Quando eu era pequena…

Esta é Uma história…

Esta não é, definitivamente, a história da minha infância. Essa é muito feliz.

Mas esta é UMA história da minha infância que eu acho que preciso de contar.

 

Quando eu era pequena

Quando eu era pequena, eu apanhava, ocasionalmente. Não eram muitas vezes. Mas de vez em quando eu e o meu irmão… Nós apanhavamos.

Não sou traumatizada por isso. Não me sinto menos pessoa porque levei umas palmadas quando era miúda. Nada disso… Sobrevivi, como se diz por aí.

Mas se me perguntarem ‘Havia necessidade?’ Não, não havia necessidade alguma de me baterem.

Se me perguntarem ‘Lembras-te porque é que apanhavas?’ Tenho que responder que não. Com excepção de uma ocasião em particular em que a injustiça foi tão grande e os meios e palavras usadas foram tão violentos que não me consigo esquecer… Não. Realmente não me lembro das situações que me levavam a apanhar.

E se me perguntarem ‘Mas aprendeste alguma coisa sobre o certo e o errado nessa alturas? Fizeste alguma coisa diferente?’ Novamente tenho que responder que não. Se não me lembro porque é que apanhei, muito menos terei aprendido o que quer que seja sobre a rectidão dos meus comportamentos de acordo com o padrão de valores que se pretendia implementar em minha casa…

 

Aquela coisa que eu aprendi

Mas houve uma coisa que eu, infelizmente, aprendi.

Uma coisa que eu gostava muito, muito de não ter aprendido.

Eu aprendi que de vez em quando, só de vez em quando, não faz mal batermos nos nossos filhos.

E então, depois de ser mãe e mesmo tendo por dado adquirido que não seria ‘a mãe que bate nos filhos’, às vezes, só às vezes, quando eu ficava muito desesperada, muito assoberbada, muito descontrolada ou muito cansada… Eu batia no Martim. Não melhorava nada e ele não parava o que quer que estivesse a fazer por causa disso, mas eu batia no Martim.

E batia-lhe mesmo sabendo que um dia ele também não vai ter ideia de porque é que apanhou, que ele também vai achar completamente desnecessário ter apanhado e que ele vai conhecer, tal como eu, o tanto de nadas que se aprende sobre o certo e o errado quando se apanha.

E esse é… O melhor dos cenários. Porque se ele for como eu, se ele se lembrar como eu, mais do que sentiu nesses momentos do que do que aconteceu nesses momentos, talvez vá, também ele ter uma vozinha interior como eu tenho e que lhe diz que de vez em quando, só de vez em quando, não faz mal bater nos filhos. Para os corrigir. Para os disciplinar. Para os ensinar. Por amor.

É verdade. Sobrevivi. E, tal como eu como eu, ele vai, também sobreviver. E não vai amar-me menos por isso.

 

MAS (diz que há sempre um desses…)

Mas, a sério que a melhor justificação que conseguimos arranjar para fazermos ou não alguma coisa é a mera expectativa de que sobreviveremos, nós e eles, a isso?!

A sério que a MELHOR razão que conseguimos arranjar para fazermos ou não alguma coisa é o facto de ter sido ‘sempre assim’?

Será que não conseguimos melhor? Melhores razões, que seja? E será que é assim tão importante para nós mantermos tudo como sempre foi, apenas porque sempre o foi e se nós sobrevivemos também os nossos filhos sobreviverão?… Porquê?!

Ninguém duvida que os nossos pais fizeram o melhor que podiam e sabiam. Certamente não se sentirão feridos apenas pelo facto de não querermos imitá-los em tudo, nem isso limita o amor, a gratidão e o respeito que lhes temos…

Mas olhando para trás… De facto, eu lembro-me que, de vez em quando, apanhava. Mas, tirando isso, eu não me lembro de rigorosamente mais nada sobre apanhar.

Que raio de lição é essa?

Que raio de memória é essa?

Uma que eu não queria que os meus filhos tivessem… E que vou fazer por apagar ou, pelo menos, esbater.

Assinado, Mãe

 

O Convite

No cacifo do Martim encontrei um convite para a festa de uma amiga. Amiga dele a menina, amicíssima minha a mãe dela, vai para 25 anos tarda nada.

Já sabia, claro, do aniversário, da festa, do dia e por isso na hora não atentei no quadradinho de papel.

Só no dia seguinte reparei no pormenor que pedia confirmações até à data x para o seguinte contacto: Mãe – 9xxxxxxxx.

Assim mesmo. Quem convida é a pequena L. Quem organiza é a Mãe. Sem nome.

Talvez já me tenha cruzado com mil outros convites assim, talvez nunca tenha notado este pormenor até aqui, mas sucede que aquela ‘mãe’, para mim é a Cátia. A minha Cátia. A Cátia de sempre.

 

Mães sem nome

Não é novidade que a forma como o Mundo nos vê muda a partir do momento em que nos tornamos mães. E não é preciso nem parir para isso, porque na gravidez já perdemos toda a identidade.

Perdemos o nome, quase que automaticamente.

Passamos, simplesmente, a ser ‘a mãe’ de alguém: nas consultas, nas ecografias, no hospital do parto, nas lojas específicas de produtos de bebés, nas escolas dos miúdos, nos locais onde lhes organizamos as festas….

Mas é engraçado como vamos, nós próprias, assimilando, aceitando e resignando-nos com o facto de ninguém saber ou querer saber o nosso nome. Ao facto de só existirmos em função de uma parte específica da nossa vida, de um papel que desempenhamos, entre tantos outros.

Entendo que, na maior parte desses contextos, não seja, talvez, comportável, saber o nome de todas as mães que por ali circulam. Mas, caramba… Antes de sermos a ‘mãe’, ainda somos mulheres! E em qualquer situação em que nos tenhamos como perfeitamente desconhecidas e desacompanhadas dos nossos filhos, somos simplesmente ‘senhoras’, certo?

Não é que me ofenda ou me sinta diminuída ao ser constantemente chamada de ‘mãe’ por pessoas que não são minhas filhas.  Não se trata disso (embora tenha que confessar que foi uma lufada de ar fresco perceber que a escola que os meus filhos frequentaram pela primeira vez este ano faz esse esforcinho extra de chamar os pais pelos seus nomes).

Ser mãe dá muito sentido à minha vida. ‘Mãe’ é um título que ostento com muito orgulho. O que me incomoda é constatar que nos acomodamos, aos poucos e até sem darmos por isso, com tudo aquilo que significa ser apenas, e na maior parte dos contextos e dos momentos das nossas vidas, ‘a mãe’.

Porque quando olhamos o espelho e começamos a ver cada vez mais apenas ‘a mãe’, corremos o risco de nos perdermos da mulher que sempre fomos, da que somos e, sobretudo, da que queremos ser para lá da maternidade.

E com isso, deixamo-nos para trás. O tempo, já curto, é cada vez menos dedicado a coisas que nos apaixonam, absorvem, relaxam. E quando fazemos alguma dessas coisas é com a cabeça cheia de ‘tenho que me despachar’ e um estranho peso na boca do estômago que nos diz que estamos a fazer algo errado. Diz que se chama culpa.

E a culpa, pessoas… A culpa é uma treta inútil, frustrante e paralisante.

A culpa pertence ao nosso caixote do lixo emocional e sem direito a reciclagem.

 

De volta ao convite

Quanto ao convite, tenho apenas isto a dizer à pessoa que o subscreveu: Mãe?! Tu não és a porra da mãe, és a Cátia! Quando muito a ‘Cátia, entre parêntesis, mãe’. Quem és tem um valor inestimável, pelo menos para mim!

Ah!… E confirmo a nossa presença.

Com amor,

Inês

 

Portaste-te bem hoje?

‘Até já meu amor, porta-te bem’

Todos os dias, ao deixar os M’s na escola, despedia-me com ‘até já meu amor, porta-te bem’.

Nada de especial, certo?

Num desses dias o Martim devolveu-me um ‘tu também, mamã!’ e eu achei piada. Ri-me.

Mas fiquei visceralmente a matutar naquilo e, mesmo não sabendo muito bem justificar porquê, passei a despedir-me com ‘até já meu amor, tem um bom dia’.

Do mesmo modo é corrente que mais ou menos qualquer pessoa próxima às crianças pergunte se se portaram bem na escola, com os pais, na festa, no parque, enfim, em qualquer que seja a circunstância.

Ontem à noite, enquanto conversavamos sobre os nossos dias respectivos o Martim concluiu: ‘eu portei-me bem na escola, a mamã portou-se bem no trabalho e o papá também’.

Aproveitei para lhe perguntar o que ele achava que queria dizer eu portar-me bem no trabalho, de que forma é que eu poderia, na perspectiva dele, portar-me bem no trabalho e ele respondeu, com a clareza de um murro no estômago, o seguinte: ‘Portares-te bem é fazeres tudo o que o teu chefe manda’.

Aquele sentimento visceral, que eu não soube identificar na altura, mas que me fez mudar a forma como os deixava na escola voltou e de repente percebi o que era: medo e repulsa.

Portar bem = fazer o que me mandam.

Portar bem = obedecer.

 

Questionamentos de cabeceira

Não é assim que eu quero que seja medida a minha performance profissional, pelo meu grau de obediência. Ninguém quer, eu acho. Somos seres pensantes. Questionar algo que não compreendemos ou com que não concordamos, sugerir alternativas que nos pareçam mais viáveis ou úteis ou vantajosas faz, necessariamente, parte de um núcleo de competências valorizado em qualquer ambiente profissional sadio. Também não é assim que eu quero ser avaliada no contexto das minhas relações interpessoais, pelo quanto eu concordo e me conformo com o que os demais pretendem.

Então, porque quereria eu medir a qualidade da minha relação com os meus filhos pelo seu grau de obediência aos meus comandos? Será que queremos mesmo filhos obedientes?

«SSSIIIIIMMMMM, claro»?

Entendo o impulso, mas peço-vos que não respondam já, sobretudo se estiverem a ler isto depois de pedir mais do que dez vezes ao vosso filho que vá lavar os dentes ou se acabaram de detectar mais um cabelo branco por conta da vossa filha insistir em fazer o exacto oposto daquilo que vos permite sair de casa a horas.

No curto prazo, e pensando em nós próprios como a autoridade, é claro que todos queremos filhos obedientes. E companheiros obedientes. E pais obedientes. E irmãos e amigos e vizinhos e funcionários e prestadores de serviços e estranhos com quem nos cruzamos na rua obedientes. Quem não gostaria que os outros fossem sempre de encontro àquilo que queremos que façam, quando queremos que façam e nos termos em que queremos que façam?

Mas, voltando aos nossos filhos, querê-los-emos obedientes quando um estranho os abordar dizendo ‘Vem comigo, se te portares bem, dou-te um rebuçado’? Querê-los-emos obedientes quando a pessoa dominante do seu grupo de amigos iniciar uma qualquer actividade perigosa ou desrespeitosa, como ridicularizar ou maltratar um colega, fumar, furtar um chocolate da mercearia? Querê-los-emos obedientes se alguém com autoridade sobre eles, educador, professor, treinador ou figura similar, abusar da autoridade que tem e ordenar que se calem sobre o assunto?

E no longo prazo? Qual será o preço da obediência que hoje exibimos como motivo de orgulho nos nossos filhos? O que diremos quando eles se desculparem por qualquer acção errada com ‘não tenho culpa, só fiz o que me mandaram?’ (Até sei. Responderemos, como todas as mães e pais do Mundo intemporalmente respondem, ‘e se te mandarem atirares-te a um poço, atiras-te?).

Compreendo que a obediência aos comandos possa ser essencial em determinados tipos de actividade – como na vida militar em que tantas vezes a vida e a morte se jogam na obediência – mas mesmo nesses contextos, deve a obediência ser cega?

Até ontem, de alguma maneira, eu já intuída que não.

Mas hoje, acredito assertivamente que não.

 

Obrigada Martim

Por muito que me custe argumentar constantemente porque é que a hora de ir dormir é esta e não outra, porque é que se come carne em vez de rebuçados ao almoço ou porque é que é dia de ir para a escola e não para o parque de insufláveis, pesando os prós e contras, é isso que quero fazer. Ser questionada sobre as minhas escolhas enquanto mãe pelas pessoas que mais são afectadas por elas: os meus filhos. Aliás, acho mesmo que, em terra de palpiteiros, eles serão talvez os únicos com alguma legitimidade para os dar.

Saber obedecer é relevante. Mas mais relevante do que saber obedecer é conhecer as circunstâncias nas quais é importante fazê-lo e quais aquelas em que o importante é questionar a ordem.

E quem sabe se uma vez por outra não terão razão?

***

Até já e tenham um bom dia.

Famílias são feitas de todos os tipos de momentos

 

Amanheceu cedo demais. Pelo menos eu não estava preparada.

Eles acordaram cedo demais. Pelo menos eu não estava preparada.

Subiram na minha cama, saltaram mesmo depois de lhes dizer que não o fizessem.

Ainda debocharam da minha cara. Riram, felizes um com o outro e com o pouco caso que me faziam.

Fiquei emburrada ainda não tinha saído do quarto.

O Miguel fugiu de mim durante 10 minutos antes de finalmente conseguir trocar-lhe a fralda, com ele aos gritos.

Nas correrias dos dois, conseguiu tropeçar no molho de fraldas que estava a arrumar e magoar-se numa mão.

De mãos nas ancas, e ainda antes de o apanhar do chão, pareceu-me relevante perguntar aos dois se estavam agora satisfeitos.

Pergunta parva (era óbvio que não).

O Miguel chorou no meu colo. O Miguel chorou no chão. O Miguel chorou enquanto o Martim trocava de sapatos três vezes e exercitava o seu novo tique de puxar o maxilar para a frente, que irrita mais do que por vezes gosto de admitir.

O Martim não me ouviu pedir que fosse lavar os dentes.

O Martim “não me ouviu” pedir que fosse lavar os dentes.

O Martim “não me ouviu” pedir aos gritos que fosse lavar os dentes.

Fechei-lhe o computador. Acabaram-se os bonecos. E ele continuou a não ir lavar os dentes argumentando, ainda para mais, que o computador era do pai e não podia chegar e fechá-lo sem autorização.

Pouco importam os factos de ter sido eu quem comprou a porcaria do computador e de a ‘autorização’ não ter sido relevante na hora de lho ligar, mas na hora eu achei que sim e que, além de tudo, valia a pena discutir isso com ele.

Decidi que ia embora, quer ele lavasse ou não os dentes.

Saí com o Miguel, que tinha parado de chorar, mas voltou a chorar na hora de o por na cadeira do carro porque o que ele quer mesmo é conduzir.

Voltei para trás para dar mais dois gritos ao Martim que se pôs aos pontapés à porta de casa. Disse-lhe que fosse lavar os dentes. Gritou-me que não.

Arrastei-o para fora de casa, para dentro do carro, para cima da sua cadeira, enquanto lhe explicava que meninos que não lavam os dentes não podem, nunca mais, meter à boca o que quer que tenha açúcar, para não os estragar.

Voltei para trás para ir buscar uma t-shirt para o Miguel. Quando voltei, o Martim tinha tirado o cinto e estava a tentar sair do carro.

Queria ir lavar os fucking dentes.

«NÃO!»

Gritou o caminho para escola inteiro.

Gritou quando lhe exigi que parasse de buzinar no meu carro enquanto deixava o Miguel na escola.

Gritou quando o arrastei comigo para a escola do Miguel porque não quis parar. Ou sair do carro. Ou sair da estrada. Ou mexer-se, de todo.

O Miguel tem a mão cheia de sangue. Ao cair cortou-se num dedo e achou engraçado esgravatar a ferida no caminho.

Eu não achei tanta graça, mas são perspectivas diferentes do que é humorístico.

Alguém palestrou ao Martim sobre os cuidados dos dentes, os bichinhos que se instalam, os dentistas e tudo mais. Depois ofereceu-lhe rebuçados de chocolate. Que eu não o deixei comer.

Estão no meu carro. A ver se chegam a casa…

Antes de deixar o Martim na escola conversámos. Pediu-me desculpa. Pedi-lhe desculpa.

Quando entrou na sua sala, continuava com os dentes sujos, mas tinha a alma lavada.

***

E eu também.

Porque a manhã foi um inferno, mas sentada ao volante do meu carro não consegui lembrar-me da última que tínhamos tido uma assim.

Dias de merda fazem parte.

Seguimos juntos e está tudo bem.

E se A cegonha criasse um blog?

«Mãe, de onde vêm os bebés?»

«São trazidos por uma cegonha, filho»

***

Acredito que esta já não seja uma ‘saída’ tão comum para este aperto no qual, enquanto pais, nos veremos mais cedo ou mais tarde mas, ainda assim, quem não conhece esta resposta?

Pois bem, os meus M’s, não tendo sido trazidos por uma cegonha, foram-me ambos entregues nos braços pela mesma pessoa, o mesmo enfermeiro, a minha cegonha: o Bruno Rito.

Quem é ele? Tenho a certeza de que já o mencionei algures por aqui. De há dez anos para cá é enfermeiro parteiro no Hospital Garcia de Orta, percursor do parto vertical naquelas instalações, com o banco e a cadeira de parto onde tive a felicidade de me sentar para ter cada um dos meus meninos e criador dos programas pré e pós parto que ministra no Clubcare, na margem sul.

Frequentei o curso de preparação para a parentalidade que o Bruno dá por indicação de uma amiga. Uma vez lá, arrastei comigo uma outra amiga. Depois disso, várias outras amigas e conhecidas minhas já lá foram parar. Esqueçam o currículo do homem: ouçam os pais. Todos, sem excepção, vos dirão, como eu própria ouvi, experienciei, e passei a dizer, que é o dinheiro mais bem gasto na vidinha de uns quase pais. Guru, Deus dos partos e, para mim, mais modestamente mas com todo o significado, A Cegonha, são coisas que frequentemente ouvirão dizer sobre ele a quem já frequentou as suas aulas.

É tão bom que quando engravidei do Miguel, voltei. Não que não me recordasse de praticamente tudo o que tinha aprendido. Não que não tivesse ainda todos os meus (muitos) apontamentos. Não que, verdadeiramente, precisasse. Mas o Bruno tem uma maneira de explicar os porquês de todas as coisas que envolvem os antes, durantes e depois de um parto que tranquiliza, além de muitas histórias para contar, exemplos para dar e dois pés muito bem assentes na terra… pelo menos na terra das mães. E isso faz com que a voz dele entre connosco para o bloco de parto e com que cada passo de tudo o que acontece seja identificado e reconhecido por nós. A resposta é automática, porque foi tão minuciosamente explicada e praticada que não pode haver outra no nosso cérebro. E tudo corre melhor quando estamos descontraídas, certo?

Como vos referi, o Bruno apresentou-me ao parto vertical em banco de parto. Sumariamente, o Bruno mandou fazer um banco de madeira cujo assento se assemelha muito ao de uma sanita, onde as parturientes podem parir, sentadas (em posição vertical, portanto), beneficiando das bençãos que a gravidade traz, com todo o conforto, metade da dor e muito menos trabalho, lacerações e outras coisitas desagradáveis. Quando se deparou com algumas dificuldades em convencer a instituição onde trabalha a utilizá-lo, virou o jogo e convenceu as mães. Quantas mais o utilizavam, mais apareciam a pedir para fazê-lo. Inevitavelmente, um Bruno só tornou-se parco para tanta demanda e os colegas começaram a aceder em aprender a técnica.

Eu tive, além de tudo, a sorte de ele estar de serviço quando chegou a hora dos meus dois partos. É alguém que está inevitavelmente ligado para sempre a dois dos momentos mais felizes e marcantes da minha vida. A minha gratidão só é igualada ao meu orgulho por fazer parte do leque das famílias que ajudou a aumentar e só pode ser superada pela minha vontade de gritar aos quatro ventos como ele é fantástico no que faz e como toooodas as grávidas que possam fazê-lo DEVEM recorrer aos seus serviços.

Mas… Nem todas podem, porque o Clubcare é so um e não sai do local onde está. E, por isso, quando A cegonha cria um blog, a gente faz serviço público e divulga (ah, se eu fosse uma blogger famosa, seria cá uma troca de @…). Tenho a certeza de que todas as informações que lá constarem serão úteis e divulgadas de uma forma simples, fundamentada, bem humorada e absolutamente esclarecedora.

Não sei, honestamente, onde irá desencantar tempo para escrever um blog, já que está sempre, sempre, sempre disponível por sms ou whatsapp para responder às nossas dúvidas existenciais e crises de maternidade, enquanto faz partos uns atrás dos outros, ensina turmas cheias na preparação para a parentalidade e na recuperação pós-parto e ainda recebe grávidas no Clubcare para CTG’s, vacinas e ajudas com probleminhas de amamentação, cólicas e afins. Ah! Não esquecendo que tem a sua própria família e que haverá, suponho, momentos em que dorme (mas só acredito, vendo).

Se quiserem conhecer mais, aqui ficam, para espreitar e seguir o blog e a página de Facebook do Bruno, acabadinhas de nascer e também o site do Clubcare, a quem possa interessar!

Blog: www.brunorito.pt

Facebook: www.facebook.com/BrunoRitoEnfermeiroParteiro/

Clubcare: www.clubcare.pt

Era mais fácil sozinha

 

Alguém duvida que esta vida se fazia muito melhor sozinha?

Só nós, dispondo de 100% do nosso dinheiro, para gastar em 100% do nosso tempo livre, em actividades 100% do nosso agrado.

Sem cedências para fazer, sem grandes compromissos para honrar, sem outras vidas a nosso cargo.

Alguém, em sanidade de espírito, pode duvidar disso?

Eu não duvido.

Então porque são tão raras as pessoas que escolhem viver dessa forma?

Porque é que tão poucos de nós queremos e apreciamos verdadeiramente viver sozinhos?

Ninguém me perguntou mas eu vou falar, porque eu sou dessas: porque o mais fácil nem sempre (ou quase nunca) é o melhor.

Ou o mais prazeroso.

Ou o mais compensador.

Ou (principalmente) o que nos faz mais felizes.

Mas quererá isso dizer que, escolhendo uma opção menos fácil, nunca mais nas nossas vidas poderemos desabafar sobre o quão difícil é, às vezes, aquilo que escolhemos fazer?

Será que nos torna mães menos merecedoras dos nossos filhos o quanto nos queixarmos do cansaço, da falta de tempo, das estrias, da memória de peixe e do pavio curto? Porque, afinal, ‘se é assim tão difícil porque os tivemos’? E se ‘escolhemos ter agora não nos queixemos’…

Será que nos torna mulheres menos merecedoras de ter um relacionamento o facto de constatarmos o quanto o nosso marido pode ser inflexível/incompreensivo/preguiçoso/frio/ciumento/whatever? Porque ‘se não estamos satisfeitas, podemos sempre bater com a porta’?

Menos, gente! Acalmem lá esses dedinhos nervosos, afastem-nos do teclado onde habitualmente se dedicam a actividades de criticismo da vida alheia e pensem no que seria de vocês próprios se nunca pudessem queixar-se de circunstância nenhuma da vossa vida sem comerem logo com uma qualquer formulação do ‘fizeste a cama, agora deita-te nela’?

Desabafar sobre quanto pode ser difícil a vida a dois (ou, no meu caso particular, a quatro) serve apenas para colocar o difícil para fora de nós, partilhar, expelir o mau, relativizar: manter a saúde mental!

E isso está longe de querer significar que queremos voltar ao ‘fácil’.

Porque ‘fácil’ também significa uma certa dose de isolamento.

‘Fácil’ é não ter um abraço quentinho no frio da noite, um ombro onde pousar um pesadelo.

‘Fácil’ é não ter uma mãozinha pequenina à procura da nossa, um sorriso desdentado quando chegamos a casa.

‘Fácil’ é tantas vezes só isso mesmo: fácil, no sentido de ‘cómodo’, ou ‘menos trabalhoso do que’.

Era mais fácil sozinha? Era, claro!

Mas eu prefiro, de longe, convosco.

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“Tantos meninos castanhos!”

 

Tantos meninos castanhos! – exclamou o Martim perante uma peça jornalística filmada num país africano.

***

Cresci num cadinho de culturas, raças e religiões, pertíssimo de uma mesquita e de um bairro social maioritariamente habitado por ciganos, na margem sul, local para onde foram morar muitos brasileiros imigrados em Portugal.

As minhas turmas sempre tiveram meninos de todas as cores e credos e na minha rua – onde antes das tecnologias as crianças costumavam divertir-se, lembram-se? – a única coisa que interessava a todas as crianças era a disponibilidade das demais para brincar.

Tudo isso me tornou muito cega à cor da pele, à origem, à fé.

Compreenderão, por isso, o meu espanto perante a exclamação – tão reveladora da ignorância em relação ao Mundo – do meu filho mais velho.

A verdade é que a realidade dele, nos seus curtos quatro anos, não é idêntica à minha.

É que, se ele tem muitos ‘tios’ e ‘tias’ castanhos, adultos que nos rodeiam e cujo tom de pele varia muitíssimo – lá está, os nossos amigos de infância, meus e do Mário -, o mesmo já não acontece com as crianças que estão ao seu redor. Pensando friamente, na sua escolinha actual não me recordo de ver senão meninos e meninas de pele clara por isso, para o situar, tive que referenciar alguém da sua escola antiga.

Perguntei-lhe se se lembrava do Lucas, um coleguinha dessa primeira escola.

Os olhos dele brilharam ao lembrar-se ‘Pois é! Ele também era castanho!! Eramos bué amigos…’

Percebi aí que a exclamação inicial dele era toda feita de falta de familiaridade com a coexistência de muitos meninos não brancos no mesmo espaço (meninos = crianças, já tinham aparecido no plano várias imagens de adultos sem que ele estranhasse alguma delas) e expliquei-lhe que, da mesma maneira que aqui onde ele vive a maior parte das pessoas tem a pele como ele, eu, o papá e o mano, existem muitos países onde a maior parte das pessoas tem a pele de outras cores e que, naquele da televisão, a maior parte das pessoas, crianças incluídas naturalmente, tinha pele ‘castanha’.

Percebi na cara dele a curiosidade genuína com que me ouviu. Falámos depois sobre alguns desses países. Quis vê-los no mapa. Mostrei-lhes esses e outros, entusiasmou-se com o tamanho da Rússia, com o quão longe eram a Austrália e a Nova Zelândia com o caminho de avião que eu e o pai fizemos para o Brasil e a conversa fluiu para outros temas.

Não, não tinham sido os olhos de um princípio de preconceito a fazer aquele comentário.

Tinha sido apenas uma observação empírica relativamente a uma realidade com nunca tinha sido confrontado antes.

Confesso, respirei de alívio…

Frequentará outras escolas, terá muitos amigos, verá e conhecerá muitas pessoas diferentes.

Um dia, espero eu, olhará para trás e perceberá que naquela imagem estavam apenas ‘tantos meninos’.

Sem mais.

Entretanto, acho que vamos fazer uns desenhos com os tão bem recebidos lápis de ‘cor-de-pele’ da Giotto.

Medos… Os meus, desta vez.

No último post alguém comentou pertinentemente se não teríamos nós, eu e o Martim, medo de falhar, sendo esse o motor da nossa aversão a competição.

Como expliquei em resposta a esse comentário, no caso dele não sei ainda, mas no meu não se trata disso. Sei que as maiores recompensas estão fora da nossa zona de conforto e o medo que sinto perante a travessia que me leva a uma recompensa valiosa apenas me dá motivação para garantir que essa travessia é concluída, com ou sem precalços. Ganhar uma competição apenas não se me apresenta como uma recompensa que valha o meu desconforto e os precalços da travessia.

Mas há medos que eu, de facto, tenho.

Cada vez mais, aliás, à medida que me descubro como mulher e como mãe de dois rapazes!

Tenho medo que eles se sintam presos às minhas expectativas.

Tenho medo que essas expectativas não sejam possíveis de satisfazer.

Tenho medo que eles não se sintam livres de crescer ‘fora dos padrões’. Que queiram ser cabeleireiros, bailarinos, educadores de infância e se coíbam de o dizer e de lutar por isso. Que sejam apaixonados por mecânica automóvel, canalização, electricidade e eu considere que isso é ‘contentarem-se’ com menos do que as suas capacidades permitem.

Tenho medo que sejam vítimas. De bullying. De abuso.

Tenho medo que não falem se o forem.

Tenho medo que sejam agressores. Bullies. Abusadores.

Tenho medo que as suas vítimas não falem se eles o forem.

Tenho medo de me negar a ver ‘os meus meninos’ como capazes de tais coisas.

Tenho medo de não saber dizer-lhes que ‘não’ as vezes necessárias para que eles entendam que o Mundo não gira à sua volta e não lhes deve nada. Que o mérito importa. Que às vezes o dos outros é superior ao seu e está tudo bem.

Tenho medo de zombar da sua fé, caso eles encontrem a que eu nunca tive.

Tenho medo que cresçam machistas, racistas, homofóbicos (não necessariamente por esta ordem).

Tenho medo que nunca tenham oportunidade de amar alguém tanto quanto eu os amo a eles.

Tenho medo de interferir demasiado nas suas vidas.

Tenho medo de não interferir o suficiente.

Tenho, como vêem, muitos, muito medos.

Mas não tenho medo de os ter.

E para cada desses medos tenho, também, uma promessa: em cada dia o meu melhor com as ferramentas de que disponho.

 

De fada a bruxa em poucas noites

Andamos há três semanas no fantástico carrossel das doenças.

Um apanha, passa adiante até percorrer a família toda e, entretanto, quando o ciclo termina, já outro apanhou qualquer outra coisinha de qualidade para partilhar, com todo o altruísmo que se quer em família…

O mote da última ronda foi dado pelo Miguel: febre alta, garganta inflamada, ouvidos vermelhos, conjuntivite e tudo o que teve direito.

Bebé doente, bebé carente.

Inevitavelmente, seguiram-se noites passadas em cima de mim. Dias também. Actividades impensáveis desenvolvidas com um bebé não tão leve assim no colo. Gritos lancinantes sempre que era pousado no chão, por qualquer motivo.

A mãe foi a fada que lhe roubou as dores só por carregá-lo nos braços, beijar-lhe o cabelo, afagar-lhe as costinhas…

Mas, por que estamos no carrossel, ele ficou bom e a minha vez chegou fatalmente, como o preço a pagar por toda aquela proximidade estranhamente deliciosa, com o meu bebé…

A sensação é a de uma bola de golfe na garganta e uma gargantilha apertada no pescoço. Ter fome dá medo, porque vou ter que engolir alguma coisa e vai doer horrores. Dormir é uma miragem, porque não existe posição confortável. As dores no corpo, os ben-u-ron, o frio, o calor, o frio de novo… Enfim, toda a gente sabe como funciona.

Mas tudo isso é uma vírgula comparado com o que tive que fazer com os resquícios da carência do Miguel, deixados pela doença e pela nossa ausência de há algumas semanas atrás.

É que ele acostumou-se a dormir no meu colo, na minha cama, em mim. E eu acostumei-me a socorrê-lo. A ser a fada. A fada que, para variar e ainda que apenas por alguns dias, tinha o condão de estar sempre lá com ele. A mandar embora as lágrimas, as dores e os desconfortos.

Mas há dois dias eu simplesmente não estava em condições de passar a noite com ele em cima de mim, por muito boa vontade que tivesse.

Adormeci-o no meu colo e torci para que tudo corresse pelo melhor.

Não correu.

Foi mais de uma hora a tentar adormecê-lo e pousá-lo na caminha dele. Ainda eu ia a meio caminho e já ele gritava como se não tivesse há dois segundos suspirado profundamente no seu soninho…

Foi horrível.

E piorou.

Acabei por pousá-lo na cama, com choros e gritos e fiquei perto dele, procurando consolá-lo com a minha presença, tentando segurar-lhe a mão, falar-lhe baixinho ao ouvido e dizer-lhe que estava tudo bem. Mas não estava e nós dois sabíamos. Ele precisava de mim e eu… eu precisava que ele não precisasse tanto. Só nessa noite.

Passei de fada a bruxa num sopro.

O carrasco que negava colo ao seu menino.

E se sentava ao seu lado, segurando-lhe a mão e vendo-o chorar.

Acabou por adormecer, vencido pelo cansaço e pela resignação.

Eu demorei mais.

Não quero ser bruxa agora. Já basta os tantos «nãos» que provavelmente lhe direi, por falta de opção ou para o bem dele.

Quero ser fada para o meu bebé que não vai sê-lo para sempre.

A razão por que o choro vai embora, não a que o faz chorar.

Mas, na vida real, por vezes não é possível ser a fada.

Nessa noite tive que contentar-me em ser a bruxa menos má que as circunstâncias me permitiram…

(e esperar, como sempre, que isso seja suficiente).

Mãe é puta. Bom é o pai.

O texto de hoje, além de usar linguagem sensível, como já transparece do título, não é meu. Não é meu, nem poderia. Não passei pela experiência de que fala, pelo julgamento que descreve nem pela desigualdade profunda que resulta do que é exigido a um pai vs o que é exigido a uma mãe para que tenham ambos classificação de ‘bom’ no exame dessa disciplina contínua que é a parentalidade.

O texto de hoje não é meu, mas sinto em cada vírgula, em cada frase, em cada comparação, a dor, o peso, a culpa de tantas mulheres a quem é cobrado que deixem de o ser a partir do momento que nasce um filho, a qualquer custo, para todo o sempre e sozinhas, se assim tiver que ser. Porque mãe é sempre mãe e é o seu dever sê-lo. Já pai só é pai se quiser (e/ou se a Justiça obrigar).

O texto de hoje não é meu e é, obviamente, tal como as minhas palavras acima, uma generalização. Por favor, pais presentes e mães separadas deles, não levem a peito.

Coloco-o entre aspas, mas não sei quem o escreveu, apesar de já o ter lido muitas vezes, em diversas fontes. Perdoem-me, por isso, que não nomeie a sua autora (no entanto, se alguém souber, que me diga).

O texto de hoje não é meu, mas é tão honesto, tão cru(el). Agora, que tenho esta voz que o Entre M’s me dá, não consigo deixar de o dividir com quem me lê.

E pensar que tudo poderia resolver-se com um pouco de empatia

***

“São quase 15h. Meu filho está no meu sofá vendo desenho e me pedindo almoço que eu não fiz.

Hoje é o final de semana do pai, que começou a contar das 9h de sábado e vai até as 18h de domingo. O pai chegou cedo, milagrosamente, mas por volta do meio dia foi cortar o cabelo e não voltou ainda. Meu filho tá pulando no sofá e eu tô cansada de ser mãe. Eu queria ser pai.

Semana passada era o final de semana dele, mas fiquei sabendo na quinta que ele ia pra África, olha só que legal, mais uma viagem internacional, e eu nem passaporte tenho. Claro que eu fico com meu filho e desmarco meu rolê com meu namorado, minha foda atrasada em uma semana a mais, uma a menos, que diferença faz? Eu sou mãe, né não?
Ele tem pós na USP, mestrado na UFMG, fala um inglês fluente com certeza. Eu não consigo nem frequentar meu cursinho todos os dias da semana. Saio todo dia na penultima aula pra pegar meu filho na escola particular que ele paga. Bom pai, paga pensão alta, tenho que valorizar. Né, não?

Ele nunca namorou depois que nos divorciamos, não precisa assumir ninguém, a vida sexual dele é livre. O filho nunca fez ele desmarcar um compromisso de sexo casual, nunca teve uma febre e ele precisou largar o pernoite pra ir pro P.S.

Já eu, já eu, sempre de namoro em namoro, sempre morando junto, sempre transando no chuveiro, senão eu não transo. Só posso gozar depois que o filho dormir, isso se eu tiver disposição.

Foi pra França, trouxe a Torre Eiffel: bom pai.

Foi pra Maputo, atrasou a visitação mais um final de semana, trouxe uma girafa: bom pai.

Foi pra Recife, trouxe um lampeão: bom pai.

Paga pensão descontada na folha: bom pai.

Nunca ficou 15 dias seguidos com o filho de 6 anos: bom pai, estava trabalhando para pagar pensão senão vai preso.

Mãe mora junto com o primeiro namorado pra dividir conta e poder foder, porque mãe também fode: puta.

Mãe não tem formação universitária: vive de pensão, é puta.

Mãe termina com o primeiro namorado: não sabe formar família, é puta.

Mãe fica desempregada e usa parte da pensão pra pagar despesas: vive do dinheiro do ex, é puta.

Mãe ajunta com o segundo namorado pra dividir aluguel e conseguir foder no chuveiro: é puta, trazendo outro macho pra dentro de casa.

Mãe pensa em sumicídio (sumir ou suicídio-algo que não magoe o filho: ah, não tem essa opção)

Foda-se a mãe egoísta que quer desistir.

Vai ter que aguentar a pressão pra não desgraçar a vida do filho. Se vira, mãe.

Mãe tá esgotada. Mãe não fode. Mãe não pode. Mãe não presta.

Mãe é puta.

Bom é o pai.”

#feminismonãoépalavrão