Eu, Ele, a Maria e o Miguel – quando a escola dos nossos filhos se porta mal

O título parece usurpado de uma página que talvez conheçam. E é. Bom, talvez ‘usurpado’ seja forte demais. Emprestado.

Eu, ele, a maria e o miguel é uma página que sigo atentamente há alguns anos. Também tem um blog com as fotos mais ternas, acompanhadas pelos descritivos mais tocantes que já vi. Em suma, adoro e não perco um post (a sério, visitem, vale muito a pena).

Há alguns dias, a Vera, autora da página e mãe da Maria, do Miguel e da Anita publicou isto, de partir o coração, sobre a escola do seu Migas.

Ontem, uma outra página que sigo atentamente, até porque é escrita por uma amiga minha, partilhou esse post, acrescentando que estava na mesma situação.

Pergunto: o que será que vai na cabeça de quem dirige estes jardins de infância? Sublinho: jardins de infância.

Não me refiro tanto ao facto de proibirem os pais de entrar nas instalações da escola. Não que considere que seja uma divisão de águas saudável à partida, na medida em me parece que pode acentuar, de forma desnecessária, o síndrome de separação em relação aos pais. Torna tudo um pouco menos fluído e natural do que o desejável, na minha opinião. Mas, como comecei por mencionar, nem é tanto a isso que me refiro. As crianças são mais fantásticas do que qualquer adulto que tenha tido o prazer de conhecer até hoje e adaptam-se a qualquer coisa, por muito má que seja (o que não significa, obviamente, carta branca para atirar para cima dos seus pequenos ombros todos os males do Mundo…).

Mas, caramba: mudar as regras a meio do jogo? É, no mínimo, desleal. Se há coisa que as crianças valorizam é a confiança que depositam nos seus cuidadores, a fiabilidade da sua palavra e a sua capacidade de cumprir o combinado, o que quer que o combinado seja. Falhar ao combinado é falhar à criança. Falhar o combinado é retirar à criança a possibilidade de saber com o que contar, de se sentir seguro. É ensinar-lhe que pouco importa aquilo com que ela própria se comprometa porque, na verdade, ‘depois logo se vê’. E, nos dois casos em concreto, não tenho dúvidas de que proibir, no decurso do ano lectivo e sem nenhuma razão superveniente de relevo, algo que até aí lhes era permitido, é falhar com que implicitamente estava ‘combinado’.

Também não consigo digerir muito bem o argumento de que é bom prepará-los para as mudanças que se avizinham com a entrada no primeiro ciclo, em que a rede de segurança dos pais lhes é retirada. É verdade, são mudanças. É verdade, são grandes. É verdade, pode ser difícil e eles podem levar mais ou menos tempo a aceitá-las e a adaptar-se a elas. Mas também é verdade que antecipar uma mudança não a torna necessariamente mais fácil. Diria até que antes pelo contrário. Porque eles crescem, a maturidade deles cresce. A vontade que têm de serem mais autónomos cresce. Por outro lado, a necessidade que têm da aprovação constante dos pais diminui à medida que se sentem mais seguros do seu lugar no Mundo. E tudo isso conta.

Para quê, forçá-los a uma realidade apenas para ‘antecipar’ uma outra? Que mania é esta de querer à força que os nossos filhos já quase que nasçam independentes dos pais? O que é isso, sequer? Independência é um conceito que significa muitas coisas, uma para cada idade e, muitas vezes, até uma para cada criança.

E acho muito difícil fomentar a independência numa criança que não se sente segura e a quem se dá o ‘dito por não dito’.

Perguntem ao Martim. Até ele, com quatro anos, já sabe como é importante ‘cumprir o combinado’.

Aos jardins de infância peço: deixem as crianças ter a idade que têm e deixem-nos a nós, pais, gozar os nossos pequeninos enquanto eles têm interesse nisso.

É só isto.

Bom fim-de-semana, gente boa!