O regresso – voltar é bom, ter ido é essencial.

No Rio de Janeiro, um motorista de Uber contou-nos porque conduzia: com 60 anos, tinha-se reformado e separado da mulher pouco depois. Ficou com pouco dinheiro e muito sozinho, portanto. Havia, por isso, decidido pegar no pouco que tinha de seu – o carro – e usá-lo para resolver ambos os problemas.

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Oi gente!!! Que saudade de aparecer por aqui! Voltámos revigorados, ligeiramente mais coloridos e absolutamente apaixonados pelo Rio de Janeiro (a bem dizer, eu já ia apaixonada, mas voltei mais ainda).

Posto isto, chegou a hora de cair na realidade e, felizmente, a realidade tem coisas boas: os risos, os abraços, as saudades finalmente mortinhas que eu tinha dos meus M’s…

Estava com alguns receios em relação ao nosso regresso, sobretudo em relação à reacção do Miguel, que ficou, pela primeira vez, alguns dias sem nos ver.

As reminiscências da primeira viagem do género, que fizemos quando o Martim era (mais) pequeno não ajudaram. Ele tinha um ano e oito meses quando casámos e fomos de lua-de-mel. Pelo que nos contaram ficou óptimo, divertido, mimado e entretido por avós e tios durante os dez dias que passámos fora. No entanto, quando voltámos surpreendeu-nos, ainda no aeroporto, com uma recepção gélida. Nós, cheios de vontade de o apertar e ele, quase sem olhar para a nossa cara, claramente muito zangado com o nosso desaparecimento repentino e mais ainda com a cara de pau de voltarmos como nada se tivesse passado.

Durante o mês seguinte, o Martim acordou todas as noites aos gritos. Pareciam terrores nocturnos, mas não eram. Eram protestos sonoros pela ausência dos pais. Ou melhor, sendo rigorosa, pela ausência da mãe. Porque o Martim acordava a gritar, a plenos pulmões ‘Mamã! Mamã! A mamã fugiu!’.

Acabei pagando pela lua-de-mel muito mais do que apenas o quanto a viagem economicamente me custou… Paguei em sono perdido e em facas espetadas no coração a cada nova acusação de fuga pela madrugada adentro. Passou. Hoje o Martim é um menino descontraído no que respeita às escapadinhas dos pais para namorar. Agora ele sabe que voltaremos sempre para ele.

Mas o Miguel ainda não…

Quando fomos buscá-los o Martim fez a festa normal de quem tinha saudades, correu, gritou de entusiasmo, quis contar mil histórias. O Miguel… Quando nos viu deu um longo suspiro, como se estivesse exausto. Estendeu-me os braços para vir ao meu colo, encostou a cabecinha no meu peito e suspirou, suspirou… Depois quis ir ao colo do pai, onde fez o mesmo, e de novo ao meu, onde se deixou ficar, assim mesmo, cansado da espera, aliviado por estarmos ali os dois.

A primeira noite foi complicada. Acho que trocaram a cama do Miguel na nossa ausência e colocaram uma cheia de picos, porque não houve maneira de o manter lá. Dormiu em cima de mim. Não ao lado. Em cima. Marcando território, como se só a dormência do meu corpo inteiro por baixo dele fosse capaz de garantir que não voltaria a ir a lugar nenhum sem o meu bebé. Sempre que escorregava, por algum motivo e se sentia longe do contacto físico, choramingava até que o pusesse novamente em cima de mim.

O dia amanheceu e não se tornou mais fácil, o Miguel não quis largar o meu colo para (quase) nada. Fiz todas as refeições com ele sentado em cima de mim e todos os meus afazeres do dia com ele montado nos meus braços e com protestos infinitos sempre que o pus no ovo para circular de carro.

Espero que restaure a confiança em nós. Que aprenda com o tempo que voltaremos sempre para ele também.

Tudo visto, não me importo de pagar este preço por momentos a dois. No caso, pela viagem que eu sempre quis fazer. Não me importo porque estes momentos sem filhos, sem fraldas, sem noites mal dormidas, sem a loiça, a roupa, os compromissos escolares, lúdicos e médicos deles nos permitem olhar um para o outro sem distracções. Conversar. Criar memórias que não envolvem os nossos filhos.

Porque um dia, se tudo correr bem, eles irão embora de casa e se tudo tiver corrido igualmente bem até aí, nós voltaremos a ficar apenas na companhia um do outro.

De que falaremos se não tivermos feito nada nos últimos 25 anos senão viver em torno dos nossos filhos?

Memórias com eles são maravilhosas. Mas memórias só nossas também são imprescindíveis.

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Não conheço a história do casamento ou da separação daquele motorista super bem-humorado e cheio de experiência de vida com quem trocámos 20 minutos de agradável conversa. Mas, na minha cabeça, aquele homem e a sua ex-mulher viram os filhos crescerem e saírem de casa. Na minha cabeça, aquele ex-casal viu-se estranho ao fim de tantos anos debaixo do mesmo tecto. Tão estranho que não encontrou outra solução senão, à beira da velhice, irem cada um para seu lado. Aprenderem a ser fisicamente o que já eram sem saber até aí: duas pessoas sozinhas. É um acto de coragem sentir que nunca é tarde para ser feliz de outra maneira. E acredito piamente que nunca é! Mas à mesa do pequeno-almoço, sentada a olhar para o homem por quem sou apaixonada não pude evitar pensar que não queria que esta história que, na minha cabeça, inventei para aquela pessoa, fosse a nossa.

Que haja muitas viagens a dois, nem que seja ao quarteirão adiante do nosso, de mãos dadas, para um beijo roubado sem olhares de gente pequenina e atenta.

Dilemas de mãe – A viagem

 

Daqui a pouco mais de 48h estarei num avião para o Rio de Janeiro.

Pelo menos é o que dirá o meu cartão de embarque. Na minha cabeça, estarei a caminho da ‘minha terra’, aquela que não conheço, na qual não tenho a menor raíz, mas que me preenche a alma desde menina.

É a minha viagem de sonho. Carnaval no Rio de Janeiro.

E, como tal, estou uma pilha de entusiasmo qual criança nas vésperas do Natal.

Mas não sou uma criança. Sou uma mulher de 33 anos. Sou uma mãe de dois meninos que precisam de mim e do pai.

Dois meninos que ficam cá, enquanto vamos viajar.

No meio de tudo o que a minha cabeça já viveu milhares de vezes ao longo dos anos e que o corpo só agora se prepara para viver também é inevitável pensar neles.

Não sinto qualquer culpa em viajarmos só os dois. Nem tão pouco acho que os sonhos devam morrer no mesmo bloco de partos onde nos nascem os filhos.

Mas sinto medo.

O Rio de Janeiro não é, certamente, conhecida por ser a cidade mais segura do Mundo. E se não voltamos?

Que disparate! Porque não voltaríamos?

Mas… E se não voltamos?

Que nó na garganta, que falta de ar, que aperto do peito…

Tento pensar friamente: o que quer que possa acontecer lá, pode perfeitamente acontecer igualmente aqui ou em qualquer outro ponto do planeta. Pensemos em Paris ou em Barcelona, lugares aparentemente seguros e que têm visto tanta coisa acontecer. Basta um louco com um ideal. Basta estar no lugar errado à hora errada.

Mas é mesmo necessário pensar na desgraça alheia para me reconfortar?

Nunca uma viagem me deixou tão feliz e tão angustiada… Por um lado, só vou acreditar que lá estou quando efectivamente pisar aquela terra, por outro só descanso quando voltar a abraçá-los.

Se leram até aqui, já perceberam que este é um post perfeitamente inútil.

Não há ‘moral da história’, opinião estruturada, punch line ou final surpresa, é apenas o que é: um desabafo de alguém que não sabe se ri ou se chora e por isso tem feito ambas em abundância.

Fevereiro é para…

Pular Carnaval

Beber água de côco

Comer biscoito Globo em Copacana

Desfilar na Sapucaí

Gritando a nação tijucana

Subir no morro

Descer no bondinho

Pedir a bença pro Cristo

Amar no jardim botânico

Se aventurar no Telégrafo

E ser boémio na Lapa

Trazer o Rio no corpo

e para sempre no coração.

***

Sonho de menina esse, de ir cariocar. Fevereiro é para cumprir.

Em modo avião – a gestão do tempo e o que fica para trás

Estar em ‘modo avião’ significa, na sua forma pura, pegar nos nossos queridos dispositivos móveis e calá-los. Calar-lhes o som, o wi-fi, os dados, as mensagens e qualquer conexão com o Mundo. Transformá-los em pequenas televisões interactivas que dão as horas, no fundo…

Chamam-lhe ‘modo avião’ porque é o único local onde nos é pedido que o calemos assim: no avião.

Mas o modo avião, seja neste sentido mais fiel à origem, seja num sentido mais figurado, é útil e digno de reflexão…

Há pouco mais de uma semana o Mário fez uso de um vale retirado de um caderninho que lhe ofereci num Dia dos Namorados e que nos proibia, durante uma semana, de mexer nos telemóveis, mal nos deitássemos.

Durante essa semana, sem telemóveis, reparei nos dias que se passavam antes sem quase olharmos um para o outro, conversarmos um com o outro ou o que quer que seja um com o outro.

Vamos acreditando que não. Que é cansaço, que os dias são curtos, que os miúdos nos dão imenso trabalho. E tudo isso é verdade.

Mas o facto é que, com tudo isso, eu consigo escrever neste espaço, gastar tempo à procura de fotos para ilustrar os artigos, mais tempo a escrever e a aperfeiçoar os textos e muito, muito tempo à volta de questões técnicas que ignoro e abomino, porque adoro o meu blog…

O facto é que, com tudo isso, eu sacrifico três horas de almoço por semana para ir ao ginásio, porque adoro treinar.

O facto é que, com tudo isso, ainda acompanho o This is Us, mesmo que nunca tenha conseguido ver um episódio em tempo real, e alguns dos meus canais de youtube favoritos, ainda que seja enquanto trato da roupa ou qualquer outra tarefa, porque a série me causa arrepios e os ditos canais gargalhadas e introspecções.

Ou seja, com tudo isso, ainda há (ou se força) tempo para as coisas do dia-a-dia que nos dão prazer.

Porque é que num mundo em que cabem crianças e blog e ginásio e séries, não haveria também lugar – todos os dias e não só quando fazemos programas a dois – para aquele sobre quem encho o peito para dizer que é o amor da minha vida? Faz pouco sentido…

Tão pouco sentido que o vale, entretanto, expirou.

Mas o ‘modo avião’… esse veio para ficar.

Voltar onde fomos felizes

Começo por contar um segredo: o Mário não segue o blog. 

Existe um motivo para isso mas fica, talvez, para uma outra história.

Hoje em particular, o facto do meu marido não ter a mais pálida ideia daquilo que faço com uma parte cada vez mais substancial do meu tempo (sorte a dele ser tempo e não dinheiro…), possibilita-me surpreendê-lo. Por isso vá, cooperem e não lhe contem nada do que vão ler…

 

Em 2012 fizemos a nossa primeira viagem juntos. Fomos a Roma e foi indescritível.

Sabem aqueles imprevistos chatos que acontecem em todas as viagens? Não tivemos nenhum.

Estávamos no início de Junho mas pelo tempo parecia pleno Verão.

Comemos gelados todos os dias.

Fizemos a cidade a pé e não demos por isso até o escaldão ser evidente no meu peito e ombros e até os pés se recusarem a andar mais.

Estávamos a cinco minutos a pé do Coliseu, onde também fomos todos os dias. De dia. De noite. Sempre que nos apeteceu. E de todas as vezes suspendemos a respiração ao primeiro vislumbre daquele colosso com mais de 1900 anos.

Tirámos toneladas de fotografias (obviamente!).

Um homem disse que o Mário era o mais bonito dos monumentos que ali estava (foi de uma lata sem precedentes mas soou bonito, em italiano…).

Vimos chineses agachados atrás de moitas a tentar fotografar não sei bem o quê e não sei bem em que ângulo;

Uma noiva linda de morrer a tirar fotos na rua;

E uma farmacêutica que parecia não ter nada por baixo da bata de serviço;

Não vimos o Papa;

Falámos com várias pessoas, em várias línguas;

O Mário foi tomado por brasileiro e eu… por coisa nenhuma.

Aprendemos que o inglês, em particular, é relativamente inútil quando usado com grande parte dos italianos;

E que a condução deles é mais louca do que a de qualquer taxista lisboeta.

Fiz 28 anos na Fontana di Trevi.

Recebi de presente uma aliança de namoro que só voltaria a tirar do dedo para a substituir por um anel de noivado.

Fomos incrivelmente felizes naqueles quatro dias que voaram por nós.

E desde aí que queremos muito, mas temos medo de voltar. Porque pode não ser tão bom. Porque um daqueles tais imprevistos pode, afinal, acontecer. Porque foi perfeito e, por isso, a fasquia está muito, muito elevada.

Hoje é o dia em que perdemos o medo, embora ele ainda não saiba.

Porque o medo não faz sentido.

O medo paralisa e impede-nos de criar novas memórias, igualmente felizes, mais ainda, talvez.

E por falar em memórias, pessoalmente, quero reproduzir esta, cinco anos depois:

Ele não completará os seus 36 anos na Fontana di Trevi e de certeza não apanharemos escaldões.

Mas é preciso voltar. Só isso faz sentido.

Voltar onde fomos felizes.

 

 

Vamos?