De fada a bruxa em poucas noites

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Andamos há três semanas no fantástico carrossel das doenças.

Um apanha, passa adiante até percorrer a família toda e, entretanto, quando o ciclo termina, já outro apanhou qualquer outra coisinha de qualidade para partilhar, com todo o altruísmo que se quer em família…

O mote da última ronda foi dado pelo Miguel: febre alta, garganta inflamada, ouvidos vermelhos, conjuntivite e tudo o que teve direito.

Bebé doente, bebé carente.

Inevitavelmente, seguiram-se noites passadas em cima de mim. Dias também. Actividades impensáveis desenvolvidas com um bebé não tão leve assim no colo. Gritos lancinantes sempre que era pousado no chão, por qualquer motivo.

A mãe foi a fada que lhe roubou as dores só por carregá-lo nos braços, beijar-lhe o cabelo, afagar-lhe as costinhas…

Mas, por que estamos no carrossel, ele ficou bom e a minha vez chegou fatalmente, como o preço a pagar por toda aquela proximidade estranhamente deliciosa, com o meu bebé…

A sensação é a de uma bola de golfe na garganta e uma gargantilha apertada no pescoço. Ter fome dá medo, porque vou ter que engolir alguma coisa e vai doer horrores. Dormir é uma miragem, porque não existe posição confortável. As dores no corpo, os ben-u-ron, o frio, o calor, o frio de novo… Enfim, toda a gente sabe como funciona.

Mas tudo isso é uma vírgula comparado com o que tive que fazer com os resquícios da carência do Miguel, deixados pela doença e pela nossa ausência de há algumas semanas atrás.

É que ele acostumou-se a dormir no meu colo, na minha cama, em mim. E eu acostumei-me a socorrê-lo. A ser a fada. A fada que, para variar e ainda que apenas por alguns dias, tinha o condão de estar sempre lá com ele. A mandar embora as lágrimas, as dores e os desconfortos.

Mas há dois dias eu simplesmente não estava em condições de passar a noite com ele em cima de mim, por muito boa vontade que tivesse.

Adormeci-o no meu colo e torci para que tudo corresse pelo melhor.

Não correu.

Foi mais de uma hora a tentar adormecê-lo e pousá-lo na caminha dele. Ainda eu ia a meio caminho e já ele gritava como se não tivesse há dois segundos suspirado profundamente no seu soninho…

Foi horrível.

E piorou.

Acabei por pousá-lo na cama, com choros e gritos e fiquei perto dele, procurando consolá-lo com a minha presença, tentando segurar-lhe a mão, falar-lhe baixinho ao ouvido e dizer-lhe que estava tudo bem. Mas não estava e nós dois sabíamos. Ele precisava de mim e eu… eu precisava que ele não precisasse tanto. Só nessa noite.

Passei de fada a bruxa num sopro.

O carrasco que negava colo ao seu menino.

E se sentava ao seu lado, segurando-lhe a mão e vendo-o chorar.

Acabou por adormecer, vencido pelo cansaço e pela resignação.

Eu demorei mais.

Não quero ser bruxa agora. Já basta os tantos «nãos» que provavelmente lhe direi, por falta de opção ou para o bem dele.

Quero ser fada para o meu bebé que não vai sê-lo para sempre.

A razão por que o choro vai embora, não a que o faz chorar.

Mas, na vida real, por vezes não é possível ser a fada.

Nessa noite tive que contentar-me em ser a bruxa menos má que as circunstâncias me permitiram…

(e esperar, como sempre, que isso seja suficiente).

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