Dez euros para a rua (?)

«Foram dez euros para a rua!»

Foi assim que o Mário classificou a ida ao cinema com o Martim, no dia que tiraram para serem só eles dois.

O Martim não estava a gostar do filme e pediu para vir embora a meio.

«Foram dez euros para a rua!»

Respondi-lhe que não. Que foram dez euros para levar o filho ao cinema. E que ele gostou. Enquanto gostou.

Pensando um pouco, gostava de ser um pouco mais como o Martim.

Vir embora de uma sala de cinema, quando o filme não me interessa. Guardar aquele livro intragável na gaveta, que me pareceu tão interessante quando o comprei. Abandonar um curso ou formação quando percebo que entrega menos do que promete.

Mas não. Agarro-me ao quanto investi e continuo a perder tempo, como se o tempo que ainda não gastei e que posso gastar noutras coisas valesse um cêntimo menos do que o dinheiro que já perdi e não volta.

Tontos nós, os adultos, que andamos a toque de caixa das nossas expectativas e nos é tão difícil abrir mão delas, mesmo quando elas há muito voaram pela janela.

Sábios eles, as crianças, que se limitam a viver no agora, com toda a certeza do que em cada momento é a prioridade para o seu bem-estar e manifestando-o com clareza.

«Ah e tal, mas ele não tem contas para pagar, não dá valor ao dinheiro».

Justamente! Um dia ele pagará as suas contas e espero que quando esse dia chegar ele consiga manter o mesmo discernimento cru e simples que tem hoje: o seu tempo é valioso, o seu bem-estar também. O resto é acessório. Tudo o resto.

E talvez isso o ensine a fazer melhores escolhas do que eu, no que respeita àquilo em que opta por investir. O seu tempo, claro está.

Porque o resto é acessório (não tinha já dito isto?).

À noite quando cheguei a casa, perguntei ao Martim o que mais tinha gostado do dia com o pai.

Adivinham a resposta? Isso mesmo. A ida ao cinema.

Definitivamente… Não foram dez euros para a rua.

Quando eu era pequena…

Esta é Uma história…

Esta não é, definitivamente, a história da minha infância. Essa é muito feliz.

Mas esta é UMA história da minha infância que eu acho que preciso de contar.

 

Quando eu era pequena

Quando eu era pequena, eu apanhava, ocasionalmente. Não eram muitas vezes. Mas de vez em quando eu e o meu irmão… Nós apanhavamos.

Não sou traumatizada por isso. Não me sinto menos pessoa porque levei umas palmadas quando era miúda. Nada disso… Sobrevivi, como se diz por aí.

Mas se me perguntarem ‘Havia necessidade?’ Não, não havia necessidade alguma de me baterem.

Se me perguntarem ‘Lembras-te porque é que apanhavas?’ Tenho que responder que não. Com excepção de uma ocasião em particular em que a injustiça foi tão grande e os meios e palavras usadas foram tão violentos que não me consigo esquecer… Não. Realmente não me lembro das situações que me levavam a apanhar.

E se me perguntarem ‘Mas aprendeste alguma coisa sobre o certo e o errado nessa alturas? Fizeste alguma coisa diferente?’ Novamente tenho que responder que não. Se não me lembro porque é que apanhei, muito menos terei aprendido o que quer que seja sobre a rectidão dos meus comportamentos de acordo com o padrão de valores que se pretendia implementar em minha casa…

 

Aquela coisa que eu aprendi

Mas houve uma coisa que eu, infelizmente, aprendi.

Uma coisa que eu gostava muito, muito de não ter aprendido.

Eu aprendi que de vez em quando, só de vez em quando, não faz mal batermos nos nossos filhos.

E então, depois de ser mãe e mesmo tendo por dado adquirido que não seria ‘a mãe que bate nos filhos’, às vezes, só às vezes, quando eu ficava muito desesperada, muito assoberbada, muito descontrolada ou muito cansada… Eu batia no Martim. Não melhorava nada e ele não parava o que quer que estivesse a fazer por causa disso, mas eu batia no Martim.

E batia-lhe mesmo sabendo que um dia ele também não vai ter ideia de porque é que apanhou, que ele também vai achar completamente desnecessário ter apanhado e que ele vai conhecer, tal como eu, o tanto de nadas que se aprende sobre o certo e o errado quando se apanha.

E esse é… O melhor dos cenários. Porque se ele for como eu, se ele se lembrar como eu, mais do que sentiu nesses momentos do que do que aconteceu nesses momentos, talvez vá, também ele ter uma vozinha interior como eu tenho e que lhe diz que de vez em quando, só de vez em quando, não faz mal bater nos filhos. Para os corrigir. Para os disciplinar. Para os ensinar. Por amor.

É verdade. Sobrevivi. E, tal como eu como eu, ele vai, também sobreviver. E não vai amar-me menos por isso.

 

MAS (diz que há sempre um desses…)

Mas, a sério que a melhor justificação que conseguimos arranjar para fazermos ou não alguma coisa é a mera expectativa de que sobreviveremos, nós e eles, a isso?!

A sério que a MELHOR razão que conseguimos arranjar para fazermos ou não alguma coisa é o facto de ter sido ‘sempre assim’?

Será que não conseguimos melhor? Melhores razões, que seja? E será que é assim tão importante para nós mantermos tudo como sempre foi, apenas porque sempre o foi e se nós sobrevivemos também os nossos filhos sobreviverão?… Porquê?!

Ninguém duvida que os nossos pais fizeram o melhor que podiam e sabiam. Certamente não se sentirão feridos apenas pelo facto de não querermos imitá-los em tudo, nem isso limita o amor, a gratidão e o respeito que lhes temos…

Mas olhando para trás… De facto, eu lembro-me que, de vez em quando, apanhava. Mas, tirando isso, eu não me lembro de rigorosamente mais nada sobre apanhar.

Que raio de lição é essa?

Que raio de memória é essa?

Uma que eu não queria que os meus filhos tivessem… E que vou fazer por apagar ou, pelo menos, esbater.

Assinado, Mãe

 

O Convite

No cacifo do Martim encontrei um convite para a festa de uma amiga. Amiga dele a menina, amicíssima minha a mãe dela, vai para 25 anos tarda nada.

Já sabia, claro, do aniversário, da festa, do dia e por isso na hora não atentei no quadradinho de papel.

Só no dia seguinte reparei no pormenor que pedia confirmações até à data x para o seguinte contacto: Mãe – 9xxxxxxxx.

Assim mesmo. Quem convida é a pequena L. Quem organiza é a Mãe. Sem nome.

Talvez já me tenha cruzado com mil outros convites assim, talvez nunca tenha notado este pormenor até aqui, mas sucede que aquela ‘mãe’, para mim é a Cátia. A minha Cátia. A Cátia de sempre.

 

Mães sem nome

Não é novidade que a forma como o Mundo nos vê muda a partir do momento em que nos tornamos mães. E não é preciso nem parir para isso, porque na gravidez já perdemos toda a identidade.

Perdemos o nome, quase que automaticamente.

Passamos, simplesmente, a ser ‘a mãe’ de alguém: nas consultas, nas ecografias, no hospital do parto, nas lojas específicas de produtos de bebés, nas escolas dos miúdos, nos locais onde lhes organizamos as festas….

Mas é engraçado como vamos, nós próprias, assimilando, aceitando e resignando-nos com o facto de ninguém saber ou querer saber o nosso nome. Ao facto de só existirmos em função de uma parte específica da nossa vida, de um papel que desempenhamos, entre tantos outros.

Entendo que, na maior parte desses contextos, não seja, talvez, comportável, saber o nome de todas as mães que por ali circulam. Mas, caramba… Antes de sermos a ‘mãe’, ainda somos mulheres! E em qualquer situação em que nos tenhamos como perfeitamente desconhecidas e desacompanhadas dos nossos filhos, somos simplesmente ‘senhoras’, certo?

Não é que me ofenda ou me sinta diminuída ao ser constantemente chamada de ‘mãe’ por pessoas que não são minhas filhas.  Não se trata disso (embora tenha que confessar que foi uma lufada de ar fresco perceber que a escola que os meus filhos frequentaram pela primeira vez este ano faz esse esforcinho extra de chamar os pais pelos seus nomes).

Ser mãe dá muito sentido à minha vida. ‘Mãe’ é um título que ostento com muito orgulho. O que me incomoda é constatar que nos acomodamos, aos poucos e até sem darmos por isso, com tudo aquilo que significa ser apenas, e na maior parte dos contextos e dos momentos das nossas vidas, ‘a mãe’.

Porque quando olhamos o espelho e começamos a ver cada vez mais apenas ‘a mãe’, corremos o risco de nos perdermos da mulher que sempre fomos, da que somos e, sobretudo, da que queremos ser para lá da maternidade.

E com isso, deixamo-nos para trás. O tempo, já curto, é cada vez menos dedicado a coisas que nos apaixonam, absorvem, relaxam. E quando fazemos alguma dessas coisas é com a cabeça cheia de ‘tenho que me despachar’ e um estranho peso na boca do estômago que nos diz que estamos a fazer algo errado. Diz que se chama culpa.

E a culpa, pessoas… A culpa é uma treta inútil, frustrante e paralisante.

A culpa pertence ao nosso caixote do lixo emocional e sem direito a reciclagem.

 

De volta ao convite

Quanto ao convite, tenho apenas isto a dizer à pessoa que o subscreveu: Mãe?! Tu não és a porra da mãe, és a Cátia! Quando muito a ‘Cátia, entre parêntesis, mãe’. Quem és tem um valor inestimável, pelo menos para mim!

Ah!… E confirmo a nossa presença.

Com amor,

Inês

 

Portaste-te bem hoje?

‘Até já meu amor, porta-te bem’

Todos os dias, ao deixar os M’s na escola, despedia-me com ‘até já meu amor, porta-te bem’.

Nada de especial, certo?

Num desses dias o Martim devolveu-me um ‘tu também, mamã!’ e eu achei piada. Ri-me.

Mas fiquei visceralmente a matutar naquilo e, mesmo não sabendo muito bem justificar porquê, passei a despedir-me com ‘até já meu amor, tem um bom dia’.

Do mesmo modo é corrente que mais ou menos qualquer pessoa próxima às crianças pergunte se se portaram bem na escola, com os pais, na festa, no parque, enfim, em qualquer que seja a circunstância.

Ontem à noite, enquanto conversavamos sobre os nossos dias respectivos o Martim concluiu: ‘eu portei-me bem na escola, a mamã portou-se bem no trabalho e o papá também’.

Aproveitei para lhe perguntar o que ele achava que queria dizer eu portar-me bem no trabalho, de que forma é que eu poderia, na perspectiva dele, portar-me bem no trabalho e ele respondeu, com a clareza de um murro no estômago, o seguinte: ‘Portares-te bem é fazeres tudo o que o teu chefe manda’.

Aquele sentimento visceral, que eu não soube identificar na altura, mas que me fez mudar a forma como os deixava na escola voltou e de repente percebi o que era: medo e repulsa.

Portar bem = fazer o que me mandam.

Portar bem = obedecer.

 

Questionamentos de cabeceira

Não é assim que eu quero que seja medida a minha performance profissional, pelo meu grau de obediência. Ninguém quer, eu acho. Somos seres pensantes. Questionar algo que não compreendemos ou com que não concordamos, sugerir alternativas que nos pareçam mais viáveis ou úteis ou vantajosas faz, necessariamente, parte de um núcleo de competências valorizado em qualquer ambiente profissional sadio. Também não é assim que eu quero ser avaliada no contexto das minhas relações interpessoais, pelo quanto eu concordo e me conformo com o que os demais pretendem.

Então, porque quereria eu medir a qualidade da minha relação com os meus filhos pelo seu grau de obediência aos meus comandos? Será que queremos mesmo filhos obedientes?

«SSSIIIIIMMMMM, claro»?

Entendo o impulso, mas peço-vos que não respondam já, sobretudo se estiverem a ler isto depois de pedir mais do que dez vezes ao vosso filho que vá lavar os dentes ou se acabaram de detectar mais um cabelo branco por conta da vossa filha insistir em fazer o exacto oposto daquilo que vos permite sair de casa a horas.

No curto prazo, e pensando em nós próprios como a autoridade, é claro que todos queremos filhos obedientes. E companheiros obedientes. E pais obedientes. E irmãos e amigos e vizinhos e funcionários e prestadores de serviços e estranhos com quem nos cruzamos na rua obedientes. Quem não gostaria que os outros fossem sempre de encontro àquilo que queremos que façam, quando queremos que façam e nos termos em que queremos que façam?

Mas, voltando aos nossos filhos, querê-los-emos obedientes quando um estranho os abordar dizendo ‘Vem comigo, se te portares bem, dou-te um rebuçado’? Querê-los-emos obedientes quando a pessoa dominante do seu grupo de amigos iniciar uma qualquer actividade perigosa ou desrespeitosa, como ridicularizar ou maltratar um colega, fumar, furtar um chocolate da mercearia? Querê-los-emos obedientes se alguém com autoridade sobre eles, educador, professor, treinador ou figura similar, abusar da autoridade que tem e ordenar que se calem sobre o assunto?

E no longo prazo? Qual será o preço da obediência que hoje exibimos como motivo de orgulho nos nossos filhos? O que diremos quando eles se desculparem por qualquer acção errada com ‘não tenho culpa, só fiz o que me mandaram?’ (Até sei. Responderemos, como todas as mães e pais do Mundo intemporalmente respondem, ‘e se te mandarem atirares-te a um poço, atiras-te?).

Compreendo que a obediência aos comandos possa ser essencial em determinados tipos de actividade – como na vida militar em que tantas vezes a vida e a morte se jogam na obediência – mas mesmo nesses contextos, deve a obediência ser cega?

Até ontem, de alguma maneira, eu já intuída que não.

Mas hoje, acredito assertivamente que não.

 

Obrigada Martim

Por muito que me custe argumentar constantemente porque é que a hora de ir dormir é esta e não outra, porque é que se come carne em vez de rebuçados ao almoço ou porque é que é dia de ir para a escola e não para o parque de insufláveis, pesando os prós e contras, é isso que quero fazer. Ser questionada sobre as minhas escolhas enquanto mãe pelas pessoas que mais são afectadas por elas: os meus filhos. Aliás, acho mesmo que, em terra de palpiteiros, eles serão talvez os únicos com alguma legitimidade para os dar.

Saber obedecer é relevante. Mas mais relevante do que saber obedecer é conhecer as circunstâncias nas quais é importante fazê-lo e quais aquelas em que o importante é questionar a ordem.

E quem sabe se uma vez por outra não terão razão?

***

Até já e tenham um bom dia.

Parentalidade positiva na blogosfera

Prefiro chamar-lhe consciente, numa óptica de se traçar um plano/propósito e direccionar as nossas acções de parentalidade a ele. Mas vamos lá.

O Gatilho

Sou fã confessa da página Ser super mãe é uma treta. É um banho de maternidade real e quase em directo, porque acompanhar os posts da Susana é como viver com ela (o que quero dizer não é, obviamente, que revela demais, mas que é extremamente impressiva em tudo o que escreve). Sentimos-lhe o desespero, que mais não é do que o nosso em inúmeras ocasiões, enquanto nos divertirmos com isso. Estamos juntas, Susana.

Também sou fã de um outro blog, o Not so fast, onde a Lénia fala do que bem lhe apetece, sempre num tom assertivo, mas dado à reflexão (ou pelo menos é como eu a interpreto), com uma escrita irrepreensível.

Calhou que recentemente estas duas mulheres cujos estilos e conteúdos admiro imensamente, abordaram um tema que me é cada vez mais caro: a parentalidade positiva. E fizeram-no de forma… negativa.

Li a perspectiva da Ser super mãe é uma treta com o maior dos humores. Li a perspectiva do Not so fast quase que rebatendo mentalmente cada ponto (é só clicar nos realces que vão direitinhos para os textos de que falo e valem ambos muito a pena, toca a ler (depois de acabar este, faxavori)).

Sobretudo, li ambas com o respeito que me merecem todas as suas postagens. Estas em particular, deram origem à presente reflexão.

 

Um par de disclaimers

Literalmente um par:

  1. SE a parentalidade positiva traduzisse aquilo de que ambas falam, eu odiaria o conceito tanto quanto qualquer uma das autoras.
  2. É sempre, sempre, sempre, uma questão de perspectiva: a parentalidade é, no fim do dia, o que os pais quiserem fazer com ela e o que funcionar melhor em cada caso. Se for forçado, não é ‘positivo’, mesmo que conceptualmente queiramos aplicar esses princípios.

O que a parentalidade positiva não é

Não é sobre tornarmo-nos pais permissivos.

Não é sobre andarmos às ordens dos nossos filhos.

Não é sobre sentirmos culpa quando, optando de forma consciente por aplicar os princípios da parentalidade positiva, deixamos em situações do dia-a-dia de o fazer (foda-se a culpa, certo Susana?).

Como decorre do disclaimer 2, também não é para todos os pais: é para os que se revêem naquele modelo e se sentem bem com ele (desde logo, posso dizer-vos que é para mim e não é, de todo, para o meu marido – e ESTÁ TUDO BEM, somos ambos, ele e eu, os melhores pais que sabemos ser independentemente dos ‘como’s desta vida!).

O que a parentalidade positiva pretende

Desde logo tem boas intenções e não pretende ser positiva por oposição às ‘outras’, todas negativas (=todas erradas). É positiva por se pretender moldar o comportamento das crianças de dentro para fora, com alternativas que todos os envolvidos considerem aceitáveis aos comportamentos que não queremos que tenham, ao invés de fazê-lo de fora para dentro, isto é, reprimindo/proibindo/corrigindo unilateralmente esses mesmos comportamentos. É positiva porque almeja resultados positivos para todos: maior cooperação voluntária deles para connosco, logo, menos drama e stresse para nós.

Promover a autoestima de pais e filhos:

Isto não pressupõe fazê-los sentir-se ‘donos do pedaço’. Pressupõe que eles se conheçam, se compreendam, se aceitem e consigam ver-se, de forma geral, uma luz positiva, apesar dos seus pontos fracos, vivendo bem com eles ou trabalhando neles, dependendo das prioridades que se estabeleçam.

Onde entram os pais nisto? Numa lógica bastante primitiva de que, querendo ou não, ensinamos pelo exemplo, a melhor maneira de lhes passar a ideia do que é uma autoestima saudável é cultivar a própria – e isso é sempre positivo, independentemente do contexto.

Fomentar o respeito mútuo:

Quando digo mútuo, incluo o deles por nós, naturalmente. É mais ou menos isto: eles têm o direito a fazer a birra e nós temos o direito a ficar de cabelos em pé com ela. O que se procura é que eles aprendam, pouco a pouco, a lidar com o que quer que os tenha empurrado para a birra, reduzindo-as em número e intensidade e que nós aprendamos igualmente a gerir todas as coisas mais ou menos loucas e, essas sim, mais ou menos negativas, que nos passam pela cabeça na fase mais aguda de um desafio desta natureza.

Dar espaço à inteligência emocional:

Crianças que sabem identificar correcta e especificamente o que sentem e o que os outros, designadamente os próprios pais, sentem, que dominam razoavelmente a linguagem não verbal e que são capazes de empatizar, i.e., colocarem-se no lugar do outro, geralmente são mais capazes de exercerem o auto-controlo, de adiarem a recompensa (ou seja, de se manterem num determinado rumo que apenas ao fim de algum tempo poderá dar frutos), de se auto-motivarem e de ‘auto’ uma série de outras coisas que os pais costumam desejar.

Estabelecer limites:

Esta é uma parte importantíssima de qualquer modelo de parentalidade. Ninguém, em sanidade de espírito, conseguiria conceber a parentalidade como um mundo de pequenos imperadores ditando as regras das famílias enquanto os pais, reduzidos ao seu papel de serviçais, se desdobram em 1000 para satisfazer todos os caprichos de suas excelências… pelo menos em teoria.

Há lugar para o ‘não’ na parentalidade positiva? Há! Todo! Há castigos? Há, pois! Podem chamar-lhes ‘consequências’ à vontade, o propósito primordial de admoestar um filho com uma consequência/castigo é o mesmo: que ela se responsabilize pelos seus actos. Apenas se procura que estas consequências tenham um qualquer nexo causal com a infracção desvirtue a sua essência. E não vejo mal algum nisso. Afinal, até os Tribunais vêm reconhecendo os benefícios de aplicar penas acessórias que mostrem aos infractores o mal que as suas acções causaram e os obrigue, activamente, a repará-lo ou a preveni-lo…

***

Não vai funcionar sempre.

Exige prática e congruência (o que é diferente de consistência).

Mas não é uma batalha campal com vencedores de palmo e meio pré-definidos.

Sobretudo, haverá, com certeza, mil outras maneiras de educar com sucesso e em clima de harmonia e (relativa) felicidade.

Uma nota pessoal

Não sou uma pessoa que grita. Com ninguém. Desde que me conheço. Consigo, aliás, ser bastante desagradável, ofensiva e cáustica, mas sempre de uma forma calculada, sem levantar demasiado o tom de voz (não, isto também não é uma coisa boa). Gritar não faz parte do meu estilo, mesmo quando profundamente aborrecida (não que não aconteça ocasionalmente, em situações extremas). Também sou uma pessoa que precisa de controlar o máximo do seu ambiente. O planeamento e a previsibilidade são elementos que me tranquilizam.

E é essencialmente por isso – porque gritar não faz parte de mim enquanto indivíduo e porque o não domínio do que se passa à minha volta me faz mal – que não me reconheço quando, em desespero, grito e ajo por puro impulso com os meus filhos.

É também por isso que acho que, para mim e só para mim, a parentalidade consciente faz sentido e que nada perco em aprender ferramentas que me ajudem a lidar com algo na minha própria maternidade, de que não gosto. É mais por mim, do que por eles. E é uma razão tão boa como outra qualquer.

Em jeito de conclusão, um pedido

Muuuuiiiiito diferente de eu, ou qualquer outra mãe optar, para si e para os seus filhos, por este ou outro modelo, é o fanatismo com que algumas pessoas passam a defender as suas escolhas e a depreciação deliberada que oferecem às mães que escolhem diferentemente.

Isso sim, é transversalmente tóxico e propulsor de más energias. Aliás, alguns dos comentários aos posts que me suscitaram este são bastante ilustrativos do que agora digo: mulheres ditando umas às outras o que «têm que» e o que «não podem» fazer para serem consideradas boas mães e o que as torna dignas de pena, vergonha e, consequentemente, indignas de educar uma criança… Bom, digamos que não há ‘receita’ de parentalidade cuja escolha pressuponha a sua validação às custas dos mínimos olímpicos do bom senso e da sororidade.

Aquilo que eu escolho é, sem dúvida, o melhor PARA MIM. Aquilo que outras mães fazem também é, seguramente, o melhor PARA ELAS. As hipóteses são sempre várias e cumulativas, não se excluem mutuamente.

Por isso, façam o que fizerem: concedam às mães do vosso mundo (ainda que virtual) e às suas opções, o mesmo respeito com que tratam as vossas próprias.

Ninguém gosta de ser constantemente questionado (até quando não tem senão certezas). Para isso, já existem a nossa consciência e as nossas próprias inseguranças, sempre a fazer das suas.

 

A competição (sobre a empatia e a parentalidade consciente)

O Contexto

Sempre pratiquei desportos. Tudo o que possam imaginar: natação, ginástica rítmica, karaté, equitação, aeróbica, danças brasileiras, you name it

Posso dizer o minuto em que passei a odiar cada uma das modalidades que pratiquei: quando (e nos casos em que) me levaram a competir.

Competir nunca me trouxe adrenalina. Nunca me fez ter vontade de fazer mais e melhor. Nunca despertou qualquer sentimento positivo em mim e mesmo nos casos em que fui bem sucedida, a sensação de uma vitória era sempre associada ao alívio pelo fim da tarefa.

Competir é, para mim, profundamente desconfortável.

A competição directa e vista como um propósito em si mesma é algo que me é contra-intuitivo. Sempre me senti melhor a ajudar os outros naquilo em que era boa, do que a provar-lhes (ou a mim), que era melhor que eles.

Aliás, ainda há poucos dias em conversa dizia a alguém que a razão pela qual não sei jogar matraquilhos, snooker, dardos, cartas e qualquer outro jogo que exija alguma experiência para se ser bem sucedido é saber que a competição traz à tona o meu eu mais mesquinho, infantil e mal-disposto. E eu não gosto dele, pelo que abdico que um certo nível de socialização e, quem sabe, potencial divertimento, em prol da manutenção da sanidade mental e até das amizades.

A Situação

O Martim tem karaté na escola duas vezes por semana e foi convidado para participar numa pequena prova. Um circuito, tanto quanto me apercebi, montado mais para que os pequenos possam demonstrar o que vêm aprendendo, do que para outra coisa qualquer.

Porém, quando perguntei ao Martim se queria participar ele disse-me que não.

Não, porque não ia conseguir completar o circuito em primeiro, não ia ganhar e ia ficar triste.

Expliquei-lhe que podia ser divertido, que não tinha que se importar com isso de ganhar ou perder, que a mamã ia adorar ver o que ele aprendeu e ia bater muitas palmas e que, na verdade, nunca poderia ganhar nada se nunca se atrevesse a participar.

Expliquei-lhe tudo isso mas não me passou pela cabeça, por um minuto que fosse, fazê-lo mudar de ideias e convencê-lo a participar.

A minha criança interior aceitou o seu primeiro ‘não’ com a maior solidariedade do Universo. Ela também não quereria participar. Bolas, eu, adulta, não quereria participar.

Concordámos que iríamos apenas assistir, juntos, à prova e, quem sabe, se ele achasse giro, poderia participar numa próxima.

A Conclusão (um trabalho em curso)

Não é a primeira vez que isto me acontece.

A maior parte das minhas memórias de infância são bastante ligadas às sensações que tinha em determinadas circunstâncias. Consigo lembrar-me do desespero de ver a minha mãe sair para trabalhar, do entusiasmo da primeira vez que brinquei na rua depois do sol se por, da alegria medrosa de quando percebi que o meu pai já não estava a segurar a bicicleta e que estava a andar sozinha, da vergonha e desconforto da primeira vez que entrei na minha sala de aulas na primária….

Por isso, em relação aos temas em que tenho essas memórias tão sensitivas é-me muito fácil empatizar com os meus filhos e faço-o de forma praticamente automatica.

Olhando para trás não tenho a menor dúvida de que os meus melhores momentos de maternidade ocorreram quando consegui por-me no lugar deles, com esse grau de realidade e sem qualquer esforço mental para isso.

Gostava de conseguir (e estou comprometida a tentar) fazê-lo mais vezes.

Afinal, não sou eu que acredito que a empatia ainda vai mudar o mundo?

E não é esse o exercício primordial de uma parentalidade consciente? Procurar os porquês dos nossos filhos ao invés de lhes tentar apenas moldar os comportamentos?

Talvez a minha empatia ‘natural’ nesta situação em concreto tenha sido uma falsa empatia, condicionada pelas minhas próprias vivências e características. Talvez o meu filho não seja tão avesso à competição como eu sempre fui. Talvez ele tenha apenas medo do fracasso como qualquer comum mortal.

Seja qual for a situação, acho não precisamos de descobrir já…