Dez euros para a rua (?)

«Foram dez euros para a rua!»

Foi assim que o Mário classificou a ida ao cinema com o Martim, no dia que tiraram para serem só eles dois.

O Martim não estava a gostar do filme e pediu para vir embora a meio.

«Foram dez euros para a rua!»

Respondi-lhe que não. Que foram dez euros para levar o filho ao cinema. E que ele gostou. Enquanto gostou.

Pensando um pouco, gostava de ser um pouco mais como o Martim.

Vir embora de uma sala de cinema, quando o filme não me interessa. Guardar aquele livro intragável na gaveta, que me pareceu tão interessante quando o comprei. Abandonar um curso ou formação quando percebo que entrega menos do que promete.

Mas não. Agarro-me ao quanto investi e continuo a perder tempo, como se o tempo que ainda não gastei e que posso gastar noutras coisas valesse um cêntimo menos do que o dinheiro que já perdi e não volta.

Tontos nós, os adultos, que andamos a toque de caixa das nossas expectativas e nos é tão difícil abrir mão delas, mesmo quando elas há muito voaram pela janela.

Sábios eles, as crianças, que se limitam a viver no agora, com toda a certeza do que em cada momento é a prioridade para o seu bem-estar e manifestando-o com clareza.

«Ah e tal, mas ele não tem contas para pagar, não dá valor ao dinheiro».

Justamente! Um dia ele pagará as suas contas e espero que quando esse dia chegar ele consiga manter o mesmo discernimento cru e simples que tem hoje: o seu tempo é valioso, o seu bem-estar também. O resto é acessório. Tudo o resto.

E talvez isso o ensine a fazer melhores escolhas do que eu, no que respeita àquilo em que opta por investir. O seu tempo, claro está.

Porque o resto é acessório (não tinha já dito isto?).

À noite quando cheguei a casa, perguntei ao Martim o que mais tinha gostado do dia com o pai.

Adivinham a resposta? Isso mesmo. A ida ao cinema.

Definitivamente… Não foram dez euros para a rua.

Quando eu era pequena…

Esta é Uma história…

Esta não é, definitivamente, a história da minha infância. Essa é muito feliz.

Mas esta é UMA história da minha infância que eu acho que preciso de contar.

 

Quando eu era pequena

Quando eu era pequena, eu apanhava, ocasionalmente. Não eram muitas vezes. Mas de vez em quando eu e o meu irmão… Nós apanhavamos.

Não sou traumatizada por isso. Não me sinto menos pessoa porque levei umas palmadas quando era miúda. Nada disso… Sobrevivi, como se diz por aí.

Mas se me perguntarem ‘Havia necessidade?’ Não, não havia necessidade alguma de me baterem.

Se me perguntarem ‘Lembras-te porque é que apanhavas?’ Tenho que responder que não. Com excepção de uma ocasião em particular em que a injustiça foi tão grande e os meios e palavras usadas foram tão violentos que não me consigo esquecer… Não. Realmente não me lembro das situações que me levavam a apanhar.

E se me perguntarem ‘Mas aprendeste alguma coisa sobre o certo e o errado nessa alturas? Fizeste alguma coisa diferente?’ Novamente tenho que responder que não. Se não me lembro porque é que apanhei, muito menos terei aprendido o que quer que seja sobre a rectidão dos meus comportamentos de acordo com o padrão de valores que se pretendia implementar em minha casa…

 

Aquela coisa que eu aprendi

Mas houve uma coisa que eu, infelizmente, aprendi.

Uma coisa que eu gostava muito, muito de não ter aprendido.

Eu aprendi que de vez em quando, só de vez em quando, não faz mal batermos nos nossos filhos.

E então, depois de ser mãe e mesmo tendo por dado adquirido que não seria ‘a mãe que bate nos filhos’, às vezes, só às vezes, quando eu ficava muito desesperada, muito assoberbada, muito descontrolada ou muito cansada… Eu batia no Martim. Não melhorava nada e ele não parava o que quer que estivesse a fazer por causa disso, mas eu batia no Martim.

E batia-lhe mesmo sabendo que um dia ele também não vai ter ideia de porque é que apanhou, que ele também vai achar completamente desnecessário ter apanhado e que ele vai conhecer, tal como eu, o tanto de nadas que se aprende sobre o certo e o errado quando se apanha.

E esse é… O melhor dos cenários. Porque se ele for como eu, se ele se lembrar como eu, mais do que sentiu nesses momentos do que do que aconteceu nesses momentos, talvez vá, também ele ter uma vozinha interior como eu tenho e que lhe diz que de vez em quando, só de vez em quando, não faz mal bater nos filhos. Para os corrigir. Para os disciplinar. Para os ensinar. Por amor.

É verdade. Sobrevivi. E, tal como eu como eu, ele vai, também sobreviver. E não vai amar-me menos por isso.

 

MAS (diz que há sempre um desses…)

Mas, a sério que a melhor justificação que conseguimos arranjar para fazermos ou não alguma coisa é a mera expectativa de que sobreviveremos, nós e eles, a isso?!

A sério que a MELHOR razão que conseguimos arranjar para fazermos ou não alguma coisa é o facto de ter sido ‘sempre assim’?

Será que não conseguimos melhor? Melhores razões, que seja? E será que é assim tão importante para nós mantermos tudo como sempre foi, apenas porque sempre o foi e se nós sobrevivemos também os nossos filhos sobreviverão?… Porquê?!

Ninguém duvida que os nossos pais fizeram o melhor que podiam e sabiam. Certamente não se sentirão feridos apenas pelo facto de não querermos imitá-los em tudo, nem isso limita o amor, a gratidão e o respeito que lhes temos…

Mas olhando para trás… De facto, eu lembro-me que, de vez em quando, apanhava. Mas, tirando isso, eu não me lembro de rigorosamente mais nada sobre apanhar.

Que raio de lição é essa?

Que raio de memória é essa?

Uma que eu não queria que os meus filhos tivessem… E que vou fazer por apagar ou, pelo menos, esbater.

“Tantos meninos castanhos!”

 

Tantos meninos castanhos! – exclamou o Martim perante uma peça jornalística filmada num país africano.

***

Cresci num cadinho de culturas, raças e religiões, pertíssimo de uma mesquita e de um bairro social maioritariamente habitado por ciganos, na margem sul, local para onde foram morar muitos brasileiros imigrados em Portugal.

As minhas turmas sempre tiveram meninos de todas as cores e credos e na minha rua – onde antes das tecnologias as crianças costumavam divertir-se, lembram-se? – a única coisa que interessava a todas as crianças era a disponibilidade das demais para brincar.

Tudo isso me tornou muito cega à cor da pele, à origem, à fé.

Compreenderão, por isso, o meu espanto perante a exclamação – tão reveladora da ignorância em relação ao Mundo – do meu filho mais velho.

A verdade é que a realidade dele, nos seus curtos quatro anos, não é idêntica à minha.

É que, se ele tem muitos ‘tios’ e ‘tias’ castanhos, adultos que nos rodeiam e cujo tom de pele varia muitíssimo – lá está, os nossos amigos de infância, meus e do Mário -, o mesmo já não acontece com as crianças que estão ao seu redor. Pensando friamente, na sua escolinha actual não me recordo de ver senão meninos e meninas de pele clara por isso, para o situar, tive que referenciar alguém da sua escola antiga.

Perguntei-lhe se se lembrava do Lucas, um coleguinha dessa primeira escola.

Os olhos dele brilharam ao lembrar-se ‘Pois é! Ele também era castanho!! Eramos bué amigos…’

Percebi aí que a exclamação inicial dele era toda feita de falta de familiaridade com a coexistência de muitos meninos não brancos no mesmo espaço (meninos = crianças, já tinham aparecido no plano várias imagens de adultos sem que ele estranhasse alguma delas) e expliquei-lhe que, da mesma maneira que aqui onde ele vive a maior parte das pessoas tem a pele como ele, eu, o papá e o mano, existem muitos países onde a maior parte das pessoas tem a pele de outras cores e que, naquele da televisão, a maior parte das pessoas, crianças incluídas naturalmente, tinha pele ‘castanha’.

Percebi na cara dele a curiosidade genuína com que me ouviu. Falámos depois sobre alguns desses países. Quis vê-los no mapa. Mostrei-lhes esses e outros, entusiasmou-se com o tamanho da Rússia, com o quão longe eram a Austrália e a Nova Zelândia com o caminho de avião que eu e o pai fizemos para o Brasil e a conversa fluiu para outros temas.

Não, não tinham sido os olhos de um princípio de preconceito a fazer aquele comentário.

Tinha sido apenas uma observação empírica relativamente a uma realidade com nunca tinha sido confrontado antes.

Confesso, respirei de alívio…

Frequentará outras escolas, terá muitos amigos, verá e conhecerá muitas pessoas diferentes.

Um dia, espero eu, olhará para trás e perceberá que naquela imagem estavam apenas ‘tantos meninos’.

Sem mais.

Entretanto, acho que vamos fazer uns desenhos com os tão bem recebidos lápis de ‘cor-de-pele’ da Giotto.

A competição (sobre a empatia e a parentalidade consciente)

O Contexto

Sempre pratiquei desportos. Tudo o que possam imaginar: natação, ginástica rítmica, karaté, equitação, aeróbica, danças brasileiras, you name it

Posso dizer o minuto em que passei a odiar cada uma das modalidades que pratiquei: quando (e nos casos em que) me levaram a competir.

Competir nunca me trouxe adrenalina. Nunca me fez ter vontade de fazer mais e melhor. Nunca despertou qualquer sentimento positivo em mim e mesmo nos casos em que fui bem sucedida, a sensação de uma vitória era sempre associada ao alívio pelo fim da tarefa.

Competir é, para mim, profundamente desconfortável.

A competição directa e vista como um propósito em si mesma é algo que me é contra-intuitivo. Sempre me senti melhor a ajudar os outros naquilo em que era boa, do que a provar-lhes (ou a mim), que era melhor que eles.

Aliás, ainda há poucos dias em conversa dizia a alguém que a razão pela qual não sei jogar matraquilhos, snooker, dardos, cartas e qualquer outro jogo que exija alguma experiência para se ser bem sucedido é saber que a competição traz à tona o meu eu mais mesquinho, infantil e mal-disposto. E eu não gosto dele, pelo que abdico que um certo nível de socialização e, quem sabe, potencial divertimento, em prol da manutenção da sanidade mental e até das amizades.

A Situação

O Martim tem karaté na escola duas vezes por semana e foi convidado para participar numa pequena prova. Um circuito, tanto quanto me apercebi, montado mais para que os pequenos possam demonstrar o que vêm aprendendo, do que para outra coisa qualquer.

Porém, quando perguntei ao Martim se queria participar ele disse-me que não.

Não, porque não ia conseguir completar o circuito em primeiro, não ia ganhar e ia ficar triste.

Expliquei-lhe que podia ser divertido, que não tinha que se importar com isso de ganhar ou perder, que a mamã ia adorar ver o que ele aprendeu e ia bater muitas palmas e que, na verdade, nunca poderia ganhar nada se nunca se atrevesse a participar.

Expliquei-lhe tudo isso mas não me passou pela cabeça, por um minuto que fosse, fazê-lo mudar de ideias e convencê-lo a participar.

A minha criança interior aceitou o seu primeiro ‘não’ com a maior solidariedade do Universo. Ela também não quereria participar. Bolas, eu, adulta, não quereria participar.

Concordámos que iríamos apenas assistir, juntos, à prova e, quem sabe, se ele achasse giro, poderia participar numa próxima.

A Conclusão (um trabalho em curso)

Não é a primeira vez que isto me acontece.

A maior parte das minhas memórias de infância são bastante ligadas às sensações que tinha em determinadas circunstâncias. Consigo lembrar-me do desespero de ver a minha mãe sair para trabalhar, do entusiasmo da primeira vez que brinquei na rua depois do sol se por, da alegria medrosa de quando percebi que o meu pai já não estava a segurar a bicicleta e que estava a andar sozinha, da vergonha e desconforto da primeira vez que entrei na minha sala de aulas na primária….

Por isso, em relação aos temas em que tenho essas memórias tão sensitivas é-me muito fácil empatizar com os meus filhos e faço-o de forma praticamente automatica.

Olhando para trás não tenho a menor dúvida de que os meus melhores momentos de maternidade ocorreram quando consegui por-me no lugar deles, com esse grau de realidade e sem qualquer esforço mental para isso.

Gostava de conseguir (e estou comprometida a tentar) fazê-lo mais vezes.

Afinal, não sou eu que acredito que a empatia ainda vai mudar o mundo?

E não é esse o exercício primordial de uma parentalidade consciente? Procurar os porquês dos nossos filhos ao invés de lhes tentar apenas moldar os comportamentos?

Talvez a minha empatia ‘natural’ nesta situação em concreto tenha sido uma falsa empatia, condicionada pelas minhas próprias vivências e características. Talvez o meu filho não seja tão avesso à competição como eu sempre fui. Talvez ele tenha apenas medo do fracasso como qualquer comum mortal.

Seja qual for a situação, acho não precisamos de descobrir já…

A Gabriela e o Rafael – os filhos que não tive

Apresento-vos a Gabriela e o Rafael.

São ambos meus filhos.

Não tenho uma foto decente de nenhum dos dois porque, na realidade, não sei bem que aspecto têm.

Desconheço a idade de qualquer deles e tampouco consigo justificar-vos porque ando há meses a apregoar que vivo entre M’s, tendo estes dois, cujo nome não começa por M, na minha vida. Escondidos.

A verdade é que a Gabriela e o Rafael são os filhos que eu não tive.

Os filhos que o meu filho arranjou para mim.

Os irmãos que ele inventou e nomeou.

Porque o Martim é assim.

Quando lhe disse, perante as saudades que verbalizou de quando o mano era bebé (porque agora é enorme, está visto!), que talvez pudéssemos um dia ter outro bebé lá em casa, ele fez entrar nas nossas vidas a Gabriela.

Assim mesmo, numa fracção de segundos, decidiu que queria uma irmã e o que chamar-lhe. Não sei porquê. Não conhecemos nenhuma Gabriela. Ele não vê nenhuns desenhos que tenham uma Gabriela. Talvez seja apenas, e genuinamente, um nome de que gosta…

‘Mas olha Martim, nós não escolhemos… E se em vez de uma mana, tiveres um mano?’

E foi assim que o Rafael entrou também nas nossas vidas.

Desde que planeámos o Miguel que sinto que não ficaríamos por aí, que há, ainda, um ‘M’ que nos falta…

Mas no que depender do Martim, parece que esse ‘M que nos falta’, será uma G ou um R…

Falo-vos deles, não porque tenha algum grande anúncio a fazer, mas porque quero guardar na memória estes dois filhos que não tive.

Talvez de hoje para amanhã eles deixem de ser desejados por quem os inventou.

Mas que mãe seria eu, se os esquecesse?

Bom fim-de-semana a todos!!!

‘Menino da mamã’

‘O que é que está escrito na tua camisola papá?’

Foi o diálogo que se seguiu a esta a pergunta do Martim – e que agora faz habitualmente em relação a tudo o que é texto, curioso que anda a explorar as letras – que despoletou não só este post como uma valente gargalhada minha. É que, como se diz pela boca morre o peixe, mas é muito mais divertido quando o ‘pescador’ tem quatro anos e uma memória aguçada.

Explico.

O Mário vive lamentando a preferência evidente que os pequenos M’s mostram pela mãe.

Quer dizer, não é que o pai não seja fixe. Até é… Mas só enquanto a mãe não chega a casa.

Nisto, vai-lhes lançando armadilhas, jogos de palavras, queixumes, para testar os seus afectos e ouvir um ‘gosto de ti’ que seja ou ganhar um abraço de misericórdia. Alguns desavisados chamar-lhe-iam ‘ciúmes’, mas não eu…

Uma das artimanhas que usa frequentemente é aproveitar as minhas declarações de amor ao Martim para me dar um ‘chega para lá’ e dizer que o Martim é dele. Eu riposto e digo que é meu. Depois de algum ping pong de ‘é meu’ entre os pais, o Martim é chamado a decidir. Durante muito tempo nem pestanejava para responder que era ‘da mamã’. Ultimamente, depois de lhe explicarmos muitas, muitas vezes que é só uma brincadeira, que nenhum de nós se aborrece por isso, que ele não tem que escolher e que ele é, e sempre será, dos dois, em actos de justiça salomónica, lá vai respondendo que é ‘dos dois’ (rematando às vezes com um ‘não discutam’).

Em suma, dá ao pai uma colher de chá e faz com que nos calemos com aquela lenga-lenga do ‘é meu’ que apenas serve para interromper a actividade super importante em que se encontrava envolvido (qualquer uma) antes daquele show decadente de carência parental.

E agora, devidamente enquadrados, voltemos à camisola do papá e à pergunta do Martim.

Por alturas do Natal o Mário encontrou no facebook (aqui) estas camisolas e achou graça. Comprou duas. Porquê? Porque elas têm escrito exactamente o que ele próprio é e se considera:

E foi isso que o Mário respondeu ao filho quando ele lhe perguntou o que estava escrito na camisola: está escrito ‘menino da mamã’.

Depois de uma bateria de questões sobre onde estava cada palavra, que espaço ocupava cada uma na camisola e o respectivo esquema de cores, o Martim repete, sublinhando com o dedo as palavras na camisola: ‘menino da mamã’.

E aí, pára um pouco para pensar e pergunta:

“Porque é que a camisola não diz que é ‘dos dois’?

Touché! Pois é, papá… Não há como um menino da mamã, para reconhecer outro. E assim se desarma retroactivamente um pai…

Como é desse lado? Muitos meninos da mamã?

‘Mais linda do que nunca’

Ontem contei-vos sobre a reacção dos meninos, sobretudo do Miguel, ao nosso regresso de viagem.

Relatei-a numa perspectiva de mãe ansiosa, receosa e semi-culpada, como terão reparado, preocupada com os efeitos da sua ausência, por motivos exclusivos de lazer, sobre a vida dos seus filhos…

O texto tomou um rumo diferente do que inicialmente tinha pensado para ele e acabei por não mencionar o antídoto que o Martim me deu para estes sentimentos que me envenenavam a alma.

Sim, ele está agora bastante acostumado com a ideia de passar alguns dias sem os pais. Sim, para ele, também são férias e vive sem ‘rei nem roque’ em várias casas onde todos se esforçam para lhe agradar. Sim, ele fica ainda – obviamente – com saudades, mas lida bem com elas e guarda todas as informações que nos quer passar, porque aquela cabecinha é melhor que qualquer computador, e vai-nos brindando com os detalhes das suas várias estadias em casa da tia, da avó paterna e depois dos avós maternos ao longo de vários dias.

Mas o que mais me deliciou nele foi quando reclamei um beijo, no meio de toda aquela euforia de mostrar brincadeiras que tinha feito, no fim de toda aquela correria para levar e trazer coisas que quer exibir e ele gritou ‘ah! tinha-me esquecido!’ de outra divisão da casa dos meus pais.

Veio, novamente a correr e aos pulinhos, até mim, abraçou-me muito e deu-me beijinhos.

Depois parou, olhou para mim fixamente com aqueles dois olhos enormes e disse-me: ‘estás tão bonita mamã’.

Agradeci-lhe e enquanto lhe dizia como ele ficava também mais bonito a cada dia que passava ele completou o seu pensamento: ‘estás mais linda do que nunca!’

O Martim é sempre o primeiro a reparar quando pinto as unhas, quando uso uma roupa nova, quando corto o cabelo, quando uso um batom com uma cor mais forte. O Martim é sempre o primeiro a elogiar-me nessas ocasiões. ‘Uau, estás gira!’, é algo que sai da boca dele com naturalidade e também diz quando não gosta de alguma coisa. O Martim é tão observador e opinativo que, às tantas, dou comigo a perguntar a opinião dele em questões estéticas e a tomá-la por boa…

[true story: um dia comprei um macacão ao preço da banana num leilão no Facebook. Depois de me ser enviado, experimentei-o e quando perguntei ao meu marido o que achava o Martim comentou ‘que pijama tão giro, mamã’. Até hoje não o vesti. Uma. Única. Vez.]

Por isso, aquela frase dita a uma mãe com um ar exausto depois de 9h30 de voo nocturno e de ter, no dia anterior, chorado baba e ranho por deixar uma cidade que foi tão boa para mim convenceu-me que, de facto, a felicidade só pode ser algo visível a olho nú.

Pelo menos ao dele.

E como lhe agradeço por isso.

Super-heróis dos tempos modernos – carnavais domésticos

 

Depois de dois anos vidrado no Hulk, o Martim anda apaixonado pelo super-herói Flash e foi essa a fantasia que escolheu para usar no Carnaval.

Segurem esta informação.

Vamos lá:

***

Mais uma virose, mais um dia no escritório, mais uma levada de remédios, chás e dietinhas.

Os intestinos do Martim estão péssimos. Não desenvolvo porque ninguém é obrigado aos detalhes e toda a gente que tenha filhos os conhece melhor do que gostaria.

(mas ponham ‘péssimos’ nisso…)

Uma destas manhãs, enquanto preparava os pequenos-almoços da criançada ouço o Martim guinchar da sala:

‘Mããããããeeeee! Tenho que ir à casa de banho! Tenho que ir à casa de banho! Tenho que ir à casa de baaaanhooooo!’

Disse-lhe que fosse e ele arrancou a correr.

Chegando à porta encalhou com a maçaneta da porta e começou a entrar em desespero:

‘Mãããe, eu não consigo! Mãe, eu não vou aguentar!!’

Larguei tudo e fui ter com ele, abri a porta com uma mão enquanto o ajudava com as roupas com a outra e o incentivava, qual cheerleader ‘vais conseguir amor, vais conseguir, é só mais um pouquinho!’

Felizmente, correu tudo bem.

Saindo da casa de banho e de volta para a cozinha o Martim pára-me a meio do corredor, abraça-se às minhas pernas e diz ‘obrigada mamã, sem ti não tinha conseguido’.

Dei-lhe um beijinho e um abraço e ele voltou para a sala.

Pouco depois apareceu de novo: ‘mamã obrigada… foste muito rápida. Vou chamar-te Flash a partir de agora’.

Lembram-se da informação lá em cima?

Agora juntem tudo e pensem numa mãe inchada… É, eu mesma.

Ser super-mãe é uma treta, como defende – e demonstra diariamente – uma blogger que adoro, mas às vezes, ‘super-mãe’ é exactamente a forma como os nossos filhos nos vêem, para lá das nossas culpas, preocupações e desespero.

E nós, lá, embrenhadas em tudo isso, nem nos apercebemos até que eles, literalmente no-lo digam.

Super-mães dos detalhes, do cafuné do fim do dia, do leite quentinho… da chegada à casa-de-banho a tempo, porque não?

Eu ganhei o meu crachá de Flash.

E vocês? Que super-herói são?

 

O pesadelo

Martim

Mãe, hoje tive um pesadelo muuuuito grande.

Havia uma coruja enorme e depois estava eu e o pai e a coruja queria fazer-nos mal e eu tive muito medo.

Eu

Mas meu amor, não chamaste a mamã nem o papá… Quando tens medo podes sempre chamar a mamã ou o papá, para te darmos um abracinho.

Sabes que não deixamos que nada de mal te aconteça não sabes?

Martim

Não chamei porque eu não queria. Foi só um pesadelo.

É muito fácil: quando fico com medo, eu abro os olhinhos e ele desaparece.

***

Algo simples. Um pesadelo de criança. Uma oportunidade de confortar o nosso filho. Aquele momento agridoce em que eles não precisam de nós: ainda bem (mas nem por isso)! Quem nunca?

 

Nota: O Facebook diminuiu o alcance das publicações de páginas. Para continuar a não 'perder pitada' do Entre M's clique no botão 'Seguir' 
no topo da nossa página de Facebook e seleccione 'ver primeiro'.

SOS: O que é que eu faço? Dias leves e nervos em franja

A sério meu povo… O que é que eu faço?

A minha vida com o Martim está uma montanha russa. Alternamos entre dias leves de puro amor, conversas longas, brincadeira e compreensão mútua e dias em que a guerra começa ainda antes dele abrir os olhos e termina comigo exausta, olheirenta e chorosa já depois das 22h.

Nesses dias ele faz de um tudo:

Reclama que não quer levantar-se. Se eu me venho embora, reclama porque não o trouxe comigo.

Reclama que não quer vestir-se ou que não quer vestir o que separei. Se o deixo não vestir-se, reclama que não o vesti. Se o deixo ir escolher outra coisa, reclama que não quer ir sozinho.

Reclama que quer tomar o pequeno-almoço com ajuda. Mas também reclama por ter que esperar 30 segundos que seja para lha oferecer.

Reclama a semana toda porque quer levar o brinquedo X para a escola, quando só na sexta é o ‘dia do brinquedo’. Quando chega a sexta, reclama porque quer levar outro qualquer, ou porque quer que o carregue eu, ou que vá eu buscá-lo.

(substituam ‘reclama’ por ‘faz a maior birra do Universo’, porque é assim mesmo, só não quis escrevê-lo tantas vezes, que até isso já me arranha a alma).

Hoje mesmo adverti-o, ao vê-lo ‘destruir’ um brinquedo, de que podia fazer o que quisesse, mas que eu não iria concertar, porque não tínhamos tempo nesse momento. Claro que desmontou a coisa só para pedir para eu arranjar a seguir e, obviamente, fez birra quando lhe disse que não ia fazê-lo, conforme já o tinha avisado.

Mas o pior… o pior é quando me bate. Quando me chuta para me afastar no momento de lhe vestir o pijama. Quando me atira os brinquedos que lhe pedi para não estragar vezes sem conta, mesmo eu dizendo-lhe que me está a magoar e que pare. Quando vem contra mim às cabeçadas em modo repeat enquanto insisto para que vista o casaco. Quando me dá murros na barriga despertados pela raiva de eu estar a ignorar-lhe as fúrias…

O que raio eu faço?

Não vou bater-lhe de volta. Não vou. Como referi aqui, a palmada é um recurso que vem do desespero, da perda de paciência, da exaustão mental. Não resolve o nosso problema.

Não vou distribuir amor. Não consigo conceber responder a murros com abraços e beijinhos. Ele tem que perceber que as suas acções têm consequências e que tratar mal as pessoas não gera sentimentos positivos na pessoa que ele maltrata. Inclusivamente já lhe expliquei isso várias vezes. Sucede que, em regra, nestes dias mais ‘agudos’ meia hora depois, de termos uma conversa calma, ele já está a fazer o mesmo por outro motivo qualquer, apesar de se ter mostrado profundamente arrependido e ter pedido desculpa.

Também não posso fingir que não aconteceu. Ignorá-lo enquanto me bate ou enquanto me responde coisas como ‘qual é a parte de que eu quero [inserir qualquer porcaria que vos venha à cabeça] que não percebeste?’ até pode funcionar, mas funciona de uma maneira perniciosa. Por um lado, não cessa o comportamento (e, convenhamos, não sei quanto a vocês, mas eu não curto apanhar de uma criança de quatro anos…). Por outro, fá-lo ficar cada vez mais irritado e mais criativo nas formas agressivas de chamar a minha atenção. Atendendo ao que relatei aqui e que derivou justamente de uma situação em que o ignorei, não quero arriscar.

Mas voltamos ao ‘o que raio eu faço?’

A sério… Estou realmente perdida.

Andamos nisto há pouco mais de um mês e eu estou a entrar em SOS. Nada parece acalmar o coraçãozinho agitado do meu Martim, normalmente tão sensível. E, entretanto, insiste em expressar a sua frustração da forma mais negativa que conhece…

Qual a forma que vocês considerariam adequada para lidar com estas fúrias no momento?

O que fazem quando é convosco?

Lancem-me luz, que eu estou às escuras…

(e tenham um óptimo fim-de-semana… sem birras!)