Parentalidade positiva na blogosfera

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Prefiro chamar-lhe consciente, numa óptica de se traçar um plano/propósito e direccionar as nossas acções de parentalidade a ele. Mas vamos lá.

O Gatilho

Sou fã confessa da página Ser super mãe é uma treta. É um banho de maternidade real e quase em directo, porque acompanhar os posts da Susana é como viver com ela (o que quero dizer não é, obviamente, que revela demais, mas que é extremamente impressiva em tudo o que escreve). Sentimos-lhe o desespero, que mais não é do que o nosso em inúmeras ocasiões, enquanto nos divertirmos com isso. Estamos juntas, Susana.

Também sou fã de um outro blog, o Not so fast, onde a Lénia fala do que bem lhe apetece, sempre num tom assertivo, mas dado à reflexão (ou pelo menos é como eu a interpreto), com uma escrita irrepreensível.

Calhou que recentemente estas duas mulheres cujos estilos e conteúdos admiro imensamente, abordaram um tema que me é cada vez mais caro: a parentalidade positiva. E fizeram-no de forma… negativa.

Li a perspectiva da Ser super mãe é uma treta com o maior dos humores. Li a perspectiva do Not so fast quase que rebatendo mentalmente cada ponto (é só clicar nos realces que vão direitinhos para os textos de que falo e valem ambos muito a pena, toca a ler (depois de acabar este, faxavori)).

Sobretudo, li ambas com o respeito que me merecem todas as suas postagens. Estas em particular, deram origem à presente reflexão.

 

Um par de disclaimers

Literalmente um par:

  1. SE a parentalidade positiva traduzisse aquilo de que ambas falam, eu odiaria o conceito tanto quanto qualquer uma das autoras.
  2. É sempre, sempre, sempre, uma questão de perspectiva: a parentalidade é, no fim do dia, o que os pais quiserem fazer com ela e o que funcionar melhor em cada caso. Se for forçado, não é ‘positivo’, mesmo que conceptualmente queiramos aplicar esses princípios.

O que a parentalidade positiva não é

Não é sobre tornarmo-nos pais permissivos.

Não é sobre andarmos às ordens dos nossos filhos.

Não é sobre sentirmos culpa quando, optando de forma consciente por aplicar os princípios da parentalidade positiva, deixamos em situações do dia-a-dia de o fazer (foda-se a culpa, certo Susana?).

Como decorre do disclaimer 2, também não é para todos os pais: é para os que se revêem naquele modelo e se sentem bem com ele (desde logo, posso dizer-vos que é para mim e não é, de todo, para o meu marido – e ESTÁ TUDO BEM, somos ambos, ele e eu, os melhores pais que sabemos ser independentemente dos ‘como’s desta vida!).

O que a parentalidade positiva pretende

Desde logo tem boas intenções e não pretende ser positiva por oposição às ‘outras’, todas negativas (=todas erradas). É positiva por se pretender moldar o comportamento das crianças de dentro para fora, com alternativas que todos os envolvidos considerem aceitáveis aos comportamentos que não queremos que tenham, ao invés de fazê-lo de fora para dentro, isto é, reprimindo/proibindo/corrigindo unilateralmente esses mesmos comportamentos. É positiva porque almeja resultados positivos para todos: maior cooperação voluntária deles para connosco, logo, menos drama e stresse para nós.

Promover a autoestima de pais e filhos:

Isto não pressupõe fazê-los sentir-se ‘donos do pedaço’. Pressupõe que eles se conheçam, se compreendam, se aceitem e consigam ver-se, de forma geral, uma luz positiva, apesar dos seus pontos fracos, vivendo bem com eles ou trabalhando neles, dependendo das prioridades que se estabeleçam.

Onde entram os pais nisto? Numa lógica bastante primitiva de que, querendo ou não, ensinamos pelo exemplo, a melhor maneira de lhes passar a ideia do que é uma autoestima saudável é cultivar a própria – e isso é sempre positivo, independentemente do contexto.

Fomentar o respeito mútuo:

Quando digo mútuo, incluo o deles por nós, naturalmente. É mais ou menos isto: eles têm o direito a fazer a birra e nós temos o direito a ficar de cabelos em pé com ela. O que se procura é que eles aprendam, pouco a pouco, a lidar com o que quer que os tenha empurrado para a birra, reduzindo-as em número e intensidade e que nós aprendamos igualmente a gerir todas as coisas mais ou menos loucas e, essas sim, mais ou menos negativas, que nos passam pela cabeça na fase mais aguda de um desafio desta natureza.

Dar espaço à inteligência emocional:

Crianças que sabem identificar correcta e especificamente o que sentem e o que os outros, designadamente os próprios pais, sentem, que dominam razoavelmente a linguagem não verbal e que são capazes de empatizar, i.e., colocarem-se no lugar do outro, geralmente são mais capazes de exercerem o auto-controlo, de adiarem a recompensa (ou seja, de se manterem num determinado rumo que apenas ao fim de algum tempo poderá dar frutos), de se auto-motivarem e de ‘auto’ uma série de outras coisas que os pais costumam desejar.

Estabelecer limites:

Esta é uma parte importantíssima de qualquer modelo de parentalidade. Ninguém, em sanidade de espírito, conseguiria conceber a parentalidade como um mundo de pequenos imperadores ditando as regras das famílias enquanto os pais, reduzidos ao seu papel de serviçais, se desdobram em 1000 para satisfazer todos os caprichos de suas excelências… pelo menos em teoria.

Há lugar para o ‘não’ na parentalidade positiva? Há! Todo! Há castigos? Há, pois! Podem chamar-lhes ‘consequências’ à vontade, o propósito primordial de admoestar um filho com uma consequência/castigo é o mesmo: que ela se responsabilize pelos seus actos. Apenas se procura que estas consequências tenham um qualquer nexo causal com a infracção desvirtue a sua essência. E não vejo mal algum nisso. Afinal, até os Tribunais vêm reconhecendo os benefícios de aplicar penas acessórias que mostrem aos infractores o mal que as suas acções causaram e os obrigue, activamente, a repará-lo ou a preveni-lo…

***

Não vai funcionar sempre.

Exige prática e congruência (o que é diferente de consistência).

Mas não é uma batalha campal com vencedores de palmo e meio pré-definidos.

Sobretudo, haverá, com certeza, mil outras maneiras de educar com sucesso e em clima de harmonia e (relativa) felicidade.

Uma nota pessoal

Não sou uma pessoa que grita. Com ninguém. Desde que me conheço. Consigo, aliás, ser bastante desagradável, ofensiva e cáustica, mas sempre de uma forma calculada, sem levantar demasiado o tom de voz (não, isto também não é uma coisa boa). Gritar não faz parte do meu estilo, mesmo quando profundamente aborrecida (não que não aconteça ocasionalmente, em situações extremas). Também sou uma pessoa que precisa de controlar o máximo do seu ambiente. O planeamento e a previsibilidade são elementos que me tranquilizam.

E é essencialmente por isso – porque gritar não faz parte de mim enquanto indivíduo e porque o não domínio do que se passa à minha volta me faz mal – que não me reconheço quando, em desespero, grito e ajo por puro impulso com os meus filhos.

É também por isso que acho que, para mim e só para mim, a parentalidade consciente faz sentido e que nada perco em aprender ferramentas que me ajudem a lidar com algo na minha própria maternidade, de que não gosto. É mais por mim, do que por eles. E é uma razão tão boa como outra qualquer.

Em jeito de conclusão, um pedido

Muuuuiiiiito diferente de eu, ou qualquer outra mãe optar, para si e para os seus filhos, por este ou outro modelo, é o fanatismo com que algumas pessoas passam a defender as suas escolhas e a depreciação deliberada que oferecem às mães que escolhem diferentemente.

Isso sim, é transversalmente tóxico e propulsor de más energias. Aliás, alguns dos comentários aos posts que me suscitaram este são bastante ilustrativos do que agora digo: mulheres ditando umas às outras o que «têm que» e o que «não podem» fazer para serem consideradas boas mães e o que as torna dignas de pena, vergonha e, consequentemente, indignas de educar uma criança… Bom, digamos que não há ‘receita’ de parentalidade cuja escolha pressuponha a sua validação às custas dos mínimos olímpicos do bom senso e da sororidade.

Aquilo que eu escolho é, sem dúvida, o melhor PARA MIM. Aquilo que outras mães fazem também é, seguramente, o melhor PARA ELAS. As hipóteses são sempre várias e cumulativas, não se excluem mutuamente.

Por isso, façam o que fizerem: concedam às mães do vosso mundo (ainda que virtual) e às suas opções, o mesmo respeito com que tratam as vossas próprias.

Ninguém gosta de ser constantemente questionado (até quando não tem senão certezas). Para isso, já existem a nossa consciência e as nossas próprias inseguranças, sempre a fazer das suas.

 

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