A competição (sobre a empatia e a parentalidade consciente)

O Contexto

Sempre pratiquei desportos. Tudo o que possam imaginar: natação, ginástica rítmica, karaté, equitação, aeróbica, danças brasileiras, you name it

Posso dizer o minuto em que passei a odiar cada uma das modalidades que pratiquei: quando (e nos casos em que) me levaram a competir.

Competir nunca me trouxe adrenalina. Nunca me fez ter vontade de fazer mais e melhor. Nunca despertou qualquer sentimento positivo em mim e mesmo nos casos em que fui bem sucedida, a sensação de uma vitória era sempre associada ao alívio pelo fim da tarefa.

Competir é, para mim, profundamente desconfortável.

A competição directa e vista como um propósito em si mesma é algo que me é contra-intuitivo. Sempre me senti melhor a ajudar os outros naquilo em que era boa, do que a provar-lhes (ou a mim), que era melhor que eles.

Aliás, ainda há poucos dias em conversa dizia a alguém que a razão pela qual não sei jogar matraquilhos, snooker, dardos, cartas e qualquer outro jogo que exija alguma experiência para se ser bem sucedido é saber que a competição traz à tona o meu eu mais mesquinho, infantil e mal-disposto. E eu não gosto dele, pelo que abdico que um certo nível de socialização e, quem sabe, potencial divertimento, em prol da manutenção da sanidade mental e até das amizades.

A Situação

O Martim tem karaté na escola duas vezes por semana e foi convidado para participar numa pequena prova. Um circuito, tanto quanto me apercebi, montado mais para que os pequenos possam demonstrar o que vêm aprendendo, do que para outra coisa qualquer.

Porém, quando perguntei ao Martim se queria participar ele disse-me que não.

Não, porque não ia conseguir completar o circuito em primeiro, não ia ganhar e ia ficar triste.

Expliquei-lhe que podia ser divertido, que não tinha que se importar com isso de ganhar ou perder, que a mamã ia adorar ver o que ele aprendeu e ia bater muitas palmas e que, na verdade, nunca poderia ganhar nada se nunca se atrevesse a participar.

Expliquei-lhe tudo isso mas não me passou pela cabeça, por um minuto que fosse, fazê-lo mudar de ideias e convencê-lo a participar.

A minha criança interior aceitou o seu primeiro ‘não’ com a maior solidariedade do Universo. Ela também não quereria participar. Bolas, eu, adulta, não quereria participar.

Concordámos que iríamos apenas assistir, juntos, à prova e, quem sabe, se ele achasse giro, poderia participar numa próxima.

A Conclusão (um trabalho em curso)

Não é a primeira vez que isto me acontece.

A maior parte das minhas memórias de infância são bastante ligadas às sensações que tinha em determinadas circunstâncias. Consigo lembrar-me do desespero de ver a minha mãe sair para trabalhar, do entusiasmo da primeira vez que brinquei na rua depois do sol se por, da alegria medrosa de quando percebi que o meu pai já não estava a segurar a bicicleta e que estava a andar sozinha, da vergonha e desconforto da primeira vez que entrei na minha sala de aulas na primária….

Por isso, em relação aos temas em que tenho essas memórias tão sensitivas é-me muito fácil empatizar com os meus filhos e faço-o de forma praticamente automatica.

Olhando para trás não tenho a menor dúvida de que os meus melhores momentos de maternidade ocorreram quando consegui por-me no lugar deles, com esse grau de realidade e sem qualquer esforço mental para isso.

Gostava de conseguir (e estou comprometida a tentar) fazê-lo mais vezes.

Afinal, não sou eu que acredito que a empatia ainda vai mudar o mundo?

E não é esse o exercício primordial de uma parentalidade consciente? Procurar os porquês dos nossos filhos ao invés de lhes tentar apenas moldar os comportamentos?

Talvez a minha empatia ‘natural’ nesta situação em concreto tenha sido uma falsa empatia, condicionada pelas minhas próprias vivências e características. Talvez o meu filho não seja tão avesso à competição como eu sempre fui. Talvez ele tenha apenas medo do fracasso como qualquer comum mortal.

Seja qual for a situação, acho não precisamos de descobrir já…