O que o Dia da Mulher não é

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Vocês que me acompanham desse lado há algum tempo, já terão reparado que para mim #feminismonãoépalavrão.

Aos 33 anos, mãe de dois filhos meninos, trabalhando num ambiente que alguns apelidariam de algo elitista e circulando diariamente na rua como o comum dos mortais, sinto na pele, sinto na alma, todas as razões pelas quais o Dia Internacional da Mulher faz sentido, ainda e infelizmente.

Por isso, quando chega esta data, há uma série de posturas e assumpções que me fazem uma comichão tremenda porque desvalorizam o peso e o impacto da luta do feminismo pela igualdade plena – de Direito e de facto – entre homens e mulheres.

Eis as coisinhas que todos os anos engulo, não como sapos, mas como verdadeiros dragões de Komodo e que mostram tudo, tudo, tudo o que o Dia da Mulher não é e tudo para o que não serve.

Uma data comercial

Não, meus caros. O Dia da Mulher não é a segunda edição do Dia dos Namorados. Se se esqueceram desse dia ou do vosso aniversário de namoro, casamento, o que seja, este não é o dia para compensar a vossa mais que tudo por esse facto, presenteando-a com um enorme ramo de flores ou um jantar fora.

Até porque este é um dia de todos. Homens e mulheres que lutaram e lutam ainda para alcançar a tão almejada igualdade. O facto de se chamar ‘Dia da Mulher’, serve apenas para elucidar os mais distraídos sobre quem é que está na mó de baixo nessa luta e quem é que precisa mais de ver a igualdade cumprida. Apenas isso.

Até podem ser bem intencionados mas poupem uns trocos (a menos que a vossa mais que tudo compreenda este dia da mesma maneira que vocês e, nesse caso, esqueçam tudo e comprem as rosas mais vermelhas com que se deparem… Quem sou eu para arruinar relações?…).

Senhoras, também vale para vocês… Hoje não é sobre jantares só de mulheres e strips masculinos. Tudo isso é, sim, um exercício maravilhoso da liberdade que felizmente já têm enquanto mulheres, mas, na minha humilde opinião, excluir os homens da celebração deste dia reforça a ideia errada de que é mais um ‘para inglês ver’ e logo, não é o ideal no que respeita a dar-lhe a força que ele merece. Convidem os homens a participar. Se quiserem, e tiverem coragem e à vontade para isso, convidem-nos a participar e falem de tudo o que falariam se eles não estivessem presentes. Incentivem-nos a compreender o vosso lado do Mundo. E pasmem-se: não precisam de dar baixa ao strip masculino. Acrescentem um feminino e há para todos os gostos e orientações sexuais. Olha que bela demonstração de igualdade…

Um dia de excepção

E falando em jantares fora… Não, meus caros. Este também não é o dia em que ela chega a casa e a roupa está lavada, passada e dobrada e só não está arrumada para não correrem o risco de ela não se aperceber da grande empreitada que levaram a cabo.

Atendendo a que partilham a mesma casa e produzem, presumivelmente, metade da lixeirada e desarrumação, se não fazem os vossos 50% TODOS OS DIAS nem pretendem passar a fazê-lo de forma consistente, este também não é, certamente, o dia de reforçarem a ideia de que as tarefas domésticas são ‘coisa de mulher’, das quais fazem magnanimamente o favor de as dispensar porque, afinal, é o “seu dia”.

Caso não tenham reparado, é justamente contra esses e outros estereótipos de género que o feminismo se insurge. É sobre esses e outros estereótipos de género que o Dia da Mulher pretende que se reflicta.

Ao passaram a vossa própria camisa, ao lavaram a loiça do vosso próprio jantar ou ao arrumarem os brinquedos dos filhos de quem são pais, não estão a aliviar a vossa mulher de um papel que lhe cabe: estão só a fazer aquilo que vos compete enquanto pessoas que coabitam debaixo do mesmo tecto com outras pessoas, em família.

Vá lá… não se envergonhem, a sério (em todo o caso, se pensaram em fazer algum tipo de tarefa doméstica que normalmente não fazem não deixem voar essa ideia: amanhã também é dia. E no dia seguinte. E no seguinte. E no seguinte. A boa notícia para estes impulsos de decência é que uma casa com uma família dentro é um trabalho doméstico contínuo e infinito, por isso: força aí!).

Exaltação das mulheres com quem convivem

A mãe, a mulher, a irmã, a filha, a vizinha… Não, o dia não é dedicado às ‘vossas mulheres’, às ‘grandes mulheres’ que fazem parte da vossa vida.

Já mencionei que é um dia que reflecte a luta, não apenas de mulheres, mas para que as mulheres possam aceder a um estatuto jurídico-socio-económico equivalente ao dos homens?

Pois é… Nada contra a exaltação das mulheres que admiram, sempre, mas hoje sugiro que reflictam em particular sobre o que elas vos ensinaram sobre igualdade, porque é que querem ser iguais a elas, como é que elas se viram nas dificuldades impostas pelo seu género. Exaltem ISSO.

Uma boa oportunidade para demonstrações de desprezo relativamente à data

Em regra o argumento é de que a igualdade já aí está e que mulher se queixa de barriga cheia. Que num país de primeiro mundo não faz sentido assinalar esta data. Afinal, não é como se as mulheres não pudessem votar ou conduzir ou trabalhar sem autorização masculina ou fossem apedrejadas por trair…

Tanto que eu podia dizer sobre isto… Mas vou limitar-me a duas observações:

A primeira é que o facto de haver países com problemas muito mais graves decorrentes da concepção da mulher como um ser menor, não faz das manifestações menos graves desses problemas um ‘não problema’.

A segunda é que não se pode confundir a igualdade aparente, que é a que inequivocamente resulta da lei, com a igualdade de facto, que é a que resulta da boa interpretação e aplicação da lei. Ora, os aplicadores da lei, que vão dos empregadores aos juízes são pessoas. E, como tal, imbuídas de determinadas convicções pessoais, religiosas, éticas, políticas e por aí vai… Uma sociedade composta por homens e mulheres machistas (muitas vezes sem consciência disso), toma decisões machistas. É inevitável. E digno de reflexão. Pelo menos hoje.

Não acreditam? Podem ler um exemplo prático aqui relativamente a empregadores e outro aqui, relativamente ao funcionamento do nosso sistema judicial no que respeita à criminalidade de género.

Não desprezem a data. Se não quiserem perder cinco minutos com ela, abstraiam-se… Amanhã é outro dia (mas se se depararem com informação de valor, também não magoa ler…).

Publicações no Facebook com um certo e determinado teor

Amig@s… AMIG@S! De todas as coisas que me fazem comichão, esta é a que me dá vontade de desligar o computador, ir até casa da pessoa e entalar-lhe a cabeça no seu portátil três ou quatro vezes. Com alguma força, vá.

Façam o que fizerem não publiquem nada no facebook que comece, termine ou inclua a expressão ‘mulheres de verdade’.

Porra (o que eu queria escrever era ‘foda-se’ mas atendendo ao meu último post mudei à última da hora)!

Mulheres de verdade somos todas.

Mesmo que eu não seja crente e Deus não saia da boca daquela mulher.

Mesmo que eu odeie a maneira como para aquela outra tudo se resume a quem tem o quê e seja essa a ordem de importância com que estabelece as suas prioridades.

Mesmo que a terceira insista em encher o meu saco com assuntos que não me interessam, ‘ensinar-me’ coisas que ambas sabemos que o mundo inteiro sabe ou meter-se na minha vida para além de tudo o que é razoável.

O facto de eu não gostar delas, do que fazem ou dos seus posicionamentos sobre as questões não as torna menos ‘de verdade’.

Mais que tudo isso, não distingam mulheres ‘de verdade’ das ‘outras’ por um critério do que na vossa cabeça é ‘decente’. Decente como em ‘respeitável’. Porque essa é uma premissa perigosa que conduz facilmente ao raciocínio de que existem pessoas (mulheres) que merecem ser respeitadas e outras que não.

Neste contexto: a mulher que usa uma bruta minissaia é tão de verdade como a que usa um hábito imaculado. A que vai pratica sexo casual apenas porque é o que lhe apetece, é tão de verdade como a que quer casar virgem porque é nisso que acredita. A que trai todos os seus companheiros ou os substitui com frequência é tão de verdade como a que casou com o seu primeiro e único parceiro sexual.

Tão de verdade = tão merecedora de respeito quanto.

Por isso, por favor, por favor, por favor… Não façam isto….

***

Termino dizendo que igualdade não pressupõe sermos todos iguais, mas termos toda idêntica liberdade para sermos o que quisermos, sem julgamentos ou penalizações externas.

Quem é que pode não querer isto? Porque é que não somos todos feministas ainda?

Feliz dia Internacional da Mulher a tod@s! Boas reflexões!

(as ilustrações são todas da Denise Silva e foram retiradas da sua página de Facebook)

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