Esta é a história de quase todas as fotografias com os M’s

Esta é a história de 99% das fotografias que tento tirar aos meus pequenos M’s.

Começa mais ou menos assim: um dia bonito, eu sozinha com eles ou eles a serem extremamente fofos numa situação qualquer.

Nesta história, o caso foi o primeiro.

 

 

 

 

 

 

Fomos até Cacilhas porque o Martim gosta muito de olhar para o rio. Eu gosto de os levar. Lembra-me de apreciar os pequenos prazeres da vida que tantas vezes temos como certos (qual foi a última vez que pararam para, simplesmente, olhar para o rio e comentar a cor da água ou os barcos ao longe?).

Os M’s estavam bem dispostos e divertidos e entretinham-se um com o outro. O Martim era um ninja do fogo e tentava trepar por uma grade e balançar num estacionamento de bicicletas.

O Miguel era, também, um ninja. Não importa do quê. Era um ninja porque é, desconfio, esse o seu alter-ego natural. Ninja (deus me ajude!). E porque é um ninja, o Miguel imitava o irmão.

Não ia perder a oportunidade. Telemóvel fora do saco e toca de tentar apanhar os meus lindos ninjas bem dispostos.

Foi mais ou menos assim:

«Martiiiim! Migueeeel! Olhem para a mamã!

 

 

 

 

 

 

Vá, outra vez! Olhem para a mamã!

 

 

 

 

 

 

 

 

Ok, esta ficou boa! Ah não… desfocada. Já agora aproveito e ponho-me um pouco mais contra o sol, que, se calhar, neste ângulo não se vê bem aquelas carinhas larocas.

Meninos! Meninos!

 

 

 

 

 

 

 

Vá Martim… Põe-te lá só um pouquinho ao pé do teu irmão… Faz lá esse favor à mãe!

 

 

 

 

 

 

Isso, mas agora sem o dedo no nariz, ok?

 

 

 

 

 

 

Boa, assim mesmo Tim, fica assim. Miguel!! Olha para a mamã!

Miguel não! Assim não! Vais cair! Miguel! MIGUEL!!!»

 

 

 

 

 

 

…Caiu. Claro.

Chorou. Claro.

Sangrou da boca. Claro.

E eu? Continuei sem a minha foto. Claro.

Bom, ao menos estava um dia bonito…

Ando a perder qualquer coisa… – ainda as manhãs

No meio de todos os meus hercúleos esforços para ligar a minha conta de instagram ao blog – os quais, basicamente, materializam todas as minhas tentativas de fazer o que quer que seja que implique os mínimos olímpicos de domínio de informática – dei comigo perdida em postagens antigas das minha manhãs com o Martim.

E ali, perdida em fotos antigas, pensei que era isso mesmo o que sentia: que ando a perder qualquer coisa.

Nessas manhãs em que éramos só eu e ele, acordávamos cedinho os dois e havia tempo para tudo. Arranjávamo-nos na preguiça e enrolávamo-nos no sofá a ver bonecos nas manhãs mais frias. Que bem que me sabiam aqueles miminhos de mãos pequeninas!

Sobretudo, havia sempre tempo para brincar. Na sala ou no quarto, espalhávamos o que lhe apetecesse nesse dia e brincávamos os dois. Eu fazia-lhe bonecos de plasticina que, mal terminados, tinham que se transformar noutra coisa. Montávamos os carris do comboio de lego para o ver andar… e descarrilar. Fazíamos corridas de carrinhos em pistas imaginárias feitas de almofadas e franjas de tapete.

Às vezes, só às vezes, quando ele acordava demasiado cedo, usava das minhas melhores técnicas de flexibilidade para me deitar na cama de grades com ele. E lá ficávamos os dois, até que pelo menos o sol nascesse e chegasse de mansinho uma hora decente para se estar a pé.

Engravidei do Miguel. A agilidade com que me esgueirava para dentro da caminha de grades evaporou à medida que a barriga crescia. O cansaço tomou conta e começou a ser difícil sentar-me no chão com o Martim tanto tempo. Houve dias de análises e dias de consultas matinais em que não foi possível brincar ou acompanhá-lo à escola. Tempo que nos foi roubado, embora por ninguém.

O Miguel nasceu. Apesar de tudo o que exige um recém-nascido eu estava em casa e os meus horários eram apenas os dele. Havia tempo. Passado o primeiro mês, levava o Martim à escola de metro, sem pressa, e voltava com o Miguel, muitas vezes a pé. Pelo caminho contávamos histórias, observávamos as flores, víamos as pessoas nas suas vidas atarefadas e falávamos sobre tudo e sobre nada. Chegada a casa passava horas com o Miguel ao colo a vê-lo dormir e passeávamos sempre que havia bom tempo.

Mudámos de casa. E de alguma forma parece que mudámos de relógio também, porque o nosso tempo nunca mais foi o mesmo.

A sensação que tenho é que passava muito tempo de qualidade com o Martim antes de nascer o irmão e até voltar a trabalhar após a licença e que agora passo muito pouco com qualquer dos dois. Juntos, acordam mais tarde. Entre pequenos-almoços, fraldas e dentes por lavar já não brincamos. E à noite, entre banhos, jantares e o dia seguinte para preparar, a verdade é que também não. 

Estou sempre cansada. Sempre atrás do relógio. Chateio-me mais. O Martim não percebe e sei que se sente a desiludir-me. O Miguel também não percebe, embora por outras razões, mas já arregala os olhos e fica muito quietinho a olhar para mim quando me aborreço.

Ando a perder qualquer coisa. E ‘qualquer coisa’ é cada vez maior. E ‘qualquer coisa’ cresce de forma inversamente proporcional à minha vontade de perder o que quer que seja.

Não quero perder pitada deles.

Não quero ser ‘a mãe cansada demais para brincar’.

Não quero ser ‘a mãe que grita’.

E não quero fazer de conta que eles têm culpa disso.

Só quero as nossas manhãs de volta…