De fada a bruxa em poucas noites

Andamos há três semanas no fantástico carrossel das doenças.

Um apanha, passa adiante até percorrer a família toda e, entretanto, quando o ciclo termina, já outro apanhou qualquer outra coisinha de qualidade para partilhar, com todo o altruísmo que se quer em família…

O mote da última ronda foi dado pelo Miguel: febre alta, garganta inflamada, ouvidos vermelhos, conjuntivite e tudo o que teve direito.

Bebé doente, bebé carente.

Inevitavelmente, seguiram-se noites passadas em cima de mim. Dias também. Actividades impensáveis desenvolvidas com um bebé não tão leve assim no colo. Gritos lancinantes sempre que era pousado no chão, por qualquer motivo.

A mãe foi a fada que lhe roubou as dores só por carregá-lo nos braços, beijar-lhe o cabelo, afagar-lhe as costinhas…

Mas, por que estamos no carrossel, ele ficou bom e a minha vez chegou fatalmente, como o preço a pagar por toda aquela proximidade estranhamente deliciosa, com o meu bebé…

A sensação é a de uma bola de golfe na garganta e uma gargantilha apertada no pescoço. Ter fome dá medo, porque vou ter que engolir alguma coisa e vai doer horrores. Dormir é uma miragem, porque não existe posição confortável. As dores no corpo, os ben-u-ron, o frio, o calor, o frio de novo… Enfim, toda a gente sabe como funciona.

Mas tudo isso é uma vírgula comparado com o que tive que fazer com os resquícios da carência do Miguel, deixados pela doença e pela nossa ausência de há algumas semanas atrás.

É que ele acostumou-se a dormir no meu colo, na minha cama, em mim. E eu acostumei-me a socorrê-lo. A ser a fada. A fada que, para variar e ainda que apenas por alguns dias, tinha o condão de estar sempre lá com ele. A mandar embora as lágrimas, as dores e os desconfortos.

Mas há dois dias eu simplesmente não estava em condições de passar a noite com ele em cima de mim, por muito boa vontade que tivesse.

Adormeci-o no meu colo e torci para que tudo corresse pelo melhor.

Não correu.

Foi mais de uma hora a tentar adormecê-lo e pousá-lo na caminha dele. Ainda eu ia a meio caminho e já ele gritava como se não tivesse há dois segundos suspirado profundamente no seu soninho…

Foi horrível.

E piorou.

Acabei por pousá-lo na cama, com choros e gritos e fiquei perto dele, procurando consolá-lo com a minha presença, tentando segurar-lhe a mão, falar-lhe baixinho ao ouvido e dizer-lhe que estava tudo bem. Mas não estava e nós dois sabíamos. Ele precisava de mim e eu… eu precisava que ele não precisasse tanto. Só nessa noite.

Passei de fada a bruxa num sopro.

O carrasco que negava colo ao seu menino.

E se sentava ao seu lado, segurando-lhe a mão e vendo-o chorar.

Acabou por adormecer, vencido pelo cansaço e pela resignação.

Eu demorei mais.

Não quero ser bruxa agora. Já basta os tantos «nãos» que provavelmente lhe direi, por falta de opção ou para o bem dele.

Quero ser fada para o meu bebé que não vai sê-lo para sempre.

A razão por que o choro vai embora, não a que o faz chorar.

Mas, na vida real, por vezes não é possível ser a fada.

Nessa noite tive que contentar-me em ser a bruxa menos má que as circunstâncias me permitiram…

(e esperar, como sempre, que isso seja suficiente).

O que o Dia da Mulher não é

Vocês que me acompanham desse lado há algum tempo, já terão reparado que para mim #feminismonãoépalavrão.

Aos 33 anos, mãe de dois filhos meninos, trabalhando num ambiente que alguns apelidariam de algo elitista e circulando diariamente na rua como o comum dos mortais, sinto na pele, sinto na alma, todas as razões pelas quais o Dia Internacional da Mulher faz sentido, ainda e infelizmente.

Por isso, quando chega esta data, há uma série de posturas e assumpções que me fazem uma comichão tremenda porque desvalorizam o peso e o impacto da luta do feminismo pela igualdade plena – de Direito e de facto – entre homens e mulheres.

Eis as coisinhas que todos os anos engulo, não como sapos, mas como verdadeiros dragões de Komodo e que mostram tudo, tudo, tudo o que o Dia da Mulher não é e tudo para o que não serve.

Uma data comercial

Não, meus caros. O Dia da Mulher não é a segunda edição do Dia dos Namorados. Se se esqueceram desse dia ou do vosso aniversário de namoro, casamento, o que seja, este não é o dia para compensar a vossa mais que tudo por esse facto, presenteando-a com um enorme ramo de flores ou um jantar fora.

Até porque este é um dia de todos. Homens e mulheres que lutaram e lutam ainda para alcançar a tão almejada igualdade. O facto de se chamar ‘Dia da Mulher’, serve apenas para elucidar os mais distraídos sobre quem é que está na mó de baixo nessa luta e quem é que precisa mais de ver a igualdade cumprida. Apenas isso.

Até podem ser bem intencionados mas poupem uns trocos (a menos que a vossa mais que tudo compreenda este dia da mesma maneira que vocês e, nesse caso, esqueçam tudo e comprem as rosas mais vermelhas com que se deparem… Quem sou eu para arruinar relações?…).

Senhoras, também vale para vocês… Hoje não é sobre jantares só de mulheres e strips masculinos. Tudo isso é, sim, um exercício maravilhoso da liberdade que felizmente já têm enquanto mulheres, mas, na minha humilde opinião, excluir os homens da celebração deste dia reforça a ideia errada de que é mais um ‘para inglês ver’ e logo, não é o ideal no que respeita a dar-lhe a força que ele merece. Convidem os homens a participar. Se quiserem, e tiverem coragem e à vontade para isso, convidem-nos a participar e falem de tudo o que falariam se eles não estivessem presentes. Incentivem-nos a compreender o vosso lado do Mundo. E pasmem-se: não precisam de dar baixa ao strip masculino. Acrescentem um feminino e há para todos os gostos e orientações sexuais. Olha que bela demonstração de igualdade…

Um dia de excepção

E falando em jantares fora… Não, meus caros. Este também não é o dia em que ela chega a casa e a roupa está lavada, passada e dobrada e só não está arrumada para não correrem o risco de ela não se aperceber da grande empreitada que levaram a cabo.

Atendendo a que partilham a mesma casa e produzem, presumivelmente, metade da lixeirada e desarrumação, se não fazem os vossos 50% TODOS OS DIAS nem pretendem passar a fazê-lo de forma consistente, este também não é, certamente, o dia de reforçarem a ideia de que as tarefas domésticas são ‘coisa de mulher’, das quais fazem magnanimamente o favor de as dispensar porque, afinal, é o “seu dia”.

Caso não tenham reparado, é justamente contra esses e outros estereótipos de género que o feminismo se insurge. É sobre esses e outros estereótipos de género que o Dia da Mulher pretende que se reflicta.

Ao passaram a vossa própria camisa, ao lavaram a loiça do vosso próprio jantar ou ao arrumarem os brinquedos dos filhos de quem são pais, não estão a aliviar a vossa mulher de um papel que lhe cabe: estão só a fazer aquilo que vos compete enquanto pessoas que coabitam debaixo do mesmo tecto com outras pessoas, em família.

Vá lá… não se envergonhem, a sério (em todo o caso, se pensaram em fazer algum tipo de tarefa doméstica que normalmente não fazem não deixem voar essa ideia: amanhã também é dia. E no dia seguinte. E no seguinte. E no seguinte. A boa notícia para estes impulsos de decência é que uma casa com uma família dentro é um trabalho doméstico contínuo e infinito, por isso: força aí!).

Exaltação das mulheres com quem convivem

A mãe, a mulher, a irmã, a filha, a vizinha… Não, o dia não é dedicado às ‘vossas mulheres’, às ‘grandes mulheres’ que fazem parte da vossa vida.

Já mencionei que é um dia que reflecte a luta, não apenas de mulheres, mas para que as mulheres possam aceder a um estatuto jurídico-socio-económico equivalente ao dos homens?

Pois é… Nada contra a exaltação das mulheres que admiram, sempre, mas hoje sugiro que reflictam em particular sobre o que elas vos ensinaram sobre igualdade, porque é que querem ser iguais a elas, como é que elas se viram nas dificuldades impostas pelo seu género. Exaltem ISSO.

Uma boa oportunidade para demonstrações de desprezo relativamente à data

Em regra o argumento é de que a igualdade já aí está e que mulher se queixa de barriga cheia. Que num país de primeiro mundo não faz sentido assinalar esta data. Afinal, não é como se as mulheres não pudessem votar ou conduzir ou trabalhar sem autorização masculina ou fossem apedrejadas por trair…

Tanto que eu podia dizer sobre isto… Mas vou limitar-me a duas observações:

A primeira é que o facto de haver países com problemas muito mais graves decorrentes da concepção da mulher como um ser menor, não faz das manifestações menos graves desses problemas um ‘não problema’.

A segunda é que não se pode confundir a igualdade aparente, que é a que inequivocamente resulta da lei, com a igualdade de facto, que é a que resulta da boa interpretação e aplicação da lei. Ora, os aplicadores da lei, que vão dos empregadores aos juízes são pessoas. E, como tal, imbuídas de determinadas convicções pessoais, religiosas, éticas, políticas e por aí vai… Uma sociedade composta por homens e mulheres machistas (muitas vezes sem consciência disso), toma decisões machistas. É inevitável. E digno de reflexão. Pelo menos hoje.

Não acreditam? Podem ler um exemplo prático aqui relativamente a empregadores e outro aqui, relativamente ao funcionamento do nosso sistema judicial no que respeita à criminalidade de género.

Não desprezem a data. Se não quiserem perder cinco minutos com ela, abstraiam-se… Amanhã é outro dia (mas se se depararem com informação de valor, também não magoa ler…).

Publicações no Facebook com um certo e determinado teor

Amig@s… AMIG@S! De todas as coisas que me fazem comichão, esta é a que me dá vontade de desligar o computador, ir até casa da pessoa e entalar-lhe a cabeça no seu portátil três ou quatro vezes. Com alguma força, vá.

Façam o que fizerem não publiquem nada no facebook que comece, termine ou inclua a expressão ‘mulheres de verdade’.

Porra (o que eu queria escrever era ‘foda-se’ mas atendendo ao meu último post mudei à última da hora)!

Mulheres de verdade somos todas.

Mesmo que eu não seja crente e Deus não saia da boca daquela mulher.

Mesmo que eu odeie a maneira como para aquela outra tudo se resume a quem tem o quê e seja essa a ordem de importância com que estabelece as suas prioridades.

Mesmo que a terceira insista em encher o meu saco com assuntos que não me interessam, ‘ensinar-me’ coisas que ambas sabemos que o mundo inteiro sabe ou meter-se na minha vida para além de tudo o que é razoável.

O facto de eu não gostar delas, do que fazem ou dos seus posicionamentos sobre as questões não as torna menos ‘de verdade’.

Mais que tudo isso, não distingam mulheres ‘de verdade’ das ‘outras’ por um critério do que na vossa cabeça é ‘decente’. Decente como em ‘respeitável’. Porque essa é uma premissa perigosa que conduz facilmente ao raciocínio de que existem pessoas (mulheres) que merecem ser respeitadas e outras que não.

Neste contexto: a mulher que usa uma bruta minissaia é tão de verdade como a que usa um hábito imaculado. A que vai pratica sexo casual apenas porque é o que lhe apetece, é tão de verdade como a que quer casar virgem porque é nisso que acredita. A que trai todos os seus companheiros ou os substitui com frequência é tão de verdade como a que casou com o seu primeiro e único parceiro sexual.

Tão de verdade = tão merecedora de respeito quanto.

Por isso, por favor, por favor, por favor… Não façam isto….

***

Termino dizendo que igualdade não pressupõe sermos todos iguais, mas termos toda idêntica liberdade para sermos o que quisermos, sem julgamentos ou penalizações externas.

Quem é que pode não querer isto? Porque é que não somos todos feministas ainda?

Feliz dia Internacional da Mulher a tod@s! Boas reflexões!

(as ilustrações são todas da Denise Silva e foram retiradas da sua página de Facebook)

Mãe é puta. Bom é o pai.

O texto de hoje, além de usar linguagem sensível, como já transparece do título, não é meu. Não é meu, nem poderia. Não passei pela experiência de que fala, pelo julgamento que descreve nem pela desigualdade profunda que resulta do que é exigido a um pai vs o que é exigido a uma mãe para que tenham ambos classificação de ‘bom’ no exame dessa disciplina contínua que é a parentalidade.

O texto de hoje não é meu, mas sinto em cada vírgula, em cada frase, em cada comparação, a dor, o peso, a culpa de tantas mulheres a quem é cobrado que deixem de o ser a partir do momento que nasce um filho, a qualquer custo, para todo o sempre e sozinhas, se assim tiver que ser. Porque mãe é sempre mãe e é o seu dever sê-lo. Já pai só é pai se quiser (e/ou se a Justiça obrigar).

O texto de hoje não é meu e é, obviamente, tal como as minhas palavras acima, uma generalização. Por favor, pais presentes e mães separadas deles, não levem a peito.

Coloco-o entre aspas, mas não sei quem o escreveu, apesar de já o ter lido muitas vezes, em diversas fontes. Perdoem-me, por isso, que não nomeie a sua autora (no entanto, se alguém souber, que me diga).

O texto de hoje não é meu, mas é tão honesto, tão cru(el). Agora, que tenho esta voz que o Entre M’s me dá, não consigo deixar de o dividir com quem me lê.

E pensar que tudo poderia resolver-se com um pouco de empatia

***

“São quase 15h. Meu filho está no meu sofá vendo desenho e me pedindo almoço que eu não fiz.

Hoje é o final de semana do pai, que começou a contar das 9h de sábado e vai até as 18h de domingo. O pai chegou cedo, milagrosamente, mas por volta do meio dia foi cortar o cabelo e não voltou ainda. Meu filho tá pulando no sofá e eu tô cansada de ser mãe. Eu queria ser pai.

Semana passada era o final de semana dele, mas fiquei sabendo na quinta que ele ia pra África, olha só que legal, mais uma viagem internacional, e eu nem passaporte tenho. Claro que eu fico com meu filho e desmarco meu rolê com meu namorado, minha foda atrasada em uma semana a mais, uma a menos, que diferença faz? Eu sou mãe, né não?
Ele tem pós na USP, mestrado na UFMG, fala um inglês fluente com certeza. Eu não consigo nem frequentar meu cursinho todos os dias da semana. Saio todo dia na penultima aula pra pegar meu filho na escola particular que ele paga. Bom pai, paga pensão alta, tenho que valorizar. Né, não?

Ele nunca namorou depois que nos divorciamos, não precisa assumir ninguém, a vida sexual dele é livre. O filho nunca fez ele desmarcar um compromisso de sexo casual, nunca teve uma febre e ele precisou largar o pernoite pra ir pro P.S.

Já eu, já eu, sempre de namoro em namoro, sempre morando junto, sempre transando no chuveiro, senão eu não transo. Só posso gozar depois que o filho dormir, isso se eu tiver disposição.

Foi pra França, trouxe a Torre Eiffel: bom pai.

Foi pra Maputo, atrasou a visitação mais um final de semana, trouxe uma girafa: bom pai.

Foi pra Recife, trouxe um lampeão: bom pai.

Paga pensão descontada na folha: bom pai.

Nunca ficou 15 dias seguidos com o filho de 6 anos: bom pai, estava trabalhando para pagar pensão senão vai preso.

Mãe mora junto com o primeiro namorado pra dividir conta e poder foder, porque mãe também fode: puta.

Mãe não tem formação universitária: vive de pensão, é puta.

Mãe termina com o primeiro namorado: não sabe formar família, é puta.

Mãe fica desempregada e usa parte da pensão pra pagar despesas: vive do dinheiro do ex, é puta.

Mãe ajunta com o segundo namorado pra dividir aluguel e conseguir foder no chuveiro: é puta, trazendo outro macho pra dentro de casa.

Mãe pensa em sumicídio (sumir ou suicídio-algo que não magoe o filho: ah, não tem essa opção)

Foda-se a mãe egoísta que quer desistir.

Vai ter que aguentar a pressão pra não desgraçar a vida do filho. Se vira, mãe.

Mãe tá esgotada. Mãe não fode. Mãe não pode. Mãe não presta.

Mãe é puta.

Bom é o pai.”

#feminismonãoépalavrão

‘Menino da mamã’

‘O que é que está escrito na tua camisola papá?’

Foi o diálogo que se seguiu a esta a pergunta do Martim – e que agora faz habitualmente em relação a tudo o que é texto, curioso que anda a explorar as letras – que despoletou não só este post como uma valente gargalhada minha. É que, como se diz pela boca morre o peixe, mas é muito mais divertido quando o ‘pescador’ tem quatro anos e uma memória aguçada.

Explico.

O Mário vive lamentando a preferência evidente que os pequenos M’s mostram pela mãe.

Quer dizer, não é que o pai não seja fixe. Até é… Mas só enquanto a mãe não chega a casa.

Nisto, vai-lhes lançando armadilhas, jogos de palavras, queixumes, para testar os seus afectos e ouvir um ‘gosto de ti’ que seja ou ganhar um abraço de misericórdia. Alguns desavisados chamar-lhe-iam ‘ciúmes’, mas não eu…

Uma das artimanhas que usa frequentemente é aproveitar as minhas declarações de amor ao Martim para me dar um ‘chega para lá’ e dizer que o Martim é dele. Eu riposto e digo que é meu. Depois de algum ping pong de ‘é meu’ entre os pais, o Martim é chamado a decidir. Durante muito tempo nem pestanejava para responder que era ‘da mamã’. Ultimamente, depois de lhe explicarmos muitas, muitas vezes que é só uma brincadeira, que nenhum de nós se aborrece por isso, que ele não tem que escolher e que ele é, e sempre será, dos dois, em actos de justiça salomónica, lá vai respondendo que é ‘dos dois’ (rematando às vezes com um ‘não discutam’).

Em suma, dá ao pai uma colher de chá e faz com que nos calemos com aquela lenga-lenga do ‘é meu’ que apenas serve para interromper a actividade super importante em que se encontrava envolvido (qualquer uma) antes daquele show decadente de carência parental.

E agora, devidamente enquadrados, voltemos à camisola do papá e à pergunta do Martim.

Por alturas do Natal o Mário encontrou no facebook (aqui) estas camisolas e achou graça. Comprou duas. Porquê? Porque elas têm escrito exactamente o que ele próprio é e se considera:

E foi isso que o Mário respondeu ao filho quando ele lhe perguntou o que estava escrito na camisola: está escrito ‘menino da mamã’.

Depois de uma bateria de questões sobre onde estava cada palavra, que espaço ocupava cada uma na camisola e o respectivo esquema de cores, o Martim repete, sublinhando com o dedo as palavras na camisola: ‘menino da mamã’.

E aí, pára um pouco para pensar e pergunta:

“Porque é que a camisola não diz que é ‘dos dois’?

Touché! Pois é, papá… Não há como um menino da mamã, para reconhecer outro. E assim se desarma retroactivamente um pai…

Como é desse lado? Muitos meninos da mamã?

Ainda sobre os palpites: o silêncio alimenta o monstro?

Nem de propósito, depois do post da semana passada sobre os muitos pais que os nossos filhos têm, mesmo não tendo (quem perdeu, pode ler aqui), passei por uma situação de palpite flagrante no último fim-de-semana…

Fomos a Fátima no Sábado porque o Mário estava ainda mais receoso que eu com a nossa viagem (falei sobre isso aqui) e achou por bem comemorar de forma mais espiritual o facto de regressarmos vivos e em (relativamente) bom estado de conservação.

No restaurante onde almoçámos levei o Miguel ao fraldário. Ele está numa fase em que odeia trocar a fralda. O-dei-a. Esperneia, chora e chateia durante todo o processo, a menos que tenha um biberão na boca (ah… comer! A sua actividade predilecta!).

Obviamente, para ele é indiferente encontrar-se em casa ou fora dela e faz exactamente o mesmo barulho e escabeche independentemente de onde estejamos.

Eis que uma senhora, cheia de dó, aproximou-se, tentou consolá-lo, conversar com ele e aquelas coisas a que as senhoras não resistem quando tudo o que queremos é despachar o assunto, na certeza (que as mil experiências anteriores com o NOSSO filho nos deram) de que ele se calará assim que voltar ao nosso colo, feliz, como se nada se tivesse passado.

Às tanta,s perguntou se ele fazia isso sempre que trocava a fralda. Respondi que tinha fases e que estava numa em que sim, fazia isso em todas as mudas. Não convencida, perguntou o seguinte:

Não estará a magoar a cabecinha aqui em cima?’

Revirei os olhos (aliás, acabei de fazer o mesmo ao escrever).

‘Não. Não estará.’

Fui um poço de simpatia tão profundo que a senhora lá se convenceu a ir embora sem mais comentários.

Fiquei a pensar…

A senhora estava lá com os filhos. Com os netos. Aquela senhora engoliu muito palpite de que não gostou, como qualquer outra mãe.

Então se praticamente todas as 100% sofrem com estas ingerências na forma como lidam ou deixam de lidar com os seus filhos em situações que só a si dizem respeito, com certeza muitas, muitas mães são também elas palpiteiras além de alvos… Como aquela senhora! Não acredito que o façam de forma consciente, afinal, perpetuar o ciclo do palpite não aparenta ser agradável para ninguém… O que me leva a questionar:

Será que os palpiteiros são todos ou maioritariamente pessoas inconscientes de que estão apenas a ser metediços e ninguém quer saber da sua opinião?

Será que eu sou uma palpiteira e não sei?

Confesso que, depois de pensar um pouco, consegui identificar algumas situações em que talvez tivesse ficado melhor na fotografia de boca fechada. Quando utilizei um tom um pouquinho mais julgador ao pronunciar-me sobre o uso de tecnologias por uma criança com a idade do Martim (que na minha opinião era excessivo) ou quando identifiquei, exemplificando ainda com situações concretas, uma dependência desnecessária, não da filha em relação à mãe, mas da mãe em relação à filha, também da idade do Martim.

Curiosamente ambas as situações ocorreram com amigas bem próximas. Nenhuma delas me disse nada. Não sei se por não as ter incomodado verdadeiramente ou se por adoptarem, ao contrário de mim, que sou incapaz, uma táctica similar aos pinguins do Madagáscar nestas situações, limitando-se a ‘sorrir e acenar’.

Em todo o caso, em retrospectiva, desejava que o tivessem feito. Afinal… O que é que eu tenho a ver com isso se ninguém me perguntou? São ambas mulheres adultas, que tenho como inteligentes, com o mesmíssimo acesso à informação que eu, felizmente, e sem a menor dúvida que querem para os seus filhos o mesmo que eu quero para os meus: nada menos do que o melhor.

A minha opinião é a minha. Mantenho-a em qualquer dos casos que relatei. Mas não passa disso mesmo e vale zero, menos que zero até, se pais e filhos estão confortáveis com aquele modo de gerir as coisas…

Talvez seja mais disto que nos falta a nós, mães alvos de palpites: um pouco menos de ‘sorrir e acenar’ e um pouco mais de ‘obrigada pela preocupação, sei que é totalmente inocente, mas eu sei o que estou a fazer, afinal, o filho é meu’.

Quantos palpiteiros inconscientes não ganhariam essa consciência e prestariam mais atenção antes de falar numa próxima vez, quiçá com outra mãe?

Quantos palpiteiros conscientes não se sentiriam pelo menos um pouquinho mais inibidos de tecer comentários despropositados?

Pela minha parte, a todos quantos se sentiram alguma vez ‘palpitados’ por mim apresento as minhas mais sinceras desculpas e convido todas as mamãs fartinhas de palpites a juntarem-se num movimento por palpiteiros mais conscientes (isto é, com mais vergonha na cara). Falem! Quebremos o ciclo do palpite!

 

(By the way, quem ainda não participou no passatempo ‘poupe nos palpites?’ O tempo urge e acaba hoje às 23h59!)

 

Vou separar-me!

Em primeiro lugar: não. Não vou, na verdade, separar-me, foi só um clickbait vulgaruxo que arranjei para despertar o vosso lado fofoqueiro e trazer-vos até aqui.

Que foi? Queriam que mentisse? Técnicas manhosas para atrair um par de visualizações com certeza, agora mentiras, isso jamais! 🙂

‘Vou separar-me da Inês…’ foi a piada que o meu marido fez uma noite destas quando chegou a casa, morto de cansaço e querendo deitar-se e viu que a cama já estava cheia.

‘Apanhei-a na cama com dois homens… Vejam a cara de pânico dela ao ser flagrada’, foi o que ele mandou a um pequeno grupo de whatsapp, borrifando-se para o pavor que está a minha cara (experimentem levar com um flash nas ventas depois de 40 minutos no escuro antes de me julgarem…), que só perde em feiura para o meu pijama e lençóis (espero eu) e contrasta com a fofura destes dois monstrinhos adormecidos.

Pois é…

Já vos contei sobre como fazia questão de que o Martim dormisse na sua própria cama desde… bom, sempre e como as minhas ideias foram mudando depois de ter o Miguel (podem ler ou reler aqui).

Hoje em dia, depois dos tempos difíceis que tive com o Martim (e que, espero não morder a língua, mas parece que estão finalmente a ir embora, aos poucos), sou muito, mas muito mais flexível com isto de quem dorme onde, quando, por quanto tempo e com quem (quanta promiscuidade!).

Ultimamente, nos dias em que o Mário chega depois da hora deles dormirem, convido o Martim para adormecer comigo (explico sempre que ele irá acordar, no dia seguinte, na sua própria cama e que, se por algum motivo o dia seguinte for às quatro da manhã, não vale querer voltar para a minha)… Ele sente-se um pouco mais acolhido e tento sempre adormecer o Miguel primeiro, para poder ter um tempinho só nosso, no mimo. Mas quando, como aconteceu neste dia, o Miguel está demasiado desperto e eufórico, acampamos os três na minha cama…

É extremamente desconfortável, como já expliquei por aqui e os preparos em que o Mário nos caçou mostram exactamente isso. O que acontece é que cada um deles vai tomando espaço na cama, empurrando-me para a ponta. Quando não posso recuar mais, o Miguel sobe para cima de mim e o Martim toma o espaço onde ele estava, para se encostar a mim também. Por isso, quando o Miguel quer regressar ao colchão, não consegue, não lhe restando outra opção senão enrolar para sul. É um pequeno circo Chen em actuação num colchão de casal, mas que poderia ser individual sempre problemas, porque eles não precisam de mais espaço que isso…

Por outro lado… Caramba, quem é que resiste a isto? Estas bochechas rosadas, estes corpinhos pequeninos totalmente made in mamã a partir de quase nada, a minhocar para estar junto a mim, estas mãozinhas pequeninas… Não é possível!

Por isso e também porque, além do meu coração, a minha cama também é grande, ao meu amor – aquele com quem casei, entenda-se – tenho que deixar um recado: não te separes de mim, mas vamos liberalizar esta nossa relação porque, no que depender destes dois marmanjinhos, vamos continuar a trair-te um pouquinho sempre que virares costas (mas gostamos todos muito de ti)…

Esta é a história da minha t-shirt (o cabelo do Miguel e o raio dos palpites)

Introdução

Esta é a história da minha t-shirt.

E para a introduzir pergunto: quem nunca teve vontade de dar um bom chega para lá num palpiteiro de plantão e dizer ‘poupe nos palpites que a mãe sou eu’?!

Eu sou muitas vezes acusada de ser ‘senhora da razão’ e, talvez porque isso tenha qualquer coisa de verdade, sou pouco tolerante a palpites não solicitados.

Sou ainda mais intolerante quando o tema são os meus filhos e é muito difícil apanhar-me a fazer ‘sorrisos amarelos’ nessas ocasiões. São meus, porra! Que mania de haver sempre um doutorado naquilo que se passa na minha casa e, muitas mais vezes do que consigo contar, no meu colo!

Mas o pior é quando os palpites passam a transgressões expressas da vontade dos pais.

Posso dizer-vos que foi de uma dessas transgressões que nasceu a minha t-shirt.

Sério.

Continuem comigo…

O cabelo do Miguel

Pouco depois do Martim completar um ano cortámos-lhe, pela primeira vez, o cabelinho. Guardei-o todo. Aqueles caracóis lindões de cabelo sedoso de bebé.

Claro está que nunca voltou a tê-los e muitas vezes dei por mim a suspirar por ter, talvez, cortado o cabelo dele cedo demais.

Com o Miguel decidi que não queria cair no mesmo ‘erro’. Só que o cabelo do Miguel não tem caracóis lindões. É só… louco. Muito louco. Comprido nuns sítios, inexistente noutros.

Mas ele também é um louquinho e por isso, mesmo perante investidas recorrentes do Mário para lho cortarmos, finquei pé e gritei aos quatro ventos que ninguém tocaria no cabelo louco do meu bebé ainda mais louco.

Disse-o ao Mário, vezes sem conta. Disse-o à minha irmã quando brincou ameaçando que iria buscar uma tesoura sem eu dar por nada. Disse-o vezes sem conta à minha mãe sempre que ela insistia no discurso do ‘coitadinho, que tem o cabelo nos olhos’.

Um belo dia de manhã o Mário pergunta-me: o que aconteceu ao cabelo do Miguel?

Ele tinha vindo de casa dos meus pais já a dormir no dia anterior, de pijama vestido e de gorro na cabeça, por isso, quanto a mim, não tinha acontecido nada.

Mas aconteceu.

Aconteceu a minha mãe decidir, não só por mim como contra mim, dar uma tesourada na franja do Miguel. Bem torta, bem rente à testa, para ter certeza que cabeleireiro algum no Universo poderia consertar. Bem às escondidas. Bem… mal.

Da raiva ao papel, do papel ao algodão

Fiquei furiosa.

Fiquei furiosa muitos dias.

Furiosa a ponto da insónia.

Ainda fico, um pouco, quando penso que não vou guardar o primeiro cabelo cortado do meu bebé, porque alguém decidiu passar-me por cima e fazer o que entendeu melhor para ele quando não tinha que entender coisa nenhuma.

Bolas, não me interessa o que acham melhor para os meus filhos! Só há duas pessoas cuja opinião pesa quanto a isso: a minha e a do pai. Fim.

Na noite da insónia peguei no telemóvel (ainda antes da regra modo avião) e escrevi ‘a mãe sou eu’.

Mas o telemóvel não é sensível à raiva como uma caneta a pressionar o papel…

Por isso no dia seguinte quando me apanhei de papel e caneta em punho escrevi novamente ‘a mãe sou eu’. Em minúsculas, em maiúsculas. Em hastag.

Mas porque é que as pessoas não guardam para si o que pensam que é melhor? Porquê? Porque raio não poupam nos palpites que ninguém lhes pediu? Nas acções que ninguém lhes encomendou?

E fui escrevendo…

No final sobrou o que lêem na minha t-shirt.

‘Poupe nos palpites
#amãesoueu’

Apeguei-me rapidamente à ideia de passar a mensagem sem falar.

Daí a procurar uma empresa que estampasse o meu apelo desesperado para eu ostentar sem ter que ser (demasiado) desagradável com ninguém foi um piscar de olhos.

E cá está ela.

Esta é a história da minha t-shirt.

Gostam?

Nota:
O Facebook diminuiu o alcance das publicações de páginas. 
Para continuar a não 'perder pitada' do Entre M's: 
1) clique no botão 'Seguir'no topo da nossa página do Facebook; 
2) seleccione 'ver primeiro'.

‘Mais linda do que nunca’

Ontem contei-vos sobre a reacção dos meninos, sobretudo do Miguel, ao nosso regresso de viagem.

Relatei-a numa perspectiva de mãe ansiosa, receosa e semi-culpada, como terão reparado, preocupada com os efeitos da sua ausência, por motivos exclusivos de lazer, sobre a vida dos seus filhos…

O texto tomou um rumo diferente do que inicialmente tinha pensado para ele e acabei por não mencionar o antídoto que o Martim me deu para estes sentimentos que me envenenavam a alma.

Sim, ele está agora bastante acostumado com a ideia de passar alguns dias sem os pais. Sim, para ele, também são férias e vive sem ‘rei nem roque’ em várias casas onde todos se esforçam para lhe agradar. Sim, ele fica ainda – obviamente – com saudades, mas lida bem com elas e guarda todas as informações que nos quer passar, porque aquela cabecinha é melhor que qualquer computador, e vai-nos brindando com os detalhes das suas várias estadias em casa da tia, da avó paterna e depois dos avós maternos ao longo de vários dias.

Mas o que mais me deliciou nele foi quando reclamei um beijo, no meio de toda aquela euforia de mostrar brincadeiras que tinha feito, no fim de toda aquela correria para levar e trazer coisas que quer exibir e ele gritou ‘ah! tinha-me esquecido!’ de outra divisão da casa dos meus pais.

Veio, novamente a correr e aos pulinhos, até mim, abraçou-me muito e deu-me beijinhos.

Depois parou, olhou para mim fixamente com aqueles dois olhos enormes e disse-me: ‘estás tão bonita mamã’.

Agradeci-lhe e enquanto lhe dizia como ele ficava também mais bonito a cada dia que passava ele completou o seu pensamento: ‘estás mais linda do que nunca!’

O Martim é sempre o primeiro a reparar quando pinto as unhas, quando uso uma roupa nova, quando corto o cabelo, quando uso um batom com uma cor mais forte. O Martim é sempre o primeiro a elogiar-me nessas ocasiões. ‘Uau, estás gira!’, é algo que sai da boca dele com naturalidade e também diz quando não gosta de alguma coisa. O Martim é tão observador e opinativo que, às tantas, dou comigo a perguntar a opinião dele em questões estéticas e a tomá-la por boa…

[true story: um dia comprei um macacão ao preço da banana num leilão no Facebook. Depois de me ser enviado, experimentei-o e quando perguntei ao meu marido o que achava o Martim comentou ‘que pijama tão giro, mamã’. Até hoje não o vesti. Uma. Única. Vez.]

Por isso, aquela frase dita a uma mãe com um ar exausto depois de 9h30 de voo nocturno e de ter, no dia anterior, chorado baba e ranho por deixar uma cidade que foi tão boa para mim convenceu-me que, de facto, a felicidade só pode ser algo visível a olho nú.

Pelo menos ao dele.

E como lhe agradeço por isso.

O regresso – voltar é bom, ter ido é essencial.

No Rio de Janeiro, um motorista de Uber contou-nos porque conduzia: com 60 anos, tinha-se reformado e separado da mulher pouco depois. Ficou com pouco dinheiro e muito sozinho, portanto. Havia, por isso, decidido pegar no pouco que tinha de seu – o carro – e usá-lo para resolver ambos os problemas.

***

Oi gente!!! Que saudade de aparecer por aqui! Voltámos revigorados, ligeiramente mais coloridos e absolutamente apaixonados pelo Rio de Janeiro (a bem dizer, eu já ia apaixonada, mas voltei mais ainda).

Posto isto, chegou a hora de cair na realidade e, felizmente, a realidade tem coisas boas: os risos, os abraços, as saudades finalmente mortinhas que eu tinha dos meus M’s…

Estava com alguns receios em relação ao nosso regresso, sobretudo em relação à reacção do Miguel, que ficou, pela primeira vez, alguns dias sem nos ver.

As reminiscências da primeira viagem do género, que fizemos quando o Martim era (mais) pequeno não ajudaram. Ele tinha um ano e oito meses quando casámos e fomos de lua-de-mel. Pelo que nos contaram ficou óptimo, divertido, mimado e entretido por avós e tios durante os dez dias que passámos fora. No entanto, quando voltámos surpreendeu-nos, ainda no aeroporto, com uma recepção gélida. Nós, cheios de vontade de o apertar e ele, quase sem olhar para a nossa cara, claramente muito zangado com o nosso desaparecimento repentino e mais ainda com a cara de pau de voltarmos como nada se tivesse passado.

Durante o mês seguinte, o Martim acordou todas as noites aos gritos. Pareciam terrores nocturnos, mas não eram. Eram protestos sonoros pela ausência dos pais. Ou melhor, sendo rigorosa, pela ausência da mãe. Porque o Martim acordava a gritar, a plenos pulmões ‘Mamã! Mamã! A mamã fugiu!’.

Acabei pagando pela lua-de-mel muito mais do que apenas o quanto a viagem economicamente me custou… Paguei em sono perdido e em facas espetadas no coração a cada nova acusação de fuga pela madrugada adentro. Passou. Hoje o Martim é um menino descontraído no que respeita às escapadinhas dos pais para namorar. Agora ele sabe que voltaremos sempre para ele.

Mas o Miguel ainda não…

Quando fomos buscá-los o Martim fez a festa normal de quem tinha saudades, correu, gritou de entusiasmo, quis contar mil histórias. O Miguel… Quando nos viu deu um longo suspiro, como se estivesse exausto. Estendeu-me os braços para vir ao meu colo, encostou a cabecinha no meu peito e suspirou, suspirou… Depois quis ir ao colo do pai, onde fez o mesmo, e de novo ao meu, onde se deixou ficar, assim mesmo, cansado da espera, aliviado por estarmos ali os dois.

A primeira noite foi complicada. Acho que trocaram a cama do Miguel na nossa ausência e colocaram uma cheia de picos, porque não houve maneira de o manter lá. Dormiu em cima de mim. Não ao lado. Em cima. Marcando território, como se só a dormência do meu corpo inteiro por baixo dele fosse capaz de garantir que não voltaria a ir a lugar nenhum sem o meu bebé. Sempre que escorregava, por algum motivo e se sentia longe do contacto físico, choramingava até que o pusesse novamente em cima de mim.

O dia amanheceu e não se tornou mais fácil, o Miguel não quis largar o meu colo para (quase) nada. Fiz todas as refeições com ele sentado em cima de mim e todos os meus afazeres do dia com ele montado nos meus braços e com protestos infinitos sempre que o pus no ovo para circular de carro.

Espero que restaure a confiança em nós. Que aprenda com o tempo que voltaremos sempre para ele também.

Tudo visto, não me importo de pagar este preço por momentos a dois. No caso, pela viagem que eu sempre quis fazer. Não me importo porque estes momentos sem filhos, sem fraldas, sem noites mal dormidas, sem a loiça, a roupa, os compromissos escolares, lúdicos e médicos deles nos permitem olhar um para o outro sem distracções. Conversar. Criar memórias que não envolvem os nossos filhos.

Porque um dia, se tudo correr bem, eles irão embora de casa e se tudo tiver corrido igualmente bem até aí, nós voltaremos a ficar apenas na companhia um do outro.

De que falaremos se não tivermos feito nada nos últimos 25 anos senão viver em torno dos nossos filhos?

Memórias com eles são maravilhosas. Mas memórias só nossas também são imprescindíveis.

***

Não conheço a história do casamento ou da separação daquele motorista super bem-humorado e cheio de experiência de vida com quem trocámos 20 minutos de agradável conversa. Mas, na minha cabeça, aquele homem e a sua ex-mulher viram os filhos crescerem e saírem de casa. Na minha cabeça, aquele ex-casal viu-se estranho ao fim de tantos anos debaixo do mesmo tecto. Tão estranho que não encontrou outra solução senão, à beira da velhice, irem cada um para seu lado. Aprenderem a ser fisicamente o que já eram sem saber até aí: duas pessoas sozinhas. É um acto de coragem sentir que nunca é tarde para ser feliz de outra maneira. E acredito piamente que nunca é! Mas à mesa do pequeno-almoço, sentada a olhar para o homem por quem sou apaixonada não pude evitar pensar que não queria que esta história que, na minha cabeça, inventei para aquela pessoa, fosse a nossa.

Que haja muitas viagens a dois, nem que seja ao quarteirão adiante do nosso, de mãos dadas, para um beijo roubado sem olhares de gente pequenina e atenta.

Dilemas de mãe – A viagem

 

Daqui a pouco mais de 48h estarei num avião para o Rio de Janeiro.

Pelo menos é o que dirá o meu cartão de embarque. Na minha cabeça, estarei a caminho da ‘minha terra’, aquela que não conheço, na qual não tenho a menor raíz, mas que me preenche a alma desde menina.

É a minha viagem de sonho. Carnaval no Rio de Janeiro.

E, como tal, estou uma pilha de entusiasmo qual criança nas vésperas do Natal.

Mas não sou uma criança. Sou uma mulher de 33 anos. Sou uma mãe de dois meninos que precisam de mim e do pai.

Dois meninos que ficam cá, enquanto vamos viajar.

No meio de tudo o que a minha cabeça já viveu milhares de vezes ao longo dos anos e que o corpo só agora se prepara para viver também é inevitável pensar neles.

Não sinto qualquer culpa em viajarmos só os dois. Nem tão pouco acho que os sonhos devam morrer no mesmo bloco de partos onde nos nascem os filhos.

Mas sinto medo.

O Rio de Janeiro não é, certamente, conhecida por ser a cidade mais segura do Mundo. E se não voltamos?

Que disparate! Porque não voltaríamos?

Mas… E se não voltamos?

Que nó na garganta, que falta de ar, que aperto do peito…

Tento pensar friamente: o que quer que possa acontecer lá, pode perfeitamente acontecer igualmente aqui ou em qualquer outro ponto do planeta. Pensemos em Paris ou em Barcelona, lugares aparentemente seguros e que têm visto tanta coisa acontecer. Basta um louco com um ideal. Basta estar no lugar errado à hora errada.

Mas é mesmo necessário pensar na desgraça alheia para me reconfortar?

Nunca uma viagem me deixou tão feliz e tão angustiada… Por um lado, só vou acreditar que lá estou quando efectivamente pisar aquela terra, por outro só descanso quando voltar a abraçá-los.

Se leram até aqui, já perceberam que este é um post perfeitamente inútil.

Não há ‘moral da história’, opinião estruturada, punch line ou final surpresa, é apenas o que é: um desabafo de alguém que não sabe se ri ou se chora e por isso tem feito ambas em abundância.