Assinado, Mãe

 

O Convite

No cacifo do Martim encontrei um convite para a festa de uma amiga. Amiga dele a menina, amicíssima minha a mãe dela, vai para 25 anos tarda nada.

Já sabia, claro, do aniversário, da festa, do dia e por isso na hora não atentei no quadradinho de papel.

Só no dia seguinte reparei no pormenor que pedia confirmações até à data x para o seguinte contacto: Mãe – 9xxxxxxxx.

Assim mesmo. Quem convida é a pequena L. Quem organiza é a Mãe. Sem nome.

Talvez já me tenha cruzado com mil outros convites assim, talvez nunca tenha notado este pormenor até aqui, mas sucede que aquela ‘mãe’, para mim é a Cátia. A minha Cátia. A Cátia de sempre.

 

Mães sem nome

Não é novidade que a forma como o Mundo nos vê muda a partir do momento em que nos tornamos mães. E não é preciso nem parir para isso, porque na gravidez já perdemos toda a identidade.

Perdemos o nome, quase que automaticamente.

Passamos, simplesmente, a ser ‘a mãe’ de alguém: nas consultas, nas ecografias, no hospital do parto, nas lojas específicas de produtos de bebés, nas escolas dos miúdos, nos locais onde lhes organizamos as festas….

Mas é engraçado como vamos, nós próprias, assimilando, aceitando e resignando-nos com o facto de ninguém saber ou querer saber o nosso nome. Ao facto de só existirmos em função de uma parte específica da nossa vida, de um papel que desempenhamos, entre tantos outros.

Entendo que, na maior parte desses contextos, não seja, talvez, comportável, saber o nome de todas as mães que por ali circulam. Mas, caramba… Antes de sermos a ‘mãe’, ainda somos mulheres! E em qualquer situação em que nos tenhamos como perfeitamente desconhecidas e desacompanhadas dos nossos filhos, somos simplesmente ‘senhoras’, certo?

Não é que me ofenda ou me sinta diminuída ao ser constantemente chamada de ‘mãe’ por pessoas que não são meus filhos.  Não se trata disso (embora tenha que confessar que foi uma lufada de ar fresco perceber que a escola que os meus filhos frequentaram pela primeira vez este ano faz esse esforcinho extra de chamar os pais pelos seus nomes).

Ser mãe dá muito sentido à minha vida. ‘Mãe’ é um título que ostento com muito orgulho. O que me incomoda é constatar que nos acomodamos, aos poucos e até sem darmos por isso, com tudo aquilo que significa ser apenas, e na maior parte dos contextos e dos momentos das nossas vidas, ‘a mãe’.

Porque quando olhamos ao espelho e começamos a ver cada vez mais apenas ‘a mãe’, corremos o risco de nos perdermos da mulher que sempre fomos, da que somos e, sobretudo, da que queremos ser para lá da maternidade.

E com isso, deixamo-nos para trás. O tempo, já curto, é cada vez menos dedicado a coisas que nos apaixonam, absorvem, relaxam. E quando fazemos alguma dessas coisas é com a cabeça cheia de ‘tenho que me despachar’ e um estranho peso na boca do estômago que nos diz que estamos a fazer algo errado. Diz que se chama culpa.

E a culpa, pessoas… A culpa é uma treta inútil, frustrante e paralisante.

A culpa pertence ao nosso caixote do lixo emocional e sem direito a reciclagem.

 

De volta ao convite

Quanto ao convite, tenho apenas isto a dizer à pessoa que o subscreveu: Mãe?! Tu não és a porra da mãe, és a Cátia! Quando muito a ‘Cátia entre parêntesis mãe’. Quem és tem um valor inestimável, pelo menos para mim!

Ah!… E confirmo a nossa presença.

Com amor,

Inês

 

Portaste-te bem hoje?

‘Até já meu amor, porta-te bem’

Todos os dias, ao deixar os M’s na escola, despedia-me com ‘até já meu amor, porta-te bem’.

Nada de especial, certo?

Num desses dias o Martim devolveu-me um ‘tu também, mamã!’ e eu achei piada. Ri-me.

Mas fiquei visceralmente a matutar naquilo e, mesmo não sabendo muito bem justificar porquê, passei a despedir-me com ‘até já meu amor, tem um bom dia’.

Do mesmo modo é corrente que mais ou menos qualquer pessoa próxima às crianças pergunte se se portaram bem na escola, com os pais, na festa, no parque, enfim, em qualquer que seja a circunstância.

Ontem à noite, enquanto conversavamos sobre os nossos dias respectivos o Martim concluiu: ‘eu portei-me bem na escola, a mamã portou-se bem no trabalho e o papá também’.

Aproveitei para lhe perguntar o que ele achava que queria dizer eu portar-me bem no trabalho, de que forma é que eu poderia, na perspectiva dele, portar-me bem no trabalho e ele respondeu, com a clareza de um murro no estômago, o seguinte: ‘Portares-te bem é fazeres tudo o que o teu chefe manda’.

Aquele sentimento visceral, que eu não soube identificar na altura, mas que me fez mudar a forma como os deixava na escola voltou e de repente percebi o que era: medo e repulsa.

Portar bem = fazer o que me mandam.

Portar bem = obedecer.

 

Questionamentos de cabeceira

Não é assim que eu quero que seja medida a minha performance profissional, pelo meu grau de obediência. Ninguém quer, eu acho. Somos seres pensantes. Questionar algo que não compreendemos ou com que não concordamos, sugerir alternativas que nos pareçam mais viáveis ou úteis ou vantajosas faz, necessariamente, parte de um núcleo de competências valorizado em qualquer ambiente profissional sadio. Também não é assim que eu quero ser avaliada no contexto das minhas relações interpessoais, pelo quanto eu concordo e me conformo com o que os demais pretendem.

Então, porque quereria eu medir a qualidade da minha relação com os meus filhos pelo seu grau de obediência aos meus comandos? Será que queremos mesmo filhos obedientes?

«SSSIIIIIMMMMM, claro»?

Entendo o impulso, mas peço-vos que não respondam já, sobretudo se estiverem a ler isto depois de pedir mais do que dez vezes ao vosso filho que vá lavar os dentes ou se acabaram de detectar mais um cabelo branco por conta da vossa filha insistir em fazer o exacto oposto daquilo que vos permite sair de casa a horas.

No curto prazo, e pensando em nós próprios como a autoridade, é claro que todos queremos filhos obedientes. E companheiros obedientes. E pais obedientes. E irmãos e amigos e vizinhos e funcionários e prestadores de serviços e estranhos com quem nos cruzamos na rua obedientes. Quem não gostaria que os outros fossem sempre de encontro àquilo que queremos que façam, quando queremos que façam e nos termos em que queremos que façam?

Mas, voltando aos nossos filhos, querê-los-emos obedientes quando um estranho os abordar dizendo ‘Vem comigo, se te portares bem, dou-te um rebuçado’? Querê-los-emos obedientes quando a pessoa dominante do seu grupo de amigos iniciar uma qualquer actividade perigosa ou desrespeitosa, como ridicularizar ou maltratar um colega, fumar, furtar um chocolate da mercearia? Querê-los-emos obedientes se alguém com autoridade sobre eles, educador, professor, treinador ou figura similar, abusar da autoridade que tem e ordenar que se calem sobre o assunto?

E no longo prazo? Qual será o preço da obediência que hoje exibimos como motivo de orgulho nos nossos filhos? O que diremos quando eles se desculparem por qualquer acção errada com ‘não tenho culpa, só fiz o que me mandaram?’ (Até sei. Responderemos, como todas as mães e pais do Mundo intemporalmente respondem, ‘e se te mandarem atirares-te a um poço, atiras-te?).

Compreendo que a obediência aos comandos possa ser essencial em determinados tipos de actividade – como na vida militar em que tantas vezes a vida e a morte se jogam na obediência – mas mesmo nesses contextos, deve a obediência ser cega?

Até ontem, de alguma maneira, eu já intuída que não.

Mas hoje, acredito assertivamente que não.

 

Obrigada Martim

Por muito que me custe argumentar constantemente porque é que a hora de ir dormir é esta e não outra, porque é que se come carne em vez de rebuçados ao almoço ou porque é que é dia de ir para a escola e não para o parque de insufláveis, pesando os prós e contras, é isso que quero fazer. Ser questionada sobre as minhas escolhas enquanto mãe pelas pessoas que mais são afectadas por elas: os meus filhos. Aliás, acho mesmo que, em terra de palpiteiros, eles serão talvez os únicos com alguma legitimidade para os dar.

Saber obedecer é relevante. Mas mais relevante do que saber obedecer é conhecer as circunstâncias nas quais é importante fazê-lo e quais aquelas em que o importante é questionar a ordem.

E quem sabe se uma vez por outra não terão razão?

***

Até já e tenham um bom dia.

Ainda sobre os palpites: o silêncio alimenta o monstro?

Nem de propósito, depois do post da semana passada sobre os muitos pais que os nossos filhos têm, mesmo não tendo (quem perdeu, pode ler aqui), passei por uma situação de palpite flagrante no último fim-de-semana…

Fomos a Fátima no Sábado porque o Mário estava ainda mais receoso que eu com a nossa viagem (falei sobre isso aqui) e achou por bem comemorar de forma mais espiritual o facto de regressarmos vivos e em (relativamente) bom estado de conservação.

No restaurante onde almoçámos levei o Miguel ao fraldário. Ele está numa fase em que odeia trocar a fralda. O-dei-a. Esperneia, chora e chateia durante todo o processo, a menos que tenha um biberão na boca (ah… comer! A sua actividade predilecta!).

Obviamente, para ele é indiferente encontrar-se em casa ou fora dela e faz exactamente o mesmo barulho e escabeche independentemente de onde estejamos.

Eis que uma senhora, cheia de dó, aproximou-se, tentou consolá-lo, conversar com ele e aquelas coisas a que as senhoras não resistem quando tudo o que queremos é despachar o assunto, na certeza (que as mil experiências anteriores com o NOSSO filho nos deram) de que ele se calará assim que voltar ao nosso colo, feliz, como se nada se tivesse passado.

Às tanta,s perguntou se ele fazia isso sempre que trocava a fralda. Respondi que tinha fases e que estava numa em que sim, fazia isso em todas as mudas. Não convencida, perguntou o seguinte:

Não estará a magoar a cabecinha aqui em cima?’

Revirei os olhos (aliás, acabei de fazer o mesmo ao escrever).

‘Não. Não estará.’

Fui um poço de simpatia tão profundo que a senhora lá se convenceu a ir embora sem mais comentários.

Fiquei a pensar…

A senhora estava lá com os filhos. Com os netos. Aquela senhora engoliu muito palpite de que não gostou, como qualquer outra mãe.

Então se praticamente todas as 100% sofrem com estas ingerências na forma como lidam ou deixam de lidar com os seus filhos em situações que só a si dizem respeito, com certeza muitas, muitas mães são também elas palpiteiras além de alvos… Como aquela senhora! Não acredito que o façam de forma consciente, afinal, perpetuar o ciclo do palpite não aparenta ser agradável para ninguém… O que me leva a questionar:

Será que os palpiteiros são todos ou maioritariamente pessoas inconscientes de que estão apenas a ser metediços e ninguém quer saber da sua opinião?

Será que eu sou uma palpiteira e não sei?

Confesso que, depois de pensar um pouco, consegui identificar algumas situações em que talvez tivesse ficado melhor na fotografia de boca fechada. Quando utilizei um tom um pouquinho mais julgador ao pronunciar-me sobre o uso de tecnologias por uma criança com a idade do Martim (que na minha opinião era excessivo) ou quando identifiquei, exemplificando ainda com situações concretas, uma dependência desnecessária, não da filha em relação à mãe, mas da mãe em relação à filha, também da idade do Martim.

Curiosamente ambas as situações ocorreram com amigas bem próximas. Nenhuma delas me disse nada. Não sei se por não as ter incomodado verdadeiramente ou se por adoptarem, ao contrário de mim, que sou incapaz, uma táctica similar aos pinguins do Madagáscar nestas situações, limitando-se a ‘sorrir e acenar’.

Em todo o caso, em retrospectiva, desejava que o tivessem feito. Afinal… O que é que eu tenho a ver com isso se ninguém me perguntou? São ambas mulheres adultas, que tenho como inteligentes, com o mesmíssimo acesso à informação que eu, felizmente, e sem a menor dúvida que querem para os seus filhos o mesmo que eu quero para os meus: nada menos do que o melhor.

A minha opinião é a minha. Mantenho-a em qualquer dos casos que relatei. Mas não passa disso mesmo e vale zero, menos que zero até, se pais e filhos estão confortáveis com aquele modo de gerir as coisas…

Talvez seja mais disto que nos falta a nós, mães alvos de palpites: um pouco menos de ‘sorrir e acenar’ e um pouco mais de ‘obrigada pela preocupação, sei que é totalmente inocente, mas eu sei o que estou a fazer, afinal, o filho é meu’.

Quantos palpiteiros inconscientes não ganhariam essa consciência e prestariam mais atenção antes de falar numa próxima vez, quiçá com outra mãe?

Quantos palpiteiros conscientes não se sentiriam pelo menos um pouquinho mais inibidos de tecer comentários despropositados?

Pela minha parte, a todos quantos se sentiram alguma vez ‘palpitados’ por mim apresento as minhas mais sinceras desculpas e convido todas as mamãs fartinhas de palpites a juntarem-se num movimento por palpiteiros mais conscientes (isto é, com mais vergonha na cara). Falem! Quebremos o ciclo do palpite!

 

(By the way, quem ainda não participou no passatempo ‘poupe nos palpites?’ O tempo urge e acaba hoje às 23h59!)

 

Esta é a história da minha t-shirt (o cabelo do Miguel e o raio dos palpites)

Introdução

Esta é a história da minha t-shirt.

E para a introduzir pergunto: quem nunca teve vontade de dar um bom chega para lá num palpiteiro de plantão e dizer ‘poupe nos palpites que a mãe sou eu’?!

Eu sou muitas vezes acusada de ser ‘senhora da razão’ e, talvez porque isso tenha qualquer coisa de verdade, sou pouco tolerante a palpites não solicitados.

Sou ainda mais intolerante quando o tema são os meus filhos e é muito difícil apanhar-me a fazer ‘sorrisos amarelos’ nessas ocasiões. São meus, porra! Que mania de haver sempre um doutorado naquilo que se passa na minha casa e, muitas mais vezes do que consigo contar, no meu colo!

Mas o pior é quando os palpites passam a transgressões expressas da vontade dos pais.

Posso dizer-vos que foi de uma dessas transgressões que nasceu a minha t-shirt.

Sério.

Continuem comigo…

O cabelo do Miguel

Pouco depois do Martim completar um ano cortámos-lhe, pela primeira vez, o cabelinho. Guardei-o todo. Aqueles caracóis lindões de cabelo sedoso de bebé.

Claro está que nunca voltou a tê-los e muitas vezes dei por mim a suspirar por ter, talvez, cortado o cabelo dele cedo demais.

Com o Miguel decidi que não queria cair no mesmo ‘erro’. Só que o cabelo do Miguel não tem caracóis lindões. É só… louco. Muito louco. Comprido nuns sítios, inexistente noutros.

Mas ele também é um louquinho e por isso, mesmo perante investidas recorrentes do Mário para lho cortarmos, finquei pé e gritei aos quatro ventos que ninguém tocaria no cabelo louco do meu bebé ainda mais louco.

Disse-o ao Mário, vezes sem conta. Disse-o à minha irmã quando brincou ameaçando que iria buscar uma tesoura sem eu dar por nada. Disse-o vezes sem conta à minha mãe sempre que ela insistia no discurso do ‘coitadinho, que tem o cabelo nos olhos’.

Um belo dia de manhã o Mário pergunta-me: o que aconteceu ao cabelo do Miguel?

Ele tinha vindo de casa dos meus pais já a dormir no dia anterior, de pijama vestido e de gorro na cabeça, por isso, quanto a mim, não tinha acontecido nada.

Mas aconteceu.

Aconteceu a minha mãe decidir, não só por mim como contra mim, dar uma tesourada na franja do Miguel. Bem torta, bem rente à testa, para ter certeza que cabeleireiro algum no Universo poderia consertar. Bem às escondidas. Bem… mal.

Da raiva ao papel, do papel ao algodão

Fiquei furiosa.

Fiquei furiosa muitos dias.

Furiosa a ponto da insónia.

Ainda fico, um pouco, quando penso que não vou guardar o primeiro cabelo cortado do meu bebé, porque alguém decidiu passar-me por cima e fazer o que entendeu melhor para ele quando não tinha que entender coisa nenhuma.

Bolas, não me interessa o que acham melhor para os meus filhos! Só há duas pessoas cuja opinião pesa quanto a isso: a minha e a do pai. Fim.

Na noite da insónia peguei no telemóvel (ainda antes da regra modo avião) e escrevi ‘a mãe sou eu’.

Mas o telemóvel não é sensível à raiva como uma caneta a pressionar o papel…

Por isso no dia seguinte quando me apanhei de papel e caneta em punho escrevi novamente ‘a mãe sou eu’. Em minúsculas, em maiúsculas. Em hastag.

Mas porque é que as pessoas não guardam para si o que pensam que é melhor? Porquê? Porque raio não poupam nos palpites que ninguém lhes pediu? Nas acções que ninguém lhes encomendou?

E fui escrevendo…

No final sobrou o que lêem na minha t-shirt.

‘Poupe nos palpites
#amãesoueu’

Apeguei-me rapidamente à ideia de passar a mensagem sem falar.

Daí a procurar uma empresa que estampasse o meu apelo desesperado para eu ostentar sem ter que ser (demasiado) desagradável com ninguém foi um piscar de olhos.

E cá está ela.

Esta é a história da minha t-shirt.

Gostam?

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