«Porquê?» – O outdoor que vai levar-me ao divórcio

Há sensivelmente dois meses – DOIS MESES – que, a caminho do trabalho, passo pelo mesmo outdoor.

É um de vários que a Câmara Municipal espalhou pela cidade por ocasião do Dia Internacional da Mulher.

A colecção de outdoors tem um layout semelhante: fundos totalmente pretos, uma foto de um rosto de mulher com expressão pesada e um dado estatístico em letras brancas (há vários, é só escolher) que traduz a desigualdade de género. Estão a visualizar?

Boa!

Então, aqui vou eu, depois de largar os meus preciosos M’s na escola, a caminho do trabalho, mais ou menos entretida na minha costumeira enchurrada de pensamentos incontroláveis quando passo por aquele outdoor.

Tentei encontrar uma imagem dele, para perceberem o impacto que uma coisa daquelas pode ter pela manhã, mas não consegui, desculpem, terão que ficar com o meu relato e tentar imaginar.

Resumindo, diz qualquer coisa como:

Mulheres na distribuição das tarefas domésticas:

Mais 1h45 que os homens todos os dias.

PORQUÊ?

Duas coisas muito importantes para apreenderem o meu estado de espírito:

  1. «Todos os dias» deve ser lido assim: TODOS [pausa] os [pausa] dias. E com dicção perfeita!
  2. Aquele «porquê?» em letras garrafais faz eco. De verdade, creiam-me.

Leio «porquê?», mas o meu cérebro regista «PORQUÊ? Porquê…? quê…? ê…? ê…»

Começo a ficar com uma leve urticária.

Digo leve, porque não se compara ao bicho carpinteiro que me ataca quando começo a fazer contas: 1h45 por dia, 12h15 por semana, 49 horas por mês, 588 horas por ano!!!

F*da-se!!!

Eu gasto quase 600 horas a mais do que sua excelência, ‘o princeso’ a cuidar do que é dos dois?!

Inevitavelmente começo a pensar em tudo o que me espera quando chegar a casa: roupa, loiça, fraldas, banhos, jantares, histórias para dormir, ‘arrumar’ o dia seguinte. A imagem de fundo na minha cabeça mostra-me, claro está, o meu marido confortavelmente sentado no sofá. Outras vezes ouço-o também dizer, imaginariamente «deixa isso, vem um pouco para o pé de nós».

Neste ponto, já nem vejo o trânsito. Fervilho e insulto mentalmente o meu marido pelas 600 horas que eu não faço ideia se gasto ou não a mais do que ele em tarefas domésticas.

Chego ao trabalho a pensar em contactos de bons advogados de Direito da Família.

E mais: o próximo que me disser que estou com um ar cansado leva um murro na tromba e uma pilha de roupa para tratar.

Os M’s beberam demais…

O Marco

O Marco tem 19 anos e acabou de tirar a carta.

O Marco é um filho ‘certinho’ e um aluno exemplar. Entrou em medicina e todos se orgulham do seu percurso.

Apesar de se exigir muito no campo dos estudos, o Marco não abdica dos seus amigos e socializa de forma saudável.

Por isso o Marco saiu numa sexta-feira à noite para um barzinho e aconteceu algo inédito nele. O Marco bebeu demais.

Como nunca o tinha feito, pouco consciente dos efeitos do álcool no seu corpo e discernimento, o Marco achou-se ‘bem para conduzir’.

Não estava. Parado numa operação stop de rotina, acusou um volume de álcool superior a 0,5 g/l.

Foi condenado por crime de condução sob o efeito de álcool e cumpriu uma pequena pena de multa.

Pouco ou nada mudou na sua vida. Todos à sua volta o compreenderam e apoiaram, afinal, o Marco sempre foi bom rapaz e errar é humano,que injustiça seria roubar um futuro a uma mente tão brilhante.

 

A Miriam

A Miriam tem 17 anos e é uma menina que todos consideram rebelde.

Pinta-se demasiado, veste-se pouco, sai com frequência às escondidas dos pais.

A Miriam gosta de beijar na boca e não vê razões para não o fazer sempre que lhe apeteça.

As liberdades da Miriam valeram-lhe fama de ‘fácil’ na escola, que frequenta, de resto, apenas quando bem entende, o que já lhe valeu ter que repetir o ano.

Numa das suas escapadas nocturnas, a Miriam bebeu demais, como acontecia de vez em quando. Afinal YOLO, não é verdade?

Um rapaz ofereceu-lhe boleia para a ajudar a chegar a casa em segurança e ela aceitou, estava tão mal-disposta…

A Miriam foi levada para casa. Mas não para a sua. A Miriam foi levada para casa de um amigo do seu ‘salvador’ e violada pelos dois.

A Miriam queixou-se e ouviu de tudo: Quem manda sair? Quem manda beber? Quem manda vestir saia curta? Quem manda ‘andar com todos’?

A Miriam pôs-se a jeito. A Miriam estava a pedi-las.

A Miriam teve que mudar de escola, teve que mudar de casa, de cidade. Por onde andasse todos a apontavam e comentavam o ‘estado a que tinha chegado’.

 

***

Estas são histórias fictícias, mas não muito.

Em ambas as histórias foram praticados crimes.

O percurso e a personalidade do Marco pesaram como atenuantes no crime de que foi autor e que colocou virtualmente em risco uma série de vidas. Nada mais natural.

O percurso e a personalidade da Miriam pesaram como atenuantes também… mas para os autores do crime de que ela foi a vítima.

Se o Marco tivesse atropelado uma pessoa, alguém se lembraria de perguntar qual era o comportamento habitual dessa pessoa enquanto peão, quantas vezes tinha atravessado a estrada fora da passadeira, se tinha por hábito ofender os condutores que não lhe dessem passagem ou provocá-los simulando atravessar a estrada ou pedindo que ‘passem por cima’? Certamente que não… Porquê? Porque não interessa. Interessará eventualmente se naquela circunstância em concreto atravessou fora da passadeira ou se se atirou para a estrada de uma forma que um outro condutor que não o Marco, diligente e sóbrio, o teria atropelado de qualquer maneira…

A vítima não tem culpa. A vítima não tem que ser santa, não tem que ser boa aluna, boa filha, boa amiga, casta e pura para ser reconhecida como vítima de um crime. O seu carácter e a sua popularidade são irrelevantes para efeitos dos crimes praticados sobre ela, tal com a sua conduta do dia-a-dia ou os juízos de valor que essa conduta nos possa despertar enquanto indivíduos.

No caso da Miriam, ou ela deu consentimento aos dois rapazes ou não deu.

No que respeita especificamente aos crimes sexuais (quase) tudo se reconduz a saber se houve ou não consentimento naquele caso concreto e naquelas circunstâncias específicas.

Só isso importa.

Vamos parar de pôr as mulheres vítimas de crimes sexuais no banco dos réus?

E, já agora, vamos ensinar aos nossos filhos o significado, o valor e a importância do consentimento?

O que o Dia da Mulher não é

Vocês que me acompanham desse lado há algum tempo, já terão reparado que para mim #feminismonãoépalavrão.

Aos 33 anos, mãe de dois filhos meninos, trabalhando num ambiente que alguns apelidariam de algo elitista e circulando diariamente na rua como o comum dos mortais, sinto na pele, sinto na alma, todas as razões pelas quais o Dia Internacional da Mulher faz sentido, ainda e infelizmente.

Por isso, quando chega esta data, há uma série de posturas e assumpções que me fazem uma comichão tremenda porque desvalorizam o peso e o impacto da luta do feminismo pela igualdade plena – de Direito e de facto – entre homens e mulheres.

Eis as coisinhas que todos os anos engulo, não como sapos, mas como verdadeiros dragões de Komodo e que mostram tudo, tudo, tudo o que o Dia da Mulher não é e tudo para o que não serve.

Uma data comercial

Não, meus caros. O Dia da Mulher não é a segunda edição do Dia dos Namorados. Se se esqueceram desse dia ou do vosso aniversário de namoro, casamento, o que seja, este não é o dia para compensar a vossa mais que tudo por esse facto, presenteando-a com um enorme ramo de flores ou um jantar fora.

Até porque este é um dia de todos. Homens e mulheres que lutaram e lutam ainda para alcançar a tão almejada igualdade. O facto de se chamar ‘Dia da Mulher’, serve apenas para elucidar os mais distraídos sobre quem é que está na mó de baixo nessa luta e quem é que precisa mais de ver a igualdade cumprida. Apenas isso.

Até podem ser bem intencionados mas poupem uns trocos (a menos que a vossa mais que tudo compreenda este dia da mesma maneira que vocês e, nesse caso, esqueçam tudo e comprem as rosas mais vermelhas com que se deparem… Quem sou eu para arruinar relações?…).

Senhoras, também vale para vocês… Hoje não é sobre jantares só de mulheres e strips masculinos. Tudo isso é, sim, um exercício maravilhoso da liberdade que felizmente já têm enquanto mulheres, mas, na minha humilde opinião, excluir os homens da celebração deste dia reforça a ideia errada de que é mais um ‘para inglês ver’ e logo, não é o ideal no que respeita a dar-lhe a força que ele merece. Convidem os homens a participar. Se quiserem, e tiverem coragem e à vontade para isso, convidem-nos a participar e falem de tudo o que falariam se eles não estivessem presentes. Incentivem-nos a compreender o vosso lado do Mundo. E pasmem-se: não precisam de dar baixa ao strip masculino. Acrescentem um feminino e há para todos os gostos e orientações sexuais. Olha que bela demonstração de igualdade…

Um dia de excepção

E falando em jantares fora… Não, meus caros. Este também não é o dia em que ela chega a casa e a roupa está lavada, passada e dobrada e só não está arrumada para não correrem o risco de ela não se aperceber da grande empreitada que levaram a cabo.

Atendendo a que partilham a mesma casa e produzem, presumivelmente, metade da lixeirada e desarrumação, se não fazem os vossos 50% TODOS OS DIAS nem pretendem passar a fazê-lo de forma consistente, este também não é, certamente, o dia de reforçarem a ideia de que as tarefas domésticas são ‘coisa de mulher’, das quais fazem magnanimamente o favor de as dispensar porque, afinal, é o “seu dia”.

Caso não tenham reparado, é justamente contra esses e outros estereótipos de género que o feminismo se insurge. É sobre esses e outros estereótipos de género que o Dia da Mulher pretende que se reflicta.

Ao passaram a vossa própria camisa, ao lavaram a loiça do vosso próprio jantar ou ao arrumarem os brinquedos dos filhos de quem são pais, não estão a aliviar a vossa mulher de um papel que lhe cabe: estão só a fazer aquilo que vos compete enquanto pessoas que coabitam debaixo do mesmo tecto com outras pessoas, em família.

Vá lá… não se envergonhem, a sério (em todo o caso, se pensaram em fazer algum tipo de tarefa doméstica que normalmente não fazem não deixem voar essa ideia: amanhã também é dia. E no dia seguinte. E no seguinte. E no seguinte. A boa notícia para estes impulsos de decência é que uma casa com uma família dentro é um trabalho doméstico contínuo e infinito, por isso: força aí!).

Exaltação das mulheres com quem convivem

A mãe, a mulher, a irmã, a filha, a vizinha… Não, o dia não é dedicado às ‘vossas mulheres’, às ‘grandes mulheres’ que fazem parte da vossa vida.

Já mencionei que é um dia que reflecte a luta, não apenas de mulheres, mas para que as mulheres possam aceder a um estatuto jurídico-socio-económico equivalente ao dos homens?

Pois é… Nada contra a exaltação das mulheres que admiram, sempre, mas hoje sugiro que reflictam em particular sobre o que elas vos ensinaram sobre igualdade, porque é que querem ser iguais a elas, como é que elas se viram nas dificuldades impostas pelo seu género. Exaltem ISSO.

Uma boa oportunidade para demonstrações de desprezo relativamente à data

Em regra o argumento é de que a igualdade já aí está e que mulher se queixa de barriga cheia. Que num país de primeiro mundo não faz sentido assinalar esta data. Afinal, não é como se as mulheres não pudessem votar ou conduzir ou trabalhar sem autorização masculina ou fossem apedrejadas por trair…

Tanto que eu podia dizer sobre isto… Mas vou limitar-me a duas observações:

A primeira é que o facto de haver países com problemas muito mais graves decorrentes da concepção da mulher como um ser menor, não faz das manifestações menos graves desses problemas um ‘não problema’.

A segunda é que não se pode confundir a igualdade aparente, que é a que inequivocamente resulta da lei, com a igualdade de facto, que é a que resulta da boa interpretação e aplicação da lei. Ora, os aplicadores da lei, que vão dos empregadores aos juízes são pessoas. E, como tal, imbuídas de determinadas convicções pessoais, religiosas, éticas, políticas e por aí vai… Uma sociedade composta por homens e mulheres machistas (muitas vezes sem consciência disso), toma decisões machistas. É inevitável. E digno de reflexão. Pelo menos hoje.

Não acreditam? Podem ler um exemplo prático aqui relativamente a empregadores e outro aqui, relativamente ao funcionamento do nosso sistema judicial no que respeita à criminalidade de género.

Não desprezem a data. Se não quiserem perder cinco minutos com ela, abstraiam-se… Amanhã é outro dia (mas se se depararem com informação de valor, também não magoa ler…).

Publicações no Facebook com um certo e determinado teor

Amig@s… AMIG@S! De todas as coisas que me fazem comichão, esta é a que me dá vontade de desligar o computador, ir até casa da pessoa e entalar-lhe a cabeça no seu portátil três ou quatro vezes. Com alguma força, vá.

Façam o que fizerem não publiquem nada no facebook que comece, termine ou inclua a expressão ‘mulheres de verdade’.

Porra (o que eu queria escrever era ‘foda-se’ mas atendendo ao meu último post mudei à última da hora)!

Mulheres de verdade somos todas.

Mesmo que eu não seja crente e Deus não saia da boca daquela mulher.

Mesmo que eu odeie a maneira como para aquela outra tudo se resume a quem tem o quê e seja essa a ordem de importância com que estabelece as suas prioridades.

Mesmo que a terceira insista em encher o meu saco com assuntos que não me interessam, ‘ensinar-me’ coisas que ambas sabemos que o mundo inteiro sabe ou meter-se na minha vida para além de tudo o que é razoável.

O facto de eu não gostar delas, do que fazem ou dos seus posicionamentos sobre as questões não as torna menos ‘de verdade’.

Mais que tudo isso, não distingam mulheres ‘de verdade’ das ‘outras’ por um critério do que na vossa cabeça é ‘decente’. Decente como em ‘respeitável’. Porque essa é uma premissa perigosa que conduz facilmente ao raciocínio de que existem pessoas (mulheres) que merecem ser respeitadas e outras que não.

Neste contexto: a mulher que usa uma bruta minissaia é tão de verdade como a que usa um hábito imaculado. A que vai pratica sexo casual apenas porque é o que lhe apetece, é tão de verdade como a que quer casar virgem porque é nisso que acredita. A que trai todos os seus companheiros ou os substitui com frequência é tão de verdade como a que casou com o seu primeiro e único parceiro sexual.

Tão de verdade = tão merecedora de respeito quanto.

Por isso, por favor, por favor, por favor… Não façam isto….

***

Termino dizendo que igualdade não pressupõe sermos todos iguais, mas termos toda idêntica liberdade para sermos o que quisermos, sem julgamentos ou penalizações externas.

Quem é que pode não querer isto? Porque é que não somos todos feministas ainda?

Feliz dia Internacional da Mulher a tod@s! Boas reflexões!

(as ilustrações são todas da Denise Silva e foram retiradas da sua página de Facebook)

Mãe é puta. Bom é o pai.

O texto de hoje, além de usar linguagem sensível, como já transparece do título, não é meu. Não é meu, nem poderia. Não passei pela experiência de que fala, pelo julgamento que descreve nem pela desigualdade profunda que resulta do que é exigido a um pai vs o que é exigido a uma mãe para que tenham ambos classificação de ‘bom’ no exame dessa disciplina contínua que é a parentalidade.

O texto de hoje não é meu, mas sinto em cada vírgula, em cada frase, em cada comparação, a dor, o peso, a culpa de tantas mulheres a quem é cobrado que deixem de o ser a partir do momento que nasce um filho, a qualquer custo, para todo o sempre e sozinhas, se assim tiver que ser. Porque mãe é sempre mãe e é o seu dever sê-lo. Já pai só é pai se quiser (e/ou se a Justiça obrigar).

O texto de hoje não é meu e é, obviamente, tal como as minhas palavras acima, uma generalização. Por favor, pais presentes e mães separadas deles, não levem a peito.

Coloco-o entre aspas, mas não sei quem o escreveu, apesar de já o ter lido muitas vezes, em diversas fontes. Perdoem-me, por isso, que não nomeie a sua autora (no entanto, se alguém souber, que me diga).

O texto de hoje não é meu, mas é tão honesto, tão cru(el). Agora, que tenho esta voz que o Entre M’s me dá, não consigo deixar de o dividir com quem me lê.

E pensar que tudo poderia resolver-se com um pouco de empatia

***

“São quase 15h. Meu filho está no meu sofá vendo desenho e me pedindo almoço que eu não fiz.

Hoje é o final de semana do pai, que começou a contar das 9h de sábado e vai até as 18h de domingo. O pai chegou cedo, milagrosamente, mas por volta do meio dia foi cortar o cabelo e não voltou ainda. Meu filho tá pulando no sofá e eu tô cansada de ser mãe. Eu queria ser pai.

Semana passada era o final de semana dele, mas fiquei sabendo na quinta que ele ia pra África, olha só que legal, mais uma viagem internacional, e eu nem passaporte tenho. Claro que eu fico com meu filho e desmarco meu rolê com meu namorado, minha foda atrasada em uma semana a mais, uma a menos, que diferença faz? Eu sou mãe, né não?
Ele tem pós na USP, mestrado na UFMG, fala um inglês fluente com certeza. Eu não consigo nem frequentar meu cursinho todos os dias da semana. Saio todo dia na penultima aula pra pegar meu filho na escola particular que ele paga. Bom pai, paga pensão alta, tenho que valorizar. Né, não?

Ele nunca namorou depois que nos divorciamos, não precisa assumir ninguém, a vida sexual dele é livre. O filho nunca fez ele desmarcar um compromisso de sexo casual, nunca teve uma febre e ele precisou largar o pernoite pra ir pro P.S.

Já eu, já eu, sempre de namoro em namoro, sempre morando junto, sempre transando no chuveiro, senão eu não transo. Só posso gozar depois que o filho dormir, isso se eu tiver disposição.

Foi pra França, trouxe a Torre Eiffel: bom pai.

Foi pra Maputo, atrasou a visitação mais um final de semana, trouxe uma girafa: bom pai.

Foi pra Recife, trouxe um lampeão: bom pai.

Paga pensão descontada na folha: bom pai.

Nunca ficou 15 dias seguidos com o filho de 6 anos: bom pai, estava trabalhando para pagar pensão senão vai preso.

Mãe mora junto com o primeiro namorado pra dividir conta e poder foder, porque mãe também fode: puta.

Mãe não tem formação universitária: vive de pensão, é puta.

Mãe termina com o primeiro namorado: não sabe formar família, é puta.

Mãe fica desempregada e usa parte da pensão pra pagar despesas: vive do dinheiro do ex, é puta.

Mãe ajunta com o segundo namorado pra dividir aluguel e conseguir foder no chuveiro: é puta, trazendo outro macho pra dentro de casa.

Mãe pensa em sumicídio (sumir ou suicídio-algo que não magoe o filho: ah, não tem essa opção)

Foda-se a mãe egoísta que quer desistir.

Vai ter que aguentar a pressão pra não desgraçar a vida do filho. Se vira, mãe.

Mãe tá esgotada. Mãe não fode. Mãe não pode. Mãe não presta.

Mãe é puta.

Bom é o pai.”

#feminismonãoépalavrão

E se fosse consigo? Assédio

O programa ‘E se fosse consigo?’ da SIC, da passada segunda-feira procurou retratar uma cena de assédio de rua, em que dois rapazes importunavam de forma insistente uma rapariga que se mostrava consistentemente constrangida e desagradada.

Quis a ironia que a cena fosse filmada numa paragem de autocarro do concelho onde cresci e onde, curiosamente, tantas vezes eu própria apanhei o autocarro. Onde tantas vezes eu própria fui o alvo de comentários constrangedores.

Veio-me imediatamente à cabeça um post da plataforma Capazes já com mais de dois anos, onde se relatava uma situação de assédio sob a hastag #queroandarempaznarua e que terminava com a pergunta ‘Sou a única?’ Ao ler esta pergunta, a minha reacção imediata foi comentar enumerando uma série de situações que me aconteceram desde muito, muito criança (era minha intenção reproduzir esse comentário mas, não sei porquê, eles já não me aparecem visíveis no artigo).

Em todo o caso, não parei para pensar ou para recordar essas situações. Elas vieram-me, simplesmente, à memória, de forma automática. Foram essas, de criança, podiam ter sido outras. Tantas, tantas outras.

Como a do vizinho que, conhecendo-me desde o berço, passou todos os anos da minha pré-adolescência e adolescência a comentar as roupas que eu vestia, a quantidade de pele que elas deixavam ver, a perguntar sobre namorados quando ainda os não havia e sobre o que eu fazia com eles quando passou a havê-los.

Ou como a do homem que me abordou no caminho de volta do ginásio para o trabalho, segurando-me o braço e perguntando-me se me podia conhecer (o tom tinha uma interrogação no fim, mas senti, de verdade, que não era uma pergunta).

Ou a de um outro, com idade para ser, pelo menos meu pai, que sentiu necessidade de verbalizar o desejo que eu, grávida de oito meses que estava do Martim, lhe despertava.

Podia continuar por largas linhas, sem hesitar e, mais uma vez, sem ter que puxar pela cabeça para me lembrar de inúmeras situações que, infelizmente – e digo ‘infelizmente’ porque traduz uma conformação com este tipo de comportamentos que considero, a todos os títulos, inaceitáveis – sinto como cada vez menos constrangedoras.

Não entendo que me tenha tornado uma adulta traumatizada pelas situações de assédio com que fui confrontada desde demasiado nova, mas não tenho dúvidas de que fizeram de mim uma pessoa um pouquinho pior do que poderia ser. Um pouco menos confiante. Um pouco mais agitada. Um pouco mais explosiva.

Em contrapartida, estou certa de que terão feito de mim uma mãe de meninos mais preparada. Para que outras meninas e mulheres não passem pelo mesmo. Não às mãos de homens que eu tenha tido oportunidade de educar para o respeito por cada indivíduo em si mesmo e não somente para o respeito restrito aos seus pares.

Quanto ao programa, embora, por experiência própria, não esperasse nada diferente, entristeceu-me. Entristeceram-me os relatos, entristeceram-me as pessoas que ainda vêem graça no desconforto de uma mulher acossada na sua intimidade, entristeceu-me o aparente descaso e desencorajamento das autoridades a que se reportem estas situações formalmente.

Mas mais que tudo isso, entristeceu-me o facto de, pela primeira vez, não conseguir rever-me no título do programa.

E se fosse consigo?? Como assim, ‘se’? É comigo! Foi comigo! Tem sido comigo a vida toda!

Comigo e com todas nós.

E não há perspectiva sob a qual isso possa estar certo ou vá, que seja, um pouco menos errado.

#feminismonãoépalavrão