O meu bebé chama por mim

O meu bebé chama por mim.

Todo o dia, se eu estiver por perto.

Toda a noite também.

O meu bebé chama por mim. Às 00h. Às 2h. Às 3h30.

Convenço-o de que ‘a mãe está aqui’ e de que pode voltar a ‘fazer ó-ó’.

Ele acredita, mesmo à distância de um quarto. Às 00h. Às 2h. Às 3h30… Ele acredita.

Mas às 4h50 a minha voz ecoando a um quarto de distância já não convence ninguém e sou obrigada a iniciar uma conversa séria com o meu corpo cansado.

Digo-lhe que tem que ouvir. Que tem que despertar. Que tem que abrir os braços e oferecer a quem de direito o único consolo de que o meu bebé precisa.

Peço-lhe que esqueça que não tem vocação para noctívago.

Que ignore todas as vezes que, adolescente, tentou estudar noite dentro e deixou os olhos fecharem antes mesmo do recolher da Cinderela.

Que faça por não se lembrar que a ‘diversão nocturna’ sempre durou no máximo até às 3h e que dormir em discotecas é, para si, brincadeira de crianças.

Que varra para debaixo do tapete a memória das poucas vezes em que se forçou a trabalhar até tarde e de como as lágrimas caíram em todas, sem excepção.

Digo-lhe que apreenda que, por hoje, a noite terminou.

E o meu corpo ouve.

O meu bebé chama por mim e terá o seu colo.

Terá toda a minha cama e todo o meu corpo para se estender, amassar e espezinhar. Esse corpo que só quer descanso, abrigará, sem se queixar, os torcicolos, os braços dormentes, as caimbras nas pernas, as olheiras e a má disposição do dia seguinte.

O meu bebé chama por mim e o meu corpo faz-se forte para o atender.

Porque o meu corpo de adolescente a lutar pelo sucesso escolar, de jovem querendo acompanhar os amigos e os amores, e de profissional almejando reconhecimento não são ninguém perto do corpo que agora tenho.

Corpo de mãe não é nem corpo. É armadura.

Uso a minha com orgulho.

Por muito amolgada que esteja.

 

Crónicas de uma mãe privada do justo sono

Introdução minimalista porque hoje não dá para mais

É ao terceiro dia mal dormido que tudo fica mais negro.

É.

Um dia é suportável.

Ao segundo ainda há esperança.

Ao terceiro o cérebro queixa-se. O corpo queixa-se. Tudo se queixa.

A solidão traz melancolia. A companhia traz impaciência e ansiedade.

Manhã

Acordo (ou melhor, levanto-me porque, na verdade, pouco dormi) com uma ligeira dor de cabeça.

Tenho que me controlar para ser a mãe que os meus filhos merecem e conseguirmos atravessar as rotinas matinais e sair de casa sem nos irritarmos uns com os outros parvamente.

Não é nada intuitivo, devo dizer.

Porque ao terceiro dia, o intuitivo é zangar-me com tudo.

Esqueço-me de coisas. Saímos todos de casa com os dentes por lavar. E eu de pantufas nos pés.

Também me esqueço de coisas enquanto as estou a fazer. O leite do pequeno-almoço arrefece porque não me lembro que ainda não o bebi.

O trânsito, a que sou perfeitamente imune em dias ‘normais’, faz-me ‘bufar’ mil vezes de nervoso.

Pus gasolina. Esqueci-me de zerar o conta-quilómetros. Suspiro.

O meu dia mal começou.

Tenho vontade de chorar. Talvez o faça mais tarde. Ou talvez não espere.

Penso em escrever este texto e começo a registar mentalmente tudo o que já me causou mal-estar hoje.

Pensar nisso arrasta-me ainda mais para o fundo.

Tarde

O tempo passa simultaneamente demasiado devagar e demasiado rápido.

Quero voltar para casa, abraçar o marido que me parece o único ponto de conforto e, ao mesmo tempo, o monstro que me apetece culpar por todo o meu cansaço.

Mas há coisas para fazer e preciso de estar concentrada. Como?

Não saio para treinar (tinha-me feito bem).

Não saio para almoçar (tinha-me feito bem).

Lentamente, consigo terminar o que tinha para hoje.

Hora de me arrastar de volta para casa

Fim do dia

Ao terceiro dia tudo fica mais negro.

Preciso de dormir.

Preciso muito de dormir.

Enquanto não posso… Escrever ajuda.

O pesadelo

Martim

Mãe, hoje tive um pesadelo muuuuito grande.

Havia uma coruja enorme e depois estava eu e o pai e a coruja queria fazer-nos mal e eu tive muito medo.

Eu

Mas meu amor, não chamaste a mamã nem o papá… Quando tens medo podes sempre chamar a mamã ou o papá, para te darmos um abracinho.

Sabes que não deixamos que nada de mal te aconteça não sabes?

Martim

Não chamei porque eu não queria. Foi só um pesadelo.

É muito fácil: quando fico com medo, eu abro os olhinhos e ele desaparece.

***

Algo simples. Um pesadelo de criança. Uma oportunidade de confortar o nosso filho. Aquele momento agridoce em que eles não precisam de nós: ainda bem (mas nem por isso)! Quem nunca?

 

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