconforto aumenta. O trabalho de parto pára.

Aquele momento bonito, único na sua vida, quebra-se em todo o encanto com que foi sonhado. Agora é só dor, solidão, desespero.

Porque é que ninguém a consola? Porque é que ninguém lhe diz o que se passa? Mais, porque é que ninguém a ouve? Já perdeu a conta ao número de pessoas que invadiram com as mãos a sua privacidade, que entraram e saíram do espaço onde a depositaram, sozinha e vulnerável, que debocharam dos seus ‘ais’.

Passaram-se horas e horas e a princesa parece preparada, finalmente. Ela quer sentar-se, mas não a deixam. Ela não quer que lhe empurrem a barriga, mas ninguém respeita o seu desejo.

Ela é gado.

Com o tempo, tudo passou, porque tudo (ou quase tudo) passa. Mas ela levou para casa uma filha linda e uma ferida aberta na alma.

‘Dar à luz’ não se aplica a nada do que lhe aconteceu. Ela deu à luz no escuro.

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A Associação Portuguesa para os Direitos da Mulher na Gravidez e no Parto disponibiliza, no separador ‘documentos’ um conjunto de informação muito relevante e essencialmente preventiva da violência obstétrica. Num momento de especial fragilidade da mulher e até do acompanhante (seja o pai, seja outra pessoa) é cada vez mais importante não ser apanhado de surpresa e estar-se seguro do que são os limites da actuação dos profissionais de saúde.

A violência obstétrica precisa de ser denunciada sempre. Se por acaso alguma das pessoas que me lêem é profissional de saúde: não compactuem com a violência obstétrica. Denunciem se a presenciarem e incentivem a denúncia.

Existe uma petição pública pelo fim da violência obstétrica nos blocos de parto dos hospitais portugueses. Peço-vos que assinem.

Porque nem só quase metade das mulheres portuguesas merece ter o parto que deseja (podem ver os pressupostos e resultados integrais do inquérito a que me refiro aqui). TODAS as mulheres merecem que se façam todos os esforços para que tenham a melhor experiência de parto. A experiência que eu tive a sorte de ter nos meus dois partos. A experiência que me entristece ter que apelidar de ‘sorte’.

Pelo fim da ‘sorte’. Pelo fim da violência obstétrica. Para que esta história passe a ser, verdadeiramente e não apenas vagamente, fictícia.

#PeloFimdaViolênciaObstétrica #PartoRespeitado