O regresso – voltar é bom, ter ido é essencial.

No Rio de Janeiro, um motorista de Uber contou-nos porque conduzia: com 60 anos, tinha-se reformado e separado da mulher pouco depois. Ficou com pouco dinheiro e muito sozinho, portanto. Havia, por isso, decidido pegar no pouco que tinha de seu – o carro – e usá-lo para resolver ambos os problemas.

***

Oi gente!!! Que saudade de aparecer por aqui! Voltámos revigorados, ligeiramente mais coloridos e absolutamente apaixonados pelo Rio de Janeiro (a bem dizer, eu já ia apaixonada, mas voltei mais ainda).

Posto isto, chegou a hora de cair na realidade e, felizmente, a realidade tem coisas boas: os risos, os abraços, as saudades finalmente mortinhas que eu tinha dos meus M’s…

Estava com alguns receios em relação ao nosso regresso, sobretudo em relação à reacção do Miguel, que ficou, pela primeira vez, alguns dias sem nos ver.

As reminiscências da primeira viagem do género, que fizemos quando o Martim era (mais) pequeno não ajudaram. Ele tinha um ano e oito meses quando casámos e fomos de lua-de-mel. Pelo que nos contaram ficou óptimo, divertido, mimado e entretido por avós e tios durante os dez dias que passámos fora. No entanto, quando voltámos surpreendeu-nos, ainda no aeroporto, com uma recepção gélida. Nós, cheios de vontade de o apertar e ele, quase sem olhar para a nossa cara, claramente muito zangado com o nosso desaparecimento repentino e mais ainda com a cara de pau de voltarmos como nada se tivesse passado.

Durante o mês seguinte, o Martim acordou todas as noites aos gritos. Pareciam terrores nocturnos, mas não eram. Eram protestos sonoros pela ausência dos pais. Ou melhor, sendo rigorosa, pela ausência da mãe. Porque o Martim acordava a gritar, a plenos pulmões ‘Mamã! Mamã! A mamã fugiu!’.

Acabei pagando pela lua-de-mel muito mais do que apenas o quanto a viagem economicamente me custou… Paguei em sono perdido e em facas espetadas no coração a cada nova acusação de fuga pela madrugada adentro. Passou. Hoje o Martim é um menino descontraído no que respeita às escapadinhas dos pais para namorar. Agora ele sabe que voltaremos sempre para ele.

Mas o Miguel ainda não…

Quando fomos buscá-los o Martim fez a festa normal de quem tinha saudades, correu, gritou de entusiasmo, quis contar mil histórias. O Miguel… Quando nos viu deu um longo suspiro, como se estivesse exausto. Estendeu-me os braços para vir ao meu colo, encostou a cabecinha no meu peito e suspirou, suspirou… Depois quis ir ao colo do pai, onde fez o mesmo, e de novo ao meu, onde se deixou ficar, assim mesmo, cansado da espera, aliviado por estarmos ali os dois.

A primeira noite foi complicada. Acho que trocaram a cama do Miguel na nossa ausência e colocaram uma cheia de picos, porque não houve maneira de o manter lá. Dormiu em cima de mim. Não ao lado. Em cima. Marcando território, como se só a dormência do meu corpo inteiro por baixo dele fosse capaz de garantir que não voltaria a ir a lugar nenhum sem o meu bebé. Sempre que escorregava, por algum motivo e se sentia longe do contacto físico, choramingava até que o pusesse novamente em cima de mim.

O dia amanheceu e não se tornou mais fácil, o Miguel não quis largar o meu colo para (quase) nada. Fiz todas as refeições com ele sentado em cima de mim e todos os meus afazeres do dia com ele montado nos meus braços e com protestos infinitos sempre que o pus no ovo para circular de carro.

Espero que restaure a confiança em nós. Que aprenda com o tempo que voltaremos sempre para ele também.

Tudo visto, não me importo de pagar este preço por momentos a dois. No caso, pela viagem que eu sempre quis fazer. Não me importo porque estes momentos sem filhos, sem fraldas, sem noites mal dormidas, sem a loiça, a roupa, os compromissos escolares, lúdicos e médicos deles nos permitem olhar um para o outro sem distracções. Conversar. Criar memórias que não envolvem os nossos filhos.

Porque um dia, se tudo correr bem, eles irão embora de casa e se tudo tiver corrido igualmente bem até aí, nós voltaremos a ficar apenas na companhia um do outro.

De que falaremos se não tivermos feito nada nos últimos 25 anos senão viver em torno dos nossos filhos?

Memórias com eles são maravilhosas. Mas memórias só nossas também são imprescindíveis.

***

Não conheço a história do casamento ou da separação daquele motorista super bem-humorado e cheio de experiência de vida com quem trocámos 20 minutos de agradável conversa. Mas, na minha cabeça, aquele homem e a sua ex-mulher viram os filhos crescerem e saírem de casa. Na minha cabeça, aquele ex-casal viu-se estranho ao fim de tantos anos debaixo do mesmo tecto. Tão estranho que não encontrou outra solução senão, à beira da velhice, irem cada um para seu lado. Aprenderem a ser fisicamente o que já eram sem saber até aí: duas pessoas sozinhas. É um acto de coragem sentir que nunca é tarde para ser feliz de outra maneira. E acredito piamente que nunca é! Mas à mesa do pequeno-almoço, sentada a olhar para o homem por quem sou apaixonada não pude evitar pensar que não queria que esta história que, na minha cabeça, inventei para aquela pessoa, fosse a nossa.

Que haja muitas viagens a dois, nem que seja ao quarteirão adiante do nosso, de mãos dadas, para um beijo roubado sem olhares de gente pequenina e atenta.

Dormir com os filhos… eu não gosto. E daí?

 

Não gosto de dormir com os meus filhos.

Pronto. Falei.

Não gosto mesmo.

Até gostava de gostar porque tornava algumas noites bastantes mais fáceis, mas não gosto, é desconfortável.

Gosto de adormecer com eles, agarradinha, sentir aquelas respirações tranquilas de quem não tem uma única preocupação no Universo, de quem se sente seguro nos braços da mamã, gosto de poder amachucá-los e fazer-lhes festinhas nos cabelos sem que fujam para fazer outras coisas ou me afastem o braço quando se fartam.

Mas uma noite inteira disso é só tortura.

Durmo na ponta da cama, porque eles me empurram para lá.

Metade do meu corpo dormita enquanto a outra metade teme pelo abismo.

Os meus braços ficam invariavelmente dormentes.

A minha bexiga adora dar sinal em todas essas fatídicas noites em que me vejo forçada a trazer um, outro ou os dois para a minha cama (sendo que, obviamente, não importa o espaço que haja disponível, eles deitar-se-ão em cima de mim).

Com tanta proximidade, tenho medo que a minha respiração os incomode, que faça vento na cabeça deles, que os acorde e por isso até respirar se torna um gesto consciente e pouco natural.

Sou sistematicamente agredida com cabeçadas, cotoveladas, pontapés.

Cada criança a mais na minha cama é uma hipótese a menos de uma noite minimamente bem passada.

Sim, prefiro levantar-me algumas vezes durante a noite para colocar chuchas caídas, para levar meninos ao xixi, para amparar pesadelos, para dar água, beijinhos ou o que for preciso.

Pelos menos nessas ocasiões, enquanto congelo de pé junto às camas deles, o meu pensamento rejubila com a promessa da minha cama quentinha.

Não gosto de dormir com os meus filhos.

Sabem com quem eu gosto de dormir? 

Com o meu marido. 

Sabem o que torna isso difícil?

Duas crianças na cama connosco.

 

 

 

O balão – quem ri por último…

Era uma vez um balão.

Verde, chegou-nos numa caixinha de lembranças de aniversário e lá foi ficando, enquanto os doces desapareciam, até sobrar, sozinho e esquecido.

Semanas depois o pequeno balão verde foi notado pelo Martim.

Ponto de situação: Martim com pressa de brincar com o balão, Miguel com sono, mãe a tentar adormecê-lo.

Mãe, sensata, adverte o pequeno de que será prudente esperar que o mano adormeça, caso queira brincar descansado e com total exclusividade com o balão do fundo da caixa.

Sem sucesso, e perante insistências várias, mãe cede e sopra o pobre balão, não sem avisar que não vai, por uma vez que seja, interferir na brincadeira e que terão, manos, que encontrar soluções satisfatórias para ambos.

Ponto de situação: Miguel de olhos arregalados para o balão já esperneia para descer do colo, enquanto um Martim desconfiado se afasta com o dito cujo nos braços.

Estou certa de que tudo teria funcionado na perfeição não fosse Miguel ter apenas um ano e não ter qualquer vontade de se expressar por palavras.

Martim de balão nas mãos. Miguel chora copiosamente.

O balão cai, feliz, por ser finalmente objecto de desejo e disputa.

Miguel apanha-o do chão e foge. Martim, magnânimo, dá-lhe uma colher de chá e deixa-o brincar. Mas aquela comichão que não o larga e que alguns, maldosos, apelidarão de ciúmes, fá-lo cair no pranto queixoso pouco depois.

Miguel, espantado pelo espectáculo distrai-se, e vê o balão ser-lhe arrancado das mãos.

Claro está, Miguel chora, Martim ri, mãe rói-se para não dizer nada, como prometido (leia-se ‘ameaçado’).

Ponto de situação: ‘rio eu e choras tu, agora trocamos’ numa sequência infinita.

Até que…

Em câmara lenta o pequeno balão verde, lançado ao ar, começa mais uma trajectória descendente. Os jogadores preparam-se para a contenda: Martim acocorado ao nível do irmão, mantém os olhos no prémio. Miguel, ao seu estilo ‘couldn’t care less’, olha para o tudo e para o nada.

Balão toca no chão, por mero golpe de sorte, aos pés do bebé distraído.

Ao sentir-se tocado, o Miguel abre o seu melhor sorriso…

este:

E joga-se para cima do balão.

Martim sente a perdida próxima e joga-se em simultâneo, sem medos.

Porque as leis da física não perdoam, o resultado é o que se adivinha: ‘PUM!’

Era uma vez um pequeno balão verde, esquecido por semanas, disputado por minutos, defunto em segundos.

Ponto de situação: Martim? Chora a plenos pulmões. Miguel? Chora como se o mundo estivesse no fim. Mãe? Mãe desmancha-se a rir à gargalhada!

Porque quem ri por último…

Quem ri por último aguenta os dois no colo, de buzina ligada por dez minutos e apanha os restos mortais da brincadeira.

Que remédio…

Brinquem e deixem brincar

Aos meus filhos:

Sejam princípes, sejam reis. Ou princesas e rainhas que, honestamente, tanto me dá.

Sejam mecânicos, padres, bailarinos, cozinheiros, bombeiros, locutores de rádio, professores, pais, taxistas, enfermeiros, assistentes de bordo, guardadores de camelos, pintores de unicórnios, fazedores de pino profissionais…

Sejam o que vos deixar a vossa imaginação e aproveitem a perfeição de tudo quanto não vos é ainda imposto por convenções sociais.

Ponham o batom da mãe e usem ganchinhos, calcem galochas no Verão e combinem com calções de banho e uma boina de lã.

Molhem-se, sujem-se, rebolem-se (só não se magoem… demasiado, vá).

Meçam forças, troquem argumentos. Resolvam os vossos diferendos de crianças egoístas a aprender a partilhar.

Inclusivamente, não partilhem o vosso brinquedo favorito, aquele que não querem mesmo ver cuidado, amado, mimado por mais ninguém. Bolas, todos temos direito a um afecto especial!

Entendam que tudo é relativo, que quase tudo é ultrapassável. A mãe e o pai ajudam, é só gritar por nós.

Riam. Chorem. As duas coisas ao mesmo tempo, que às vezes é do que dá vontade.

Ajudem a mãe com a roupa, o pai com a loiça do jantar. A mãe com a montagem do móvel novo, o pai a limpar a garagem.

Mascarem-se fora do carnaval.

Façam sopas de areia molhada e folhas caídas e misturem-nas carinhosamente com uma colher feita de raminhos soltos.

Tenham amigos imaginários, conversem com o ursinho de peluche, embalem-no.

Aninhem-se no nosso colo e aprendam ideias novas de jogos nos vossos bonecos preferidos de sempre (desse dia).

Brinquem!

Ao que quiserem, como quiserem, pelo tempo que quiserem. Descubram-se no infinito da fantasia antes que a vida vos aconteça.

Aos adultos que os rodeiam:

Deixem-nos fazê-lo sem censuras nem juízos prévios.

É só disso que eles precisam.

Coisas da vida – carta aos M’s

Martim e Miguel,

Meus amores,

A vida tem destas coisas.

É claro que todos sabemos que não vamos durar para sempre mas a verdade é que, enquanto por cá andamos, tendemos a presumir que haverá sempre mais um dia, mais um beijo, mais um abraço, mais um ‘gosto de ti’.

É isso que torna suportável a ideia de ter que vos deixar todos os dias para trabalhar e perder uma quantidade inestimável de momentos vossos. É também isso que torna suportável a necessidade de vos impor limites, de vos dizer ‘não’, de vos contrariar e ver os vossos olhos brilhantes de lágrimas, o vosso corpinho transformar-se em esparguete para se atirarem para o chão como quem desmaia de desgosto e, bem assim, todos aqueles dias em que suspiramos para que terminem e pensamos para nós próprios (às vezes inconvenientemente alto) que nunca mais chega a hora de ir dormir.

Haverá sempre mais um dia.

E amanhã será melhor.

Mas a vida tem destas coisas, meus amores. E haverá um dia em que não haverá mais dia nenhum. Haverá, realmente, um último beijo, um último abraço e um último ‘gosto de ti’.

E porque a vida tem destas coisas, também tem o seu jeitinho especial de nos ir lembrando que é finita. Que enquanto nos reconfortamos na ideia de um amanhã, existe uma mulher com a minha idade, mas que não sou eu, mãe de uma filha com a tua idade, Martim, mas que não és tu, a perder um marido da idade do pai, mas que, felizmente, também não é ele, da forma mais aleatória.

Nessas ocasiões o Mundo gira um pouco manco e os dias tornam-se um pouco mais amargos. A consciência da nossa própria caducidade e da imprevisibilidade que a rodeia é, no mínimo, desconfortável.

Por isso, Martim e Miguel,

Meus amores,

Não me demito, nem posso deixar de tentar, diariamente, fazer de vocês duas pessoas livres e responsáveis, mas isto posso prometer: haverá sempre um beijo, um abraço e um ‘gosto de ti’.

Todos os dias, até que chegue o último.

Porque a vida tem destas coisas. E o amor também.

Boxing day – arrumar (com) o Natal

Hoje um acordou já a fazer birra. O outro acordou com o rabinho assado.

Hoje um bateu com a cabeça na parede. O outro não quis partilhar os mil brinquedos com o irmão.

Hoje confisquei um objecto de discórdia e os dois choraram.

Hoje um atirou tudo para o chão em sinal de protesto e em mais do que uma divisão da casa. O outro virou o prato do almoço ao contrário.

Hoje um fez-se cair de uma cadeira de propósito, porque o mandei não se levantar. O outro chorou pelo biberão com água e atirou-o para o chão assim que lho dei.

Hoje houve uma palmada e uma voz chorosa e pequenina a repetir o que lhe ensino: ‘bater é errado’.

Ele tem razão. Por isso, hoje sentei-me no chão da cozinha a chorar enquanto eles choravam os dois na sala, cada um por sua verdade.

Hoje um foi passear com a tia e eu desejei muito que o outro adormecesse só para conseguir ouvir-me pensar.

Hoje levei um tareão da maternidade e destes dois.

Hoje é dia 26 e parece que o boxing day serviu para arrumar a magia do Natal…

Os ciúmes do Martim

O Miguel fez um ano e o mundo do Martim mudou um pouco.

Aconteceram por estes dias algumas coisas pela primeira vez. Coisas que ele ainda não tinha percebido que faziam parte do pacote ‘ter um irmão’ e com que ele não estava claramente preparado para lidar.

Desde logo, o Miguel teve um dia especial quando até aqui só ele tinha dias especiais. Toda a gente deu os parabéns ao Miguel e ele ficou sempre, sem excepção, com cara de ‘e eu?’

A contagem de presentes também não foi favorável. Muitos para o Miguel, dois ou três para o Martim.

O Miguel tem roupas novas. O Miguel tem, pela primeira vez, brinquedos que são dele de pleno direito e já não precisa de brincar só por empréstimo consentido do irmão.

Tudo isto tem sido visivelmente desconfortável para o Martim.

Pela primeira vez desde que o Miguel nasceu, o Martim demonstra ciúmes de forma evidente.

Há mais birras. Mais medição de força connosco. Mais proteccionismo em relação às suas coisas e maior necessidade em impôr-se ao irmão.

Foi o Martim quem estreou todos os brinquedos que o Miguel recebeu nos anos, aproveitando-se do mano ter adormecido no caminho para casa a seguir à festa e indiferente ao facto de serem, na sua maioria, brinquedos marcadamente para bebé (obviamente).

E, quando ontem de manhã vesti um casaquinho novo ao Miguel e perguntei ao Martim se achava que o mano estava giro, ele deixou cair um beiço até ao chão e não respondeu.

Como em todas as outras vezes que quero que ele fale comigo, abracei-o com força. Perguntei se estava triste. Abanou a cabeça que sim. Perguntei porquê.

‘É que eu também queria um casaco de tigre igual ao do mano’.

Choramingou um pouco e eu abracei-o com mais força.

Expliquei-lhe que o casaco é de bebé, que não há o tamanho dele, que cada um deles é único e que ele, com as roupinhas que veste, tem muito estilo.

Além disso, lembrei-o de que já pediu ao Pai Natal pijamas iguais para ele e para o irmão (lembram-se desse meu drama? ENCONTREI na Zara, dois pijamas bem quentinhos e iguais para os meus pinguins).

O Martim percebe. De verdade. o Martim compreende tudo. Mas ao mesmo tempo… Não. Porquê? Porque tem quatro anos e é tão sensível quanto qualquer um de nós.

Reconheço: ele é tão fantástico, tão ‘adulto’ na forma como fala, no vocabulário que usa, na maneira como demonstra apreender o que o rodeia, que às vezes me esqueço que ele é um bebézão. Um bebézão bem falante e extremamente inteligente, mas um bebézão.

Felizmente, de tão fantástico como é, o Martim ajuda-me a lembrar.

Sinais do Natal I – as fotografias da escola

Ser mãe traz um renovado encanto às fotografias da escola.

Como grande parte das crianças o meu eu de antigamente odiava esse momento. Lembro-me de raramente aprovar as escolhas de vestuário da minha mãe, abominar a minha franja e sentir-me, já na terceira classe, uma menina demasiado gorda para ficar bonita (sim, na terceira classe! Não sei onde as meninas aprendem esta arte da auto-depreciação, mas é matéria que dá para uma mancheia de posts por isso, fico-me por este parêntesis).

Agora acho tudo lindo! Os meninos todos a chegar à escola no seu ‘traje de Domingo’, de cabelo comportado e, por enquanto, muito cheios de si na hora do click.

As recordações que ficam são um espanto e desde que o Martim entrou na escola que monto um álbum só com esse – hoje – tão apreciado evento que são as fotos da escola (há alguma coisa mais linda que aquelas fotos de grupo?).

Para mim tornaram-se, assim como o ‘Sozinho em casa’, um prenúncio do Natal.

Este ano o Miguel juntou-se ao ritual e estas são as suas primeiras fotografias de escola. Frequentando a mesma que o Martim, acabei por embarcar num num pequeno dilema: fotos juntos ou separados?

Decidi-me – como vêem – pela opção da riquinha que não sou: fotos separados. Têm também uma foto juntos (mega opção de rica, já que é paga à parte) mas, não sendo os meus M’s siameses, não achei justo ‘roubar’ ao Miguel os seus próprios percurso e experiência escolares…

Cálculo que esta tenha sido o primeiro de muitos e muitos lançamentos do dado ‘juntos ou separados?’ por isso pergunto-vos, gente boa com mais de um filhote: para que lado costumam pender, juntos ou separados e porquê?

(E entretanto: Bom segundo fim-de-semana grande!!!)

Adormecer – o deles e o meu

O Martim sempre foi uma cobaia de independência.

O que quero dizer com isto? Que raras vezes dormiu na minha cama, passou algumas horas a chorar na dele, tinha três meses quando deixou de dormir no nosso quarto (já não mamava e acordava pouquíssimo durante a noite) e foi habituado a adormecer deitado na cama dele, ainda que com companhia.

Em suma, uma parte de mim achava que ‘uma vez dependente, sempre dependente’ e quis desde cedo quebrar esse suposto ciclo. Isto, durante a noite, porque durante o dia sempre dormimos longas sestas juntos.

Com o Miguel as coisas são um pouco diferentes. Respeito mais o ritmo de cada um deles e não tenho grandes pressas. Afinal de contas, pressa para quê, se caminhamos todos na mesma direcção?

Na verdade, e da mesma forma que o irmão, raras foram as vezes que o Miguel dormiu na nossa cama. Mas já não por imposição nossa (vá, minha). Ele é que, genuinamente, dorme mais confortável na cama dele (foi aliás também esse o motivo porque passou a dormir no quarto com o irmão, ao invés de colado à minha cama, já com mais de seis meses).

Mas o Miguel adormece ao meu colo todas as noites e eu não tento que seja diferente.

É um facto que às vezes me sinto capaz de cortar um mindinho para mergulhar na minha cama o mais rapidamente possível mas, mesmo nessas noites, o Miguel adormece ao meu colo. E mesmo nessas noites eu não tento que seja diferente.

Foram precisos dois filhos para eu aprender a apreciar o momento em que eles adormecem. O Martim com um abraço apertado e uma história, lida ou inventada, o Miguel ao meu colo.

Não tem preço aquele primeiro longo suspiro de quem está totalmente seguro e descansado.

Não têm preço as respirações profundas dos dois.

E não tem preço a tranquilidade com que eu própria adormeço depois de os adormecer a eles, sem pressas e sem tentar que nada seja diferente do que é.

A maldição do segundo filho

Quem diz do segundo, diz do terceiro, do quarto e de quantos tivermos coragem e vontade de ter.

Facto é que o segundo filho nasce já com uma pequena chaga que dificilmente irá, algum dia, sarar. Pior, transmite-se, por via aérea, ao primeiro. Pode piorar ou melhorar várias vezes consoante o estado de espírito dos pais e demais familiares ou até mesmo em função da relação que com eles tenham os intervenientes, mas sarar… Nunca.

Falo de comparações.

Ainda o segundo filho não nasceu e já nós comparamos, querendo ou sem querer, a gravidez que temos com a que tivemose.

Mal o segundo filho nasce e já não é só a cara da mãe ou do pai, mas fatalmente ‘mais parecido com a mãe ou o pai do que o irmão’.

E a partir daí são infindáveis as possibilidades: com esta idade o Martim já não mamava; o Miguel começou a andar mais cedo do que o irmão; o Martim aprendeu a falar muito antes; o Miguel é mais traquina…

Eu própria já os comparei, aqui mesmo, no Entre M’s (aqui, aqui e aqui).

Na maioria das vezes, e independentemente de como em concreto o verbalizamos, a comparação é apenas instintiva e não queremos, verdadeiramente, comparar os nossos filhos um com o outro, num sentido em que um sobressai, de forma positiva face ao outro, mas antes e somente a nossa experiência enquanto pais numa e noutra situações.

E apesar de ser, em abstracto, um fardo pesado para duas crianças que vivem sob o mesmo tecto, as comparações podem, sim, ser inócuas. Podem, sim, não contribuir de forma nociva para o desenvolvimento de qualquer dos nossos filhos (não sejam as elas demasiado frequentes, demasiado deliberadas ou abertamente depreciativas para um deles…).

Mas quando, enquanto pais, estranhamos as diferenças entre os nossos rebentos argumentando com frases do género ‘como é que é possível? Criados da mesma maneira…’ iludimo-nos. Não foram criados da mesma maneira, mesmo que achemos ter feito todos os esforços nesse sentido. Pois se um já foi filho único, outro não conhece o que é viver sem um irmão. Se um teve pais de primeira viagem, com tudo o que isso implica, o outro beneficia de uma maior experiência. E se por acaso o primeiro teve algum problema de saúde ou alguma dificuldade de adaptação particularmente marcante para os pais, isso reflectir-se-á inevitavelmente na forma como tratarão o segundo em situações semelhantes.

Em suma, todos temos memória (e memórias). As comparações que fazemos entre eles têm a sua raíz em nós. Nós não somos os mesmos pais num primeiro e num segundo filho. Não seremos, quiçá, sequer as mesmas pessoas. E isso não tem que ser mau.

A ‘maldição’ não tem que ser má.

Se tivermos presente que comparamos nada mais do que as nossas próprias experiências parentais e não, necessariamente, os nossos filhos entre si, comparar deixa de ser uma vivência frustrante para todos e pode, na verdade, ser vista como uma oportunidade.

Para sermos pais mais aptos a tirar o melhor partido das qualidades únicas que cada um dos nossos filhos traz consigo. Para sermos mais ágeis a extrair delas ensinamentos valiosos. Para nos tornarmos melhores pais. Para os dois, mas à medida de cada um. Mesmo com comparações.

Essa maldição…