Esta é a história do Miguel – Ou daquele tempo em que fui ‘mãe solteira’

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Esta é, finalmente, a história do Miguel.

A história que faltava foi a mais dura de escrever. Mas com a chegada do novo ano, arrumei as desculpas e aqui está ela, com toda a honestidade que sei que tem que ter. E dura como a sinto.

Tal como a do Martim, a história do Miguel começa antes dele mesmo. Na minha cabeça. Na minha vontade. Nas circunstâncias em que o concebi, criei, imaginei, sozinha, comigo mesma.

E tal como o Martim, o Miguel chegou no mais inoportuno dos momentos…

Relações têm altos e baixos, não é segredo para ninguém. A minha não é excepção. Mas confesso que não esperava que o ano mais difícil de uma relação pudesse ser aquele que se segue ao casamento. Contudo, e porque estas coisas não se escolhem, para nós foi assim mesmo.

Sabem aquelas chamadas de má qualidade em que um não consegue ouvir o outro e este, por sua vez, entende mal e gera-se uma discussão por coisa nenhuma? Pois. Não foi nada disso. Nós éramos, simplesmente, dois telefones sem rede. Estranhos debaixo do mesmo tecto. Sem assunto que não o nosso filho. Aparentemente, sem caminho de volta um para o outro.

Mas, mesmo com tudo o que corria mal (ou, por outra não corria, para lado nenhum), eu sabia no fundo de mim que queria voltar a ser mãe.

Inevitavelmente, multiplicaram-se cenários na minha cabeça com um a sobrepor-se aos demais: e se eu engravido apenas para nos separarmos a seguir?

Quereria eu viver e enfrentar essa realidade de ser, mais do que essa patetice de ‘mãe solteira’ (não sei quem inventou este rótulo social, ou quem o carregou de sentido pejorativo, mas espero que tenha tido uma longa e dolorosa vida), mãe a meias?

Porque separar-nos, tendo filhos, representa para mim muito mais do que a dor emocional de um casamento que termina e, por isso, de um projecto de vida que falha. Representa sobretudo, se tudo correr bem e na melhor das hipóteses, perder metade das noites, metade dos dias, metade dos fins-de-semana, metade das férias, metade das festas, metade das conquistas, metade dos nossos filhos

Seria capaz?

Seria. A questão ainda não tinha terminado de se colocar na minha mente e a resposta já estava a ser gritada. Eu queria ser mãe outra vez, a melhor mãe possível nas circunstâncias que tivesse em cada momento e independentemente delas.

Então resolvi predispor-me a alcançar o que queria. Informei o Mário que deixaria de tomar a pílula a partir da data x. A partir daí, se ele não quisesse o mesmo que eu, que tomasse ele as devidas providências (foi assim mesmo. atendendo à nossa realidade da altura foi o máximo que consegui em termos de comunicação. uma merda, eu sei, mas na altura não deu para mais).

Fui a uma consulta de planeamento. Sozinha.

Na sequência dela, comecei a treinar com a Maria, como contei aqui.

Dois meses depois o Miguel não vivia mais só na minha imaginação.

Era real.

E foi muito difícil, mas resolvemos a nossa falta de rede. Hoje o Mário não faz ideia do que eu falo quando lhe lembro que estivemos em maus lençóis (true story, parece uma Dori dos maus momentos o meu marido).

Já eu faço por não me esquecer.

Aquele ano ensinou-me muito sobre quem sou e não sabia.

Que tudo o que sabe a fel nas nossas vidas seja assim.

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3 thoughts on “Esta é a história do Miguel – Ou daquele tempo em que fui ‘mãe solteira’

  1. Mulher!Corajosa, viu?Eu não teria coragem de ficar grávida pela segunda vez num casamento em crise.Eu não tenho filhos,mas imagino o tamanho da responsabilidade que é ser mãe,ainda mais quando se sente sozinha.

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