Dia do Pai (I) – O meu

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Em minha casa discutia-se muitas vezes por dinheiro (no caso, por escassez de dinheiro).

Não fosse isso e pouco me teria apercebido das dificuldades que passávamos.

Ajudava ser a mais nova de seis irmãos (4 deles adultos e com as suas vidas encarreiradas), porque nas datas importantes choviam presentes, o que contribuía para diluir a perspectiva que eu tinha da situação económica doméstica.

É verdade que vivemos sempre na mesma casinha arrendada, que os nossos carros morreram de velhos e foram trocados por outros de meia-idade, que dividi o quarto com quantos lá morassem e quantos de visita viessem, até que todos saíram de casa e sobrei eu, que desde cedo aprendi a gerir os meus troquinhos, que sempre cumpri os requisitos do Escalão A da Acção Social Escolar, que desde que recebi a minha primeira bolsa de mérito, no 10.º ano, deixei de me sentir bem em pedir dinheiro aos meus pais para as minhas coisas pessoais.

Mas nunca faltou comida. Nunca faltou roupa. Nunca faltaram brinquedos. Nunca faltaram livros. Sempre tivemos acesso a actividades extra-curriculares.

Para mim aquela era e sempre foi uma vida normal.

Hoje, à distância, vejo o esforço que os meus pais fizeram para que eu percepcionasse a vida como normal.

Sobre o meu pai, em particular, lembro-me de uma época em que apareceram lá em casa milhares de páginas de revista. Sabem aquelas páginas de publicidade que vêm com uma amostra colada? Eram essas.

Durante aquilo que me pareceu uma eternidade todos nós lá em casa colámos amostras em páginas. Arranjámos, cada um o seu automatismo, a sua estratégia para colar o máximo de amostras no mínimo de tempo, agrupar páginas, arrumá-las em caixotes…

Na altura ninguém me explicou porque fazíamos aquilo. De vez em quando o meu pai fazia assim umas coisas fora da caixa e para mim era, lá está, normal.

Foi preciso crescer um pouco para entender o óbvio. O meu pai fazia coisas fora da caixa porque era preciso e tudo contava.

E fez tudo isso fazendo-me acreditar que era só algo diferente e divertido.

Com sucesso. Porque me diverti muito.

Enquanto ele mirabolava maneiras de fazer entrar mais algum rendimento em casa, eu brincava.

Como uma criança deve fazer.

Era isto que tinha para vos contar hoje.

Ah, É verdade! Já vos disse como o meu pai é fantástico?

Feliz Dia, Pai!

 

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