De fada a bruxa em poucas noites

Andamos há três semanas no fantástico carrossel das doenças.

Um apanha, passa adiante até percorrer a família toda e, entretanto, quando o ciclo termina, já outro apanhou qualquer outra coisinha de qualidade para partilhar, com todo o altruísmo que se quer em família…

O mote da última ronda foi dado pelo Miguel: febre alta, garganta inflamada, ouvidos vermelhos, conjuntivite e tudo o que teve direito.

Bebé doente, bebé carente.

Inevitavelmente, seguiram-se noites passadas em cima de mim. Dias também. Actividades impensáveis desenvolvidas com um bebé não tão leve assim no colo. Gritos lancinantes sempre que era pousado no chão, por qualquer motivo.

A mãe foi a fada que lhe roubou as dores só por carregá-lo nos braços, beijar-lhe o cabelo, afagar-lhe as costinhas…

Mas, por que estamos no carrossel, ele ficou bom e a minha vez chegou fatalmente, como o preço a pagar por toda aquela proximidade estranhamente deliciosa, com o meu bebé…

A sensação é a de uma bola de golfe na garganta e uma gargantilha apertada no pescoço. Ter fome dá medo, porque vou ter que engolir alguma coisa e vai doer horrores. Dormir é uma miragem, porque não existe posição confortável. As dores no corpo, os ben-u-ron, o frio, o calor, o frio de novo… Enfim, toda a gente sabe como funciona.

Mas tudo isso é uma vírgula comparado com o que tive que fazer com os resquícios da carência do Miguel, deixados pela doença e pela nossa ausência de há algumas semanas atrás.

É que ele acostumou-se a dormir no meu colo, na minha cama, em mim. E eu acostumei-me a socorrê-lo. A ser a fada. A fada que, para variar e ainda que apenas por alguns dias, tinha o condão de estar sempre lá com ele. A mandar embora as lágrimas, as dores e os desconfortos.

Mas há dois dias eu simplesmente não estava em condições de passar a noite com ele em cima de mim, por muito boa vontade que tivesse.

Adormeci-o no meu colo e torci para que tudo corresse pelo melhor.

Não correu.

Foi mais de uma hora a tentar adormecê-lo e pousá-lo na caminha dele. Ainda eu ia a meio caminho e já ele gritava como se não tivesse há dois segundos suspirado profundamente no seu soninho…

Foi horrível.

E piorou.

Acabei por pousá-lo na cama, com choros e gritos e fiquei perto dele, procurando consolá-lo com a minha presença, tentando segurar-lhe a mão, falar-lhe baixinho ao ouvido e dizer-lhe que estava tudo bem. Mas não estava e nós dois sabíamos. Ele precisava de mim e eu… eu precisava que ele não precisasse tanto. Só nessa noite.

Passei de fada a bruxa num sopro.

O carrasco que negava colo ao seu menino.

E se sentava ao seu lado, segurando-lhe a mão e vendo-o chorar.

Acabou por adormecer, vencido pelo cansaço e pela resignação.

Eu demorei mais.

Não quero ser bruxa agora. Já basta os tantos «nãos» que provavelmente lhe direi, por falta de opção ou para o bem dele.

Quero ser fada para o meu bebé que não vai sê-lo para sempre.

A razão por que o choro vai embora, não a que o faz chorar.

Mas, na vida real, por vezes não é possível ser a fada.

Nessa noite tive que contentar-me em ser a bruxa menos má que as circunstâncias me permitiram…

(e esperar, como sempre, que isso seja suficiente).

Assaduras e pomadas – o que finalmente resultou

Assaduras têm sido um problema para mim. Sempre relacionados com o romper dos dentes dos M’s.

Com o Martim, cada novo dente trazia sofrimento. Não havia febre nem rabugice mas havia assaduras ferozes. E doíam.

Havia dias em que ele gritava desesperado ao menor contacto com a água do banho, fosse a que temperatura disse: e ele, que até hoje adora o banho…

Encontrámos a Erypaste da Lustine e, para ele, foi o que funcionou.

Com o Miguel o caminho tem sido mais tortuoso. Como não teve qualquer dente até aos 8 meses, quando apareceram os primeiros, eram quatro.

Desde então as assaduras vieram para ficar. E as do Miguel conseguem ser piores do que as do Martim. O Miguel fica em carne viva. O Miguel sangra.

As assaduras do Miguel já nos levaram três vezes ao médico.

O Erypaste com ele era inútil. Tudo o que nos sugeriram foi inútil. Combinações várias de Canestene, Mitosyl, Bacitracina, Cicalfate, Bepanthene, foram inúteis.

Na última consulta a médica indicou-nos esta dupla da Isdin: Nutraisdin ZN40 para as mudas de fralda regulares e Nutraisdin AF para a primeira e última mudas do dia.

Em três dias todas as feridas fecharam. Vou poupar-vos a fotos da maravilhosa bundoca do meu bebé mas creiam-me quando digo que ainda só passou uma semana e meia e as melhorias são muito evidentes.

Não são a coisa mais barata do universo (o pack na farmácia ficou a 25 euros mais cêntimo menos cêntimo), mas se é só quanto custa a minha tranquilidade a minha conclusão é: está barato.

Adeus e até nunca

Não gosto de ti.

Olho-te nos olhos e vejo sonhos roubados, noites de sono atiradas pela janela e muitas lágrimas.

Não gosto de ti porque tens a cara e o corpo da minha frustração.

Porque me levaste memórias que queria construir e porque fizeste um trabalho que era meu. Meu, meu, meu.

Alimentaste por mim o meu bebé.

E eu não gosto de ti, por muito que ele possa ter precisado de ti. Por muito que ele possa, ao contrário de mim, ter gostado de ti.

Não gosto e ansiei por este momento desde que abri, lavada em lágrimas, a primeira lata, desde que fiz, destruída, o primeiro biberão.

Tão não gosto de ti que dizer que não gosto de ti é curto. Odeio-te, na verdade.

Hoje choro e rio ao mesmo tempo.

Não passas de uma caixa vazia e vais para o lixo.

É sem pena que me sirvo do que tens para oferecer pela última vez.

É sem pena que me desfaço do que resta de ti pela última vez.

O meu filho já não precisa de ti. Finalmente.

Já eu… Nunca te quis nas nossas vidas.

Adeus. Até nunca.

Fraldas reutilizáveis – 5 notas práticas que gostaria de ter lido

 

Para muitos pais, as fraldas reutilizáveis começam a ganhar terreno enquanto alternativa às fraldas descartáveis.

Pessoalmente, acho que me encontro em boa posição para opinar já que, tendo dois filhotes, cada um experimentou uma destas opções: o Martim nunca viu outra coisa que não fraldas descartáveis, o Miguel anda com reutilizáveis (actualmente tenho 38, quase todas compradas na Ecological Kids e faço duas máquinas de fraldinhas por semana).

Às fraldas descartáveis ninguém lhes tira um mérito inegável: são práticas. Usa, lixo. Fim. Em qualquer circunstância.

As fraldas reutilizáveis, apesar de implicarem um pouco mais de logística, também têm os seus encantos. Um único investimento e muito amortizável, sobretudo no caso de se pretender ter mais do que um bebé.

Posto isto e pondo de lado estas considerações iniciais, tenho algumas notas que gostava muito que alguém me tivesse deixado, para além do clássico ‘vantagens e desvantagens’ de uma e outra opções (e que facilmente encontramos se pesquisarmos no amigo Google). Aqui vão elas:

  • As fraldas reutilizáveis que, compradas novas, são caaaaras, têm um mercado de segunda mão que as torna bastante mais acessíveis

A sério, se eu soubesse o que sei hoje, em vez de me atirar de cabeça para um pack completo de 30 fraldas multimarcas por € 750, tinha comprado a mesma quantidade por quase um décimo do preço (não estou a exagerar). E não é preciso ir longe, mesmo no market place do nosso querido facebook podem procurar que, de tempos a tempos, aparecem ofertas que me fazem querer bater com a cabeça na parede, pela minha ineficiência.

  • Se complicarem demasiado, não vão usá-las

Quem já procurou informar-se sobre o assunto de certeza que ficou com um nó tão grande no cérebro como eu: fraldas planas, pré-dobradas, fraldas de bolso, tudo-em-um, fraldas de tamanho único, de tamanho variável, com fecho em velcro, com fecho em botões… what??? O facto é que, se se deixarem embrulhar pelo excesso de informação, é fácil abandonarem a ideia tão depressa como a tiveram.

Por isso, deixem-me facilitar-vos a vida. Não existindo um cuidador em permanência com a criança para controlar estes processos, não vão querer ter mil fraldas para mil efeitos diferentes. E, pela minha experiência as opções mais práticas, mais versáteis e mais friendly independentemente da marca (e também há muitas, muitas marcas), são as seguintes:

  1. Quanto ao tamanho: único, sempre. Varia um pouco de marca para marca, mas a tendem a servir entre os 4 e os 16kg. Com o Miguel optei por comprar fraldas descartáveis para recém-nascido (não achei que valesse a pena investir num arsenal de fraldas que deixaria de lhe servir enquanto o diabo esfrega um olho) e, assim que ele atingiu o peso mínimo passei a usar as reutilizáveis, que são as mesmas que usa hoje com 10kg e as mesmas que usará até ao desfralde. Na minha opinião, apesar de serem uma opção um pouco mais cara, tornam o investimento mais seguro e menos trabalhoso do que comprar por tamanhos. Mais fraldas a servirem ao mesmo tempo = menos máquinas de fraldas para lavar.
  2. Quanto ao fecho: é absolutamente indiferente. Mesmo. Escolham as que forem da vossa preferência. Pessoalmente, prefiro com botões; contudo, noto que, para pessoas não familiarizadas com as fraldas reutilizáveis torna-se psicologicamente mais suave lidarem com as de fecho em velcro porque são mais próximas das velhas conhecidas descartáveis. Cuidadores ocasionais, avós e educadores desta vida podem ter a sua vida facilitada neste aspecto.
  3. Quanto à composição: idealmente – e era aquilo em que acreditava antes de as usar – dir-vos-ia que as chamadas ‘tudo-em-um’ seriam as mais práticas já que, tratando-se de fraldas com absorvente já integrado na capa impermeável, são as que mais se aproximam das fraldas descartáveis. Usa, saco para lavar. Fim. Todavia, a experiência tem-me levado a preferir as fraldas de bolso, isto é, aquelas em que a capa impermeável e o absorvente vêm separados. Porquê? Algumas tudo-em-um não permitem reforço com mais absorventes (o que, principalmente durante a noite, acaba por resultar em bebés molhados e desconfortáveis e em adultos acordados e rabugentos). Outras permitem, mas o acesso é difícil (sobretudo se pensarmos na hora de desmontar a dita cuja, encharcada em substâncias nas quais não nos apetece propriamente tocar). Para mais, com as de bolso, em caso de eventual deterioração do absorvente/capa, basta substituir por outro(s) dos muitos que terão enquanto que, se o mesmo acontecer com uma tudo-em-um, é uma fralda que vai para o lixo.

O que me leva à terceira nota.

  • Todos os absorventes servem para todas as capas e todas as fraldas reutilizáveis requerem os mesmos cuidados

Quem me dera ter sabido isto antes de passar algumas horas da minha vida a catalogar fraldas por marcas, por tipos de cuidados e apontar criteriosamente que fraldas tinham vindo com que absorventes, para poder lavá-las todas juntas e voltar a emparelhá-las (a foto abaixo é da minha agenda do ano passado e não me deixa mentir). Burra. Burra. Burra.

 

 

É verdade que, consoante a marca, as indicações de lavagem e secagem podem variar: algumas permitem secagem na máquina a temperaturas muito variáveis consoante a marca, outras não; algumas podem ser lavadas a 60º, outras a 40º, algumas ainda apenas a 30º. Mas também é verdade que se torna totalmente impraticável separar as queridinhas por categorias de cuidados e fazer uma máquina para cada uma delas. Por isso, confiem em mim: atirem tudo para lavar a 30º, deixem o amaciador e a lixívia na prateleira e ponham igualmente de lado a secagem na máquina. As fraldas secam razoavelmente depressa ao ar, mesmo num estendal interior e não vale a pena o risco (aprendi esta à custa, justamente, de arriscar e danificar um par delas).

  • As fraldas descartáveis não sairão, em definitivo, das vossas vidas

Gosto muito das fraldas reutilizáveis e gabo-as a quem for, mas há situações em que prefiro não ser fundamentalista. Convenhamos, ninguém quer ir de férias com uma mala extra de 30 fraldas reutilizáveis e o ónus de as lavar. Nessas circunstâncias, ainda prefiro comprar um pacotinho de fraldas do que a chatice.

  • As fraldas são todas muito parecidas… mas há umas melhores do que as outras

O que não faz, ainda assim, grande diferença durante o dia. Uma fralda ‘mais ou menos’ serve exactamente o mesmo propósito do que uma óptima quando estamos todos em estado alerta e trocamos os miúdos com uma frequência adequada.

Mas de noite… Ah, de noite é que as fraldas provam o seu valor. E para a noite a minha marca de eleição é só uma: Blueberry (com as Bumgenius num segundo lugar, honroso mas longínquo). O cadastro das minhas Blueberry é impecável, sem registos de acidentes nocturnos (pelo menos que não tenham sido causados pela minha inexperiência, apertando-as mal). Não posso dizer o mesmo de qualquer das outras marcas que tenho e são algumas (Piriuki, Charlie Banana, Blueberry, Bumkins, Bumgenius, Totsbots, Wonderoos, Bambino Mio). Bom, para ser rigorosa, comprei não há muito tempo uma da marca Baba+Boo, pelo motivo exclusivo e profundo de achar que ia ficar gira no rabinho do meu bebé e sinto-me tentada a crer que será material de uso nocturno. Mas, como só a testei uma noite, não consigo ainda afirmar com certeza.

Tudo isto para dizer: tenham quatro ou cinco fraldas em que realmente possam confiar para as noites.

***

E pronto. Espero que estas pequenas notas consigam ajudar alguém, poupar trabalho a alguém, elucidar alguém.

A mim, pelo menos, ter-me-iam dado jeito.

Deixo-vos com o Miguel a rebolar de alegria com uma das suas fraldinhas.

Uma alimentação… peculiar

Não existe mãe ou pai que não se preocupe com a alimentação dos seus filhos em algum momento das suas vidas (ou em todos, nalguns casos). O que comem, quanto comem, quando comem, são questões de importância capital, afinal, é um item da nossa inteira responsabilidade durante muito tempo. Não é, por isso, com surpresa que se torna num tema bastante abordado por nós, mães e pais blogueirinhos. Há poucos dias, a mamã Cátia do Benny&Me queixava-se de que a sua Benedita, de nove meses, mama com mestria mas come com parcimónia (que é como quem diz, manda-a comer a ela, na maior parte das vezes). O papá David, do Duas Para Um – Daddy Blog, gabava-se da recente conquista em relação à sua também Benedita. Com três anitos finalmente, come peixe sem truques! Neste último post comentei isto:

Nem de propósito e não sem uma pontinha de ironia, nessa mesma noite o meu aventureiro Miguel, o bebé mais boca fácil que alguma vez vi, depois de perseguir o irmão até à casa de banho, aparece, triunfante, na sala, segurando um objecto. Entre ‘Miguel, o que é isso?’ e ‘Não ponhas na boca! Não, não, nããão!’ Percebemos o que era.

Passou-vos pela cabeça ‘mas isto é um bloco sanitário?! Que nojo!!’. Passou bem, porque é isso mesmo. Um bloco sanitário. Velho. Muito velho, aliás. Tão velho que nem nosso é, mas do anterior proprietário da nossa casa. E é um nojo. Mas é um risco que se corre quando se tem um filho que ‘come de tudo’: ele comer, literalmente, de T-U-D-O.

Esta é a história do Miguel – Ou daquele tempo em que fui ‘mãe solteira’

Esta é, finalmente, a história do Miguel.

A história que faltava foi a mais dura de escrever. Mas com a chegada do novo ano, arrumei as desculpas e aqui está ela, com toda a honestidade que sei que tem que ter. E dura como a sinto.

Tal como a do Martim, a história do Miguel começa antes dele mesmo. Na minha cabeça. Na minha vontade. Nas circunstâncias em que o concebi, criei, imaginei, sozinha, comigo mesma.

E tal como o Martim, o Miguel chegou no mais inoportuno dos momentos…

Relações têm altos e baixos, não é segredo para ninguém. A minha não é excepção. Mas confesso que não esperava que o ano mais difícil de uma relação pudesse ser aquele que se segue ao casamento. Contudo, e porque estas coisas não se escolhem, para nós foi assim mesmo.

Sabem aquelas chamadas de má qualidade em que um não consegue ouvir o outro e este, por sua vez, entende mal e gera-se uma discussão por coisa nenhuma? Pois. Não foi nada disso. Nós éramos, simplesmente, dois telefones sem rede. Estranhos debaixo do mesmo tecto. Sem assunto que não o nosso filho. Aparentemente, sem caminho de volta um para o outro.

Mas, mesmo com tudo o que corria mal (ou, por outra não corria, para lado nenhum), eu sabia no fundo de mim que queria voltar a ser mãe.

Inevitavelmente, multiplicaram-se cenários na minha cabeça com um a sobrepor-se aos demais: e se eu engravido apenas para nos separarmos a seguir?

Quereria eu viver e enfrentar essa realidade de ser, mais do que essa patetice de ‘mãe solteira’ (não sei quem inventou este rótulo social, ou quem o carregou de sentido pejorativo, mas espero que tenha tido uma longa e dolorosa vida), mãe a meias?

Porque separar-nos, tendo filhos, representa para mim muito mais do que a dor emocional de um casamento que termina e, por isso, de um projecto de vida que falha. Representa sobretudo, se tudo correr bem e na melhor das hipóteses, perder metade das noites, metade dos dias, metade dos fins-de-semana, metade das férias, metade das festas, metade das conquistas, metade dos nossos filhos

Seria capaz?

Seria. A questão ainda não tinha terminado de se colocar na minha mente e a resposta já estava a ser gritada. Eu queria ser mãe outra vez, a melhor mãe possível nas circunstâncias que tivesse em cada momento e independentemente delas.

Então resolvi predispor-me a alcançar o que queria. Informei o Mário que deixaria de tomar a pílula a partir da data x. A partir daí, se ele não quisesse o mesmo que eu, que tomasse ele as devidas providências (foi assim mesmo. atendendo à nossa realidade da altura foi o máximo que consegui em termos de comunicação. uma merda, eu sei, mas na altura não deu para mais).

Fui a uma consulta de planeamento. Sozinha.

Na sequência dela, comecei a treinar com a Maria, como contei aqui.

Dois meses depois o Miguel não vivia mais só na minha imaginação.

Era real.

E foi muito difícil, mas resolvemos a nossa falta de rede. Hoje o Mário não faz ideia do que eu falo quando lhe lembro que estivemos em maus lençóis (true story, parece uma Dori dos maus momentos o meu marido).

Já eu faço por não me esquecer.

Aquele ano ensinou-me muito sobre quem sou e não sabia.

Que tudo o que sabe a fel nas nossas vidas seja assim.

‘Já só choro lágrimas de mãe’

Foi o comentário que fiz há alguns dias a uma amiga.

‘Já só choro lágrimas de mãe’.

No contexto em que o disse queria transmitir a ideia de que estou perfeitamente em sintonia comigo mesma e que, apesar de me ver hoje com a lágrima mais fácil, normalmente os meus momentos de choro estão relacionados com os altos e baixos da maternidade.

Sem querer, por estes dias, acabei por ter um exemplo muito flagrante disso. Já mencionei por aqui algures que os M’s, embora não pelo mesmo motivo, sempre dormiram cada um na sua cama, e apenas muito raramente na nossa.

Pois bem. O Miguel tem cerca de 342 dentinhos a nascer ao mesmo tempo e a horizontalidade nocturna aumenta-lhe visivelmente o desconforto. Tem acordado muitas vezes a chorar e só pára se sentir a minha mão. Na prática, significa que, apesar de o deitar sempre na sua caminha, passado um par de horas tenho tido que ir buscá-lo para dormir comigo.

Depois de duas ou três noites neste regime e a dormir pouco e mal, ontem apenas tive que ir buscá-lo perto das 6h30. Que bom, não é? Sinal de que se sente um pouco melhor e de que eu vou voltar a dormir em condições…

Não.

A minha cabeça semi-esquizofrénica de mãe não conseguiu simplesmente encarar a boa notícia. Dei comigo a chorar abraçada ao meu bebé adormecido nos meus braços. Ele ia voltar a dormir a noite toda na cama dele e eu ia voltar a ficar sem aquele calorzinho bom dele a procurar consolo, sem aquelas mãozinhas frias a sossegar apenas nas minhas, sem aquele beicinho de chucha a dormir tranquilo.

Foi assim que descobri o REAL motivo pelo qual cada um deles sempre dormiu na sua caminha. Não foi para que eles não se habituassem. Foi para que EU não me habituasse.

E sim, já só choro ‘lágrimas de mãe’ o que significa coisas muito boas para a mulher.

Mas, ainda assim, lágrimas de mãe são uma torneira estragada: não precisam de motivo para correr.

Os ciúmes do Martim

O Miguel fez um ano e o mundo do Martim mudou um pouco.

Aconteceram por estes dias algumas coisas pela primeira vez. Coisas que ele ainda não tinha percebido que faziam parte do pacote ‘ter um irmão’ e com que ele não estava claramente preparado para lidar.

Desde logo, o Miguel teve um dia especial quando até aqui só ele tinha dias especiais. Toda a gente deu os parabéns ao Miguel e ele ficou sempre, sem excepção, com cara de ‘e eu?’

A contagem de presentes também não foi favorável. Muitos para o Miguel, dois ou três para o Martim.

O Miguel tem roupas novas. O Miguel tem, pela primeira vez, brinquedos que são dele de pleno direito e já não precisa de brincar só por empréstimo consentido do irmão.

Tudo isto tem sido visivelmente desconfortável para o Martim.

Pela primeira vez desde que o Miguel nasceu, o Martim demonstra ciúmes de forma evidente.

Há mais birras. Mais medição de força connosco. Mais proteccionismo em relação às suas coisas e maior necessidade em impôr-se ao irmão.

Foi o Martim quem estreou todos os brinquedos que o Miguel recebeu nos anos, aproveitando-se do mano ter adormecido no caminho para casa a seguir à festa e indiferente ao facto de serem, na sua maioria, brinquedos marcadamente para bebé (obviamente).

E, quando ontem de manhã vesti um casaquinho novo ao Miguel e perguntei ao Martim se achava que o mano estava giro, ele deixou cair um beiço até ao chão e não respondeu.

Como em todas as outras vezes que quero que ele fale comigo, abracei-o com força. Perguntei se estava triste. Abanou a cabeça que sim. Perguntei porquê.

‘É que eu também queria um casaco de tigre igual ao do mano’.

Choramingou um pouco e eu abracei-o com mais força.

Expliquei-lhe que o casaco é de bebé, que não há o tamanho dele, que cada um deles é único e que ele, com as roupinhas que veste, tem muito estilo.

Além disso, lembrei-o de que já pediu ao Pai Natal pijamas iguais para ele e para o irmão (lembram-se desse meu drama? ENCONTREI na Zara, dois pijamas bem quentinhos e iguais para os meus pinguins).

O Martim percebe. De verdade. o Martim compreende tudo. Mas ao mesmo tempo… Não. Porquê? Porque tem quatro anos e é tão sensível quanto qualquer um de nós.

Reconheço: ele é tão fantástico, tão ‘adulto’ na forma como fala, no vocabulário que usa, na maneira como demonstra apreender o que o rodeia, que às vezes me esqueço que ele é um bebézão. Um bebézão bem falante e extremamente inteligente, mas um bebézão.

Felizmente, de tão fantástico como é, o Martim ajuda-me a lembrar.

Sinais do Natal III – a chegada do Miguel

É até injusto o título deste post. O Miguel não é UM sinal do Natal. O Miguel é O sinal do NATAL.

Em 15 de Dezembro de 2016, faz hoje precisamente um lindo, maravilhoso, mágico e único ano, em hora de ponta, como o irmão, sem esperar o pai chegar a casa do trabalho, como o irmão, o Miguel resolveu chutar a bolsa de águas com um pouco mais de força, como o irmão, e fazer a vontade à mãe, como o irmão, ao não ‘passar do prazo’.

Com tantas coisas ‘como o irmão’, senti que, como com o irmão, ia acontecer tudo muito rápido e por isso, ao contrário do que fiz com o irmão, não fiquei a pastelar no sofá, não me arrastei para comer um lanchinho, não desfilei para o duche. Levantei-me de um salto, fiz algumas chamadas essenciais, atirei-me para o chuveiro e preparei-me para sair.

Os meus pais trouxeram-me da escola o Martim. Expliquei-lhe o que ia passar-se, que a minha ausência seria curta e por um motivo muito feliz. Vi nos seus olhos que entendeu. Ele, porque é o melhor menino do Mundo, abraçou-me e ficou bem, como sempre fica.

As dores começaram a ficar muito sérias, muito depressa. Por momentos achei que o maridão não chegaria a tempo de me levar e isso deixou-me um pouco ansiosa. Felizmente ele chegou e arrancou de mim qualquer réstia de maus sentimentos, tão desnecessários nessa hora. Lá fomos para o Hospital Garcia de Orta, casa que viu nascer também o Martim.

Mas homem não sabe o que é uma contracção forte. Não sabe. Se soubesse, homem não perguntava à sua mulher com contracções fortes, enquanto conduz na bela estrada esburacada deste país, se vira à direita ou segue em frente. Se soubesse, homem não interpretava a falta de resposta como um incentivo para pedir mais qualquer coisa do tipo «aperta a minha mão uma vez para ‘frente’ e duas para ‘direita’». Se soubesse, homem não confundia o apertão que levou na mão com uma resposta. Não. Jamais. Mas homem não sabe. E por isso o meu preocupado marido fez esse papelão no carro a caminho do hospital. Hoje à distância, rio-me do grau de desorientação a que é levado um quase pai. Na hora… Bom, nem por isso.

Já no hospital recebi o retorno mais desejado que alguma vez tive relativamente a uma chamada feita e não atendida. O meu enfermeiro/guru/Deus Bruno Rito – o melhor enfermeiro parteiro à face da Terra e só não do Universo porque não consta que o Universo tenha face – disse-me o que eu queria ouvir, no mais perfeito dos timings: estou por aqui, vou buscar-te (grávidas que me lêem, podem – e devem – conhecer este anjo na Terra aqui, aqui e sobretudo, aqui, onde dá os seus cursos de preparação para a parentalidade).

Após avaliação, como antevia, constatou-se que o trabalho de parto já estava avançado e fui encaminhada para o Bloco de Parto. A bênção da analgesia epidural chegou pouco depois e também um pouco fora dos critérios (mais uma vez, tenho tudo a agradecer ao Enf. Bruno Rito pelo silêncio conivente e solidário que permitiu que me fosse administrada a epidural já ‘fora de horas’).

A dor morreu para deixar nascer o meu bebé. A partir daí foi tudo muito, muito rápido. Ou, pelo menos, foi assim que o percepcionei. Num piscar de olhos o Mário estava perto de mim e eu alternava entre o banco de parto – onde queria ter o meu filho – e a marquesa, para permitir que o Enf. posicionasse o Miguel da forma mais favorável possível. Num instante, tinhamo-lo nos braços, forte, grande e a fazer-se ouvir, cheio de vitalidade.

Eram 19h24 quando me tornei mãe pela segunda vez. Honestamente, foi como se fosse a primeira. Porque é única a sensação de olhar nos olhos aquela pessoinha com quem conversámos baixinho durante nove meses e que durante nove meses foi a nossa companhia permanente, para o bem e para o mal. Foi agridoce. Tinha-o finalmente nos braços, mas nunca mais moraria dentro de mim. Pelo menos, não literalmente.

O meu monstrinho chegou a dez dias do Natal. Trouxe presentes para o mano, como quem pede desculpa por todos os colinhos da mãe que já lhe havia roubado até aí e por todas as partilhas forçadas que ainda virão, mas não precisava. O Martim é, desde o momento em que conheceu o irmão, o mano mais velho mais orgulhoso do Mundo.

Mas melhor do que tudo: trouxe-se de presente para nós, lindo, saudável.

E hoje é o dia dele. Do meu anúncio de um Natal para sempre perfeito.

Dele e nosso com ele, tal como no primeiro momento.

Sinais do Natal I – as fotografias da escola

Ser mãe traz um renovado encanto às fotografias da escola.

Como grande parte das crianças o meu eu de antigamente odiava esse momento. Lembro-me de raramente aprovar as escolhas de vestuário da minha mãe, abominar a minha franja e sentir-me, já na terceira classe, uma menina demasiado gorda para ficar bonita (sim, na terceira classe! Não sei onde as meninas aprendem esta arte da auto-depreciação, mas é matéria que dá para uma mancheia de posts por isso, fico-me por este parêntesis).

Agora acho tudo lindo! Os meninos todos a chegar à escola no seu ‘traje de Domingo’, de cabelo comportado e, por enquanto, muito cheios de si na hora do click.

As recordações que ficam são um espanto e desde que o Martim entrou na escola que monto um álbum só com esse – hoje – tão apreciado evento que são as fotos da escola (há alguma coisa mais linda que aquelas fotos de grupo?).

Para mim tornaram-se, assim como o ‘Sozinho em casa’, um prenúncio do Natal.

Este ano o Miguel juntou-se ao ritual e estas são as suas primeiras fotografias de escola. Frequentando a mesma que o Martim, acabei por embarcar num num pequeno dilema: fotos juntos ou separados?

Decidi-me – como vêem – pela opção da riquinha que não sou: fotos separados. Têm também uma foto juntos (mega opção de rica, já que é paga à parte) mas, não sendo os meus M’s siameses, não achei justo ‘roubar’ ao Miguel os seus próprios percurso e experiência escolares…

Cálculo que esta tenha sido o primeiro de muitos e muitos lançamentos do dado ‘juntos ou separados?’ por isso pergunto-vos, gente boa com mais de um filhote: para que lado costumam pender, juntos ou separados e porquê?

(E entretanto: Bom segundo fim-de-semana grande!!!)