Dia dos Pai (II) – O dos meus filhos

Depois do Pai que eu tenho, e sobre quem vos falei mais cedo, chegou a vez do Pai que eu escolhi.

O Mário sempre quis ser pai (ao contrário de mim, como vos contei aqui).

O Mário sempre teve sucesso com as crianças (ao contrário de mim, mais uma vez).

E o Mário viu todas as suas crenças acerca da paternidade destruídas no segundo em que viu o seu sonho cumprido.

Depois de eu recomeçar a trabalhar, o Mário, que na altura trabalhava poucas horas, viu-se a braços com um Martim de cinco meses de quem tinha medo. Muito medo.

Medo de falhar. Medo de o magoar. Medo de não ser bom o suficiente.

E durante meses alimentou o hábito irritante – tão, tão irritante! – de se refugiar, com o nosso bebé, em casa da mãe.

A mãe tirava-lhe o medo. E o bebé. Substituía-se a ele e ele não podia, dessa forma, falhar.

Nessa época não compreendi. Nessa época só consegui irritar-me todos os dias com as fugas do meu marido. Daquele que eu tinha escolhido para ser Pai e que estava, na minha perspectiva, a evitar, a todo o custo, desempenhar o papel que lhe pertencia. Que lhe incumbia. E que ele tinha escolhido tanto quanto eu.

Ele estava assustado. E eu não vi que o medo era apenas proporcional ao amor dele pelo filho. Tão paralisante que ele preferiu abdicar da proximidade, dos cuidados, das experiências para o preservar.

Talvez eu estivesse demasiado ocupada com os meus próprios demónios. Talvez estivesse a braços com as minhas próprias insuficiências como Mãe.

Pouco importa.

O Pai que vive comigo precisava de ter sabido, contado ao ouvido e entre sorrisos, aquilo que lhe disse tantas vezes em tom de censura e com uma carga acusatória: que ele é tão pai quanto eu sou mãe. E que isso é maravilhoso com tudo de assustador que tem e com toda a responsabilidade que acarreta.

Que isso quer dizer que, quanto melhor ele conhecer os filhos, quanto mais próximo estiver das rotinas deles, das manias, das fragilidades, mais pode dar-lhes e mais recebe também. Que isso quer dizer que os nossos filhos sobrevivem bem às nossas falhas, mas não tão bem à nossa ausência, à nossa inércia, à nossa indiferença.

Que isso quer dizer, hoje, para mim, que as falhas de um Pai podem reflectir-se de forma positiva num filho. Se eles não as conhecerem, talvez não saibam reagir a elas e, com grande probabilidade, talvez não conheçam também as (inúmeras) qualidades do seu Pai.

Ao pai dos meus filhos peço que volte, por um momento, àquele tempo e que me vá perdoando enquanto lê isto baixinho, como quem ouve um segredo: Amor, és tão pai como eu sou mãe. E mesmo que falhes… não há como falhar. És perfeito. E se algum dia duvidares… Olha para eles.

Dia do Pai (I) – O meu

Em minha casa discutia-se muitas vezes por dinheiro (no caso, por escassez de dinheiro).

Não fosse isso e pouco me teria apercebido das dificuldades que passávamos.

Ajudava ser a mais nova de seis irmãos (4 deles adultos e com as suas vidas encarreiradas), porque nas datas importantes choviam presentes, o que contribuía para diluir a perspectiva que eu tinha da situação económica doméstica.

É verdade que vivemos sempre na mesma casinha arrendada, que os nossos carros morreram de velhos e foram trocados por outros de meia-idade, que dividi o quarto com quantos lá morassem e quantos de visita viessem, até que todos saíram de casa e sobrei eu, que desde cedo aprendi a gerir os meus troquinhos, que sempre cumpri os requisitos do Escalão A da Acção Social Escolar, que desde que recebi a minha primeira bolsa de mérito, no 10.º ano, deixei de me sentir bem em pedir dinheiro aos meus pais para as minhas coisas pessoais.

Mas nunca faltou comida. Nunca faltou roupa. Nunca faltaram brinquedos. Nunca faltaram livros. Sempre tivemos acesso a actividades extra-curriculares.

Para mim aquela era e sempre foi uma vida normal.

Hoje, à distância, vejo o esforço que os meus pais fizeram para que eu percepcionasse a vida como normal.

Sobre o meu pai, em particular, lembro-me de uma época em que apareceram lá em casa milhares de páginas de revista. Sabem aquelas páginas de publicidade que vêm com uma amostra colada? Eram essas.

Durante aquilo que me pareceu uma eternidade todos nós lá em casa colámos amostras em páginas. Arranjámos, cada um o seu automatismo, a sua estratégia para colar o máximo de amostras no mínimo de tempo, agrupar páginas, arrumá-las em caixotes…

Na altura ninguém me explicou porque fazíamos aquilo. De vez em quando o meu pai fazia assim umas coisas fora da caixa e para mim era, lá está, normal.

Foi preciso crescer um pouco para entender o óbvio. O meu pai fazia coisas fora da caixa porque era preciso e tudo contava.

E fez tudo isso fazendo-me acreditar que era só algo diferente e divertido.

Com sucesso. Porque me diverti muito.

Enquanto ele mirabolava maneiras de fazer entrar mais algum rendimento em casa, eu brincava.

Como uma criança deve fazer.

Era isto que tinha para vos contar hoje.

Ah, É verdade! Já vos disse como o meu pai é fantástico?

Feliz Dia, Pai!