A mulher que não sabia parar

Prelúdio

Esta é uma história que me foi contada na sua forma verídica e que passei a contar em termos mais abstractos a várias pessoas que me são queridas.

Num ou noutro momento das nossas vidas todos nós já nos vimos assoberbados pelas circunstâncias, pela lista de afazeres que não diminui, pelas exigências do dia-a-dia.

E nessas alturas… É preciso saber parar.

Esta é, por isso, uma história fictícia… mas não muito.

Era uma vez

Havia uma mulher que trabalhava numa clínica.

Trabalhava muito. Trabalhava por turnos. Trabalhava sem parar.

Era pouco reconhecida e muito cobrada.

A mulher começou a sentir algumas dores mas, ainda que trabalhando numa clínica, não sobrava tempo para ir ao médico.

O tempo passava… Mas as dores não. A mulher então consultou a chefia no sentido de tirar alguns dias para fazer todos os exames adequados.

A chefia riu-se da sua moleza, disse-lhe que havia muito trabalho e não podia dispensá-la naquela altura.

A mulher acedeu e seguiu trabalhando, dia após dia, com dores.

Até que elas se tornaram insuportáveis.

E a mulher decidiu fazer frente à chefia e ao seu próprio sentido de obrigação: era preciso parar. Era preciso tratar-se do que quer que causasse as dores. Era preciso melhorar antes de voltar a escravizar-se à custa do tempo em família, das noites passadas longe de casa, dos dias corridos pouco vendo os filhos.

E então a mulher foi e fez todos os exames há tanto tempo adiados.

A mulher morreu pouco depois. A mulher tinha um cancro que lhe foi diagnosticado tarde demais.

A mulher, quase literalmente, matou-se a trabalhar.

 

E agora pergunto

Quem irá aquela mulher ajudar agora?

Quem será mãe para os seus filhos, filha para os seus pais, mulher para o seu marido?

Quão boa profissional é ela neste momento?

Em suma: valeu a pena?

Parentalidade positiva na blogosfera

Prefiro chamar-lhe consciente, numa óptica de se traçar um plano/propósito e direccionar as nossas acções de parentalidade a ele. Mas vamos lá.

O Gatilho

Sou fã confessa da página Ser super mãe é uma treta. É um banho de maternidade real e quase em directo, porque acompanhar os posts da Susana é como viver com ela (o que quero dizer não é, obviamente, que revela demais, mas que é extremamente impressiva em tudo o que escreve). Sentimos-lhe o desespero, que mais não é do que o nosso em inúmeras ocasiões, enquanto nos divertirmos com isso. Estamos juntas, Susana.

Também sou fã de um outro blog, o Not so fast, onde a Lénia fala do que bem lhe apetece, sempre num tom assertivo, mas dado à reflexão (ou pelo menos é como eu a interpreto), com uma escrita irrepreensível.

Calhou que recentemente estas duas mulheres cujos estilos e conteúdos admiro imensamente, abordaram um tema que me é cada vez mais caro: a parentalidade positiva. E fizeram-no de forma… negativa.

Li a perspectiva da Ser super mãe é uma treta com o maior dos humores. Li a perspectiva do Not so fast quase que rebatendo mentalmente cada ponto (é só clicar nos realces que vão direitinhos para os textos de que falo e valem ambos muito a pena, toca a ler (depois de acabar este, faxavori)).

Sobretudo, li ambas com o respeito que me merecem todas as suas postagens. Estas em particular, deram origem à presente reflexão.

 

Um par de disclaimers

Literalmente um par:

  1. SE a parentalidade positiva traduzisse aquilo de que ambas falam, eu odiaria o conceito tanto quanto qualquer uma das autoras.
  2. É sempre, sempre, sempre, uma questão de perspectiva: a parentalidade é, no fim do dia, o que os pais quiserem fazer com ela e o que funcionar melhor em cada caso. Se for forçado, não é ‘positivo’, mesmo que conceptualmente queiramos aplicar esses princípios.

O que a parentalidade positiva não é

Não é sobre tornarmo-nos pais permissivos.

Não é sobre andarmos às ordens dos nossos filhos.

Não é sobre sentirmos culpa quando, optando de forma consciente por aplicar os princípios da parentalidade positiva, deixamos em situações do dia-a-dia de o fazer (foda-se a culpa, certo Susana?).

Como decorre do disclaimer 2, também não é para todos os pais: é para os que se revêem naquele modelo e se sentem bem com ele (desde logo, posso dizer-vos que é para mim e não é, de todo, para o meu marido – e ESTÁ TUDO BEM, somos ambos, ele e eu, os melhores pais que sabemos ser independentemente dos ‘como’s desta vida!).

O que a parentalidade positiva pretende

Desde logo tem boas intenções e não pretende ser positiva por oposição às ‘outras’, todas negativas (=todas erradas). É positiva por se pretender moldar o comportamento das crianças de dentro para fora, com alternativas que todos os envolvidos considerem aceitáveis aos comportamentos que não queremos que tenham, ao invés de fazê-lo de fora para dentro, isto é, reprimindo/proibindo/corrigindo unilateralmente esses mesmos comportamentos. É positiva porque almeja resultados positivos para todos: maior cooperação voluntária deles para connosco, logo, menos drama e stresse para nós.

Promover a autoestima de pais e filhos:

Isto não pressupõe fazê-los sentir-se ‘donos do pedaço’. Pressupõe que eles se conheçam, se compreendam, se aceitem e consigam ver-se, de forma geral, uma luz positiva, apesar dos seus pontos fracos, vivendo bem com eles ou trabalhando neles, dependendo das prioridades que se estabeleçam.

Onde entram os pais nisto? Numa lógica bastante primitiva de que, querendo ou não, ensinamos pelo exemplo, a melhor maneira de lhes passar a ideia do que é uma autoestima saudável é cultivar a própria – e isso é sempre positivo, independentemente do contexto.

Fomentar o respeito mútuo:

Quando digo mútuo, incluo o deles por nós, naturalmente. É mais ou menos isto: eles têm o direito a fazer a birra e nós temos o direito a ficar de cabelos em pé com ela. O que se procura é que eles aprendam, pouco a pouco, a lidar com o que quer que os tenha empurrado para a birra, reduzindo-as em número e intensidade e que nós aprendamos igualmente a gerir todas as coisas mais ou menos loucas e, essas sim, mais ou menos negativas, que nos passam pela cabeça na fase mais aguda de um desafio desta natureza.

Dar espaço à inteligência emocional:

Crianças que sabem identificar correcta e especificamente o que sentem e o que os outros, designadamente os próprios pais, sentem, que dominam razoavelmente a linguagem não verbal e que são capazes de empatizar, i.e., colocarem-se no lugar do outro, geralmente são mais capazes de exercerem o auto-controlo, de adiarem a recompensa (ou seja, de se manterem num determinado rumo que apenas ao fim de algum tempo poderá dar frutos), de se auto-motivarem e de ‘auto’ uma série de outras coisas que os pais costumam desejar.

Estabelecer limites:

Esta é uma parte importantíssima de qualquer modelo de parentalidade. Ninguém, em sanidade de espírito, conseguiria conceber a parentalidade como um mundo de pequenos imperadores ditando as regras das famílias enquanto os pais, reduzidos ao seu papel de serviçais, se desdobram em 1000 para satisfazer todos os caprichos de suas excelências… pelo menos em teoria.

Há lugar para o ‘não’ na parentalidade positiva? Há! Todo! Há castigos? Há, pois! Podem chamar-lhes ‘consequências’ à vontade, o propósito primordial de admoestar um filho com uma consequência/castigo é o mesmo: que ela se responsabilize pelos seus actos. Apenas se procura que estas consequências tenham um qualquer nexo causal com a infracção desvirtue a sua essência. E não vejo mal algum nisso. Afinal, até os Tribunais vêm reconhecendo os benefícios de aplicar penas acessórias que mostrem aos infractores o mal que as suas acções causaram e os obrigue, activamente, a repará-lo ou a preveni-lo…

***

Não vai funcionar sempre.

Exige prática e congruência (o que é diferente de consistência).

Mas não é uma batalha campal com vencedores de palmo e meio pré-definidos.

Sobretudo, haverá, com certeza, mil outras maneiras de educar com sucesso e em clima de harmonia e (relativa) felicidade.

Uma nota pessoal

Não sou uma pessoa que grita. Com ninguém. Desde que me conheço. Consigo, aliás, ser bastante desagradável, ofensiva e cáustica, mas sempre de uma forma calculada, sem levantar demasiado o tom de voz (não, isto também não é uma coisa boa). Gritar não faz parte do meu estilo, mesmo quando profundamente aborrecida (não que não aconteça ocasionalmente, em situações extremas). Também sou uma pessoa que precisa de controlar o máximo do seu ambiente. O planeamento e a previsibilidade são elementos que me tranquilizam.

E é essencialmente por isso – porque gritar não faz parte de mim enquanto indivíduo e porque o não domínio do que se passa à minha volta me faz mal – que não me reconheço quando, em desespero, grito e ajo por puro impulso com os meus filhos.

É também por isso que acho que, para mim e só para mim, a parentalidade consciente faz sentido e que nada perco em aprender ferramentas que me ajudem a lidar com algo na minha própria maternidade, de que não gosto. É mais por mim, do que por eles. E é uma razão tão boa como outra qualquer.

Em jeito de conclusão, um pedido

Muuuuiiiiito diferente de eu, ou qualquer outra mãe optar, para si e para os seus filhos, por este ou outro modelo, é o fanatismo com que algumas pessoas passam a defender as suas escolhas e a depreciação deliberada que oferecem às mães que escolhem diferentemente.

Isso sim, é transversalmente tóxico e propulsor de más energias. Aliás, alguns dos comentários aos posts que me suscitaram este são bastante ilustrativos do que agora digo: mulheres ditando umas às outras o que «têm que» e o que «não podem» fazer para serem consideradas boas mães e o que as torna dignas de pena, vergonha e, consequentemente, indignas de educar uma criança… Bom, digamos que não há ‘receita’ de parentalidade cuja escolha pressuponha a sua validação às custas dos mínimos olímpicos do bom senso e da sororidade.

Aquilo que eu escolho é, sem dúvida, o melhor PARA MIM. Aquilo que outras mães fazem também é, seguramente, o melhor PARA ELAS. As hipóteses são sempre várias e cumulativas, não se excluem mutuamente.

Por isso, façam o que fizerem: concedam às mães do vosso mundo (ainda que virtual) e às suas opções, o mesmo respeito com que tratam as vossas próprias.

Ninguém gosta de ser constantemente questionado (até quando não tem senão certezas). Para isso, já existem a nossa consciência e as nossas próprias inseguranças, sempre a fazer das suas.

 

Era mais fácil sozinha

 

Alguém duvida que esta vida se fazia muito melhor sozinha?

Só nós, dispondo de 100% do nosso dinheiro, para gastar em 100% do nosso tempo livre, em actividades 100% do nosso agrado.

Sem cedências para fazer, sem grandes compromissos para honrar, sem outras vidas a nosso cargo.

Alguém, em sanidade de espírito, pode duvidar disso?

Eu não duvido.

Então porque são tão raras as pessoas que escolhem viver dessa forma?

Porque é que tão poucos de nós queremos e apreciamos verdadeiramente viver sozinhos?

Ninguém me perguntou mas eu vou falar, porque eu sou dessas: porque o mais fácil nem sempre (ou quase nunca) é o melhor.

Ou o mais prazeroso.

Ou o mais compensador.

Ou (principalmente) o que nos faz mais felizes.

Mas quererá isso dizer que, escolhendo uma opção menos fácil, nunca mais nas nossas vidas poderemos desabafar sobre o quão difícil é, às vezes, aquilo que escolhemos fazer?

Será que nos torna mães menos merecedoras dos nossos filhos o quanto nos queixarmos do cansaço, da falta de tempo, das estrias, da memória de peixe e do pavio curto? Porque, afinal, ‘se é assim tão difícil porque os tivemos’? E se ‘escolhemos ter agora não nos queixemos’…

Será que nos torna mulheres menos merecedoras de ter um relacionamento o facto de constatarmos o quanto o nosso marido pode ser inflexível/incompreensivo/preguiçoso/frio/ciumento/whatever? Porque ‘se não estamos satisfeitas, podemos sempre bater com a porta’?

Menos, gente! Acalmem lá esses dedinhos nervosos, afastem-nos do teclado onde habitualmente se dedicam a actividades de criticismo da vida alheia e pensem no que seria de vocês próprios se nunca pudessem queixar-se de circunstância nenhuma da vossa vida sem comerem logo com uma qualquer formulação do ‘fizeste a cama, agora deita-te nela’?

Desabafar sobre quanto pode ser difícil a vida a dois (ou, no meu caso particular, a quatro) serve apenas para colocar o difícil para fora de nós, partilhar, expelir o mau, relativizar: manter a saúde mental!

E isso está longe de querer significar que queremos voltar ao ‘fácil’.

Porque ‘fácil’ também significa uma certa dose de isolamento.

‘Fácil’ é não ter um abraço quentinho no frio da noite, um ombro onde pousar um pesadelo.

‘Fácil’ é não ter uma mãozinha pequenina à procura da nossa, um sorriso desdentado quando chegamos a casa.

‘Fácil’ é tantas vezes só isso mesmo: fácil, no sentido de ‘cómodo’, ou ‘menos trabalhoso do que’.

Era mais fácil sozinha? Era, claro!

Mas eu prefiro, de longe, convosco.

Nota:
O Facebook diminuiu o alcance das publicações de páginas. 
Para continuar a não 'perder pitada' do Entre M's pode: 
1) clicar no botão 'Seguir'no topo da nossa página do Facebook; 
2) seleccionar 'ver primeiro'.

Ele não lê o meu blog, mas…

Ele – o M mais crescido, com quem consta que sou casada – não lê o que partilho convosco por aqui (shame on him por não contribuir para o crescimento do blog!).

Em tempos, referi-vos este facto e mais ou menos deixei prometida uma explicação.

Acho que chegou a hora.

Ele não lê o meu blog.

Deixou de o fazer quando o blog era ainda praticamente um recém-nascido, no dia em que escrevi um texto – este – na sequência de um pequeno diferendo que tivemos.

O texto não era (não é) sobre ele. Não era sobre nós. Não era sequer sobre o tal diferendo.

Sucede que enquanto vivo o meu dia-a-dia penso sobre milhares de coisas e tudo o que penso me sugere temas sobre os quais me dá para escrever (ou não).

Foi o caso naquele dia. Era apenas uma reflexão que teve sim, como ponto embrionário de partida, aquele nosso diferendo. O texto era sobre a ideologia e os princípios que eu senti que, de alguma forma, podiam estar na base daquele nosso diferendo, em si mesmo, insignificante e ultrapassado.

Ele não lê o meu blog.

Creio (especulo) que tem medo de ler com o olhar único de quem vive comigo. De quem consegue perceber ‘de onde vêm’ as minhas palavras. De quem não quer sentir-se criticado.

Já lhe expliquei que tudo isto é, essencialmente, sobre mim, sobre as conversas intermináveis que tenho comigo mesma no carro, a caminho de casa, todos os dias, sobre a necessidade que tenho de falar, ‘sem medo de ser feliz’, sem amarras, sem grandes filtros. Falar para dar vazão a essa avalanche constante de reflexões que me invadem e distraem inoportunamente das minhas tarefas a todo o instante. Falar para esvaziar o compartimento do meu cérebro que precisa de se concentrar no que quer que seja.

Foi, todavia, inútil.

Ele não lê o meu blog.

Mas…

No último post partilhei o estado zombie em que me encontrava.

Recebi um feedback fantástico de mães desesperadas como eu (como isso me reconfortou só eu sei… Obrigada).

Quando cheguei a casa na sexta-feira ele disse-me «os meninos dormem fora hoje e nós vamos jantar».

E fomos. E eu dormi a noite toda sem interrupções. E o pequeno-almoço apareceu na minha cama pouco depois de me queixar que estava a ficar com fome. E os ecrãs foram deixados de lado até ao momento em que já não sabíamos mais o que fazer com o próprio ócio e decidimos ver um filme (seguido, imagine-se!).

Ele não lê o meu blog, é verdade.

Mas talvez não precise.

Ele não lê o meu blog porque lê tudo o que tenho dentro.

Sempre. Sem intermediários.

A competição (sobre a empatia e a parentalidade consciente)

O Contexto

Sempre pratiquei desportos. Tudo o que possam imaginar: natação, ginástica rítmica, karaté, equitação, aeróbica, danças brasileiras, you name it

Posso dizer o minuto em que passei a odiar cada uma das modalidades que pratiquei: quando (e nos casos em que) me levaram a competir.

Competir nunca me trouxe adrenalina. Nunca me fez ter vontade de fazer mais e melhor. Nunca despertou qualquer sentimento positivo em mim e mesmo nos casos em que fui bem sucedida, a sensação de uma vitória era sempre associada ao alívio pelo fim da tarefa.

Competir é, para mim, profundamente desconfortável.

A competição directa e vista como um propósito em si mesma é algo que me é contra-intuitivo. Sempre me senti melhor a ajudar os outros naquilo em que era boa, do que a provar-lhes (ou a mim), que era melhor que eles.

Aliás, ainda há poucos dias em conversa dizia a alguém que a razão pela qual não sei jogar matraquilhos, snooker, dardos, cartas e qualquer outro jogo que exija alguma experiência para se ser bem sucedido é saber que a competição traz à tona o meu eu mais mesquinho, infantil e mal-disposto. E eu não gosto dele, pelo que abdico que um certo nível de socialização e, quem sabe, potencial divertimento, em prol da manutenção da sanidade mental e até das amizades.

A Situação

O Martim tem karaté na escola duas vezes por semana e foi convidado para participar numa pequena prova. Um circuito, tanto quanto me apercebi, montado mais para que os pequenos possam demonstrar o que vêm aprendendo, do que para outra coisa qualquer.

Porém, quando perguntei ao Martim se queria participar ele disse-me que não.

Não, porque não ia conseguir completar o circuito em primeiro, não ia ganhar e ia ficar triste.

Expliquei-lhe que podia ser divertido, que não tinha que se importar com isso de ganhar ou perder, que a mamã ia adorar ver o que ele aprendeu e ia bater muitas palmas e que, na verdade, nunca poderia ganhar nada se nunca se atrevesse a participar.

Expliquei-lhe tudo isso mas não me passou pela cabeça, por um minuto que fosse, fazê-lo mudar de ideias e convencê-lo a participar.

A minha criança interior aceitou o seu primeiro ‘não’ com a maior solidariedade do Universo. Ela também não quereria participar. Bolas, eu, adulta, não quereria participar.

Concordámos que iríamos apenas assistir, juntos, à prova e, quem sabe, se ele achasse giro, poderia participar numa próxima.

A Conclusão (um trabalho em curso)

Não é a primeira vez que isto me acontece.

A maior parte das minhas memórias de infância são bastante ligadas às sensações que tinha em determinadas circunstâncias. Consigo lembrar-me do desespero de ver a minha mãe sair para trabalhar, do entusiasmo da primeira vez que brinquei na rua depois do sol se por, da alegria medrosa de quando percebi que o meu pai já não estava a segurar a bicicleta e que estava a andar sozinha, da vergonha e desconforto da primeira vez que entrei na minha sala de aulas na primária….

Por isso, em relação aos temas em que tenho essas memórias tão sensitivas é-me muito fácil empatizar com os meus filhos e faço-o de forma praticamente automatica.

Olhando para trás não tenho a menor dúvida de que os meus melhores momentos de maternidade ocorreram quando consegui por-me no lugar deles, com esse grau de realidade e sem qualquer esforço mental para isso.

Gostava de conseguir (e estou comprometida a tentar) fazê-lo mais vezes.

Afinal, não sou eu que acredito que a empatia ainda vai mudar o mundo?

E não é esse o exercício primordial de uma parentalidade consciente? Procurar os porquês dos nossos filhos ao invés de lhes tentar apenas moldar os comportamentos?

Talvez a minha empatia ‘natural’ nesta situação em concreto tenha sido uma falsa empatia, condicionada pelas minhas próprias vivências e características. Talvez o meu filho não seja tão avesso à competição como eu sempre fui. Talvez ele tenha apenas medo do fracasso como qualquer comum mortal.

Seja qual for a situação, acho não precisamos de descobrir já…

E se fosse comigo? – essa tal ‘empatia’ de que se fala

‘Empatia’ parece ser a nova palavra de ordem em todas as situações, seja nas relações interpessoais mais próximas, seja nas mais distantes, como aquelas que desenvolvemos online, quase sem querer, quando, por exemplo, comentamos um post de alguém.

Pedem-se exercícios de empatia com os nossos filhos perante birras, com os nossos cônjuges perante divergências (que, às vezes, não deixam de ser birras também), com os nossos pais que, enquanto avós fazem mil e um disparates aos nossos olhos. Mas também se pedem exercícios de empatia com a vítima de assédio sexual no trabalho, ou de violência doméstica em casa, com o preto em situações de racismo, com a mulher gorda em situações de gordofobia (sim, existe), com @ homossexual em situações de homofobia.

E porque, quando públicos, os exercícios de empatia se pedem essencialmente em questões que envolvem as denominadas minorias, ‘empatia’ é uma palavra que vem sendo conotada com orientações políticas de esquerda e taxada com o rótulo pejorativo do politicamente correcto. Por esse motivo, não faltam cada vez mais pessoas fartas de não se ‘poder dizer nada’ e que reviram os olhos a qualquer simples miragem da palavra, seja em que contexto for.

Mas o que é, afinal, essa tal empatia de que tanto se fala?

Comecemos pelo básico: o dicionário. E, de acordo com o dicionário, empatia é uma ‘forma de identificação intelectual ou afetiva de um sujeito com uma pessoa, uma ideia ou uma coisa’.

É. O dicionário não mente. Todavia, quando assimilamos ‘empatia’ a ‘identificação’ não podemos cair na tentação de achar que a identificação que está na base da empatia implica concordância.

Não implica.

De todo.

O que implica é que paremos para pensar, dois segundos que seja ‘e se fosse comigo?’. Só isso.

‘Só’. Mas um ‘só que pode ser demasiado para algumas pessoas.

Porque quando nos questionamos sobre o que sentiríamos quando colocados nas exactas circunstâncias da pessoa que temos à frente já sabemos a resposta. E a resposta nem sempre vai de encontro aos nossos ideais e, pior, aos comportamentos que exteriorizamos. O que é, naturalmente, muito desconfortável.

Quando nos perguntamos coisas como:

«E se fosse eu a receber diariamente olhares estranhos e comentários maldosos apenas por andar de mão dada com o meu cônjuge na rua?»;

«E se fosse eu a pessoa a quem é recusado um trabalho numa loja porque visto um determinado tamanho de roupa e não outro?»;

«E se fosse eu que tivesse que dividir a atenção da pessoa mais importante da minha vida, com um intruso de palmo e meio que nem sequer existia há meia dúzia de meses?»

…sabemos.

Sabemos qual é a resposta, porque elas nos surge instintivamente.

Que.

Merda.

É que a resposta traz-nos, muitas vezes, uma responsabilidade que não sabíamos que tínhamos e que, em rigor, não temos qualquer vontade de assumir.

Temos, por exemplo, que admitir que houve aquela vez em que cruzámos a estrada por um receio inexplicável de alguém de quem apenas sabíamos que tinha uma cor de pele diferente da nossa.

Temos, por exemplo, que recordar que um dia fizemos um comentário maldoso sobre a colega de trabalho com quem nunca trocámos duas palavras mas que terá, de certeza, ‘subido na horizontal’.

Temos, por exemplo, que fazer um mea culpa quanto àquela palmada que demos a um um filho tão exausto como nós, que só queria mimo e atenção.

Temos que assumir, em suma ,e com mais frequência do que gostaríamos, que somos seres humanos falhos e que, por vezes, não vermos reflectidos nos outros os nossos ideais, as nossas perspectivas de vida, as nossas posições acerca de determinado assunto ou, tão somente, o nosso estado de espírito no momento, nos leva a tratá-los com menos consideração do que aquela em que nos temos e com menos consideração do que aquela que achamos ser-nos devida pelos demais.

É por isso que devemos rejeitar a ideia de que empatia é o exercício do politicamente correcto.

Não é.

A empatia é o exercício do respeito.

Porque ‘se fosse connosco’ não nos contentaríamos com menos do que isso.