Mãe é puta. Bom é o pai.

O texto de hoje, além de usar linguagem sensível, como já transparece do título, não é meu. Não é meu, nem poderia. Não passei pela experiência de que fala, pelo julgamento que descreve nem pela desigualdade profunda que resulta do que é exigido a um pai vs o que é exigido a uma mãe para que tenham ambos classificação de ‘bom’ no exame dessa disciplina contínua que é a parentalidade.

O texto de hoje não é meu, mas sinto em cada vírgula, em cada frase, em cada comparação, a dor, o peso, a culpa de tantas mulheres a quem é cobrado que deixem de o ser a partir do momento que nasce um filho, a qualquer custo, para todo o sempre e sozinhas, se assim tiver que ser. Porque mãe é sempre mãe e é o seu dever sê-lo. Já pai só é pai se quiser (e/ou se a Justiça obrigar).

O texto de hoje não é meu e é, obviamente, tal como as minhas palavras acima, uma generalização. Por favor, pais presentes e mães separadas deles, não levem a peito.

Coloco-o entre aspas, mas não sei quem o escreveu, apesar de já o ter lido muitas vezes, em diversas fontes. Perdoem-me, por isso, que não nomeie a sua autora (no entanto, se alguém souber, que me diga).

O texto de hoje não é meu, mas é tão honesto, tão cru(el). Agora, que tenho esta voz que o Entre M’s me dá, não consigo deixar de o dividir com quem me lê.

E pensar que tudo poderia resolver-se com um pouco de empatia

***

“São quase 15h. Meu filho está no meu sofá vendo desenho e me pedindo almoço que eu não fiz.

Hoje é o final de semana do pai, que começou a contar das 9h de sábado e vai até as 18h de domingo. O pai chegou cedo, milagrosamente, mas por volta do meio dia foi cortar o cabelo e não voltou ainda. Meu filho tá pulando no sofá e eu tô cansada de ser mãe. Eu queria ser pai.

Semana passada era o final de semana dele, mas fiquei sabendo na quinta que ele ia pra África, olha só que legal, mais uma viagem internacional, e eu nem passaporte tenho. Claro que eu fico com meu filho e desmarco meu rolê com meu namorado, minha foda atrasada em uma semana a mais, uma a menos, que diferença faz? Eu sou mãe, né não?
Ele tem pós na USP, mestrado na UFMG, fala um inglês fluente com certeza. Eu não consigo nem frequentar meu cursinho todos os dias da semana. Saio todo dia na penultima aula pra pegar meu filho na escola particular que ele paga. Bom pai, paga pensão alta, tenho que valorizar. Né, não?

Ele nunca namorou depois que nos divorciamos, não precisa assumir ninguém, a vida sexual dele é livre. O filho nunca fez ele desmarcar um compromisso de sexo casual, nunca teve uma febre e ele precisou largar o pernoite pra ir pro P.S.

Já eu, já eu, sempre de namoro em namoro, sempre morando junto, sempre transando no chuveiro, senão eu não transo. Só posso gozar depois que o filho dormir, isso se eu tiver disposição.

Foi pra França, trouxe a Torre Eiffel: bom pai.

Foi pra Maputo, atrasou a visitação mais um final de semana, trouxe uma girafa: bom pai.

Foi pra Recife, trouxe um lampeão: bom pai.

Paga pensão descontada na folha: bom pai.

Nunca ficou 15 dias seguidos com o filho de 6 anos: bom pai, estava trabalhando para pagar pensão senão vai preso.

Mãe mora junto com o primeiro namorado pra dividir conta e poder foder, porque mãe também fode: puta.

Mãe não tem formação universitária: vive de pensão, é puta.

Mãe termina com o primeiro namorado: não sabe formar família, é puta.

Mãe fica desempregada e usa parte da pensão pra pagar despesas: vive do dinheiro do ex, é puta.

Mãe ajunta com o segundo namorado pra dividir aluguel e conseguir foder no chuveiro: é puta, trazendo outro macho pra dentro de casa.

Mãe pensa em sumicídio (sumir ou suicídio-algo que não magoe o filho: ah, não tem essa opção)

Foda-se a mãe egoísta que quer desistir.

Vai ter que aguentar a pressão pra não desgraçar a vida do filho. Se vira, mãe.

Mãe tá esgotada. Mãe não fode. Mãe não pode. Mãe não presta.

Mãe é puta.

Bom é o pai.”

#feminismonãoépalavrão

“Mãe que é mãe” – Ode às mães perfeitas

Mãe,

Tu que vives cansada,

Olheirenta,

Que te culpas pelo tempo que passas no trabalho,

E pela má gestão que fazes dele,

Que não te lembras da última vez que entraste num cabeleireiro:

Tu és perfeita.

Mãe,

Tu que és descolada e carregas três meninos e dois sacos de compras em saltos altos,

Que preferes acordar de madrugada do que sair de casa sem maquilhagem,

Tu que adormeces com a culpa de que talvez ‘penses demais em ti’:

Tu és perfeita.

Mãe,

Tu que reclamas cooperação do pai,

Mas não deixas que ele te substitua em nada porque, afinal ‘ele não sabe tão bem’,

Que assumes os dias, as noites, os banhos, as refeições, o veste e despe, o transporte para cá e para lá,

Tu que carregas a culpa de sempre ser quem faz por eles e nunca quem faz com eles,

Tu és perfeita.

Mães,

Tu que saíste ontem à noite com as amigas e te sentiste culpada;

E tu, que perdeste a paciência pela manhã e te sentiste culpada;

Tu que os mantiveste entretidos com o tablet para apreciar um pouco de silêncio e te sentiste culpada;

E também tu que te compraste uns sapatos novos em vez do brinquedo que eles pediram e te sentiste culpada:

Perfeita. Perfeita. Perfeita. Perfeita.

Todas perfeitas.

“Mãe que é mãe” faz uma coisa só: o melhor que pode.

E o melhor que pode é perfeito.

Sabem o que não é perfeito? A culpa.

A ela podem mandá-la embora.

***

Costumava pensar que odiava mães perfeitas, desde logo, porque não existiam. Porque a fasquia que nos impunham era inatingível. Depois descobri que somos nós que criamos essa fasquia. Que quem não existe é ela. E que perfeitas…

Perfeitas somos todas.