Crónicas de uma mãe privada do justo sono

Introdução minimalista porque hoje não dá para mais

É ao terceiro dia mal dormido que tudo fica mais negro.

É.

Um dia é suportável.

Ao segundo ainda há esperança.

Ao terceiro o cérebro queixa-se. O corpo queixa-se. Tudo se queixa.

A solidão traz melancolia. A companhia traz impaciência e ansiedade.

Manhã

Acordo (ou melhor, levanto-me porque, na verdade, pouco dormi) com uma ligeira dor de cabeça.

Tenho que me controlar para ser a mãe que os meus filhos merecem e conseguirmos atravessar as rotinas matinais e sair de casa sem nos irritarmos uns com os outros parvamente.

Não é nada intuitivo, devo dizer.

Porque ao terceiro dia, o intuitivo é zangar-me com tudo.

Esqueço-me de coisas. Saímos todos de casa com os dentes por lavar. E eu de pantufas nos pés.

Também me esqueço de coisas enquanto as estou a fazer. O leite do pequeno-almoço arrefece porque não me lembro que ainda não o bebi.

O trânsito, a que sou perfeitamente imune em dias ‘normais’, faz-me ‘bufar’ mil vezes de nervoso.

Pus gasolina. Esqueci-me de zerar o conta-quilómetros. Suspiro.

O meu dia mal começou.

Tenho vontade de chorar. Talvez o faça mais tarde. Ou talvez não espere.

Penso em escrever este texto e começo a registar mentalmente tudo o que já me causou mal-estar hoje.

Pensar nisso arrasta-me ainda mais para o fundo.

Tarde

O tempo passa simultaneamente demasiado devagar e demasiado rápido.

Quero voltar para casa, abraçar o marido que me parece o único ponto de conforto e, ao mesmo tempo, o monstro que me apetece culpar por todo o meu cansaço.

Mas há coisas para fazer e preciso de estar concentrada. Como?

Não saio para treinar (tinha-me feito bem).

Não saio para almoçar (tinha-me feito bem).

Lentamente, consigo terminar o que tinha para hoje.

Hora de me arrastar de volta para casa

Fim do dia

Ao terceiro dia tudo fica mais negro.

Preciso de dormir.

Preciso muito de dormir.

Enquanto não posso… Escrever ajuda.

O pesadelo

Martim

Mãe, hoje tive um pesadelo muuuuito grande.

Havia uma coruja enorme e depois estava eu e o pai e a coruja queria fazer-nos mal e eu tive muito medo.

Eu

Mas meu amor, não chamaste a mamã nem o papá… Quando tens medo podes sempre chamar a mamã ou o papá, para te darmos um abracinho.

Sabes que não deixamos que nada de mal te aconteça não sabes?

Martim

Não chamei porque eu não queria. Foi só um pesadelo.

É muito fácil: quando fico com medo, eu abro os olhinhos e ele desaparece.

***

Algo simples. Um pesadelo de criança. Uma oportunidade de confortar o nosso filho. Aquele momento agridoce em que eles não precisam de nós: ainda bem (mas nem por isso)! Quem nunca?

 

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