‘Mais linda do que nunca’

Ontem contei-vos sobre a reacção dos meninos, sobretudo do Miguel, ao nosso regresso de viagem.

Relatei-a numa perspectiva de mãe ansiosa, receosa e semi-culpada, como terão reparado, preocupada com os efeitos da sua ausência, por motivos exclusivos de lazer, sobre a vida dos seus filhos…

O texto tomou um rumo diferente do que inicialmente tinha pensado para ele e acabei por não mencionar o antídoto que o Martim me deu para estes sentimentos que me envenenavam a alma.

Sim, ele está agora bastante acostumado com a ideia de passar alguns dias sem os pais. Sim, para ele, também são férias e vive sem ‘rei nem roque’ em várias casas onde todos se esforçam para lhe agradar. Sim, ele fica ainda – obviamente – com saudades, mas lida bem com elas e guarda todas as informações que nos quer passar, porque aquela cabecinha é melhor que qualquer computador, e vai-nos brindando com os detalhes das suas várias estadias em casa da tia, da avó paterna e depois dos avós maternos ao longo de vários dias.

Mas o que mais me deliciou nele foi quando reclamei um beijo, no meio de toda aquela euforia de mostrar brincadeiras que tinha feito, no fim de toda aquela correria para levar e trazer coisas que quer exibir e ele gritou ‘ah! tinha-me esquecido!’ de outra divisão da casa dos meus pais.

Veio, novamente a correr e aos pulinhos, até mim, abraçou-me muito e deu-me beijinhos.

Depois parou, olhou para mim fixamente com aqueles dois olhos enormes e disse-me: ‘estás tão bonita mamã’.

Agradeci-lhe e enquanto lhe dizia como ele ficava também mais bonito a cada dia que passava ele completou o seu pensamento: ‘estás mais linda do que nunca!’

O Martim é sempre o primeiro a reparar quando pinto as unhas, quando uso uma roupa nova, quando corto o cabelo, quando uso um batom com uma cor mais forte. O Martim é sempre o primeiro a elogiar-me nessas ocasiões. ‘Uau, estás gira!’, é algo que sai da boca dele com naturalidade e também diz quando não gosta de alguma coisa. O Martim é tão observador e opinativo que, às tantas, dou comigo a perguntar a opinião dele em questões estéticas e a tomá-la por boa…

[true story: um dia comprei um macacão ao preço da banana num leilão no Facebook. Depois de me ser enviado, experimentei-o e quando perguntei ao meu marido o que achava o Martim comentou ‘que pijama tão giro, mamã’. Até hoje não o vesti. Uma. Única. Vez.]

Por isso, aquela frase dita a uma mãe com um ar exausto depois de 9h30 de voo nocturno e de ter, no dia anterior, chorado baba e ranho por deixar uma cidade que foi tão boa para mim convenceu-me que, de facto, a felicidade só pode ser algo visível a olho nú.

Pelo menos ao dele.

E como lhe agradeço por isso.

Dilemas de mãe – A viagem

 

Daqui a pouco mais de 48h estarei num avião para o Rio de Janeiro.

Pelo menos é o que dirá o meu cartão de embarque. Na minha cabeça, estarei a caminho da ‘minha terra’, aquela que não conheço, na qual não tenho a menor raíz, mas que me preenche a alma desde menina.

É a minha viagem de sonho. Carnaval no Rio de Janeiro.

E, como tal, estou uma pilha de entusiasmo qual criança nas vésperas do Natal.

Mas não sou uma criança. Sou uma mulher de 33 anos. Sou uma mãe de dois meninos que precisam de mim e do pai.

Dois meninos que ficam cá, enquanto vamos viajar.

No meio de tudo o que a minha cabeça já viveu milhares de vezes ao longo dos anos e que o corpo só agora se prepara para viver também é inevitável pensar neles.

Não sinto qualquer culpa em viajarmos só os dois. Nem tão pouco acho que os sonhos devam morrer no mesmo bloco de partos onde nos nascem os filhos.

Mas sinto medo.

O Rio de Janeiro não é, certamente, conhecida por ser a cidade mais segura do Mundo. E se não voltamos?

Que disparate! Porque não voltaríamos?

Mas… E se não voltamos?

Que nó na garganta, que falta de ar, que aperto do peito…

Tento pensar friamente: o que quer que possa acontecer lá, pode perfeitamente acontecer igualmente aqui ou em qualquer outro ponto do planeta. Pensemos em Paris ou em Barcelona, lugares aparentemente seguros e que têm visto tanta coisa acontecer. Basta um louco com um ideal. Basta estar no lugar errado à hora errada.

Mas é mesmo necessário pensar na desgraça alheia para me reconfortar?

Nunca uma viagem me deixou tão feliz e tão angustiada… Por um lado, só vou acreditar que lá estou quando efectivamente pisar aquela terra, por outro só descanso quando voltar a abraçá-los.

Se leram até aqui, já perceberam que este é um post perfeitamente inútil.

Não há ‘moral da história’, opinião estruturada, punch line ou final surpresa, é apenas o que é: um desabafo de alguém que não sabe se ri ou se chora e por isso tem feito ambas em abundância.

Dormir com os filhos… eu não gosto. E daí?

 

Não gosto de dormir com os meus filhos.

Pronto. Falei.

Não gosto mesmo.

Até gostava de gostar porque tornava algumas noites bastantes mais fáceis, mas não gosto, é desconfortável.

Gosto de adormecer com eles, agarradinha, sentir aquelas respirações tranquilas de quem não tem uma única preocupação no Universo, de quem se sente seguro nos braços da mamã, gosto de poder amachucá-los e fazer-lhes festinhas nos cabelos sem que fujam para fazer outras coisas ou me afastem o braço quando se fartam.

Mas uma noite inteira disso é só tortura.

Durmo na ponta da cama, porque eles me empurram para lá.

Metade do meu corpo dormita enquanto a outra metade teme pelo abismo.

Os meus braços ficam invariavelmente dormentes.

A minha bexiga adora dar sinal em todas essas fatídicas noites em que me vejo forçada a trazer um, outro ou os dois para a minha cama (sendo que, obviamente, não importa o espaço que haja disponível, eles deitar-se-ão em cima de mim).

Com tanta proximidade, tenho medo que a minha respiração os incomode, que faça vento na cabeça deles, que os acorde e por isso até respirar se torna um gesto consciente e pouco natural.

Sou sistematicamente agredida com cabeçadas, cotoveladas, pontapés.

Cada criança a mais na minha cama é uma hipótese a menos de uma noite minimamente bem passada.

Sim, prefiro levantar-me algumas vezes durante a noite para colocar chuchas caídas, para levar meninos ao xixi, para amparar pesadelos, para dar água, beijinhos ou o que for preciso.

Pelos menos nessas ocasiões, enquanto congelo de pé junto às camas deles, o meu pensamento rejubila com a promessa da minha cama quentinha.

Não gosto de dormir com os meus filhos.

Sabem com quem eu gosto de dormir? 

Com o meu marido. 

Sabem o que torna isso difícil?

Duas crianças na cama connosco.

 

 

 

Super-heróis dos tempos modernos – carnavais domésticos

 

Depois de dois anos vidrado no Hulk, o Martim anda apaixonado pelo super-herói Flash e foi essa a fantasia que escolheu para usar no Carnaval.

Segurem esta informação.

Vamos lá:

***

Mais uma virose, mais um dia no escritório, mais uma levada de remédios, chás e dietinhas.

Os intestinos do Martim estão péssimos. Não desenvolvo porque ninguém é obrigado aos detalhes e toda a gente que tenha filhos os conhece melhor do que gostaria.

(mas ponham ‘péssimos’ nisso…)

Uma destas manhãs, enquanto preparava os pequenos-almoços da criançada ouço o Martim guinchar da sala:

‘Mããããããeeeee! Tenho que ir à casa de banho! Tenho que ir à casa de banho! Tenho que ir à casa de baaaanhooooo!’

Disse-lhe que fosse e ele arrancou a correr.

Chegando à porta encalhou com a maçaneta da porta e começou a entrar em desespero:

‘Mãããe, eu não consigo! Mãe, eu não vou aguentar!!’

Larguei tudo e fui ter com ele, abri a porta com uma mão enquanto o ajudava com as roupas com a outra e o incentivava, qual cheerleader ‘vais conseguir amor, vais conseguir, é só mais um pouquinho!’

Felizmente, correu tudo bem.

Saindo da casa de banho e de volta para a cozinha o Martim pára-me a meio do corredor, abraça-se às minhas pernas e diz ‘obrigada mamã, sem ti não tinha conseguido’.

Dei-lhe um beijinho e um abraço e ele voltou para a sala.

Pouco depois apareceu de novo: ‘mamã obrigada… foste muito rápida. Vou chamar-te Flash a partir de agora’.

Lembram-se da informação lá em cima?

Agora juntem tudo e pensem numa mãe inchada… É, eu mesma.

Ser super-mãe é uma treta, como defende – e demonstra diariamente – uma blogger que adoro, mas às vezes, ‘super-mãe’ é exactamente a forma como os nossos filhos nos vêem, para lá das nossas culpas, preocupações e desespero.

E nós, lá, embrenhadas em tudo isso, nem nos apercebemos até que eles, literalmente no-lo digam.

Super-mães dos detalhes, do cafuné do fim do dia, do leite quentinho… da chegada à casa-de-banho a tempo, porque não?

Eu ganhei o meu crachá de Flash.

E vocês? Que super-herói são?

 

Na mala do carro: 2 itens para poupar (muito) espaço quando viajamos com os miúdos

Quem é mãe sabe que existe um ‘antes’ e um ‘depois’ no departamento «viagens».

Antes, uma escapadinha de fim-de-semana bastava-se com uma malinha para os dois que até na bagageira minúscula do meu Toyota Aygo teria espaço para fazer a festa.

Depois, a malinha para dois transforma-se num arsenal de guerra: fraldas, biberões, toalhitas, mudas de roupa de reserva infinitas e, para desespero: carrinho e cama de viagem.

Estes dois últimos são material para ocupar 3/4 de um porta-bagagens numa station wagon.

As camas de viagem, mesmo clamando ser super portáteis, quando fechadinhas, no seu tamanho mínimo, têm este aspecto (a imagem foi escolhida aleatoriamente e retirada daqui) e, em muitos casos, o colchão não cabe neste volume e tem que ser arrumado à parte:

Já quanto aos carrinhos, já desabafei sobre o assunto aqui. Mesmo pensando num carrinho que não seja a monstruosidade de uma estrutura do tipo trio, mas um simples carrinho bengala, estaremos a pensar em qualquer coisa deste formato (a imagem foi escolhida aleatoriamente e retirada daqui):

Quando éramos três, a coisa ia, ocupando a parte do banco de trás que ficava livre, dava para acomodar tudo o que era preciso. O carrinho bengala ia no chão do carro porque apesar de ficar assim, comprimido, pelo menos o nosso só cabe na mala na diagonal. Nada funcional, portanto.

Quando passámos a ser quatro a casa caiu, a minha alma arrepiou-se e comecei a pensar em barras de tejadilho.

Mas como tenho uma pequena tara por 1) compras online e 2) artigos versáteis, acabei encontrando estes dois itens e posso dizer-vos que, graças a eles, não comprámos até hoje as benditas barras.

A cama de viagem foi-me oferecida por ocasião do nascimento do Miguel, depois de muito a ter namorado online. É da aeromoov, o uso é fácil, intuitivo e olhem como se arruma facilmente na bagageira (segundo 19):

O carrinho… Apaixonei-me por este da GB quando o vi no Duas para Um – Daddy Blog e comprei-o no site da Bebitus. É absolutamente maravilhoso. Fácil de usar. Fácil de carregar. Fácil de arrumar. Até em viagens de avião facilita a circulação, já que cabe facilmente debaixo do banco do assento da frente (ou até mesmo dentro da mala de cabine).

Duas pequenas maravilhas salva-vidas.

Se estiverem a considerar comprar alguma destas coisas, dêem uma olhadinha nestes modelos, valem muito a pena o investimento extra (e juro que – infelizmente – ninguém me pagou a publicidade).

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O balão – quem ri por último…

Era uma vez um balão.

Verde, chegou-nos numa caixinha de lembranças de aniversário e lá foi ficando, enquanto os doces desapareciam, até sobrar, sozinho e esquecido.

Semanas depois o pequeno balão verde foi notado pelo Martim.

Ponto de situação: Martim com pressa de brincar com o balão, Miguel com sono, mãe a tentar adormecê-lo.

Mãe, sensata, adverte o pequeno de que será prudente esperar que o mano adormeça, caso queira brincar descansado e com total exclusividade com o balão do fundo da caixa.

Sem sucesso, e perante insistências várias, mãe cede e sopra o pobre balão, não sem avisar que não vai, por uma vez que seja, interferir na brincadeira e que terão, manos, que encontrar soluções satisfatórias para ambos.

Ponto de situação: Miguel de olhos arregalados para o balão já esperneia para descer do colo, enquanto um Martim desconfiado se afasta com o dito cujo nos braços.

Estou certa de que tudo teria funcionado na perfeição não fosse Miguel ter apenas um ano e não ter qualquer vontade de se expressar por palavras.

Martim de balão nas mãos. Miguel chora copiosamente.

O balão cai, feliz, por ser finalmente objecto de desejo e disputa.

Miguel apanha-o do chão e foge. Martim, magnânimo, dá-lhe uma colher de chá e deixa-o brincar. Mas aquela comichão que não o larga e que alguns, maldosos, apelidarão de ciúmes, fá-lo cair no pranto queixoso pouco depois.

Miguel, espantado pelo espectáculo distrai-se, e vê o balão ser-lhe arrancado das mãos.

Claro está, Miguel chora, Martim ri, mãe rói-se para não dizer nada, como prometido (leia-se ‘ameaçado’).

Ponto de situação: ‘rio eu e choras tu, agora trocamos’ numa sequência infinita.

Até que…

Em câmara lenta o pequeno balão verde, lançado ao ar, começa mais uma trajectória descendente. Os jogadores preparam-se para a contenda: Martim acocorado ao nível do irmão, mantém os olhos no prémio. Miguel, ao seu estilo ‘couldn’t care less’, olha para o tudo e para o nada.

Balão toca no chão, por mero golpe de sorte, aos pés do bebé distraído.

Ao sentir-se tocado, o Miguel abre o seu melhor sorriso…

este:

E joga-se para cima do balão.

Martim sente a perdida próxima e joga-se em simultâneo, sem medos.

Porque as leis da física não perdoam, o resultado é o que se adivinha: ‘PUM!’

Era uma vez um pequeno balão verde, esquecido por semanas, disputado por minutos, defunto em segundos.

Ponto de situação: Martim? Chora a plenos pulmões. Miguel? Chora como se o mundo estivesse no fim. Mãe? Mãe desmancha-se a rir à gargalhada!

Porque quem ri por último…

Quem ri por último aguenta os dois no colo, de buzina ligada por dez minutos e apanha os restos mortais da brincadeira.

Que remédio…

“Mãe que é mãe” – Ode às mães perfeitas

Mãe,

Tu que vives cansada,

Olheirenta,

Que te culpas pelo tempo que passas no trabalho,

E pela má gestão que fazes dele,

Que não te lembras da última vez que entraste num cabeleireiro:

Tu és perfeita.

Mãe,

Tu que és descolada e carregas três meninos e dois sacos de compras em saltos altos,

Que preferes acordar de madrugada do que sair de casa sem maquilhagem,

Tu que adormeces com a culpa de que talvez ‘penses demais em ti’:

Tu és perfeita.

Mãe,

Tu que reclamas cooperação do pai,

Mas não deixas que ele te substitua em nada porque, afinal ‘ele não sabe tão bem’,

Que assumes os dias, as noites, os banhos, as refeições, o veste e despe, o transporte para cá e para lá,

Tu que carregas a culpa de sempre ser quem faz por eles e nunca quem faz com eles,

Tu és perfeita.

Mães,

Tu que saíste ontem à noite com as amigas e te sentiste culpada;

E tu, que perdeste a paciência pela manhã e te sentiste culpada;

Tu que os mantiveste entretidos com o tablet para apreciar um pouco de silêncio e te sentiste culpada;

E também tu que te compraste uns sapatos novos em vez do brinquedo que eles pediram e te sentiste culpada:

Perfeita. Perfeita. Perfeita. Perfeita.

Todas perfeitas.

“Mãe que é mãe” faz uma coisa só: o melhor que pode.

E o melhor que pode é perfeito.

Sabem o que não é perfeito? A culpa.

A ela podem mandá-la embora.

***

Costumava pensar que odiava mães perfeitas, desde logo, porque não existiam. Porque a fasquia que nos impunham era inatingível. Depois descobri que somos nós que criamos essa fasquia. Que quem não existe é ela. E que perfeitas…

Perfeitas somos todas.

O pesadelo

Martim

Mãe, hoje tive um pesadelo muuuuito grande.

Havia uma coruja enorme e depois estava eu e o pai e a coruja queria fazer-nos mal e eu tive muito medo.

Eu

Mas meu amor, não chamaste a mamã nem o papá… Quando tens medo podes sempre chamar a mamã ou o papá, para te darmos um abracinho.

Sabes que não deixamos que nada de mal te aconteça não sabes?

Martim

Não chamei porque eu não queria. Foi só um pesadelo.

É muito fácil: quando fico com medo, eu abro os olhinhos e ele desaparece.

***

Algo simples. Um pesadelo de criança. Uma oportunidade de confortar o nosso filho. Aquele momento agridoce em que eles não precisam de nós: ainda bem (mas nem por isso)! Quem nunca?

 

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SOS: O que é que eu faço? Dias leves e nervos em franja

A sério meu povo… O que é que eu faço?

A minha vida com o Martim está uma montanha russa. Alternamos entre dias leves de puro amor, conversas longas, brincadeira e compreensão mútua e dias em que a guerra começa ainda antes dele abrir os olhos e termina comigo exausta, olheirenta e chorosa já depois das 22h.

Nesses dias ele faz de um tudo:

Reclama que não quer levantar-se. Se eu me venho embora, reclama porque não o trouxe comigo.

Reclama que não quer vestir-se ou que não quer vestir o que separei. Se o deixo não vestir-se, reclama que não o vesti. Se o deixo ir escolher outra coisa, reclama que não quer ir sozinho.

Reclama que quer tomar o pequeno-almoço com ajuda. Mas também reclama por ter que esperar 30 segundos que seja para lha oferecer.

Reclama a semana toda porque quer levar o brinquedo X para a escola, quando só na sexta é o ‘dia do brinquedo’. Quando chega a sexta, reclama porque quer levar outro qualquer, ou porque quer que o carregue eu, ou que vá eu buscá-lo.

(substituam ‘reclama’ por ‘faz a maior birra do Universo’, porque é assim mesmo, só não quis escrevê-lo tantas vezes, que até isso já me arranha a alma).

Hoje mesmo adverti-o, ao vê-lo ‘destruir’ um brinquedo, de que podia fazer o que quisesse, mas que eu não iria concertar, porque não tínhamos tempo nesse momento. Claro que desmontou a coisa só para pedir para eu arranjar a seguir e, obviamente, fez birra quando lhe disse que não ia fazê-lo, conforme já o tinha avisado.

Mas o pior… o pior é quando me bate. Quando me chuta para me afastar no momento de lhe vestir o pijama. Quando me atira os brinquedos que lhe pedi para não estragar vezes sem conta, mesmo eu dizendo-lhe que me está a magoar e que pare. Quando vem contra mim às cabeçadas em modo repeat enquanto insisto para que vista o casaco. Quando me dá murros na barriga despertados pela raiva de eu estar a ignorar-lhe as fúrias…

O que raio eu faço?

Não vou bater-lhe de volta. Não vou. Como referi aqui, a palmada é um recurso que vem do desespero, da perda de paciência, da exaustão mental. Não resolve o nosso problema.

Não vou distribuir amor. Não consigo conceber responder a murros com abraços e beijinhos. Ele tem que perceber que as suas acções têm consequências e que tratar mal as pessoas não gera sentimentos positivos na pessoa que ele maltrata. Inclusivamente já lhe expliquei isso várias vezes. Sucede que, em regra, nestes dias mais ‘agudos’ meia hora depois, de termos uma conversa calma, ele já está a fazer o mesmo por outro motivo qualquer, apesar de se ter mostrado profundamente arrependido e ter pedido desculpa.

Também não posso fingir que não aconteceu. Ignorá-lo enquanto me bate ou enquanto me responde coisas como ‘qual é a parte de que eu quero [inserir qualquer porcaria que vos venha à cabeça] que não percebeste?’ até pode funcionar, mas funciona de uma maneira perniciosa. Por um lado, não cessa o comportamento (e, convenhamos, não sei quanto a vocês, mas eu não curto apanhar de uma criança de quatro anos…). Por outro, fá-lo ficar cada vez mais irritado e mais criativo nas formas agressivas de chamar a minha atenção. Atendendo ao que relatei aqui e que derivou justamente de uma situação em que o ignorei, não quero arriscar.

Mas voltamos ao ‘o que raio eu faço?’

A sério… Estou realmente perdida.

Andamos nisto há pouco mais de um mês e eu estou a entrar em SOS. Nada parece acalmar o coraçãozinho agitado do meu Martim, normalmente tão sensível. E, entretanto, insiste em expressar a sua frustração da forma mais negativa que conhece…

Qual a forma que vocês considerariam adequada para lidar com estas fúrias no momento?

O que fazem quando é convosco?

Lancem-me luz, que eu estou às escuras…

(e tenham um óptimo fim-de-semana… sem birras!)

Boxing day – arrumar (com) o Natal

Hoje um acordou já a fazer birra. O outro acordou com o rabinho assado.

Hoje um bateu com a cabeça na parede. O outro não quis partilhar os mil brinquedos com o irmão.

Hoje confisquei um objecto de discórdia e os dois choraram.

Hoje um atirou tudo para o chão em sinal de protesto e em mais do que uma divisão da casa. O outro virou o prato do almoço ao contrário.

Hoje um fez-se cair de uma cadeira de propósito, porque o mandei não se levantar. O outro chorou pelo biberão com água e atirou-o para o chão assim que lho dei.

Hoje houve uma palmada e uma voz chorosa e pequenina a repetir o que lhe ensino: ‘bater é errado’.

Ele tem razão. Por isso, hoje sentei-me no chão da cozinha a chorar enquanto eles choravam os dois na sala, cada um por sua verdade.

Hoje um foi passear com a tia e eu desejei muito que o outro adormecesse só para conseguir ouvir-me pensar.

Hoje levei um tareão da maternidade e destes dois.

Hoje é dia 26 e parece que o boxing day serviu para arrumar a magia do Natal…