O meu bebé chama por mim

O meu bebé chama por mim.

Todo o dia, se eu estiver por perto.

Toda a noite também.

O meu bebé chama por mim. Às 00h. Às 2h. Às 3h30.

Convenço-o de que ‘a mãe está aqui’ e de que pode voltar a ‘fazer ó-ó’.

Ele acredita, mesmo à distância de um quarto. Às 00h. Às 2h. Às 3h30… Ele acredita.

Mas às 4h50 a minha voz ecoando a um quarto de distância já não convence ninguém e sou obrigada a iniciar uma conversa séria com o meu corpo cansado.

Digo-lhe que tem que ouvir. Que tem que despertar. Que tem que abrir os braços e oferecer a quem de direito o único consolo de que o meu bebé precisa.

Peço-lhe que esqueça que não tem vocação para noctívago.

Que ignore todas as vezes que, adolescente, tentou estudar noite dentro e deixou os olhos fecharem antes mesmo do recolher da Cinderela.

Que faça por não se lembrar que a ‘diversão nocturna’ sempre durou no máximo até às 3h e que dormir em discotecas é, para si, brincadeira de crianças.

Que varra para debaixo do tapete a memória das poucas vezes em que se forçou a trabalhar até tarde e de como as lágrimas caíram em todas, sem excepção.

Digo-lhe que apreenda que, por hoje, a noite terminou.

E o meu corpo ouve.

O meu bebé chama por mim e terá o seu colo.

Terá toda a minha cama e todo o meu corpo para se estender, amassar e espezinhar. Esse corpo que só quer descanso, abrigará, sem se queixar, os torcicolos, os braços dormentes, as caimbras nas pernas, as olheiras e a má disposição do dia seguinte.

O meu bebé chama por mim e o meu corpo faz-se forte para o atender.

Porque o meu corpo de adolescente a lutar pelo sucesso escolar, de jovem querendo acompanhar os amigos e os amores, e de profissional almejando reconhecimento não são ninguém perto do corpo que agora tenho.

Corpo de mãe não é nem corpo. É armadura.

Uso a minha com orgulho.

Por muito amolgada que esteja.

 

Famílias são feitas de todos os tipos de momentos

 

Amanheceu cedo demais. Pelo menos eu não estava preparada.

Eles acordaram cedo demais. Pelo menos eu não estava preparada.

Subiram na minha cama, saltaram mesmo depois de lhes dizer que não o fizessem.

Ainda debocharam da minha cara. Riram, felizes um com o outro e com o pouco caso que me faziam.

Fiquei emburrada ainda não tinha saído do quarto.

O Miguel fugiu de mim durante 10 minutos antes de finalmente conseguir trocar-lhe a fralda, com ele aos gritos.

Nas correrias dos dois, conseguiu tropeçar no molho de fraldas que estava a arrumar e magoar-se numa mão.

De mãos nas ancas, e ainda antes de o apanhar do chão, pareceu-me relevante perguntar aos dois se estavam agora satisfeitos.

Pergunta parva (era óbvio que não).

O Miguel chorou no meu colo. O Miguel chorou no chão. O Miguel chorou enquanto o Martim trocava de sapatos três vezes e exercitava o seu novo tique de puxar o maxilar para a frente, que irrita mais do que por vezes gosto de admitir.

O Martim não me ouviu pedir que fosse lavar os dentes.

O Martim “não me ouviu” pedir que fosse lavar os dentes.

O Martim “não me ouviu” pedir aos gritos que fosse lavar os dentes.

Fechei-lhe o computador. Acabaram-se os bonecos. E ele continuou a não ir lavar os dentes argumentando, ainda para mais, que o computador era do pai e não podia chegar e fechá-lo sem autorização.

Pouco importam os factos de ter sido eu quem comprou a porcaria do computador e de a ‘autorização’ não ter sido relevante na hora de lho ligar, mas na hora eu achei que sim e que, além de tudo, valia a pena discutir isso com ele.

Decidi que ia embora, quer ele lavasse ou não os dentes.

Saí com o Miguel, que tinha parado de chorar, mas voltou a chorar na hora de o por na cadeira do carro porque o que ele quer mesmo é conduzir.

Voltei para trás para dar mais dois gritos ao Martim que se pôs aos pontapés à porta de casa. Disse-lhe que fosse lavar os dentes. Gritou-me que não.

Arrastei-o para fora de casa, para dentro do carro, para cima da sua cadeira, enquanto lhe explicava que meninos que não lavam os dentes não podem, nunca mais, meter à boca o que quer que tenha açúcar, para não os estragar.

Voltei para trás para ir buscar uma t-shirt para o Miguel. Quando voltei, o Martim tinha tirado o cinto e estava a tentar sair do carro.

Queria ir lavar os fucking dentes.

«NÃO!»

Gritou o caminho para escola inteiro.

Gritou quando lhe exigi que parasse de buzinar no meu carro enquanto deixava o Miguel na escola.

Gritou quando o arrastei comigo para a escola do Miguel porque não quis parar. Ou sair do carro. Ou sair da estrada. Ou mexer-se, de todo.

O Miguel tem a mão cheia de sangue. Ao cair cortou-se num dedo e achou engraçado esgravatar a ferida no caminho.

Eu não achei tanta graça, mas são perspectivas diferentes do que é humorístico.

Alguém palestrou ao Martim sobre os cuidados dos dentes, os bichinhos que se instalam, os dentistas e tudo mais. Depois ofereceu-lhe rebuçados de chocolate. Que eu não o deixei comer.

Estão no meu carro. A ver se chegam a casa…

Antes de deixar o Martim na escola conversámos. Pediu-me desculpa. Pedi-lhe desculpa.

Quando entrou na sua sala, continuava com os dentes sujos, mas tinha a alma lavada.

***

E eu também.

Porque a manhã foi um inferno, mas sentada ao volante do meu carro não consegui lembrar-me da última que tínhamos tido uma assim.

Dias de merda fazem parte.

Seguimos juntos e está tudo bem.

Era mais fácil sozinha

 

Alguém duvida que esta vida se fazia muito melhor sozinha?

Só nós, dispondo de 100% do nosso dinheiro, para gastar em 100% do nosso tempo livre, em actividades 100% do nosso agrado.

Sem cedências para fazer, sem grandes compromissos para honrar, sem outras vidas a nosso cargo.

Alguém, em sanidade de espírito, pode duvidar disso?

Eu não duvido.

Então porque são tão raras as pessoas que escolhem viver dessa forma?

Porque é que tão poucos de nós queremos e apreciamos verdadeiramente viver sozinhos?

Ninguém me perguntou mas eu vou falar, porque eu sou dessas: porque o mais fácil nem sempre (ou quase nunca) é o melhor.

Ou o mais prazeroso.

Ou o mais compensador.

Ou (principalmente) o que nos faz mais felizes.

Mas quererá isso dizer que, escolhendo uma opção menos fácil, nunca mais nas nossas vidas poderemos desabafar sobre o quão difícil é, às vezes, aquilo que escolhemos fazer?

Será que nos torna mães menos merecedoras dos nossos filhos o quanto nos queixarmos do cansaço, da falta de tempo, das estrias, da memória de peixe e do pavio curto? Porque, afinal, ‘se é assim tão difícil porque os tivemos’? E se ‘escolhemos ter agora não nos queixemos’…

Será que nos torna mulheres menos merecedoras de ter um relacionamento o facto de constatarmos o quanto o nosso marido pode ser inflexível/incompreensivo/preguiçoso/frio/ciumento/whatever? Porque ‘se não estamos satisfeitas, podemos sempre bater com a porta’?

Menos, gente! Acalmem lá esses dedinhos nervosos, afastem-nos do teclado onde habitualmente se dedicam a actividades de criticismo da vida alheia e pensem no que seria de vocês próprios se nunca pudessem queixar-se de circunstância nenhuma da vossa vida sem comerem logo com uma qualquer formulação do ‘fizeste a cama, agora deita-te nela’?

Desabafar sobre quanto pode ser difícil a vida a dois (ou, no meu caso particular, a quatro) serve apenas para colocar o difícil para fora de nós, partilhar, expelir o mau, relativizar: manter a saúde mental!

E isso está longe de querer significar que queremos voltar ao ‘fácil’.

Porque ‘fácil’ também significa uma certa dose de isolamento.

‘Fácil’ é não ter um abraço quentinho no frio da noite, um ombro onde pousar um pesadelo.

‘Fácil’ é não ter uma mãozinha pequenina à procura da nossa, um sorriso desdentado quando chegamos a casa.

‘Fácil’ é tantas vezes só isso mesmo: fácil, no sentido de ‘cómodo’, ou ‘menos trabalhoso do que’.

Era mais fácil sozinha? Era, claro!

Mas eu prefiro, de longe, convosco.

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É sexta-feira (só que não)!

O Miguel está viciado no Panda e os Caricas.

Mal diz dez palavras, mas quando está entediado (ou doente) já aponta para o computador ou para o telemóvel e faz um ‘ôh! ôh!’ que não deixa dúvidas.

A propósito da música ‘Sexta-feira (estudei a semana inteira)’ na versão do grupo, o Martim costuma sempre comentar «Mas hoje não é sexta-feira!!!…» (pois, normalmente não é).

Ontem antecipei-me e comentei eu, ao ouvir a música, que não era sexta-feira e que se calhar os caricas tinham mesmo que passar mais tempo na escola, se não sabiam os dias da semana…
Martim concordou com um sorriso semi-trocista.
Então perguntei-lhe ‘Que dia é hoje?’
E ele respondeu: ‘Domingo’
E eu devolvi: ‘E amanhã?’

E ele respondeu: ‘Amanhã… Amanhã é dia de escola’.

Soltei uma gargalhada, mas por dentro fiquei emburrada.

Parece-me que ele também.

Acho que o espírito de segunda-feira nos castigou por troçarmos dos Caricas…

Boa semana minha gente!!!

“Tantos meninos castanhos!”

 

Tantos meninos castanhos! – exclamou o Martim perante uma peça jornalística filmada num país africano.

***

Cresci num cadinho de culturas, raças e religiões, pertíssimo de uma mesquita e de um bairro social maioritariamente habitado por ciganos, na margem sul, local para onde foram morar muitos brasileiros imigrados em Portugal.

As minhas turmas sempre tiveram meninos de todas as cores e credos e na minha rua – onde antes das tecnologias as crianças costumavam divertir-se, lembram-se? – a única coisa que interessava a todas as crianças era a disponibilidade das demais para brincar.

Tudo isso me tornou muito cega à cor da pele, à origem, à fé.

Compreenderão, por isso, o meu espanto perante a exclamação – tão reveladora da ignorância em relação ao Mundo – do meu filho mais velho.

A verdade é que a realidade dele, nos seus curtos quatro anos, não é idêntica à minha.

É que, se ele tem muitos ‘tios’ e ‘tias’ castanhos, adultos que nos rodeiam e cujo tom de pele varia muitíssimo – lá está, os nossos amigos de infância, meus e do Mário -, o mesmo já não acontece com as crianças que estão ao seu redor. Pensando friamente, na sua escolinha actual não me recordo de ver senão meninos e meninas de pele clara por isso, para o situar, tive que referenciar alguém da sua escola antiga.

Perguntei-lhe se se lembrava do Lucas, um coleguinha dessa primeira escola.

Os olhos dele brilharam ao lembrar-se ‘Pois é! Ele também era castanho!! Eramos bué amigos…’

Percebi aí que a exclamação inicial dele era toda feita de falta de familiaridade com a coexistência de muitos meninos não brancos no mesmo espaço (meninos = crianças, já tinham aparecido no plano várias imagens de adultos sem que ele estranhasse alguma delas) e expliquei-lhe que, da mesma maneira que aqui onde ele vive a maior parte das pessoas tem a pele como ele, eu, o papá e o mano, existem muitos países onde a maior parte das pessoas tem a pele de outras cores e que, naquele da televisão, a maior parte das pessoas, crianças incluídas naturalmente, tinha pele ‘castanha’.

Percebi na cara dele a curiosidade genuína com que me ouviu. Falámos depois sobre alguns desses países. Quis vê-los no mapa. Mostrei-lhes esses e outros, entusiasmou-se com o tamanho da Rússia, com o quão longe eram a Austrália e a Nova Zelândia com o caminho de avião que eu e o pai fizemos para o Brasil e a conversa fluiu para outros temas.

Não, não tinham sido os olhos de um princípio de preconceito a fazer aquele comentário.

Tinha sido apenas uma observação empírica relativamente a uma realidade com nunca tinha sido confrontado antes.

Confesso, respirei de alívio…

Frequentará outras escolas, terá muitos amigos, verá e conhecerá muitas pessoas diferentes.

Um dia, espero eu, olhará para trás e perceberá que naquela imagem estavam apenas ‘tantos meninos’.

Sem mais.

Entretanto, acho que vamos fazer uns desenhos com os tão bem recebidos lápis de ‘cor-de-pele’ da Giotto.

A Gabriela e o Rafael – os filhos que não tive

Apresento-vos a Gabriela e o Rafael.

São ambos meus filhos.

Não tenho uma foto decente de nenhum dos dois porque, na realidade, não sei bem que aspecto têm.

Desconheço a idade de qualquer deles e tampouco consigo justificar-vos porque ando há meses a apregoar que vivo entre M’s, tendo estes dois, cujo nome não começa por M, na minha vida. Escondidos.

A verdade é que a Gabriela e o Rafael são os filhos que eu não tive.

Os filhos que o meu filho arranjou para mim.

Os irmãos que ele inventou e nomeou.

Porque o Martim é assim.

Quando lhe disse, perante as saudades que verbalizou de quando o mano era bebé (porque agora é enorme, está visto!), que talvez pudéssemos um dia ter outro bebé lá em casa, ele fez entrar nas nossas vidas a Gabriela.

Assim mesmo, numa fracção de segundos, decidiu que queria uma irmã e o que chamar-lhe. Não sei porquê. Não conhecemos nenhuma Gabriela. Ele não vê nenhuns desenhos que tenham uma Gabriela. Talvez seja apenas, e genuinamente, um nome de que gosta…

‘Mas olha Martim, nós não escolhemos… E se em vez de uma mana, tiveres um mano?’

E foi assim que o Rafael entrou também nas nossas vidas.

Desde que planeámos o Miguel que sinto que não ficaríamos por aí, que há, ainda, um ‘M’ que nos falta…

Mas no que depender do Martim, parece que esse ‘M que nos falta’, será uma G ou um R…

Falo-vos deles, não porque tenha algum grande anúncio a fazer, mas porque quero guardar na memória estes dois filhos que não tive.

Talvez de hoje para amanhã eles deixem de ser desejados por quem os inventou.

Mas que mãe seria eu, se os esquecesse?

Bom fim-de-semana a todos!!!

De fada a bruxa em poucas noites

Andamos há três semanas no fantástico carrossel das doenças.

Um apanha, passa adiante até percorrer a família toda e, entretanto, quando o ciclo termina, já outro apanhou qualquer outra coisinha de qualidade para partilhar, com todo o altruísmo que se quer em família…

O mote da última ronda foi dado pelo Miguel: febre alta, garganta inflamada, ouvidos vermelhos, conjuntivite e tudo o que teve direito.

Bebé doente, bebé carente.

Inevitavelmente, seguiram-se noites passadas em cima de mim. Dias também. Actividades impensáveis desenvolvidas com um bebé não tão leve assim no colo. Gritos lancinantes sempre que era pousado no chão, por qualquer motivo.

A mãe foi a fada que lhe roubou as dores só por carregá-lo nos braços, beijar-lhe o cabelo, afagar-lhe as costinhas…

Mas, por que estamos no carrossel, ele ficou bom e a minha vez chegou fatalmente, como o preço a pagar por toda aquela proximidade estranhamente deliciosa, com o meu bebé…

A sensação é a de uma bola de golfe na garganta e uma gargantilha apertada no pescoço. Ter fome dá medo, porque vou ter que engolir alguma coisa e vai doer horrores. Dormir é uma miragem, porque não existe posição confortável. As dores no corpo, os ben-u-ron, o frio, o calor, o frio de novo… Enfim, toda a gente sabe como funciona.

Mas tudo isso é uma vírgula comparado com o que tive que fazer com os resquícios da carência do Miguel, deixados pela doença e pela nossa ausência de há algumas semanas atrás.

É que ele acostumou-se a dormir no meu colo, na minha cama, em mim. E eu acostumei-me a socorrê-lo. A ser a fada. A fada que, para variar e ainda que apenas por alguns dias, tinha o condão de estar sempre lá com ele. A mandar embora as lágrimas, as dores e os desconfortos.

Mas há dois dias eu simplesmente não estava em condições de passar a noite com ele em cima de mim, por muito boa vontade que tivesse.

Adormeci-o no meu colo e torci para que tudo corresse pelo melhor.

Não correu.

Foi mais de uma hora a tentar adormecê-lo e pousá-lo na caminha dele. Ainda eu ia a meio caminho e já ele gritava como se não tivesse há dois segundos suspirado profundamente no seu soninho…

Foi horrível.

E piorou.

Acabei por pousá-lo na cama, com choros e gritos e fiquei perto dele, procurando consolá-lo com a minha presença, tentando segurar-lhe a mão, falar-lhe baixinho ao ouvido e dizer-lhe que estava tudo bem. Mas não estava e nós dois sabíamos. Ele precisava de mim e eu… eu precisava que ele não precisasse tanto. Só nessa noite.

Passei de fada a bruxa num sopro.

O carrasco que negava colo ao seu menino.

E se sentava ao seu lado, segurando-lhe a mão e vendo-o chorar.

Acabou por adormecer, vencido pelo cansaço e pela resignação.

Eu demorei mais.

Não quero ser bruxa agora. Já basta os tantos «nãos» que provavelmente lhe direi, por falta de opção ou para o bem dele.

Quero ser fada para o meu bebé que não vai sê-lo para sempre.

A razão por que o choro vai embora, não a que o faz chorar.

Mas, na vida real, por vezes não é possível ser a fada.

Nessa noite tive que contentar-me em ser a bruxa menos má que as circunstâncias me permitiram…

(e esperar, como sempre, que isso seja suficiente).

Ainda sobre os palpites: o silêncio alimenta o monstro?

Nem de propósito, depois do post da semana passada sobre os muitos pais que os nossos filhos têm, mesmo não tendo (quem perdeu, pode ler aqui), passei por uma situação de palpite flagrante no último fim-de-semana…

Fomos a Fátima no Sábado porque o Mário estava ainda mais receoso que eu com a nossa viagem (falei sobre isso aqui) e achou por bem comemorar de forma mais espiritual o facto de regressarmos vivos e em (relativamente) bom estado de conservação.

No restaurante onde almoçámos levei o Miguel ao fraldário. Ele está numa fase em que odeia trocar a fralda. O-dei-a. Esperneia, chora e chateia durante todo o processo, a menos que tenha um biberão na boca (ah… comer! A sua actividade predilecta!).

Obviamente, para ele é indiferente encontrar-se em casa ou fora dela e faz exactamente o mesmo barulho e escabeche independentemente de onde estejamos.

Eis que uma senhora, cheia de dó, aproximou-se, tentou consolá-lo, conversar com ele e aquelas coisas a que as senhoras não resistem quando tudo o que queremos é despachar o assunto, na certeza (que as mil experiências anteriores com o NOSSO filho nos deram) de que ele se calará assim que voltar ao nosso colo, feliz, como se nada se tivesse passado.

Às tanta,s perguntou se ele fazia isso sempre que trocava a fralda. Respondi que tinha fases e que estava numa em que sim, fazia isso em todas as mudas. Não convencida, perguntou o seguinte:

Não estará a magoar a cabecinha aqui em cima?’

Revirei os olhos (aliás, acabei de fazer o mesmo ao escrever).

‘Não. Não estará.’

Fui um poço de simpatia tão profundo que a senhora lá se convenceu a ir embora sem mais comentários.

Fiquei a pensar…

A senhora estava lá com os filhos. Com os netos. Aquela senhora engoliu muito palpite de que não gostou, como qualquer outra mãe.

Então se praticamente todas as 100% sofrem com estas ingerências na forma como lidam ou deixam de lidar com os seus filhos em situações que só a si dizem respeito, com certeza muitas, muitas mães são também elas palpiteiras além de alvos… Como aquela senhora! Não acredito que o façam de forma consciente, afinal, perpetuar o ciclo do palpite não aparenta ser agradável para ninguém… O que me leva a questionar:

Será que os palpiteiros são todos ou maioritariamente pessoas inconscientes de que estão apenas a ser metediços e ninguém quer saber da sua opinião?

Será que eu sou uma palpiteira e não sei?

Confesso que, depois de pensar um pouco, consegui identificar algumas situações em que talvez tivesse ficado melhor na fotografia de boca fechada. Quando utilizei um tom um pouquinho mais julgador ao pronunciar-me sobre o uso de tecnologias por uma criança com a idade do Martim (que na minha opinião era excessivo) ou quando identifiquei, exemplificando ainda com situações concretas, uma dependência desnecessária, não da filha em relação à mãe, mas da mãe em relação à filha, também da idade do Martim.

Curiosamente ambas as situações ocorreram com amigas bem próximas. Nenhuma delas me disse nada. Não sei se por não as ter incomodado verdadeiramente ou se por adoptarem, ao contrário de mim, que sou incapaz, uma táctica similar aos pinguins do Madagáscar nestas situações, limitando-se a ‘sorrir e acenar’.

Em todo o caso, em retrospectiva, desejava que o tivessem feito. Afinal… O que é que eu tenho a ver com isso se ninguém me perguntou? São ambas mulheres adultas, que tenho como inteligentes, com o mesmíssimo acesso à informação que eu, felizmente, e sem a menor dúvida que querem para os seus filhos o mesmo que eu quero para os meus: nada menos do que o melhor.

A minha opinião é a minha. Mantenho-a em qualquer dos casos que relatei. Mas não passa disso mesmo e vale zero, menos que zero até, se pais e filhos estão confortáveis com aquele modo de gerir as coisas…

Talvez seja mais disto que nos falta a nós, mães alvos de palpites: um pouco menos de ‘sorrir e acenar’ e um pouco mais de ‘obrigada pela preocupação, sei que é totalmente inocente, mas eu sei o que estou a fazer, afinal, o filho é meu’.

Quantos palpiteiros inconscientes não ganhariam essa consciência e prestariam mais atenção antes de falar numa próxima vez, quiçá com outra mãe?

Quantos palpiteiros conscientes não se sentiriam pelo menos um pouquinho mais inibidos de tecer comentários despropositados?

Pela minha parte, a todos quantos se sentiram alguma vez ‘palpitados’ por mim apresento as minhas mais sinceras desculpas e convido todas as mamãs fartinhas de palpites a juntarem-se num movimento por palpiteiros mais conscientes (isto é, com mais vergonha na cara). Falem! Quebremos o ciclo do palpite!

 

(By the way, quem ainda não participou no passatempo ‘poupe nos palpites?’ O tempo urge e acaba hoje às 23h59!)

 

Vou separar-me!

Em primeiro lugar: não. Não vou, na verdade, separar-me, foi só um clickbait vulgaruxo que arranjei para despertar o vosso lado fofoqueiro e trazer-vos até aqui.

Que foi? Queriam que mentisse? Técnicas manhosas para atrair um par de visualizações com certeza, agora mentiras, isso jamais! 🙂

‘Vou separar-me da Inês…’ foi a piada que o meu marido fez uma noite destas quando chegou a casa, morto de cansaço e querendo deitar-se e viu que a cama já estava cheia.

‘Apanhei-a na cama com dois homens… Vejam a cara de pânico dela ao ser flagrada’, foi o que ele mandou a um pequeno grupo de whatsapp, borrifando-se para o pavor que está a minha cara (experimentem levar com um flash nas ventas depois de 40 minutos no escuro antes de me julgarem…), que só perde em feiura para o meu pijama e lençóis (espero eu) e contrasta com a fofura destes dois monstrinhos adormecidos.

Pois é…

Já vos contei sobre como fazia questão de que o Martim dormisse na sua própria cama desde… bom, sempre e como as minhas ideias foram mudando depois de ter o Miguel (podem ler ou reler aqui).

Hoje em dia, depois dos tempos difíceis que tive com o Martim (e que, espero não morder a língua, mas parece que estão finalmente a ir embora, aos poucos), sou muito, mas muito mais flexível com isto de quem dorme onde, quando, por quanto tempo e com quem (quanta promiscuidade!).

Ultimamente, nos dias em que o Mário chega depois da hora deles dormirem, convido o Martim para adormecer comigo (explico sempre que ele irá acordar, no dia seguinte, na sua própria cama e que, se por algum motivo o dia seguinte for às quatro da manhã, não vale querer voltar para a minha)… Ele sente-se um pouco mais acolhido e tento sempre adormecer o Miguel primeiro, para poder ter um tempinho só nosso, no mimo. Mas quando, como aconteceu neste dia, o Miguel está demasiado desperto e eufórico, acampamos os três na minha cama…

É extremamente desconfortável, como já expliquei por aqui e os preparos em que o Mário nos caçou mostram exactamente isso. O que acontece é que cada um deles vai tomando espaço na cama, empurrando-me para a ponta. Quando não posso recuar mais, o Miguel sobe para cima de mim e o Martim toma o espaço onde ele estava, para se encostar a mim também. Por isso, quando o Miguel quer regressar ao colchão, não consegue, não lhe restando outra opção senão enrolar para sul. É um pequeno circo Chen em actuação num colchão de casal, mas que poderia ser individual sempre problemas, porque eles não precisam de mais espaço que isso…

Por outro lado… Caramba, quem é que resiste a isto? Estas bochechas rosadas, estes corpinhos pequeninos totalmente made in mamã a partir de quase nada, a minhocar para estar junto a mim, estas mãozinhas pequeninas… Não é possível!

Por isso e também porque, além do meu coração, a minha cama também é grande, ao meu amor – aquele com quem casei, entenda-se – tenho que deixar um recado: não te separes de mim, mas vamos liberalizar esta nossa relação porque, no que depender destes dois marmanjinhos, vamos continuar a trair-te um pouquinho sempre que virares costas (mas gostamos todos muito de ti)…

‘Mais linda do que nunca’

Ontem contei-vos sobre a reacção dos meninos, sobretudo do Miguel, ao nosso regresso de viagem.

Relatei-a numa perspectiva de mãe ansiosa, receosa e semi-culpada, como terão reparado, preocupada com os efeitos da sua ausência, por motivos exclusivos de lazer, sobre a vida dos seus filhos…

O texto tomou um rumo diferente do que inicialmente tinha pensado para ele e acabei por não mencionar o antídoto que o Martim me deu para estes sentimentos que me envenenavam a alma.

Sim, ele está agora bastante acostumado com a ideia de passar alguns dias sem os pais. Sim, para ele, também são férias e vive sem ‘rei nem roque’ em várias casas onde todos se esforçam para lhe agradar. Sim, ele fica ainda – obviamente – com saudades, mas lida bem com elas e guarda todas as informações que nos quer passar, porque aquela cabecinha é melhor que qualquer computador, e vai-nos brindando com os detalhes das suas várias estadias em casa da tia, da avó paterna e depois dos avós maternos ao longo de vários dias.

Mas o que mais me deliciou nele foi quando reclamei um beijo, no meio de toda aquela euforia de mostrar brincadeiras que tinha feito, no fim de toda aquela correria para levar e trazer coisas que quer exibir e ele gritou ‘ah! tinha-me esquecido!’ de outra divisão da casa dos meus pais.

Veio, novamente a correr e aos pulinhos, até mim, abraçou-me muito e deu-me beijinhos.

Depois parou, olhou para mim fixamente com aqueles dois olhos enormes e disse-me: ‘estás tão bonita mamã’.

Agradeci-lhe e enquanto lhe dizia como ele ficava também mais bonito a cada dia que passava ele completou o seu pensamento: ‘estás mais linda do que nunca!’

O Martim é sempre o primeiro a reparar quando pinto as unhas, quando uso uma roupa nova, quando corto o cabelo, quando uso um batom com uma cor mais forte. O Martim é sempre o primeiro a elogiar-me nessas ocasiões. ‘Uau, estás gira!’, é algo que sai da boca dele com naturalidade e também diz quando não gosta de alguma coisa. O Martim é tão observador e opinativo que, às tantas, dou comigo a perguntar a opinião dele em questões estéticas e a tomá-la por boa…

[true story: um dia comprei um macacão ao preço da banana num leilão no Facebook. Depois de me ser enviado, experimentei-o e quando perguntei ao meu marido o que achava o Martim comentou ‘que pijama tão giro, mamã’. Até hoje não o vesti. Uma. Única. Vez.]

Por isso, aquela frase dita a uma mãe com um ar exausto depois de 9h30 de voo nocturno e de ter, no dia anterior, chorado baba e ranho por deixar uma cidade que foi tão boa para mim convenceu-me que, de facto, a felicidade só pode ser algo visível a olho nú.

Pelo menos ao dele.

E como lhe agradeço por isso.