O ‘dia do filho único’

O ‘dia do filho único’ pretende descrever a circunstância na qual os pais de mais de um filho reservam um dia para passar apenas com um deles, como se fossem ‘filho único’.

É um tema no qual, confesso, tive que morder a língua. No meu tempo pré-Miguel achava um pouco pateta largar um filho para me dedicar em exclusivo a outro. Ter irmãos, serem irmãos, era a sua realidade e havia que viver de acordo com ela.

Porém, há algum tempo que sentia falta do meu tempo a sós com o Martim, como vos descrevi aqui e, depois destes últimos dias em que o monstro do ciúme se apoderou dele, como vos falei aqui, tornou-se gritante que também ele precisava da minha atenção total, sem distracções.

Hoje deixámos o Miguel na escola e lá fomos, a caminho do Almada fórum para uma sessão de cinema a dois.

Embarquei no relógio leeento do meu filho mais velho e fizemos tudo ao seu ritmo.

Levámos uma hora para almoçar porque ele passou metade do tempo a fazer perguntas sobre o filme. Levámos outra hora entre duas lojas porque ele se distrai a dar conversa às lojistas da Ale Hop e brincou pela Fnac com uma luva dinossauro como se fosse o parque.

No carro, ele estava visivelmente cansado, mas quando lhe perguntei se queria deitar-se um pouco comigo para descansarmos, respondeu-me que não, que queria brincar.

E fez questão de brincar comigo até à hora de irmos buscar o Miguel. Inclusivamente, quando o Mário chegou a casa, informou o pai de que estávamos a brincar só os dois e que, caso ele quisesse participar, teria que ser ‘os maus’.

Fomos todos juntos buscar o irmão e ainda não tínhamos chegado à escola, que fica a cinco minutos de carro e já ele tinha adormecido, actividade a que continua a dedicar-se enquanto escrevo isto.

Eu estava redondamente enganada. Ele precisava. Eu precisava.

O ‘dia do filho único’ está longe de ser pateta. Pateta era eu, por acreditar nisso.