Portaste-te bem hoje?

‘Até já meu amor, porta-te bem’

Todos os dias, ao deixar os M’s na escola, despedia-me com ‘até já meu amor, porta-te bem’.

Nada de especial, certo?

Num desses dias o Martim devolveu-me um ‘tu também, mamã!’ e eu achei piada. Ri-me.

Mas fiquei visceralmente a matutar naquilo e, mesmo não sabendo muito bem justificar porquê, passei a despedir-me com ‘até já meu amor, tem um bom dia’.

Do mesmo modo é corrente que mais ou menos qualquer pessoa próxima às crianças pergunte se se portaram bem na escola, com os pais, na festa, no parque, enfim, em qualquer que seja a circunstância.

Ontem à noite, enquanto conversavamos sobre os nossos dias respectivos o Martim concluiu: ‘eu portei-me bem na escola, a mamã portou-se bem no trabalho e o papá também’.

Aproveitei para lhe perguntar o que ele achava que queria dizer eu portar-me bem no trabalho, de que forma é que eu poderia, na perspectiva dele, portar-me bem no trabalho e ele respondeu, com a clareza de um murro no estômago, o seguinte: ‘Portares-te bem é fazeres tudo o que o teu chefe manda’.

Aquele sentimento visceral, que eu não soube identificar na altura, mas que me fez mudar a forma como os deixava na escola voltou e de repente percebi o que era: medo e repulsa.

Portar bem = fazer o que me mandam.

Portar bem = obedecer.

 

Questionamentos de cabeceira

Não é assim que eu quero que seja medida a minha performance profissional, pelo meu grau de obediência. Ninguém quer, eu acho. Somos seres pensantes. Questionar algo que não compreendemos ou com que não concordamos, sugerir alternativas que nos pareçam mais viáveis ou úteis ou vantajosas faz, necessariamente, parte de um núcleo de competências valorizado em qualquer ambiente profissional sadio. Também não é assim que eu quero ser avaliada no contexto das minhas relações interpessoais, pelo quanto eu concordo e me conformo com o que os demais pretendem.

Então, porque quereria eu medir a qualidade da minha relação com os meus filhos pelo seu grau de obediência aos meus comandos? Será que queremos mesmo filhos obedientes?

«SSSIIIIIMMMMM, claro»?

Entendo o impulso, mas peço-vos que não respondam já, sobretudo se estiverem a ler isto depois de pedir mais do que dez vezes ao vosso filho que vá lavar os dentes ou se acabaram de detectar mais um cabelo branco por conta da vossa filha insistir em fazer o exacto oposto daquilo que vos permite sair de casa a horas.

No curto prazo, e pensando em nós próprios como a autoridade, é claro que todos queremos filhos obedientes. E companheiros obedientes. E pais obedientes. E irmãos e amigos e vizinhos e funcionários e prestadores de serviços e estranhos com quem nos cruzamos na rua obedientes. Quem não gostaria que os outros fossem sempre de encontro àquilo que queremos que façam, quando queremos que façam e nos termos em que queremos que façam?

Mas, voltando aos nossos filhos, querê-los-emos obedientes quando um estranho os abordar dizendo ‘Vem comigo, se te portares bem, dou-te um rebuçado’? Querê-los-emos obedientes quando a pessoa dominante do seu grupo de amigos iniciar uma qualquer actividade perigosa ou desrespeitosa, como ridicularizar ou maltratar um colega, fumar, furtar um chocolate da mercearia? Querê-los-emos obedientes se alguém com autoridade sobre eles, educador, professor, treinador ou figura similar, abusar da autoridade que tem e ordenar que se calem sobre o assunto?

E no longo prazo? Qual será o preço da obediência que hoje exibimos como motivo de orgulho nos nossos filhos? O que diremos quando eles se desculparem por qualquer acção errada com ‘não tenho culpa, só fiz o que me mandaram?’ (Até sei. Responderemos, como todas as mães e pais do Mundo intemporalmente respondem, ‘e se te mandarem atirares-te a um poço, atiras-te?).

Compreendo que a obediência aos comandos possa ser essencial em determinados tipos de actividade – como na vida militar em que tantas vezes a vida e a morte se jogam na obediência – mas mesmo nesses contextos, deve a obediência ser cega?

Até ontem, de alguma maneira, eu já intuída que não.

Mas hoje, acredito assertivamente que não.

 

Obrigada Martim

Por muito que me custe argumentar constantemente porque é que a hora de ir dormir é esta e não outra, porque é que se come carne em vez de rebuçados ao almoço ou porque é que é dia de ir para a escola e não para o parque de insufláveis, pesando os prós e contras, é isso que quero fazer. Ser questionada sobre as minhas escolhas enquanto mãe pelas pessoas que mais são afectadas por elas: os meus filhos. Aliás, acho mesmo que, em terra de palpiteiros, eles serão talvez os únicos com alguma legitimidade para os dar.

Saber obedecer é relevante. Mas mais relevante do que saber obedecer é conhecer as circunstâncias nas quais é importante fazê-lo e quais aquelas em que o importante é questionar a ordem.

E quem sabe se uma vez por outra não terão razão?

***

Até já e tenham um bom dia.

Famílias são feitas de todos os tipos de momentos

 

Amanheceu cedo demais. Pelo menos eu não estava preparada.

Eles acordaram cedo demais. Pelo menos eu não estava preparada.

Subiram na minha cama, saltaram mesmo depois de lhes dizer que não o fizessem.

Ainda debocharam da minha cara. Riram, felizes um com o outro e com o pouco caso que me faziam.

Fiquei emburrada ainda não tinha saído do quarto.

O Miguel fugiu de mim durante 10 minutos antes de finalmente conseguir trocar-lhe a fralda, com ele aos gritos.

Nas correrias dos dois, conseguiu tropeçar no molho de fraldas que estava a arrumar e magoar-se numa mão.

De mãos nas ancas, e ainda antes de o apanhar do chão, pareceu-me relevante perguntar aos dois se estavam agora satisfeitos.

Pergunta parva (era óbvio que não).

O Miguel chorou no meu colo. O Miguel chorou no chão. O Miguel chorou enquanto o Martim trocava de sapatos três vezes e exercitava o seu novo tique de puxar o maxilar para a frente, que irrita mais do que por vezes gosto de admitir.

O Martim não me ouviu pedir que fosse lavar os dentes.

O Martim “não me ouviu” pedir que fosse lavar os dentes.

O Martim “não me ouviu” pedir aos gritos que fosse lavar os dentes.

Fechei-lhe o computador. Acabaram-se os bonecos. E ele continuou a não ir lavar os dentes argumentando, ainda para mais, que o computador era do pai e não podia chegar e fechá-lo sem autorização.

Pouco importam os factos de ter sido eu quem comprou a porcaria do computador e de a ‘autorização’ não ter sido relevante na hora de lho ligar, mas na hora eu achei que sim e que, além de tudo, valia a pena discutir isso com ele.

Decidi que ia embora, quer ele lavasse ou não os dentes.

Saí com o Miguel, que tinha parado de chorar, mas voltou a chorar na hora de o por na cadeira do carro porque o que ele quer mesmo é conduzir.

Voltei para trás para dar mais dois gritos ao Martim que se pôs aos pontapés à porta de casa. Disse-lhe que fosse lavar os dentes. Gritou-me que não.

Arrastei-o para fora de casa, para dentro do carro, para cima da sua cadeira, enquanto lhe explicava que meninos que não lavam os dentes não podem, nunca mais, meter à boca o que quer que tenha açúcar, para não os estragar.

Voltei para trás para ir buscar uma t-shirt para o Miguel. Quando voltei, o Martim tinha tirado o cinto e estava a tentar sair do carro.

Queria ir lavar os fucking dentes.

«NÃO!»

Gritou o caminho para escola inteiro.

Gritou quando lhe exigi que parasse de buzinar no meu carro enquanto deixava o Miguel na escola.

Gritou quando o arrastei comigo para a escola do Miguel porque não quis parar. Ou sair do carro. Ou sair da estrada. Ou mexer-se, de todo.

O Miguel tem a mão cheia de sangue. Ao cair cortou-se num dedo e achou engraçado esgravatar a ferida no caminho.

Eu não achei tanta graça, mas são perspectivas diferentes do que é humorístico.

Alguém palestrou ao Martim sobre os cuidados dos dentes, os bichinhos que se instalam, os dentistas e tudo mais. Depois ofereceu-lhe rebuçados de chocolate. Que eu não o deixei comer.

Estão no meu carro. A ver se chegam a casa…

Antes de deixar o Martim na escola conversámos. Pediu-me desculpa. Pedi-lhe desculpa.

Quando entrou na sua sala, continuava com os dentes sujos, mas tinha a alma lavada.

***

E eu também.

Porque a manhã foi um inferno, mas sentada ao volante do meu carro não consegui lembrar-me da última que tínhamos tido uma assim.

Dias de merda fazem parte.

Seguimos juntos e está tudo bem.

É sexta-feira (só que não)!

O Miguel está viciado no Panda e os Caricas.

Mal diz dez palavras, mas quando está entediado (ou doente) já aponta para o computador ou para o telemóvel e faz um ‘ôh! ôh!’ que não deixa dúvidas.

A propósito da música ‘Sexta-feira (estudei a semana inteira)’ na versão do grupo, o Martim costuma sempre comentar «Mas hoje não é sexta-feira!!!…» (pois, normalmente não é).

Ontem antecipei-me e comentei eu, ao ouvir a música, que não era sexta-feira e que se calhar os caricas tinham mesmo que passar mais tempo na escola, se não sabiam os dias da semana…
Martim concordou com um sorriso semi-trocista.
Então perguntei-lhe ‘Que dia é hoje?’
E ele respondeu: ‘Domingo’
E eu devolvi: ‘E amanhã?’

E ele respondeu: ‘Amanhã… Amanhã é dia de escola’.

Soltei uma gargalhada, mas por dentro fiquei emburrada.

Parece-me que ele também.

Acho que o espírito de segunda-feira nos castigou por troçarmos dos Caricas…

Boa semana minha gente!!!

Medos… Os meus, desta vez.

No último post alguém comentou pertinentemente se não teríamos nós, eu e o Martim, medo de falhar, sendo esse o motor da nossa aversão a competição.

Como expliquei em resposta a esse comentário, no caso dele não sei ainda, mas no meu não se trata disso. Sei que as maiores recompensas estão fora da nossa zona de conforto e o medo que sinto perante a travessia que me leva a uma recompensa valiosa apenas me dá motivação para garantir que essa travessia é concluída, com ou sem precalços. Ganhar uma competição apenas não se me apresenta como uma recompensa que valha o meu desconforto e os precalços da travessia.

Mas há medos que eu, de facto, tenho.

Cada vez mais, aliás, à medida que me descubro como mulher e como mãe de dois rapazes!

Tenho medo que eles se sintam presos às minhas expectativas.

Tenho medo que essas expectativas não sejam possíveis de satisfazer.

Tenho medo que eles não se sintam livres de crescer ‘fora dos padrões’. Que queiram ser cabeleireiros, bailarinos, educadores de infância e se coíbam de o dizer e de lutar por isso. Que sejam apaixonados por mecânica automóvel, canalização, electricidade e eu considere que isso é ‘contentarem-se’ com menos do que as suas capacidades permitem.

Tenho medo que sejam vítimas. De bullying. De abuso.

Tenho medo que não falem se o forem.

Tenho medo que sejam agressores. Bullies. Abusadores.

Tenho medo que as suas vítimas não falem se eles o forem.

Tenho medo de me negar a ver ‘os meus meninos’ como capazes de tais coisas.

Tenho medo de não saber dizer-lhes que ‘não’ as vezes necessárias para que eles entendam que o Mundo não gira à sua volta e não lhes deve nada. Que o mérito importa. Que às vezes o dos outros é superior ao seu e está tudo bem.

Tenho medo de zombar da sua fé, caso eles encontrem a que eu nunca tive.

Tenho medo que cresçam machistas, racistas, homofóbicos (não necessariamente por esta ordem).

Tenho medo que nunca tenham oportunidade de amar alguém tanto quanto eu os amo a eles.

Tenho medo de interferir demasiado nas suas vidas.

Tenho medo de não interferir o suficiente.

Tenho, como vêem, muitos, muito medos.

Mas não tenho medo de os ter.

E para cada desses medos tenho, também, uma promessa: em cada dia o meu melhor com as ferramentas de que disponho.

 

A Gabriela e o Rafael – os filhos que não tive

Apresento-vos a Gabriela e o Rafael.

São ambos meus filhos.

Não tenho uma foto decente de nenhum dos dois porque, na realidade, não sei bem que aspecto têm.

Desconheço a idade de qualquer deles e tampouco consigo justificar-vos porque ando há meses a apregoar que vivo entre M’s, tendo estes dois, cujo nome não começa por M, na minha vida. Escondidos.

A verdade é que a Gabriela e o Rafael são os filhos que eu não tive.

Os filhos que o meu filho arranjou para mim.

Os irmãos que ele inventou e nomeou.

Porque o Martim é assim.

Quando lhe disse, perante as saudades que verbalizou de quando o mano era bebé (porque agora é enorme, está visto!), que talvez pudéssemos um dia ter outro bebé lá em casa, ele fez entrar nas nossas vidas a Gabriela.

Assim mesmo, numa fracção de segundos, decidiu que queria uma irmã e o que chamar-lhe. Não sei porquê. Não conhecemos nenhuma Gabriela. Ele não vê nenhuns desenhos que tenham uma Gabriela. Talvez seja apenas, e genuinamente, um nome de que gosta…

‘Mas olha Martim, nós não escolhemos… E se em vez de uma mana, tiveres um mano?’

E foi assim que o Rafael entrou também nas nossas vidas.

Desde que planeámos o Miguel que sinto que não ficaríamos por aí, que há, ainda, um ‘M’ que nos falta…

Mas no que depender do Martim, parece que esse ‘M que nos falta’, será uma G ou um R…

Falo-vos deles, não porque tenha algum grande anúncio a fazer, mas porque quero guardar na memória estes dois filhos que não tive.

Talvez de hoje para amanhã eles deixem de ser desejados por quem os inventou.

Mas que mãe seria eu, se os esquecesse?

Bom fim-de-semana a todos!!!

Vou separar-me!

Em primeiro lugar: não. Não vou, na verdade, separar-me, foi só um clickbait vulgaruxo que arranjei para despertar o vosso lado fofoqueiro e trazer-vos até aqui.

Que foi? Queriam que mentisse? Técnicas manhosas para atrair um par de visualizações com certeza, agora mentiras, isso jamais! 🙂

‘Vou separar-me da Inês…’ foi a piada que o meu marido fez uma noite destas quando chegou a casa, morto de cansaço e querendo deitar-se e viu que a cama já estava cheia.

‘Apanhei-a na cama com dois homens… Vejam a cara de pânico dela ao ser flagrada’, foi o que ele mandou a um pequeno grupo de whatsapp, borrifando-se para o pavor que está a minha cara (experimentem levar com um flash nas ventas depois de 40 minutos no escuro antes de me julgarem…), que só perde em feiura para o meu pijama e lençóis (espero eu) e contrasta com a fofura destes dois monstrinhos adormecidos.

Pois é…

Já vos contei sobre como fazia questão de que o Martim dormisse na sua própria cama desde… bom, sempre e como as minhas ideias foram mudando depois de ter o Miguel (podem ler ou reler aqui).

Hoje em dia, depois dos tempos difíceis que tive com o Martim (e que, espero não morder a língua, mas parece que estão finalmente a ir embora, aos poucos), sou muito, mas muito mais flexível com isto de quem dorme onde, quando, por quanto tempo e com quem (quanta promiscuidade!).

Ultimamente, nos dias em que o Mário chega depois da hora deles dormirem, convido o Martim para adormecer comigo (explico sempre que ele irá acordar, no dia seguinte, na sua própria cama e que, se por algum motivo o dia seguinte for às quatro da manhã, não vale querer voltar para a minha)… Ele sente-se um pouco mais acolhido e tento sempre adormecer o Miguel primeiro, para poder ter um tempinho só nosso, no mimo. Mas quando, como aconteceu neste dia, o Miguel está demasiado desperto e eufórico, acampamos os três na minha cama…

É extremamente desconfortável, como já expliquei por aqui e os preparos em que o Mário nos caçou mostram exactamente isso. O que acontece é que cada um deles vai tomando espaço na cama, empurrando-me para a ponta. Quando não posso recuar mais, o Miguel sobe para cima de mim e o Martim toma o espaço onde ele estava, para se encostar a mim também. Por isso, quando o Miguel quer regressar ao colchão, não consegue, não lhe restando outra opção senão enrolar para sul. É um pequeno circo Chen em actuação num colchão de casal, mas que poderia ser individual sempre problemas, porque eles não precisam de mais espaço que isso…

Por outro lado… Caramba, quem é que resiste a isto? Estas bochechas rosadas, estes corpinhos pequeninos totalmente made in mamã a partir de quase nada, a minhocar para estar junto a mim, estas mãozinhas pequeninas… Não é possível!

Por isso e também porque, além do meu coração, a minha cama também é grande, ao meu amor – aquele com quem casei, entenda-se – tenho que deixar um recado: não te separes de mim, mas vamos liberalizar esta nossa relação porque, no que depender destes dois marmanjinhos, vamos continuar a trair-te um pouquinho sempre que virares costas (mas gostamos todos muito de ti)…

O regresso – voltar é bom, ter ido é essencial.

No Rio de Janeiro, um motorista de Uber contou-nos porque conduzia: com 60 anos, tinha-se reformado e separado da mulher pouco depois. Ficou com pouco dinheiro e muito sozinho, portanto. Havia, por isso, decidido pegar no pouco que tinha de seu – o carro – e usá-lo para resolver ambos os problemas.

***

Oi gente!!! Que saudade de aparecer por aqui! Voltámos revigorados, ligeiramente mais coloridos e absolutamente apaixonados pelo Rio de Janeiro (a bem dizer, eu já ia apaixonada, mas voltei mais ainda).

Posto isto, chegou a hora de cair na realidade e, felizmente, a realidade tem coisas boas: os risos, os abraços, as saudades finalmente mortinhas que eu tinha dos meus M’s…

Estava com alguns receios em relação ao nosso regresso, sobretudo em relação à reacção do Miguel, que ficou, pela primeira vez, alguns dias sem nos ver.

As reminiscências da primeira viagem do género, que fizemos quando o Martim era (mais) pequeno não ajudaram. Ele tinha um ano e oito meses quando casámos e fomos de lua-de-mel. Pelo que nos contaram ficou óptimo, divertido, mimado e entretido por avós e tios durante os dez dias que passámos fora. No entanto, quando voltámos surpreendeu-nos, ainda no aeroporto, com uma recepção gélida. Nós, cheios de vontade de o apertar e ele, quase sem olhar para a nossa cara, claramente muito zangado com o nosso desaparecimento repentino e mais ainda com a cara de pau de voltarmos como nada se tivesse passado.

Durante o mês seguinte, o Martim acordou todas as noites aos gritos. Pareciam terrores nocturnos, mas não eram. Eram protestos sonoros pela ausência dos pais. Ou melhor, sendo rigorosa, pela ausência da mãe. Porque o Martim acordava a gritar, a plenos pulmões ‘Mamã! Mamã! A mamã fugiu!’.

Acabei pagando pela lua-de-mel muito mais do que apenas o quanto a viagem economicamente me custou… Paguei em sono perdido e em facas espetadas no coração a cada nova acusação de fuga pela madrugada adentro. Passou. Hoje o Martim é um menino descontraído no que respeita às escapadinhas dos pais para namorar. Agora ele sabe que voltaremos sempre para ele.

Mas o Miguel ainda não…

Quando fomos buscá-los o Martim fez a festa normal de quem tinha saudades, correu, gritou de entusiasmo, quis contar mil histórias. O Miguel… Quando nos viu deu um longo suspiro, como se estivesse exausto. Estendeu-me os braços para vir ao meu colo, encostou a cabecinha no meu peito e suspirou, suspirou… Depois quis ir ao colo do pai, onde fez o mesmo, e de novo ao meu, onde se deixou ficar, assim mesmo, cansado da espera, aliviado por estarmos ali os dois.

A primeira noite foi complicada. Acho que trocaram a cama do Miguel na nossa ausência e colocaram uma cheia de picos, porque não houve maneira de o manter lá. Dormiu em cima de mim. Não ao lado. Em cima. Marcando território, como se só a dormência do meu corpo inteiro por baixo dele fosse capaz de garantir que não voltaria a ir a lugar nenhum sem o meu bebé. Sempre que escorregava, por algum motivo e se sentia longe do contacto físico, choramingava até que o pusesse novamente em cima de mim.

O dia amanheceu e não se tornou mais fácil, o Miguel não quis largar o meu colo para (quase) nada. Fiz todas as refeições com ele sentado em cima de mim e todos os meus afazeres do dia com ele montado nos meus braços e com protestos infinitos sempre que o pus no ovo para circular de carro.

Espero que restaure a confiança em nós. Que aprenda com o tempo que voltaremos sempre para ele também.

Tudo visto, não me importo de pagar este preço por momentos a dois. No caso, pela viagem que eu sempre quis fazer. Não me importo porque estes momentos sem filhos, sem fraldas, sem noites mal dormidas, sem a loiça, a roupa, os compromissos escolares, lúdicos e médicos deles nos permitem olhar um para o outro sem distracções. Conversar. Criar memórias que não envolvem os nossos filhos.

Porque um dia, se tudo correr bem, eles irão embora de casa e se tudo tiver corrido igualmente bem até aí, nós voltaremos a ficar apenas na companhia um do outro.

De que falaremos se não tivermos feito nada nos últimos 25 anos senão viver em torno dos nossos filhos?

Memórias com eles são maravilhosas. Mas memórias só nossas também são imprescindíveis.

***

Não conheço a história do casamento ou da separação daquele motorista super bem-humorado e cheio de experiência de vida com quem trocámos 20 minutos de agradável conversa. Mas, na minha cabeça, aquele homem e a sua ex-mulher viram os filhos crescerem e saírem de casa. Na minha cabeça, aquele ex-casal viu-se estranho ao fim de tantos anos debaixo do mesmo tecto. Tão estranho que não encontrou outra solução senão, à beira da velhice, irem cada um para seu lado. Aprenderem a ser fisicamente o que já eram sem saber até aí: duas pessoas sozinhas. É um acto de coragem sentir que nunca é tarde para ser feliz de outra maneira. E acredito piamente que nunca é! Mas à mesa do pequeno-almoço, sentada a olhar para o homem por quem sou apaixonada não pude evitar pensar que não queria que esta história que, na minha cabeça, inventei para aquela pessoa, fosse a nossa.

Que haja muitas viagens a dois, nem que seja ao quarteirão adiante do nosso, de mãos dadas, para um beijo roubado sem olhares de gente pequenina e atenta.

Dormir com os filhos… eu não gosto. E daí?

 

Não gosto de dormir com os meus filhos.

Pronto. Falei.

Não gosto mesmo.

Até gostava de gostar porque tornava algumas noites bastantes mais fáceis, mas não gosto, é desconfortável.

Gosto de adormecer com eles, agarradinha, sentir aquelas respirações tranquilas de quem não tem uma única preocupação no Universo, de quem se sente seguro nos braços da mamã, gosto de poder amachucá-los e fazer-lhes festinhas nos cabelos sem que fujam para fazer outras coisas ou me afastem o braço quando se fartam.

Mas uma noite inteira disso é só tortura.

Durmo na ponta da cama, porque eles me empurram para lá.

Metade do meu corpo dormita enquanto a outra metade teme pelo abismo.

Os meus braços ficam invariavelmente dormentes.

A minha bexiga adora dar sinal em todas essas fatídicas noites em que me vejo forçada a trazer um, outro ou os dois para a minha cama (sendo que, obviamente, não importa o espaço que haja disponível, eles deitar-se-ão em cima de mim).

Com tanta proximidade, tenho medo que a minha respiração os incomode, que faça vento na cabeça deles, que os acorde e por isso até respirar se torna um gesto consciente e pouco natural.

Sou sistematicamente agredida com cabeçadas, cotoveladas, pontapés.

Cada criança a mais na minha cama é uma hipótese a menos de uma noite minimamente bem passada.

Sim, prefiro levantar-me algumas vezes durante a noite para colocar chuchas caídas, para levar meninos ao xixi, para amparar pesadelos, para dar água, beijinhos ou o que for preciso.

Pelos menos nessas ocasiões, enquanto congelo de pé junto às camas deles, o meu pensamento rejubila com a promessa da minha cama quentinha.

Não gosto de dormir com os meus filhos.

Sabem com quem eu gosto de dormir? 

Com o meu marido. 

Sabem o que torna isso difícil?

Duas crianças na cama connosco.

 

 

 

O balão – quem ri por último…

Era uma vez um balão.

Verde, chegou-nos numa caixinha de lembranças de aniversário e lá foi ficando, enquanto os doces desapareciam, até sobrar, sozinho e esquecido.

Semanas depois o pequeno balão verde foi notado pelo Martim.

Ponto de situação: Martim com pressa de brincar com o balão, Miguel com sono, mãe a tentar adormecê-lo.

Mãe, sensata, adverte o pequeno de que será prudente esperar que o mano adormeça, caso queira brincar descansado e com total exclusividade com o balão do fundo da caixa.

Sem sucesso, e perante insistências várias, mãe cede e sopra o pobre balão, não sem avisar que não vai, por uma vez que seja, interferir na brincadeira e que terão, manos, que encontrar soluções satisfatórias para ambos.

Ponto de situação: Miguel de olhos arregalados para o balão já esperneia para descer do colo, enquanto um Martim desconfiado se afasta com o dito cujo nos braços.

Estou certa de que tudo teria funcionado na perfeição não fosse Miguel ter apenas um ano e não ter qualquer vontade de se expressar por palavras.

Martim de balão nas mãos. Miguel chora copiosamente.

O balão cai, feliz, por ser finalmente objecto de desejo e disputa.

Miguel apanha-o do chão e foge. Martim, magnânimo, dá-lhe uma colher de chá e deixa-o brincar. Mas aquela comichão que não o larga e que alguns, maldosos, apelidarão de ciúmes, fá-lo cair no pranto queixoso pouco depois.

Miguel, espantado pelo espectáculo distrai-se, e vê o balão ser-lhe arrancado das mãos.

Claro está, Miguel chora, Martim ri, mãe rói-se para não dizer nada, como prometido (leia-se ‘ameaçado’).

Ponto de situação: ‘rio eu e choras tu, agora trocamos’ numa sequência infinita.

Até que…

Em câmara lenta o pequeno balão verde, lançado ao ar, começa mais uma trajectória descendente. Os jogadores preparam-se para a contenda: Martim acocorado ao nível do irmão, mantém os olhos no prémio. Miguel, ao seu estilo ‘couldn’t care less’, olha para o tudo e para o nada.

Balão toca no chão, por mero golpe de sorte, aos pés do bebé distraído.

Ao sentir-se tocado, o Miguel abre o seu melhor sorriso…

este:

E joga-se para cima do balão.

Martim sente a perdida próxima e joga-se em simultâneo, sem medos.

Porque as leis da física não perdoam, o resultado é o que se adivinha: ‘PUM!’

Era uma vez um pequeno balão verde, esquecido por semanas, disputado por minutos, defunto em segundos.

Ponto de situação: Martim? Chora a plenos pulmões. Miguel? Chora como se o mundo estivesse no fim. Mãe? Mãe desmancha-se a rir à gargalhada!

Porque quem ri por último…

Quem ri por último aguenta os dois no colo, de buzina ligada por dez minutos e apanha os restos mortais da brincadeira.

Que remédio…

Brinquem e deixem brincar

Aos meus filhos:

Sejam princípes, sejam reis. Ou princesas e rainhas que, honestamente, tanto me dá.

Sejam mecânicos, padres, bailarinos, cozinheiros, bombeiros, locutores de rádio, professores, pais, taxistas, enfermeiros, assistentes de bordo, guardadores de camelos, pintores de unicórnios, fazedores de pino profissionais…

Sejam o que vos deixar a vossa imaginação e aproveitem a perfeição de tudo quanto não vos é ainda imposto por convenções sociais.

Ponham o batom da mãe e usem ganchinhos, calcem galochas no Verão e combinem com calções de banho e uma boina de lã.

Molhem-se, sujem-se, rebolem-se (só não se magoem… demasiado, vá).

Meçam forças, troquem argumentos. Resolvam os vossos diferendos de crianças egoístas a aprender a partilhar.

Inclusivamente, não partilhem o vosso brinquedo favorito, aquele que não querem mesmo ver cuidado, amado, mimado por mais ninguém. Bolas, todos temos direito a um afecto especial!

Entendam que tudo é relativo, que quase tudo é ultrapassável. A mãe e o pai ajudam, é só gritar por nós.

Riam. Chorem. As duas coisas ao mesmo tempo, que às vezes é do que dá vontade.

Ajudem a mãe com a roupa, o pai com a loiça do jantar. A mãe com a montagem do móvel novo, o pai a limpar a garagem.

Mascarem-se fora do carnaval.

Façam sopas de areia molhada e folhas caídas e misturem-nas carinhosamente com uma colher feita de raminhos soltos.

Tenham amigos imaginários, conversem com o ursinho de peluche, embalem-no.

Aninhem-se no nosso colo e aprendam ideias novas de jogos nos vossos bonecos preferidos de sempre (desse dia).

Brinquem!

Ao que quiserem, como quiserem, pelo tempo que quiserem. Descubram-se no infinito da fantasia antes que a vida vos aconteça.

Aos adultos que os rodeiam:

Deixem-nos fazê-lo sem censuras nem juízos prévios.

É só disso que eles precisam.