Esta é a história da minha mãe – Ou da dicotomia ter/ser mãe

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Esta é a história da minha mãe.

Ou melhor, é a história da minha relação com a minha mãe, porque a dela, propriamente dita, é mais longa do que o tempo e o espaço alguma vez me permitiriam escrever num blog.

Há uma diferença substancial entre as comparações que fazemos com a nossa mãe antes e depois de sermos, nós próprias, mães.

Tantas frases começadas por ‘Quando for mãe, jamais…’, se transformam em ‘É a única maneira de…’. Tantas situações em que pensávamos que seríamos iguais às nossas mães nas quais verificamos hoje que não podemos ser mais diferentes…

No meu caso, dou comigo muitas vezes a pensar que a minha mãe foi óptima no papel de mãe da criança que fui mas foi tendo cada vez maiores dificuldades em adaptar-se à mulher em que essa criança se foi tornando, mesmo sendo eu exactamente o produto de tudo o que ela me quis ensinar.

Exemplifico:

A minha mãe educou-me para ser uma mulher independente e não precisar de homem nenhum. E conseguiu. Só não contemplou a possibilidade de eu, não precisando, querer partilhar a minha vida… E poder fazê-lo nos termos em que entender, justamente porque sou independente, como ela sonhou. Ser emocionalmente dependente (não no sentido de não conseguir viver sem, mas no do infinito reconforto interior que traz chorar no ombro de quem gostamos), é algo que me traz tranquilidade, que me ajuda a ser um pouco mais eu, que me ensina coisas sobre mim. Custa-lhe, eu sei. Nunca homem algum estará à altura da mulher de ‘cabeça boa’ que ela criou. Mas foi ela que me criou assim e eu agradeço.

A minha mãe educou-me para pensar pela minha própria cabeça, sempre. Mais uma vez, com sucesso. Sucede que estamos longe de ter feitios parecidos e ‘pensar pela minha própria cabeça’ é, 90% das vezes, pensar diferentemente dela. E, porque a minha mãe ainda quer tomar conta de mim e conduzir a criança que educou pelo bom caminho, ao invés de apreciar a adulta em que me tornei com sensação de dever cumprido, a nossa relação é muitas vezes conflituosa. Outras boa. Outras inexistente. E também isso lhe custa, bem sei. Mas foi também ela que me criou assim e eu agradeço.

A minha mãe educou-me para ser bem sucedida. E eu fui. A melhor aluna. A melhor tudo aquilo que ela achou por bem colocar-me a fazer. A melhor. Hoje eu sou aquilo que pode chamar-se de profissionalmente bem sucedida mas não sou, como já tenho confessado aqui e ali, a melhor. Porque ser a melhor tem implicações que não estou disposta a encarar. A melhor tem que ser um pouco menos mãe do que eu me imponho ser. A melhor tem que ser um pouco menos companheira do que eu me imponho ser. A melhor tem que abdicar de pedaços de alma. Ela é minha! Não quero abdicar dela. Não quero ser a melhor. Quero ser feliz. E isso implica contentar-me em ser, muitas vezes, média ou média/alta. Mas não a melhor. E foi ela que me criou assim, porque continuo a querer ser a melhor e a usar de toda a garra e preserverança que ela me ensinou… Noutras coisas. E eu agradeço.

Como venho percebendo, às vezes, ter mãe, com todos os desejos que qualquer comum mortal tem de agradar à sua mãe e de ser para ela motivo de orgulho, torna-se incompatível com a mãe que queremos ser para os nossos próprios filhos. Mais do que as comparações que fazíamos e que se estilhaçaram com o nascimento do nosso primeiro bebé, lidar com as expectativas da mãe que temos e com as expectativas que temos para a mãe que somos, pode ser um quebra-cabeças complicado de resolver.

Para mim, tem sido.

Para ela, também.

Mas só tem quebra-cabeças destes para resolver quem tem a sorte de ter a mãe por perto.

E eu tenho.

E por isso hoje, que é o seu aniversário, quero dar-lhe este presente:

Mãe, descansa. Fizeste um bom trabalho. 

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