“Tantos meninos castanhos!”

 

Tantos meninos castanhos! – exclamou o Martim perante uma peça jornalística filmada num país africano.

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Cresci num cadinho de culturas, raças e religiões, pertíssimo de uma mesquita e de um bairro social maioritariamente habitado por ciganos, na margem sul, local para onde foram morar muitos brasileiros imigrados em Portugal.

As minhas turmas sempre tiveram meninos de todas as cores e credos e na minha rua – onde antes das tecnologias as crianças costumavam divertir-se, lembram-se? – a única coisa que interessava a todas as crianças era a disponibilidade das demais para brincar.

Tudo isso me tornou muito cega à cor da pele, à origem, à fé.

Compreenderão, por isso, o meu espanto perante a exclamação – tão reveladora da ignorância em relação ao Mundo – do meu filho mais velho.

A verdade é que a realidade dele, nos seus curtos quatro anos, não é idêntica à minha.

É que, se ele tem muitos ‘tios’ e ‘tias’ castanhos, adultos que nos rodeiam e cujo tom de pele varia muitíssimo – lá está, os nossos amigos de infância, meus e do Mário -, o mesmo já não acontece com as crianças que estão ao seu redor. Pensando friamente, na sua escolinha actual não me recordo de ver senão meninos e meninas de pele clara por isso, para o situar, tive que referenciar alguém da sua escola antiga.

Perguntei-lhe se se lembrava do Lucas, um coleguinha dessa primeira escola.

Os olhos dele brilharam ao lembrar-se ‘Pois é! Ele também era castanho!! Eramos bué amigos…’

Percebi aí que a exclamação inicial dele era toda feita de falta de familiaridade com a coexistência de muitos meninos não brancos no mesmo espaço (meninos = crianças, já tinham aparecido no plano várias imagens de adultos sem que ele estranhasse alguma delas) e expliquei-lhe que, da mesma maneira que aqui onde ele vive a maior parte das pessoas tem a pele como ele, eu, o papá e o mano, existem muitos países onde a maior parte das pessoas tem a pele de outras cores e que, naquele da televisão, a maior parte das pessoas, crianças incluídas naturalmente, tinha pele ‘castanha’.

Percebi na cara dele a curiosidade genuína com que me ouviu. Falámos depois sobre alguns desses países. Quis vê-los no mapa. Mostrei-lhes esses e outros, entusiasmou-se com o tamanho da Rússia, com o quão longe eram a Austrália e a Nova Zelândia com o caminho de avião que eu e o pai fizemos para o Brasil e a conversa fluiu para outros temas.

Não, não tinham sido os olhos de um princípio de preconceito a fazer aquele comentário.

Tinha sido apenas uma observação empírica relativamente a uma realidade com nunca tinha sido confrontado antes.

Confesso, respirei de alívio…

Frequentará outras escolas, terá muitos amigos, verá e conhecerá muitas pessoas diferentes.

Um dia, espero eu, olhará para trás e perceberá que naquela imagem estavam apenas ‘tantos meninos’.

Sem mais.

Entretanto, acho que vamos fazer uns desenhos com os tão bem recebidos lápis de ‘cor-de-pele’ da Giotto.

Medos… Os meus, desta vez.

No último post alguém comentou pertinentemente se não teríamos nós, eu e o Martim, medo de falhar, sendo esse o motor da nossa aversão a competição.

Como expliquei em resposta a esse comentário, no caso dele não sei ainda, mas no meu não se trata disso. Sei que as maiores recompensas estão fora da nossa zona de conforto e o medo que sinto perante a travessia que me leva a uma recompensa valiosa apenas me dá motivação para garantir que essa travessia é concluída, com ou sem precalços. Ganhar uma competição apenas não se me apresenta como uma recompensa que valha o meu desconforto e os precalços da travessia.

Mas há medos que eu, de facto, tenho.

Cada vez mais, aliás, à medida que me descubro como mulher e como mãe de dois rapazes!

Tenho medo que eles se sintam presos às minhas expectativas.

Tenho medo que essas expectativas não sejam possíveis de satisfazer.

Tenho medo que eles não se sintam livres de crescer ‘fora dos padrões’. Que queiram ser cabeleireiros, bailarinos, educadores de infância e se coíbam de o dizer e de lutar por isso. Que sejam apaixonados por mecânica automóvel, canalização, electricidade e eu considere que isso é ‘contentarem-se’ com menos do que as suas capacidades permitem.

Tenho medo que sejam vítimas. De bullying. De abuso.

Tenho medo que não falem se o forem.

Tenho medo que sejam agressores. Bullies. Abusadores.

Tenho medo que as suas vítimas não falem se eles o forem.

Tenho medo de me negar a ver ‘os meus meninos’ como capazes de tais coisas.

Tenho medo de não saber dizer-lhes que ‘não’ as vezes necessárias para que eles entendam que o Mundo não gira à sua volta e não lhes deve nada. Que o mérito importa. Que às vezes o dos outros é superior ao seu e está tudo bem.

Tenho medo de zombar da sua fé, caso eles encontrem a que eu nunca tive.

Tenho medo que cresçam machistas, racistas, homofóbicos (não necessariamente por esta ordem).

Tenho medo que nunca tenham oportunidade de amar alguém tanto quanto eu os amo a eles.

Tenho medo de interferir demasiado nas suas vidas.

Tenho medo de não interferir o suficiente.

Tenho, como vêem, muitos, muito medos.

Mas não tenho medo de os ter.

E para cada desses medos tenho, também, uma promessa: em cada dia o meu melhor com as ferramentas de que disponho.

 

De fada a bruxa em poucas noites

Andamos há três semanas no fantástico carrossel das doenças.

Um apanha, passa adiante até percorrer a família toda e, entretanto, quando o ciclo termina, já outro apanhou qualquer outra coisinha de qualidade para partilhar, com todo o altruísmo que se quer em família…

O mote da última ronda foi dado pelo Miguel: febre alta, garganta inflamada, ouvidos vermelhos, conjuntivite e tudo o que teve direito.

Bebé doente, bebé carente.

Inevitavelmente, seguiram-se noites passadas em cima de mim. Dias também. Actividades impensáveis desenvolvidas com um bebé não tão leve assim no colo. Gritos lancinantes sempre que era pousado no chão, por qualquer motivo.

A mãe foi a fada que lhe roubou as dores só por carregá-lo nos braços, beijar-lhe o cabelo, afagar-lhe as costinhas…

Mas, por que estamos no carrossel, ele ficou bom e a minha vez chegou fatalmente, como o preço a pagar por toda aquela proximidade estranhamente deliciosa, com o meu bebé…

A sensação é a de uma bola de golfe na garganta e uma gargantilha apertada no pescoço. Ter fome dá medo, porque vou ter que engolir alguma coisa e vai doer horrores. Dormir é uma miragem, porque não existe posição confortável. As dores no corpo, os ben-u-ron, o frio, o calor, o frio de novo… Enfim, toda a gente sabe como funciona.

Mas tudo isso é uma vírgula comparado com o que tive que fazer com os resquícios da carência do Miguel, deixados pela doença e pela nossa ausência de há algumas semanas atrás.

É que ele acostumou-se a dormir no meu colo, na minha cama, em mim. E eu acostumei-me a socorrê-lo. A ser a fada. A fada que, para variar e ainda que apenas por alguns dias, tinha o condão de estar sempre lá com ele. A mandar embora as lágrimas, as dores e os desconfortos.

Mas há dois dias eu simplesmente não estava em condições de passar a noite com ele em cima de mim, por muito boa vontade que tivesse.

Adormeci-o no meu colo e torci para que tudo corresse pelo melhor.

Não correu.

Foi mais de uma hora a tentar adormecê-lo e pousá-lo na caminha dele. Ainda eu ia a meio caminho e já ele gritava como se não tivesse há dois segundos suspirado profundamente no seu soninho…

Foi horrível.

E piorou.

Acabei por pousá-lo na cama, com choros e gritos e fiquei perto dele, procurando consolá-lo com a minha presença, tentando segurar-lhe a mão, falar-lhe baixinho ao ouvido e dizer-lhe que estava tudo bem. Mas não estava e nós dois sabíamos. Ele precisava de mim e eu… eu precisava que ele não precisasse tanto. Só nessa noite.

Passei de fada a bruxa num sopro.

O carrasco que negava colo ao seu menino.

E se sentava ao seu lado, segurando-lhe a mão e vendo-o chorar.

Acabou por adormecer, vencido pelo cansaço e pela resignação.

Eu demorei mais.

Não quero ser bruxa agora. Já basta os tantos «nãos» que provavelmente lhe direi, por falta de opção ou para o bem dele.

Quero ser fada para o meu bebé que não vai sê-lo para sempre.

A razão por que o choro vai embora, não a que o faz chorar.

Mas, na vida real, por vezes não é possível ser a fada.

Nessa noite tive que contentar-me em ser a bruxa menos má que as circunstâncias me permitiram…

(e esperar, como sempre, que isso seja suficiente).

Mãe é puta. Bom é o pai.

O texto de hoje, além de usar linguagem sensível, como já transparece do título, não é meu. Não é meu, nem poderia. Não passei pela experiência de que fala, pelo julgamento que descreve nem pela desigualdade profunda que resulta do que é exigido a um pai vs o que é exigido a uma mãe para que tenham ambos classificação de ‘bom’ no exame dessa disciplina contínua que é a parentalidade.

O texto de hoje não é meu, mas sinto em cada vírgula, em cada frase, em cada comparação, a dor, o peso, a culpa de tantas mulheres a quem é cobrado que deixem de o ser a partir do momento que nasce um filho, a qualquer custo, para todo o sempre e sozinhas, se assim tiver que ser. Porque mãe é sempre mãe e é o seu dever sê-lo. Já pai só é pai se quiser (e/ou se a Justiça obrigar).

O texto de hoje não é meu e é, obviamente, tal como as minhas palavras acima, uma generalização. Por favor, pais presentes e mães separadas deles, não levem a peito.

Coloco-o entre aspas, mas não sei quem o escreveu, apesar de já o ter lido muitas vezes, em diversas fontes. Perdoem-me, por isso, que não nomeie a sua autora (no entanto, se alguém souber, que me diga).

O texto de hoje não é meu, mas é tão honesto, tão cru(el). Agora, que tenho esta voz que o Entre M’s me dá, não consigo deixar de o dividir com quem me lê.

E pensar que tudo poderia resolver-se com um pouco de empatia

***

“São quase 15h. Meu filho está no meu sofá vendo desenho e me pedindo almoço que eu não fiz.

Hoje é o final de semana do pai, que começou a contar das 9h de sábado e vai até as 18h de domingo. O pai chegou cedo, milagrosamente, mas por volta do meio dia foi cortar o cabelo e não voltou ainda. Meu filho tá pulando no sofá e eu tô cansada de ser mãe. Eu queria ser pai.

Semana passada era o final de semana dele, mas fiquei sabendo na quinta que ele ia pra África, olha só que legal, mais uma viagem internacional, e eu nem passaporte tenho. Claro que eu fico com meu filho e desmarco meu rolê com meu namorado, minha foda atrasada em uma semana a mais, uma a menos, que diferença faz? Eu sou mãe, né não?
Ele tem pós na USP, mestrado na UFMG, fala um inglês fluente com certeza. Eu não consigo nem frequentar meu cursinho todos os dias da semana. Saio todo dia na penultima aula pra pegar meu filho na escola particular que ele paga. Bom pai, paga pensão alta, tenho que valorizar. Né, não?

Ele nunca namorou depois que nos divorciamos, não precisa assumir ninguém, a vida sexual dele é livre. O filho nunca fez ele desmarcar um compromisso de sexo casual, nunca teve uma febre e ele precisou largar o pernoite pra ir pro P.S.

Já eu, já eu, sempre de namoro em namoro, sempre morando junto, sempre transando no chuveiro, senão eu não transo. Só posso gozar depois que o filho dormir, isso se eu tiver disposição.

Foi pra França, trouxe a Torre Eiffel: bom pai.

Foi pra Maputo, atrasou a visitação mais um final de semana, trouxe uma girafa: bom pai.

Foi pra Recife, trouxe um lampeão: bom pai.

Paga pensão descontada na folha: bom pai.

Nunca ficou 15 dias seguidos com o filho de 6 anos: bom pai, estava trabalhando para pagar pensão senão vai preso.

Mãe mora junto com o primeiro namorado pra dividir conta e poder foder, porque mãe também fode: puta.

Mãe não tem formação universitária: vive de pensão, é puta.

Mãe termina com o primeiro namorado: não sabe formar família, é puta.

Mãe fica desempregada e usa parte da pensão pra pagar despesas: vive do dinheiro do ex, é puta.

Mãe ajunta com o segundo namorado pra dividir aluguel e conseguir foder no chuveiro: é puta, trazendo outro macho pra dentro de casa.

Mãe pensa em sumicídio (sumir ou suicídio-algo que não magoe o filho: ah, não tem essa opção)

Foda-se a mãe egoísta que quer desistir.

Vai ter que aguentar a pressão pra não desgraçar a vida do filho. Se vira, mãe.

Mãe tá esgotada. Mãe não fode. Mãe não pode. Mãe não presta.

Mãe é puta.

Bom é o pai.”

#feminismonãoépalavrão

Vou separar-me!

Em primeiro lugar: não. Não vou, na verdade, separar-me, foi só um clickbait vulgaruxo que arranjei para despertar o vosso lado fofoqueiro e trazer-vos até aqui.

Que foi? Queriam que mentisse? Técnicas manhosas para atrair um par de visualizações com certeza, agora mentiras, isso jamais! 🙂

‘Vou separar-me da Inês…’ foi a piada que o meu marido fez uma noite destas quando chegou a casa, morto de cansaço e querendo deitar-se e viu que a cama já estava cheia.

‘Apanhei-a na cama com dois homens… Vejam a cara de pânico dela ao ser flagrada’, foi o que ele mandou a um pequeno grupo de whatsapp, borrifando-se para o pavor que está a minha cara (experimentem levar com um flash nas ventas depois de 40 minutos no escuro antes de me julgarem…), que só perde em feiura para o meu pijama e lençóis (espero eu) e contrasta com a fofura destes dois monstrinhos adormecidos.

Pois é…

Já vos contei sobre como fazia questão de que o Martim dormisse na sua própria cama desde… bom, sempre e como as minhas ideias foram mudando depois de ter o Miguel (podem ler ou reler aqui).

Hoje em dia, depois dos tempos difíceis que tive com o Martim (e que, espero não morder a língua, mas parece que estão finalmente a ir embora, aos poucos), sou muito, mas muito mais flexível com isto de quem dorme onde, quando, por quanto tempo e com quem (quanta promiscuidade!).

Ultimamente, nos dias em que o Mário chega depois da hora deles dormirem, convido o Martim para adormecer comigo (explico sempre que ele irá acordar, no dia seguinte, na sua própria cama e que, se por algum motivo o dia seguinte for às quatro da manhã, não vale querer voltar para a minha)… Ele sente-se um pouco mais acolhido e tento sempre adormecer o Miguel primeiro, para poder ter um tempinho só nosso, no mimo. Mas quando, como aconteceu neste dia, o Miguel está demasiado desperto e eufórico, acampamos os três na minha cama…

É extremamente desconfortável, como já expliquei por aqui e os preparos em que o Mário nos caçou mostram exactamente isso. O que acontece é que cada um deles vai tomando espaço na cama, empurrando-me para a ponta. Quando não posso recuar mais, o Miguel sobe para cima de mim e o Martim toma o espaço onde ele estava, para se encostar a mim também. Por isso, quando o Miguel quer regressar ao colchão, não consegue, não lhe restando outra opção senão enrolar para sul. É um pequeno circo Chen em actuação num colchão de casal, mas que poderia ser individual sempre problemas, porque eles não precisam de mais espaço que isso…

Por outro lado… Caramba, quem é que resiste a isto? Estas bochechas rosadas, estes corpinhos pequeninos totalmente made in mamã a partir de quase nada, a minhocar para estar junto a mim, estas mãozinhas pequeninas… Não é possível!

Por isso e também porque, além do meu coração, a minha cama também é grande, ao meu amor – aquele com quem casei, entenda-se – tenho que deixar um recado: não te separes de mim, mas vamos liberalizar esta nossa relação porque, no que depender destes dois marmanjinhos, vamos continuar a trair-te um pouquinho sempre que virares costas (mas gostamos todos muito de ti)…

‘Mais linda do que nunca’

Ontem contei-vos sobre a reacção dos meninos, sobretudo do Miguel, ao nosso regresso de viagem.

Relatei-a numa perspectiva de mãe ansiosa, receosa e semi-culpada, como terão reparado, preocupada com os efeitos da sua ausência, por motivos exclusivos de lazer, sobre a vida dos seus filhos…

O texto tomou um rumo diferente do que inicialmente tinha pensado para ele e acabei por não mencionar o antídoto que o Martim me deu para estes sentimentos que me envenenavam a alma.

Sim, ele está agora bastante acostumado com a ideia de passar alguns dias sem os pais. Sim, para ele, também são férias e vive sem ‘rei nem roque’ em várias casas onde todos se esforçam para lhe agradar. Sim, ele fica ainda – obviamente – com saudades, mas lida bem com elas e guarda todas as informações que nos quer passar, porque aquela cabecinha é melhor que qualquer computador, e vai-nos brindando com os detalhes das suas várias estadias em casa da tia, da avó paterna e depois dos avós maternos ao longo de vários dias.

Mas o que mais me deliciou nele foi quando reclamei um beijo, no meio de toda aquela euforia de mostrar brincadeiras que tinha feito, no fim de toda aquela correria para levar e trazer coisas que quer exibir e ele gritou ‘ah! tinha-me esquecido!’ de outra divisão da casa dos meus pais.

Veio, novamente a correr e aos pulinhos, até mim, abraçou-me muito e deu-me beijinhos.

Depois parou, olhou para mim fixamente com aqueles dois olhos enormes e disse-me: ‘estás tão bonita mamã’.

Agradeci-lhe e enquanto lhe dizia como ele ficava também mais bonito a cada dia que passava ele completou o seu pensamento: ‘estás mais linda do que nunca!’

O Martim é sempre o primeiro a reparar quando pinto as unhas, quando uso uma roupa nova, quando corto o cabelo, quando uso um batom com uma cor mais forte. O Martim é sempre o primeiro a elogiar-me nessas ocasiões. ‘Uau, estás gira!’, é algo que sai da boca dele com naturalidade e também diz quando não gosta de alguma coisa. O Martim é tão observador e opinativo que, às tantas, dou comigo a perguntar a opinião dele em questões estéticas e a tomá-la por boa…

[true story: um dia comprei um macacão ao preço da banana num leilão no Facebook. Depois de me ser enviado, experimentei-o e quando perguntei ao meu marido o que achava o Martim comentou ‘que pijama tão giro, mamã’. Até hoje não o vesti. Uma. Única. Vez.]

Por isso, aquela frase dita a uma mãe com um ar exausto depois de 9h30 de voo nocturno e de ter, no dia anterior, chorado baba e ranho por deixar uma cidade que foi tão boa para mim convenceu-me que, de facto, a felicidade só pode ser algo visível a olho nú.

Pelo menos ao dele.

E como lhe agradeço por isso.

A pedagogia da palmada

Spoiler: nenhuma. A pedagogia inerente a bater nos nossos filhos é essa, nenhuma.

Confessei-vos recentemente aqui que dei uma palmada ao Martim e também aqui que a situação não anda fácil com os ciúmes. Não foi a primeira que lhe dei na vida, embora consiga contar as ocasiões em que o fiz.

Talvez por isso, e também porque uma palmada no Martim hoje, implica um Miguel a ver, tentei fazer um exercício mental e recuar à primeira palmada que saiu das minhas mãos. Porque o fiz e o que resultou daí.

Fi-lo por falta de outros recursos enquanto mãe. Porque o desespero e o nível de ‘não sei que mais fazer’ me conduziram até aí. Fi-lo provavelmente pela mesma razão que o Martim teve o comportamento que a motivou: frustração.

Na prática funcionou. O comportamento cessou. Mas nenhum de nós se sentiu melhor com isso. Pior, a necessidade por detrás do comportamento não foi, certamente, satisfeita.

Porque é disso que se trata, não é? De curar à palmada a nossa incapacidade de perceber qual das necessidades dos nossos filhos está a levá-los a agir de determinada maneira, incorrecta aos nossos olhos.

O que me leva ao Miguel. Tem um ano e jamais nos passou pela cabeça dar-lhe uma palmada por mais disparates que faça e por mais tempo que chore. Porquê?

Porque ele não fala.

É isso, no fundo. À medida que os nossos filhos aprendem a expressar-se verbalmente, facilitando-nos a vida no que toca a descobrir o que se passa com eles e de que maneira podemos ajudá-los a ultrapassar isso, vamos desdenhando aquilo que ainda nos comunicam (e que é tanto!) de forma não verbal.

Deixamos de ver razões para nos questionarmos sobre a necessidade por detrás do comportamento e passamos a concentrar-nos em pará-lo ou mudá-lo. É aí que entram – mal – as palmadas.

E não me lixem com a conversa ‘eu também apanhei e não me fez mal nenhum’. Fez sim. O simples facto de alguém abrir a boca para soltar uma frase dessas é prova cabal disso. Quanto mais não seja, fez de nós pessoas que acham normal maltratar os filhos a pretexto de os ‘educar’.

Eu também apanhei, como quase todas as crianças da minha geração. Se isso me traumatizou? Não. Seguramente também não me matou, caso contrário não andaria por aqui a escrever estas linhas.

Mas sabem do que me recordo dessas ocasiões? Duas sensações apenas: medo e desapontamento. Fiz e deixei de fazer muitas coisas por ‘medo de apanhar’ e não porque tivesse alguma convicção sobre o certo e o errado delas. E o desapontamento… A minha mãe, que era a minha heroína, desferia um rasgão na sua capa mágica sempre que me batia ou ao meu irmão. E o meu pai, que raramente nos dava esse tipo de correctivos, causava-me tal espanto e desilusão quando o fazia que mais valia atirar-se do precipício da minha consideração por ele.

Não. Talvez não me tenha feito mal nenhum no sentido de que não me deixou marcas físicas.

Mas também não posso encher o peito de orgulho e dizer que me fez bem, não é verdade? Não aprendi nada. Não me recordo sequer dos motivos por que apanhei. Só dessas duas sensações: medo e desapontamento.

Por que raio quereria isso para os meus filhos?

Eles são nossos, mas não são propriedade nossa. Estão ao nosso cuidado. Para que façamos deles as melhores pessoas que conseguirmos.

Que mais-valia trazem as palmadas para essa hercúlea tarefa? É consultar o spoiler inicial: nenhuma.

Por isso, se não pelos nossos filhos, pelo menos pelos nossos netos, de quem vamos um dia sentir tanta peninha de ver levar uma palmada apesar de termos contribuído para normalizar essa conduta: paremos (e chamemos-lhe ‘resolução de ano novo’ se isso nos fizer sentir melhor).

Adormecer – o deles e o meu

O Martim sempre foi uma cobaia de independência.

O que quero dizer com isto? Que raras vezes dormiu na minha cama, passou algumas horas a chorar na dele, tinha três meses quando deixou de dormir no nosso quarto (já não mamava e acordava pouquíssimo durante a noite) e foi habituado a adormecer deitado na cama dele, ainda que com companhia.

Em suma, uma parte de mim achava que ‘uma vez dependente, sempre dependente’ e quis desde cedo quebrar esse suposto ciclo. Isto, durante a noite, porque durante o dia sempre dormimos longas sestas juntos.

Com o Miguel as coisas são um pouco diferentes. Respeito mais o ritmo de cada um deles e não tenho grandes pressas. Afinal de contas, pressa para quê, se caminhamos todos na mesma direcção?

Na verdade, e da mesma forma que o irmão, raras foram as vezes que o Miguel dormiu na nossa cama. Mas já não por imposição nossa (vá, minha). Ele é que, genuinamente, dorme mais confortável na cama dele (foi aliás também esse o motivo porque passou a dormir no quarto com o irmão, ao invés de colado à minha cama, já com mais de seis meses).

Mas o Miguel adormece ao meu colo todas as noites e eu não tento que seja diferente.

É um facto que às vezes me sinto capaz de cortar um mindinho para mergulhar na minha cama o mais rapidamente possível mas, mesmo nessas noites, o Miguel adormece ao meu colo. E mesmo nessas noites eu não tento que seja diferente.

Foram precisos dois filhos para eu aprender a apreciar o momento em que eles adormecem. O Martim com um abraço apertado e uma história, lida ou inventada, o Miguel ao meu colo.

Não tem preço aquele primeiro longo suspiro de quem está totalmente seguro e descansado.

Não têm preço as respirações profundas dos dois.

E não tem preço a tranquilidade com que eu própria adormeço depois de os adormecer a eles, sem pressas e sem tentar que nada seja diferente do que é.

‘Ainda sou o teu amor?’

Pergunta-me ele com os olhos maiores do Mundo.

Sempre que faz algo que não deve.

Sempre que lhe franzo o sobrolho.

Sempre que pressente que me vou aborrecer com ele ou, não pressentindo, quer quebrar o meu embalo já zangado.

‘Ainda sou o teu amor?

É o que ele pergunta sempre.

Não sei se quer mesmo saber ou se é só uma maneira de contornar qualquer que seja a asneira que sabe que fez.  Ou talvez eu até saiba e prefira brincar ao faz de contar e fingir que não.

‘Ainda sou o teu amor?’

Diz ele baixinho e com uma voz doce como o som do mar num dia sem ondas.

‘Mamã… ainda sou o teu amor?’

Ele pergunta. Todas as vezes. E independentemente da razão porque pergunta, todas as vezes o meu coração cede. Sem excepção.

E lá acabo por lhe explicar, calmamente, o que correu menos bem daquela vez.

‘Ainda sou o teu amor?’

Ia zangar-me, mas já não vou. Estava a zangar-me mas tenho que parar. Porque aquela pergunta é importante e é preciso responder-lhe.

‘Ainda sou o teu amor?’

Abraço-o.

‘Claro que sim, Martim, vais ser sempre o meu amor’.

E torço… Torço para que saiba que é verdade.

 

Hoje não queria largar-te

Adormeceste no meu colo, como todos os dias.

Hoje não queria largar-te e segurei-te contra mim até me doerem os braços e até não haver almofadas que amparassem a dor para colocar debaixo deles. Hoje não queria largar-te porque sinto em todos os meus nervos que estás a deixar de ser pequenino. Dentro em breve farás um ano. Um ano desde que ouvi, pela primeira vez a tua voz. Um ano desde que te olhei nos olhos para te chamar ‘meu amor’ cara a cara, finalmente. Um ano desde que te apresentámos ao irmão mais orgulhoso que poderias ter.

Hoje não queria largar-te. Porque ver-te crescer é delicioso mas é doloroso também. Perco-te um pouquinho para o Mundo a cada novo raiar do dia. És um pouquinho menos meu a cada pôr do sol. Bem sei que é inevitável. Mas dói no coração da mãe que tatuou no braço o teu primeiro choro. É piroso. Mas caramba, foi o primeiro choro do bebé mais lindo do Universo! O meu bebé a deixar de o ser. Bebé e meu.

Por isso não queria largar-te. Queria trazer-te para dormir comigo mesmo sabendo que o teu ‘mau dormir’ me faria arrepender. Tu não sabes, mas cada vez que respiraste no meu colo, cresceste um pouco e contigo a minha dor. Pouco me importa se tudo isto soa egoísta e demasiado dramático. Hoje queria que fosses para sempre esse bebé pequenino feito por medida para os meus braços, onde o mano já não cabe tão bem e já não passa tanto tempo, um pouco por tua causa também.

Acordarás com 11 meses e eu não queria largar-te. Não queria despertar para ti, um mês mais crescido. Vou fazê-lo de qualquer modo, porque o tempo não pára, as noites não param, os dias correm e qualquer dia, tu também. Para longe do meu colinho dorido. Vazio.

Não queria largar-te, meu monstrinho, não queria… Mas larguei e prometo: vou fazê-o sempre, por muito que doa. Porque tu mereces.

 

 

 

 

 

 

 

 

Felizes 11 meses, meu MigueLindo!