‘Mais linda do que nunca’

Ontem contei-vos sobre a reacção dos meninos, sobretudo do Miguel, ao nosso regresso de viagem.

Relatei-a numa perspectiva de mãe ansiosa, receosa e semi-culpada, como terão reparado, preocupada com os efeitos da sua ausência, por motivos exclusivos de lazer, sobre a vida dos seus filhos…

O texto tomou um rumo diferente do que inicialmente tinha pensado para ele e acabei por não mencionar o antídoto que o Martim me deu para estes sentimentos que me envenenavam a alma.

Sim, ele está agora bastante acostumado com a ideia de passar alguns dias sem os pais. Sim, para ele, também são férias e vive sem ‘rei nem roque’ em várias casas onde todos se esforçam para lhe agradar. Sim, ele fica ainda – obviamente – com saudades, mas lida bem com elas e guarda todas as informações que nos quer passar, porque aquela cabecinha é melhor que qualquer computador, e vai-nos brindando com os detalhes das suas várias estadias em casa da tia, da avó paterna e depois dos avós maternos ao longo de vários dias.

Mas o que mais me deliciou nele foi quando reclamei um beijo, no meio de toda aquela euforia de mostrar brincadeiras que tinha feito, no fim de toda aquela correria para levar e trazer coisas que quer exibir e ele gritou ‘ah! tinha-me esquecido!’ de outra divisão da casa dos meus pais.

Veio, novamente a correr e aos pulinhos, até mim, abraçou-me muito e deu-me beijinhos.

Depois parou, olhou para mim fixamente com aqueles dois olhos enormes e disse-me: ‘estás tão bonita mamã’.

Agradeci-lhe e enquanto lhe dizia como ele ficava também mais bonito a cada dia que passava ele completou o seu pensamento: ‘estás mais linda do que nunca!’

O Martim é sempre o primeiro a reparar quando pinto as unhas, quando uso uma roupa nova, quando corto o cabelo, quando uso um batom com uma cor mais forte. O Martim é sempre o primeiro a elogiar-me nessas ocasiões. ‘Uau, estás gira!’, é algo que sai da boca dele com naturalidade e também diz quando não gosta de alguma coisa. O Martim é tão observador e opinativo que, às tantas, dou comigo a perguntar a opinião dele em questões estéticas e a tomá-la por boa…

[true story: um dia comprei um macacão ao preço da banana num leilão no Facebook. Depois de me ser enviado, experimentei-o e quando perguntei ao meu marido o que achava o Martim comentou ‘que pijama tão giro, mamã’. Até hoje não o vesti. Uma. Única. Vez.]

Por isso, aquela frase dita a uma mãe com um ar exausto depois de 9h30 de voo nocturno e de ter, no dia anterior, chorado baba e ranho por deixar uma cidade que foi tão boa para mim convenceu-me que, de facto, a felicidade só pode ser algo visível a olho nú.

Pelo menos ao dele.

E como lhe agradeço por isso.

Super-heróis dos tempos modernos – carnavais domésticos

 

Depois de dois anos vidrado no Hulk, o Martim anda apaixonado pelo super-herói Flash e foi essa a fantasia que escolheu para usar no Carnaval.

Segurem esta informação.

Vamos lá:

***

Mais uma virose, mais um dia no escritório, mais uma levada de remédios, chás e dietinhas.

Os intestinos do Martim estão péssimos. Não desenvolvo porque ninguém é obrigado aos detalhes e toda a gente que tenha filhos os conhece melhor do que gostaria.

(mas ponham ‘péssimos’ nisso…)

Uma destas manhãs, enquanto preparava os pequenos-almoços da criançada ouço o Martim guinchar da sala:

‘Mããããããeeeee! Tenho que ir à casa de banho! Tenho que ir à casa de banho! Tenho que ir à casa de baaaanhooooo!’

Disse-lhe que fosse e ele arrancou a correr.

Chegando à porta encalhou com a maçaneta da porta e começou a entrar em desespero:

‘Mãããe, eu não consigo! Mãe, eu não vou aguentar!!’

Larguei tudo e fui ter com ele, abri a porta com uma mão enquanto o ajudava com as roupas com a outra e o incentivava, qual cheerleader ‘vais conseguir amor, vais conseguir, é só mais um pouquinho!’

Felizmente, correu tudo bem.

Saindo da casa de banho e de volta para a cozinha o Martim pára-me a meio do corredor, abraça-se às minhas pernas e diz ‘obrigada mamã, sem ti não tinha conseguido’.

Dei-lhe um beijinho e um abraço e ele voltou para a sala.

Pouco depois apareceu de novo: ‘mamã obrigada… foste muito rápida. Vou chamar-te Flash a partir de agora’.

Lembram-se da informação lá em cima?

Agora juntem tudo e pensem numa mãe inchada… É, eu mesma.

Ser super-mãe é uma treta, como defende – e demonstra diariamente – uma blogger que adoro, mas às vezes, ‘super-mãe’ é exactamente a forma como os nossos filhos nos vêem, para lá das nossas culpas, preocupações e desespero.

E nós, lá, embrenhadas em tudo isso, nem nos apercebemos até que eles, literalmente no-lo digam.

Super-mães dos detalhes, do cafuné do fim do dia, do leite quentinho… da chegada à casa-de-banho a tempo, porque não?

Eu ganhei o meu crachá de Flash.

E vocês? Que super-herói são?

 

O pesadelo

Martim

Mãe, hoje tive um pesadelo muuuuito grande.

Havia uma coruja enorme e depois estava eu e o pai e a coruja queria fazer-nos mal e eu tive muito medo.

Eu

Mas meu amor, não chamaste a mamã nem o papá… Quando tens medo podes sempre chamar a mamã ou o papá, para te darmos um abracinho.

Sabes que não deixamos que nada de mal te aconteça não sabes?

Martim

Não chamei porque eu não queria. Foi só um pesadelo.

É muito fácil: quando fico com medo, eu abro os olhinhos e ele desaparece.

***

Algo simples. Um pesadelo de criança. Uma oportunidade de confortar o nosso filho. Aquele momento agridoce em que eles não precisam de nós: ainda bem (mas nem por isso)! Quem nunca?

 

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SOS: O que é que eu faço? Dias leves e nervos em franja

A sério meu povo… O que é que eu faço?

A minha vida com o Martim está uma montanha russa. Alternamos entre dias leves de puro amor, conversas longas, brincadeira e compreensão mútua e dias em que a guerra começa ainda antes dele abrir os olhos e termina comigo exausta, olheirenta e chorosa já depois das 22h.

Nesses dias ele faz de um tudo:

Reclama que não quer levantar-se. Se eu me venho embora, reclama porque não o trouxe comigo.

Reclama que não quer vestir-se ou que não quer vestir o que separei. Se o deixo não vestir-se, reclama que não o vesti. Se o deixo ir escolher outra coisa, reclama que não quer ir sozinho.

Reclama que quer tomar o pequeno-almoço com ajuda. Mas também reclama por ter que esperar 30 segundos que seja para lha oferecer.

Reclama a semana toda porque quer levar o brinquedo X para a escola, quando só na sexta é o ‘dia do brinquedo’. Quando chega a sexta, reclama porque quer levar outro qualquer, ou porque quer que o carregue eu, ou que vá eu buscá-lo.

(substituam ‘reclama’ por ‘faz a maior birra do Universo’, porque é assim mesmo, só não quis escrevê-lo tantas vezes, que até isso já me arranha a alma).

Hoje mesmo adverti-o, ao vê-lo ‘destruir’ um brinquedo, de que podia fazer o que quisesse, mas que eu não iria concertar, porque não tínhamos tempo nesse momento. Claro que desmontou a coisa só para pedir para eu arranjar a seguir e, obviamente, fez birra quando lhe disse que não ia fazê-lo, conforme já o tinha avisado.

Mas o pior… o pior é quando me bate. Quando me chuta para me afastar no momento de lhe vestir o pijama. Quando me atira os brinquedos que lhe pedi para não estragar vezes sem conta, mesmo eu dizendo-lhe que me está a magoar e que pare. Quando vem contra mim às cabeçadas em modo repeat enquanto insisto para que vista o casaco. Quando me dá murros na barriga despertados pela raiva de eu estar a ignorar-lhe as fúrias…

O que raio eu faço?

Não vou bater-lhe de volta. Não vou. Como referi aqui, a palmada é um recurso que vem do desespero, da perda de paciência, da exaustão mental. Não resolve o nosso problema.

Não vou distribuir amor. Não consigo conceber responder a murros com abraços e beijinhos. Ele tem que perceber que as suas acções têm consequências e que tratar mal as pessoas não gera sentimentos positivos na pessoa que ele maltrata. Inclusivamente já lhe expliquei isso várias vezes. Sucede que, em regra, nestes dias mais ‘agudos’ meia hora depois, de termos uma conversa calma, ele já está a fazer o mesmo por outro motivo qualquer, apesar de se ter mostrado profundamente arrependido e ter pedido desculpa.

Também não posso fingir que não aconteceu. Ignorá-lo enquanto me bate ou enquanto me responde coisas como ‘qual é a parte de que eu quero [inserir qualquer porcaria que vos venha à cabeça] que não percebeste?’ até pode funcionar, mas funciona de uma maneira perniciosa. Por um lado, não cessa o comportamento (e, convenhamos, não sei quanto a vocês, mas eu não curto apanhar de uma criança de quatro anos…). Por outro, fá-lo ficar cada vez mais irritado e mais criativo nas formas agressivas de chamar a minha atenção. Atendendo ao que relatei aqui e que derivou justamente de uma situação em que o ignorei, não quero arriscar.

Mas voltamos ao ‘o que raio eu faço?’

A sério… Estou realmente perdida.

Andamos nisto há pouco mais de um mês e eu estou a entrar em SOS. Nada parece acalmar o coraçãozinho agitado do meu Martim, normalmente tão sensível. E, entretanto, insiste em expressar a sua frustração da forma mais negativa que conhece…

Qual a forma que vocês considerariam adequada para lidar com estas fúrias no momento?

O que fazem quando é convosco?

Lancem-me luz, que eu estou às escuras…

(e tenham um óptimo fim-de-semana… sem birras!)

O ‘dia do filho único’

O ‘dia do filho único’ pretende descrever a circunstância na qual os pais de mais de um filho reservam um dia para passar apenas com um deles, como se fossem ‘filho único’.

É um tema no qual, confesso, tive que morder a língua. No meu tempo pré-Miguel achava um pouco pateta largar um filho para me dedicar em exclusivo a outro. Ter irmãos, serem irmãos, era a sua realidade e havia que viver de acordo com ela.

Porém, há algum tempo que sentia falta do meu tempo a sós com o Martim, como vos descrevi aqui e, depois destes últimos dias em que o monstro do ciúme se apoderou dele, como vos falei aqui, tornou-se gritante que também ele precisava da minha atenção total, sem distracções.

Hoje deixámos o Miguel na escola e lá fomos, a caminho do Almada fórum para uma sessão de cinema a dois.

Embarquei no relógio leeento do meu filho mais velho e fizemos tudo ao seu ritmo.

Levámos uma hora para almoçar porque ele passou metade do tempo a fazer perguntas sobre o filme. Levámos outra hora entre duas lojas porque ele se distrai a dar conversa às lojistas da Ale Hop e brincou pela Fnac com uma luva dinossauro como se fosse o parque.

No carro, ele estava visivelmente cansado, mas quando lhe perguntei se queria deitar-se um pouco comigo para descansarmos, respondeu-me que não, que queria brincar.

E fez questão de brincar comigo até à hora de irmos buscar o Miguel. Inclusivamente, quando o Mário chegou a casa, informou o pai de que estávamos a brincar só os dois e que, caso ele quisesse participar, teria que ser ‘os maus’.

Fomos todos juntos buscar o irmão e ainda não tínhamos chegado à escola, que fica a cinco minutos de carro e já ele tinha adormecido, actividade a que continua a dedicar-se enquanto escrevo isto.

Eu estava redondamente enganada. Ele precisava. Eu precisava.

O ‘dia do filho único’ está longe de ser pateta. Pateta era eu, por acreditar nisso.

Os ciúmes do Martim

O Miguel fez um ano e o mundo do Martim mudou um pouco.

Aconteceram por estes dias algumas coisas pela primeira vez. Coisas que ele ainda não tinha percebido que faziam parte do pacote ‘ter um irmão’ e com que ele não estava claramente preparado para lidar.

Desde logo, o Miguel teve um dia especial quando até aqui só ele tinha dias especiais. Toda a gente deu os parabéns ao Miguel e ele ficou sempre, sem excepção, com cara de ‘e eu?’

A contagem de presentes também não foi favorável. Muitos para o Miguel, dois ou três para o Martim.

O Miguel tem roupas novas. O Miguel tem, pela primeira vez, brinquedos que são dele de pleno direito e já não precisa de brincar só por empréstimo consentido do irmão.

Tudo isto tem sido visivelmente desconfortável para o Martim.

Pela primeira vez desde que o Miguel nasceu, o Martim demonstra ciúmes de forma evidente.

Há mais birras. Mais medição de força connosco. Mais proteccionismo em relação às suas coisas e maior necessidade em impôr-se ao irmão.

Foi o Martim quem estreou todos os brinquedos que o Miguel recebeu nos anos, aproveitando-se do mano ter adormecido no caminho para casa a seguir à festa e indiferente ao facto de serem, na sua maioria, brinquedos marcadamente para bebé (obviamente).

E, quando ontem de manhã vesti um casaquinho novo ao Miguel e perguntei ao Martim se achava que o mano estava giro, ele deixou cair um beiço até ao chão e não respondeu.

Como em todas as outras vezes que quero que ele fale comigo, abracei-o com força. Perguntei se estava triste. Abanou a cabeça que sim. Perguntei porquê.

‘É que eu também queria um casaco de tigre igual ao do mano’.

Choramingou um pouco e eu abracei-o com mais força.

Expliquei-lhe que o casaco é de bebé, que não há o tamanho dele, que cada um deles é único e que ele, com as roupinhas que veste, tem muito estilo.

Além disso, lembrei-o de que já pediu ao Pai Natal pijamas iguais para ele e para o irmão (lembram-se desse meu drama? ENCONTREI na Zara, dois pijamas bem quentinhos e iguais para os meus pinguins).

O Martim percebe. De verdade. o Martim compreende tudo. Mas ao mesmo tempo… Não. Porquê? Porque tem quatro anos e é tão sensível quanto qualquer um de nós.

Reconheço: ele é tão fantástico, tão ‘adulto’ na forma como fala, no vocabulário que usa, na maneira como demonstra apreender o que o rodeia, que às vezes me esqueço que ele é um bebézão. Um bebézão bem falante e extremamente inteligente, mas um bebézão.

Felizmente, de tão fantástico como é, o Martim ajuda-me a lembrar.

Sinais do Natal I – as fotografias da escola

Ser mãe traz um renovado encanto às fotografias da escola.

Como grande parte das crianças o meu eu de antigamente odiava esse momento. Lembro-me de raramente aprovar as escolhas de vestuário da minha mãe, abominar a minha franja e sentir-me, já na terceira classe, uma menina demasiado gorda para ficar bonita (sim, na terceira classe! Não sei onde as meninas aprendem esta arte da auto-depreciação, mas é matéria que dá para uma mancheia de posts por isso, fico-me por este parêntesis).

Agora acho tudo lindo! Os meninos todos a chegar à escola no seu ‘traje de Domingo’, de cabelo comportado e, por enquanto, muito cheios de si na hora do click.

As recordações que ficam são um espanto e desde que o Martim entrou na escola que monto um álbum só com esse – hoje – tão apreciado evento que são as fotos da escola (há alguma coisa mais linda que aquelas fotos de grupo?).

Para mim tornaram-se, assim como o ‘Sozinho em casa’, um prenúncio do Natal.

Este ano o Miguel juntou-se ao ritual e estas são as suas primeiras fotografias de escola. Frequentando a mesma que o Martim, acabei por embarcar num num pequeno dilema: fotos juntos ou separados?

Decidi-me – como vêem – pela opção da riquinha que não sou: fotos separados. Têm também uma foto juntos (mega opção de rica, já que é paga à parte) mas, não sendo os meus M’s siameses, não achei justo ‘roubar’ ao Miguel os seus próprios percurso e experiência escolares…

Cálculo que esta tenha sido o primeiro de muitos e muitos lançamentos do dado ‘juntos ou separados?’ por isso pergunto-vos, gente boa com mais de um filhote: para que lado costumam pender, juntos ou separados e porquê?

(E entretanto: Bom segundo fim-de-semana grande!!!)

‘Ainda sou o teu amor?’

Pergunta-me ele com os olhos maiores do Mundo.

Sempre que faz algo que não deve.

Sempre que lhe franzo o sobrolho.

Sempre que pressente que me vou aborrecer com ele ou, não pressentindo, quer quebrar o meu embalo já zangado.

‘Ainda sou o teu amor?

É o que ele pergunta sempre.

Não sei se quer mesmo saber ou se é só uma maneira de contornar qualquer que seja a asneira que sabe que fez.  Ou talvez eu até saiba e prefira brincar ao faz de contar e fingir que não.

‘Ainda sou o teu amor?’

Diz ele baixinho e com uma voz doce como o som do mar num dia sem ondas.

‘Mamã… ainda sou o teu amor?’

Ele pergunta. Todas as vezes. E independentemente da razão porque pergunta, todas as vezes o meu coração cede. Sem excepção.

E lá acabo por lhe explicar, calmamente, o que correu menos bem daquela vez.

‘Ainda sou o teu amor?’

Ia zangar-me, mas já não vou. Estava a zangar-me mas tenho que parar. Porque aquela pergunta é importante e é preciso responder-lhe.

‘Ainda sou o teu amor?’

Abraço-o.

‘Claro que sim, Martim, vais ser sempre o meu amor’.

E torço… Torço para que saiba que é verdade.

 

Ando a perder qualquer coisa… – ainda as manhãs

No meio de todos os meus hercúleos esforços para ligar a minha conta de instagram ao blog – os quais, basicamente, materializam todas as minhas tentativas de fazer o que quer que seja que implique os mínimos olímpicos de domínio de informática – dei comigo perdida em postagens antigas das minha manhãs com o Martim.

E ali, perdida em fotos antigas, pensei que era isso mesmo o que sentia: que ando a perder qualquer coisa.

Nessas manhãs em que éramos só eu e ele, acordávamos cedinho os dois e havia tempo para tudo. Arranjávamo-nos na preguiça e enrolávamo-nos no sofá a ver bonecos nas manhãs mais frias. Que bem que me sabiam aqueles miminhos de mãos pequeninas!

Sobretudo, havia sempre tempo para brincar. Na sala ou no quarto, espalhávamos o que lhe apetecesse nesse dia e brincávamos os dois. Eu fazia-lhe bonecos de plasticina que, mal terminados, tinham que se transformar noutra coisa. Montávamos os carris do comboio de lego para o ver andar… e descarrilar. Fazíamos corridas de carrinhos em pistas imaginárias feitas de almofadas e franjas de tapete.

Às vezes, só às vezes, quando ele acordava demasiado cedo, usava das minhas melhores técnicas de flexibilidade para me deitar na cama de grades com ele. E lá ficávamos os dois, até que pelo menos o sol nascesse e chegasse de mansinho uma hora decente para se estar a pé.

Engravidei do Miguel. A agilidade com que me esgueirava para dentro da caminha de grades evaporou à medida que a barriga crescia. O cansaço tomou conta e começou a ser difícil sentar-me no chão com o Martim tanto tempo. Houve dias de análises e dias de consultas matinais em que não foi possível brincar ou acompanhá-lo à escola. Tempo que nos foi roubado, embora por ninguém.

O Miguel nasceu. Apesar de tudo o que exige um recém-nascido eu estava em casa e os meus horários eram apenas os dele. Havia tempo. Passado o primeiro mês, levava o Martim à escola de metro, sem pressa, e voltava com o Miguel, muitas vezes a pé. Pelo caminho contávamos histórias, observávamos as flores, víamos as pessoas nas suas vidas atarefadas e falávamos sobre tudo e sobre nada. Chegada a casa passava horas com o Miguel ao colo a vê-lo dormir e passeávamos sempre que havia bom tempo.

Mudámos de casa. E de alguma forma parece que mudámos de relógio também, porque o nosso tempo nunca mais foi o mesmo.

A sensação que tenho é que passava muito tempo de qualidade com o Martim antes de nascer o irmão e até voltar a trabalhar após a licença e que agora passo muito pouco com qualquer dos dois. Juntos, acordam mais tarde. Entre pequenos-almoços, fraldas e dentes por lavar já não brincamos. E à noite, entre banhos, jantares e o dia seguinte para preparar, a verdade é que também não. 

Estou sempre cansada. Sempre atrás do relógio. Chateio-me mais. O Martim não percebe e sei que se sente a desiludir-me. O Miguel também não percebe, embora por outras razões, mas já arregala os olhos e fica muito quietinho a olhar para mim quando me aborreço.

Ando a perder qualquer coisa. E ‘qualquer coisa’ é cada vez maior. E ‘qualquer coisa’ cresce de forma inversamente proporcional à minha vontade de perder o que quer que seja.

Não quero perder pitada deles.

Não quero ser ‘a mãe cansada demais para brincar’.

Não quero ser ‘a mãe que grita’.

E não quero fazer de conta que eles têm culpa disso.

Só quero as nossas manhãs de volta…

Eu, Ele, a Maria e o Miguel – quando a escola dos nossos filhos se porta mal

O título parece usurpado de uma página que talvez conheçam. E é. Bom, talvez ‘usurpado’ seja forte demais. Emprestado.

Eu, ele, a maria e o miguel é uma página que sigo atentamente há alguns anos. Também tem um blog com as fotos mais ternas, acompanhadas pelos descritivos mais tocantes que já vi. Em suma, adoro e não perco um post (a sério, visitem, vale muito a pena).

Há alguns dias, a Vera, autora da página e mãe da Maria, do Miguel e da Anita publicou isto, de partir o coração, sobre a escola do seu Migas.

Ontem, uma outra página que sigo atentamente, até porque é escrita por uma amiga minha, partilhou esse post, acrescentando que estava na mesma situação.

Pergunto: o que será que vai na cabeça de quem dirige estes jardins de infância? Sublinho: jardins de infância.

Não me refiro tanto ao facto de proibirem os pais de entrar nas instalações da escola. Não que considere que seja uma divisão de águas saudável à partida, na medida em me parece que pode acentuar, de forma desnecessária, o síndrome de separação em relação aos pais. Torna tudo um pouco menos fluído e natural do que o desejável, na minha opinião. Mas, como comecei por mencionar, nem é tanto a isso que me refiro. As crianças são mais fantásticas do que qualquer adulto que tenha tido o prazer de conhecer até hoje e adaptam-se a qualquer coisa, por muito má que seja (o que não significa, obviamente, carta branca para atirar para cima dos seus pequenos ombros todos os males do Mundo…).

Mas, caramba: mudar as regras a meio do jogo? É, no mínimo, desleal. Se há coisa que as crianças valorizam é a confiança que depositam nos seus cuidadores, a fiabilidade da sua palavra e a sua capacidade de cumprir o combinado, o que quer que o combinado seja. Falhar ao combinado é falhar à criança. Falhar o combinado é retirar à criança a possibilidade de saber com o que contar, de se sentir seguro. É ensinar-lhe que pouco importa aquilo com que ela própria se comprometa porque, na verdade, ‘depois logo se vê’. E, nos dois casos em concreto, não tenho dúvidas de que proibir, no decurso do ano lectivo e sem nenhuma razão superveniente de relevo, algo que até aí lhes era permitido, é falhar com que implicitamente estava ‘combinado’.

Também não consigo digerir muito bem o argumento de que é bom prepará-los para as mudanças que se avizinham com a entrada no primeiro ciclo, em que a rede de segurança dos pais lhes é retirada. É verdade, são mudanças. É verdade, são grandes. É verdade, pode ser difícil e eles podem levar mais ou menos tempo a aceitá-las e a adaptar-se a elas. Mas também é verdade que antecipar uma mudança não a torna necessariamente mais fácil. Diria até que antes pelo contrário. Porque eles crescem, a maturidade deles cresce. A vontade que têm de serem mais autónomos cresce. Por outro lado, a necessidade que têm da aprovação constante dos pais diminui à medida que se sentem mais seguros do seu lugar no Mundo. E tudo isso conta.

Para quê, forçá-los a uma realidade apenas para ‘antecipar’ uma outra? Que mania é esta de querer à força que os nossos filhos já quase que nasçam independentes dos pais? O que é isso, sequer? Independência é um conceito que significa muitas coisas, uma para cada idade e, muitas vezes, até uma para cada criança.

E acho muito difícil fomentar a independência numa criança que não se sente segura e a quem se dá o ‘dito por não dito’.

Perguntem ao Martim. Até ele, com quatro anos, já sabe como é importante ‘cumprir o combinado’.

Aos jardins de infância peço: deixem as crianças ter a idade que têm e deixem-nos a nós, pais, gozar os nossos pequeninos enquanto eles têm interesse nisso.

É só isto.

Bom fim-de-semana, gente boa!