Negação – há mais do que só amor entre eles

Spread the love

Há coisas que não queremos acreditar que aconteçam connosco.

Podem ser coisas quase tontas ou muito relevantes, pouco importa. Há coisas que não queremos acreditar que aconteçam connosco.

Pura questão de convicção (ou será de fé?).

Grávida não queria acreditar que comeria este mundo e o outro.

Puérpera não queria acreditar que seria um falhanço a amamentar.

No fim da licença de maternidade não queria acreditar que teria ainda 20kgs para perder.

Trabalhando, com dois filhos, não queria acreditar no tanto de dias que mal os veria acordados.

Tampouco acreditaria, se mo tivessem dito, que os meus filhos sentiriam um pelo outro algo mais que apenas amor.

É… Há coisas que não queremos acreditar que aconteçam connosco.

Mas vão acontecendo. Inevitavelmente. E inevitavelmente vamos lidando com elas.

Grávida comi quando me deu vontade e deixei de me preocupar tanto.

Puérpera alimentei, falhada, ambos os meus filhos com leite adaptado.

No fim da licença de maternidade fui aprendendo a odiar um pouco menos o espelho e percebi que o peso a mais não era nada perto dos

tantos e tantos dias em que pouco vejo os meus M’s acordados. Também com isso se lida. Tento, quando estou com eles, estar efectivamente com eles.

Mas, confesso, ainda enfrento dificuldades em aceitar que eles, não obstante serem o sol, céu e mar um do outro, se vejam também como concorrentes pelo meu amor.

E muitas, muitas dificuldades em digerir o que vi há uns dias: o melhor menino do mundo, o mais doce, sensível e ternurento dos miúdos a dar, por despeito e para chamar a minha atenção, uma bofetada no irmão. Um bebé, que passou a meia hora seguinte a tentar brincar com o seu mano enlutado e de castigo, com o seu herói.

Há coisas que não acreditamos, ou preferimos não acreditar, que possam acontecer connosco.

Ter que escolher qual dos meus filhos tranquilizo primeiro, onde um não fez nada de mal e o outro nada de mal queria ter feito foi cruel.

Sim, mesmo perante as nossas crenças caídas por terra, vamos lidando com os cacos das convicções perdidas.

Mas às vezes demora um pouco.

Por isso quando o Martim, arrependido, me perguntou ‘ainda sou o teu amor?’ não consegui responder-lhe, mesmo sabendo o que ele precisava de ouvir ou, pelo menos, de sentir.

Porque naquele momento, por muito que isso me custe, ele não era a minha pessoa favorita.

Porque naquele momento, como agora em que revivo a cena, escrevendo sobre ela, só conseguia vê-lo, cego, a bater com toda a força num bebé. No nosso bebé.

Porque naquele momento eu não reconheci o meu amor.

E porque há coisas que não acreditamos que possam acontecer connosco. Mentir aos meus filhos é uma delas.

Pelo menos essa convicção gostaria de manter por mais um tempo.

Facebook Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *