As meninas dão mais dores de cabeça (?) – uma reflexão sobre modelos de educação

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Ouvido um dia destes no ginásio, um futuro pai comentando que vai ter mais um menino:

«Ainda bem! As meninas dão mais dores de cabeça.»

Fiquei a matutar naquela afirmação tão corriqueira, tão banal, tão ouvida milhares de vezes. Porquê? Porque é que se assume que as meninas (ou que os meninos, para quem tenha a crença inversa) dão mais dores de cabeça?

Não estarão as ditas dores de cabeça, exactamente e apenas onde a expressão indica, isto é, na nossa cabeça? E não serão essas ‘dores’ que já trazemos connosco – chamemos-lhes assim ao invés de preconceitos – que condicionam as diferenças com que acabamos por educar meninos e meninas, muito mais do que as diferenças pretensamente existentes entre géneros nos condicionam a nós?

É verdade que eu não tenho essa experiência. Por aqui são dois meninos, zero meninas. Mas sei que, se algum dia vier a ter uma menina os valores que lhe quero passar, as liberdades e as responsabilidades que quero que tenha presentes serão as mesmas que tento hoje incutir nos meus M’s. Não digo que não haja diferenças entre meninos e meninas. O que digo é que as diferenças que relevam para qualquer que seja o modelo de educação que queiramos implementar na nossa família não derivam do sexo à nascença, tanto quanto derivam da personalidade de cada um. Deve ser essa a bússola norteadora das diferenças com que eventualmente tratamos cada um dos nossos filhos.

Li por aí, por sinal num blog de que gosto muito, que cada irmão é um filho único. É nisso que acredito. Cada um dos nossos filhos, mais do que menino ou menina, irmão mais velho, mais novo ou algures do meio, é um indivíduo diferente dos demais. Merece ‘atendimento personalizado’ por parte dos pais, que são, afinal, quem melhor o conhece e o seu melhor esforço em adaptar o modelo de educação que escolheram às suas características únicas, específicas, especiais.

Liberdade para se construírem, destruírem e reinventarem. Ferramentas para que possam fazê-lo com conhecimento, por opção e em consciência. Noção de que as suas escolhas acarretam consequências com as quais têm que viver e estrutura emocional para serem bem sucedidos nessa tarefa por vezes tão difícil. É este o quadro no qual quero que os meus filhos cresçam. Todos. Mas o quadro é isso mesmo: um quadro. Um conjunto de directrizes mais ou menos genéricas e carentes de concretização a cada dia, em cada caso e para cada um deles. E delas.

Como mãe, não quero ficar presa às expectativas que inevitavelmente construí para os meus filhos, sejam elas em função do que acredito hoje que são os seus talentos naturais, sejam em função dos exemplos que os meus próprios pais me deram e que quero que eles herdem ou dos outros que quero fazer questão de não repetir, sejam em função de algo tão de detalhe como o sexo de cada um.

Tomara antes eu poder estar à altura das deles.

Em conclusão, diria que as ‘dores de cabeça’ associadas àquilo que pré-determinamos que os nossos filhos devem ser com base em factores que lhes são externos, como a idade, o género, o ranking da escola em que andam, o seu signo astrológico ou o que for, nascem e crescem na nossa cabeça. E é exactamente onde devem morrer.

De preferência, sem que eles cheguem a dar por isso.

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