Famílias são feitas de todos os tipos de momentos

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Amanheceu cedo demais. Pelo menos eu não estava preparada.

Eles acordaram cedo demais. Pelo menos eu não estava preparada.

Subiram na minha cama, saltaram mesmo depois de lhes dizer que não o fizessem.

Ainda debocharam da minha cara. Riram, felizes um com o outro e com o pouco caso que me faziam.

Fiquei emburrada ainda não tinha saído do quarto.

O Miguel fugiu de mim durante 10 minutos antes de finalmente conseguir trocar-lhe a fralda, com ele aos gritos.

Nas correrias dos dois, conseguiu tropeçar no molho de fraldas que estava a arrumar e magoar-se numa mão.

De mãos nas ancas, e ainda antes de o apanhar do chão, pareceu-me relevante perguntar aos dois se estavam agora satisfeitos.

Pergunta parva (era óbvio que não).

O Miguel chorou no meu colo. O Miguel chorou no chão. O Miguel chorou enquanto o Martim trocava de sapatos três vezes e exercitava o seu novo tique de puxar o maxilar para a frente, que irrita mais do que por vezes gosto de admitir.

O Martim não me ouviu pedir que fosse lavar os dentes.

O Martim “não me ouviu” pedir que fosse lavar os dentes.

O Martim “não me ouviu” pedir aos gritos que fosse lavar os dentes.

Fechei-lhe o computador. Acabaram-se os bonecos. E ele continuou a não ir lavar os dentes argumentando, ainda para mais, que o computador era do pai e não podia chegar e fechá-lo sem autorização.

Pouco importam os factos de ter sido eu quem comprou a porcaria do computador e de a ‘autorização’ não ter sido relevante na hora de lho ligar, mas na hora eu achei que sim e que, além de tudo, valia a pena discutir isso com ele.

Decidi que ia embora, quer ele lavasse ou não os dentes.

Saí com o Miguel, que tinha parado de chorar, mas voltou a chorar na hora de o por na cadeira do carro porque o que ele quer mesmo é conduzir.

Voltei para trás para dar mais dois gritos ao Martim que se pôs aos pontapés à porta de casa. Disse-lhe que fosse lavar os dentes. Gritou-me que não.

Arrastei-o para fora de casa, para dentro do carro, para cima da sua cadeira, enquanto lhe explicava que meninos que não lavam os dentes não podem, nunca mais, meter à boca o que quer que tenha açúcar, para não os estragar.

Voltei para trás para ir buscar uma t-shirt para o Miguel. Quando voltei, o Martim tinha tirado o cinto e estava a tentar sair do carro.

Queria ir lavar os fucking dentes.

«NÃO!»

Gritou o caminho para escola inteiro.

Gritou quando lhe exigi que parasse de buzinar no meu carro enquanto deixava o Miguel na escola.

Gritou quando o arrastei comigo para a escola do Miguel porque não quis parar. Ou sair do carro. Ou sair da estrada. Ou mexer-se, de todo.

O Miguel tem a mão cheia de sangue. Ao cair cortou-se num dedo e achou engraçado esgravatar a ferida no caminho.

Eu não achei tanta graça, mas são perspectivas diferentes do que é humorístico.

Alguém palestrou ao Martim sobre os cuidados dos dentes, os bichinhos que se instalam, os dentistas e tudo mais. Depois ofereceu-lhe rebuçados de chocolate. Que eu não o deixei comer.

Estão no meu carro. A ver se chegam a casa…

Antes de deixar o Martim na escola conversámos. Pediu-me desculpa. Pedi-lhe desculpa.

Quando entrou na sua sala, continuava com os dentes sujos, mas tinha a alma lavada.

***

E eu também.

Porque a manhã foi um inferno, mas sentada ao volante do meu carro não consegui lembrar-me da última que tínhamos tido uma assim.

Dias de merda fazem parte.

Seguimos juntos e está tudo bem.

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