A saída (ou porque lhes damos um poder que nos pertence)

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“Vais assim?”

É o que ele pergunta, enquanto disfarça mal o esbugalhar dos olhos e o esgar de desconfiança nos lábios.

‘Aqui vamos nós’, pensa ela, mas questiona na mesma:

“Porquê, não me fica bem?”

Não. Não é isso. Ela sabe que não é isso. Ele sabe que ela sabe que não é isso. O olhar de reprovação inicial vai dando espaço à impaciência que lhe toma conta da face.

“Então? O que é?”

Depois de muitas evasivas lá confessa. O vestido/saia/calções/top/camisa (riscar o que não interessa) é demasiado curto/transparente/decotado/justo (repetir a operação).

Ela não se lembra bem em que momento ele começou a achar-se no direito de lhe censurar a roupa como quem avalia o estilo da mobília que quer em casa. Porque é disso que se trata. Não de não gostar, objectivamente, do que tem vestido. Pelo contrário, gosta muito. Mas é um estilo de mobília que não quer em casa. Não na SUA casa.

Ela não se lembra tampouco da primeira vez que acedeu a trocar de roupa depois de um destes diálogos. Ou da primeira vez que deixou de comprar aquela saia de ganga que procurava há meses porque ele ‘não deixou’.

Não consegue, sob perspectiva alguma, precisar o ‘quando’. Quando é que o sentimento de pertença mútua se objectificou e se tornou numa posse palpável. Quando é que ‘ser dele’ deixou de ser uma metáfora para o amor e passou a ser uma sentença de vida. Mas sabe, no fundo de si, o porquê.

Porque ele se sentiu confortável para o fazer. Porque nessa primeira vez ela disse ‘se não te agrada, eu troco’. Porque ela se permitiu ser a barbie com que ele teria tido vergonha de brincar quando era pequeno. Porque ela optou por ceder em nome de um ‘nós’.

Hoje ela sabe. Não foi por ‘nós’. Não foi por amor. Foi por medo. Porque a perspectiva da solidão a assustou mais do que um ciuminho tolo que ela moldaria com o tempo (que tonta, ao pensar que alguma vez aconteceria!).

Mas porque, de todos os dias, foi neste que ela soube, encolhe os ombros à e diz

“Achas? Pois olha, eu gosto assim. Vamos?”

Todas nós já fomos a mulher que começou a escrever esta história. Todas nós podemos ser a mulher que a terminou.

#feminismonãoépalavrão

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