E se fosse comigo? – essa tal ‘empatia’ de que se fala

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‘Empatia’ parece ser a nova palavra de ordem em todas as situações, seja nas relações interpessoais mais próximas, seja nas mais distantes, como aquelas que desenvolvemos online, quase sem querer, quando, por exemplo, comentamos um post de alguém.

Pedem-se exercícios de empatia com os nossos filhos perante birras, com os nossos cônjuges perante divergências (que, às vezes, não deixam de ser birras também), com os nossos pais que, enquanto avós fazem mil e um disparates aos nossos olhos. Mas também se pedem exercícios de empatia com a vítima de assédio sexual no trabalho, ou de violência doméstica em casa, com o preto em situações de racismo, com a mulher gorda em situações de gordofobia (sim, existe), com @ homossexual em situações de homofobia.

E porque, quando públicos, os exercícios de empatia se pedem essencialmente em questões que envolvem as denominadas minorias, ‘empatia’ é uma palavra que vem sendo conotada com orientações políticas de esquerda e taxada com o rótulo pejorativo do politicamente correcto. Por esse motivo, não faltam cada vez mais pessoas fartas de não se ‘poder dizer nada’ e que reviram os olhos a qualquer simples miragem da palavra, seja em que contexto for.

Mas o que é, afinal, essa tal empatia de que tanto se fala?

Comecemos pelo básico: o dicionário. E, de acordo com o dicionário, empatia é uma ‘forma de identificação intelectual ou afetiva de um sujeito com uma pessoa, uma ideia ou uma coisa’.

É. O dicionário não mente. Todavia, quando assimilamos ‘empatia’ a ‘identificação’ não podemos cair na tentação de achar que a identificação que está na base da empatia implica concordância.

Não implica.

De todo.

O que implica é que paremos para pensar, dois segundos que seja ‘e se fosse comigo?’. Só isso.

‘Só’. Mas um ‘só que pode ser demasiado para algumas pessoas.

Porque quando nos questionamos sobre o que sentiríamos quando colocados nas exactas circunstâncias da pessoa que temos à frente já sabemos a resposta. E a resposta nem sempre vai de encontro aos nossos ideais e, pior, aos comportamentos que exteriorizamos. O que é, naturalmente, muito desconfortável.

Quando nos perguntamos coisas como:

«E se fosse eu a receber diariamente olhares estranhos e comentários maldosos apenas por andar de mão dada com o meu cônjuge na rua?»;

«E se fosse eu a pessoa a quem é recusado um trabalho numa loja porque visto um determinado tamanho de roupa e não outro?»;

«E se fosse eu que tivesse que dividir a atenção da pessoa mais importante da minha vida, com um intruso de palmo e meio que nem sequer existia há meia dúzia de meses?»

…sabemos.

Sabemos qual é a resposta, porque elas nos surge instintivamente.

Que.

Merda.

É que a resposta traz-nos, muitas vezes, uma responsabilidade que não sabíamos que tínhamos e que, em rigor, não temos qualquer vontade de assumir.

Temos, por exemplo, que admitir que houve aquela vez em que cruzámos a estrada por um receio inexplicável de alguém de quem apenas sabíamos que tinha uma cor de pele diferente da nossa.

Temos, por exemplo, que recordar que um dia fizemos um comentário maldoso sobre a colega de trabalho com quem nunca trocámos duas palavras mas que terá, de certeza, ‘subido na horizontal’.

Temos, por exemplo, que fazer um mea culpa quanto àquela palmada que demos a um um filho tão exausto como nós, que só queria mimo e atenção.

Temos que assumir, em suma ,e com mais frequência do que gostaríamos, que somos seres humanos falhos e que, por vezes, não vermos reflectidos nos outros os nossos ideais, as nossas perspectivas de vida, as nossas posições acerca de determinado assunto ou, tão somente, o nosso estado de espírito no momento, nos leva a tratá-los com menos consideração do que aquela em que nos temos e com menos consideração do que aquela que achamos ser-nos devida pelos demais.

É por isso que devemos rejeitar a ideia de que empatia é o exercício do politicamente correcto.

Não é.

A empatia é o exercício do respeito.

Porque ‘se fosse connosco’ não nos contentaríamos com menos do que isso.

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