Portaste-te bem hoje?

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‘Até já meu amor, porta-te bem’

Todos os dias, ao deixar os M’s na escola, despedia-me com ‘até já meu amor, porta-te bem’.

Nada de especial, certo?

Num desses dias o Martim devolveu-me um ‘tu também, mamã!’ e eu achei piada. Ri-me.

Mas fiquei visceralmente a matutar naquilo e, mesmo não sabendo muito bem justificar porquê, passei a despedir-me com ‘até já meu amor, tem um bom dia’.

Do mesmo modo é corrente que mais ou menos qualquer pessoa próxima às crianças pergunte se se portaram bem na escola, com os pais, na festa, no parque, enfim, em qualquer que seja a circunstância.

Ontem à noite, enquanto conversavamos sobre os nossos dias respectivos o Martim concluiu: ‘eu portei-me bem na escola, a mamã portou-se bem no trabalho e o papá também’.

Aproveitei para lhe perguntar o que ele achava que queria dizer eu portar-me bem no trabalho, de que forma é que eu poderia, na perspectiva dele, portar-me bem no trabalho e ele respondeu, com a clareza de um murro no estômago, o seguinte: ‘Portares-te bem é fazeres tudo o que o teu chefe manda’.

Aquele sentimento visceral, que eu não soube identificar na altura, mas que me fez mudar a forma como os deixava na escola voltou e de repente percebi o que era: medo e repulsa.

Portar bem = fazer o que me mandam.

Portar bem = obedecer.

 

Questionamentos de cabeceira

Não é assim que eu quero que seja medida a minha performance profissional, pelo meu grau de obediência. Ninguém quer, eu acho. Somos seres pensantes. Questionar algo que não compreendemos ou com que não concordamos, sugerir alternativas que nos pareçam mais viáveis ou úteis ou vantajosas faz, necessariamente, parte de um núcleo de competências valorizado em qualquer ambiente profissional sadio. Também não é assim que eu quero ser avaliada no contexto das minhas relações interpessoais, pelo quanto eu concordo e me conformo com o que os demais pretendem.

Então, porque quereria eu medir a qualidade da minha relação com os meus filhos pelo seu grau de obediência aos meus comandos? Será que queremos mesmo filhos obedientes?

«SSSIIIIIMMMMM, claro»?

Entendo o impulso, mas peço-vos que não respondam já, sobretudo se estiverem a ler isto depois de pedir mais do que dez vezes ao vosso filho que vá lavar os dentes ou se acabaram de detectar mais um cabelo branco por conta da vossa filha insistir em fazer o exacto oposto daquilo que vos permite sair de casa a horas.

No curto prazo, e pensando em nós próprios como a autoridade, é claro que todos queremos filhos obedientes. E companheiros obedientes. E pais obedientes. E irmãos e amigos e vizinhos e funcionários e prestadores de serviços e estranhos com quem nos cruzamos na rua obedientes. Quem não gostaria que os outros fossem sempre de encontro àquilo que queremos que façam, quando queremos que façam e nos termos em que queremos que façam?

Mas, voltando aos nossos filhos, querê-los-emos obedientes quando um estranho os abordar dizendo ‘Vem comigo, se te portares bem, dou-te um rebuçado’? Querê-los-emos obedientes quando a pessoa dominante do seu grupo de amigos iniciar uma qualquer actividade perigosa ou desrespeitosa, como ridicularizar ou maltratar um colega, fumar, furtar um chocolate da mercearia? Querê-los-emos obedientes se alguém com autoridade sobre eles, educador, professor, treinador ou figura similar, abusar da autoridade que tem e ordenar que se calem sobre o assunto?

E no longo prazo? Qual será o preço da obediência que hoje exibimos como motivo de orgulho nos nossos filhos? O que diremos quando eles se desculparem por qualquer acção errada com ‘não tenho culpa, só fiz o que me mandaram?’ (Até sei. Responderemos, como todas as mães e pais do Mundo intemporalmente respondem, ‘e se te mandarem atirares-te a um poço, atiras-te?).

Compreendo que a obediência aos comandos possa ser essencial em determinados tipos de actividade – como na vida militar em que tantas vezes a vida e a morte se jogam na obediência – mas mesmo nesses contextos, deve a obediência ser cega?

Até ontem, de alguma maneira, eu já intuída que não.

Mas hoje, acredito assertivamente que não.

 

Obrigada Martim

Por muito que me custe argumentar constantemente porque é que a hora de ir dormir é esta e não outra, porque é que se come carne em vez de rebuçados ao almoço ou porque é que é dia de ir para a escola e não para o parque de insufláveis, pesando os prós e contras, é isso que quero fazer. Ser questionada sobre as minhas escolhas enquanto mãe pelas pessoas que mais são afectadas por elas: os meus filhos. Aliás, acho mesmo que, em terra de palpiteiros, eles serão talvez os únicos com alguma legitimidade para os dar.

Saber obedecer é relevante. Mas mais relevante do que saber obedecer é conhecer as circunstâncias nas quais é importante fazê-lo e quais aquelas em que o importante é questionar a ordem.

E quem sabe se uma vez por outra não terão razão?

***

Até já e tenham um bom dia.

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