O regresso – voltar é bom, ter ido é essencial.

No Rio de Janeiro, um motorista de Uber contou-nos porque conduzia: com 60 anos, tinha-se reformado e separado da mulher pouco depois. Ficou com pouco dinheiro e muito sozinho, portanto. Havia, por isso, decidido pegar no pouco que tinha de seu – o carro – e usá-lo para resolver ambos os problemas.

***

Oi gente!!! Que saudade de aparecer por aqui! Voltámos revigorados, ligeiramente mais coloridos e absolutamente apaixonados pelo Rio de Janeiro (a bem dizer, eu já ia apaixonada, mas voltei mais ainda).

Posto isto, chegou a hora de cair na realidade e, felizmente, a realidade tem coisas boas: os risos, os abraços, as saudades finalmente mortinhas que eu tinha dos meus M’s…

Estava com alguns receios em relação ao nosso regresso, sobretudo em relação à reacção do Miguel, que ficou, pela primeira vez, alguns dias sem nos ver.

As reminiscências da primeira viagem do género, que fizemos quando o Martim era (mais) pequeno não ajudaram. Ele tinha um ano e oito meses quando casámos e fomos de lua-de-mel. Pelo que nos contaram ficou óptimo, divertido, mimado e entretido por avós e tios durante os dez dias que passámos fora. No entanto, quando voltámos surpreendeu-nos, ainda no aeroporto, com uma recepção gélida. Nós, cheios de vontade de o apertar e ele, quase sem olhar para a nossa cara, claramente muito zangado com o nosso desaparecimento repentino e mais ainda com a cara de pau de voltarmos como nada se tivesse passado.

Durante o mês seguinte, o Martim acordou todas as noites aos gritos. Pareciam terrores nocturnos, mas não eram. Eram protestos sonoros pela ausência dos pais. Ou melhor, sendo rigorosa, pela ausência da mãe. Porque o Martim acordava a gritar, a plenos pulmões ‘Mamã! Mamã! A mamã fugiu!’.

Acabei pagando pela lua-de-mel muito mais do que apenas o quanto a viagem economicamente me custou… Paguei em sono perdido e em facas espetadas no coração a cada nova acusação de fuga pela madrugada adentro. Passou. Hoje o Martim é um menino descontraído no que respeita às escapadinhas dos pais para namorar. Agora ele sabe que voltaremos sempre para ele.

Mas o Miguel ainda não…

Quando fomos buscá-los o Martim fez a festa normal de quem tinha saudades, correu, gritou de entusiasmo, quis contar mil histórias. O Miguel… Quando nos viu deu um longo suspiro, como se estivesse exausto. Estendeu-me os braços para vir ao meu colo, encostou a cabecinha no meu peito e suspirou, suspirou… Depois quis ir ao colo do pai, onde fez o mesmo, e de novo ao meu, onde se deixou ficar, assim mesmo, cansado da espera, aliviado por estarmos ali os dois.

A primeira noite foi complicada. Acho que trocaram a cama do Miguel na nossa ausência e colocaram uma cheia de picos, porque não houve maneira de o manter lá. Dormiu em cima de mim. Não ao lado. Em cima. Marcando território, como se só a dormência do meu corpo inteiro por baixo dele fosse capaz de garantir que não voltaria a ir a lugar nenhum sem o meu bebé. Sempre que escorregava, por algum motivo e se sentia longe do contacto físico, choramingava até que o pusesse novamente em cima de mim.

O dia amanheceu e não se tornou mais fácil, o Miguel não quis largar o meu colo para (quase) nada. Fiz todas as refeições com ele sentado em cima de mim e todos os meus afazeres do dia com ele montado nos meus braços e com protestos infinitos sempre que o pus no ovo para circular de carro.

Espero que restaure a confiança em nós. Que aprenda com o tempo que voltaremos sempre para ele também.

Tudo visto, não me importo de pagar este preço por momentos a dois. No caso, pela viagem que eu sempre quis fazer. Não me importo porque estes momentos sem filhos, sem fraldas, sem noites mal dormidas, sem a loiça, a roupa, os compromissos escolares, lúdicos e médicos deles nos permitem olhar um para o outro sem distracções. Conversar. Criar memórias que não envolvem os nossos filhos.

Porque um dia, se tudo correr bem, eles irão embora de casa e se tudo tiver corrido igualmente bem até aí, nós voltaremos a ficar apenas na companhia um do outro.

De que falaremos se não tivermos feito nada nos últimos 25 anos senão viver em torno dos nossos filhos?

Memórias com eles são maravilhosas. Mas memórias só nossas também são imprescindíveis.

***

Não conheço a história do casamento ou da separação daquele motorista super bem-humorado e cheio de experiência de vida com quem trocámos 20 minutos de agradável conversa. Mas, na minha cabeça, aquele homem e a sua ex-mulher viram os filhos crescerem e saírem de casa. Na minha cabeça, aquele ex-casal viu-se estranho ao fim de tantos anos debaixo do mesmo tecto. Tão estranho que não encontrou outra solução senão, à beira da velhice, irem cada um para seu lado. Aprenderem a ser fisicamente o que já eram sem saber até aí: duas pessoas sozinhas. É um acto de coragem sentir que nunca é tarde para ser feliz de outra maneira. E acredito piamente que nunca é! Mas à mesa do pequeno-almoço, sentada a olhar para o homem por quem sou apaixonada não pude evitar pensar que não queria que esta história que, na minha cabeça, inventei para aquela pessoa, fosse a nossa.

Que haja muitas viagens a dois, nem que seja ao quarteirão adiante do nosso, de mãos dadas, para um beijo roubado sem olhares de gente pequenina e atenta.

Dilemas de mãe – A viagem

 

Daqui a pouco mais de 48h estarei num avião para o Rio de Janeiro.

Pelo menos é o que dirá o meu cartão de embarque. Na minha cabeça, estarei a caminho da ‘minha terra’, aquela que não conheço, na qual não tenho a menor raíz, mas que me preenche a alma desde menina.

É a minha viagem de sonho. Carnaval no Rio de Janeiro.

E, como tal, estou uma pilha de entusiasmo qual criança nas vésperas do Natal.

Mas não sou uma criança. Sou uma mulher de 33 anos. Sou uma mãe de dois meninos que precisam de mim e do pai.

Dois meninos que ficam cá, enquanto vamos viajar.

No meio de tudo o que a minha cabeça já viveu milhares de vezes ao longo dos anos e que o corpo só agora se prepara para viver também é inevitável pensar neles.

Não sinto qualquer culpa em viajarmos só os dois. Nem tão pouco acho que os sonhos devam morrer no mesmo bloco de partos onde nos nascem os filhos.

Mas sinto medo.

O Rio de Janeiro não é, certamente, conhecida por ser a cidade mais segura do Mundo. E se não voltamos?

Que disparate! Porque não voltaríamos?

Mas… E se não voltamos?

Que nó na garganta, que falta de ar, que aperto do peito…

Tento pensar friamente: o que quer que possa acontecer lá, pode perfeitamente acontecer igualmente aqui ou em qualquer outro ponto do planeta. Pensemos em Paris ou em Barcelona, lugares aparentemente seguros e que têm visto tanta coisa acontecer. Basta um louco com um ideal. Basta estar no lugar errado à hora errada.

Mas é mesmo necessário pensar na desgraça alheia para me reconfortar?

Nunca uma viagem me deixou tão feliz e tão angustiada… Por um lado, só vou acreditar que lá estou quando efectivamente pisar aquela terra, por outro só descanso quando voltar a abraçá-los.

Se leram até aqui, já perceberam que este é um post perfeitamente inútil.

Não há ‘moral da história’, opinião estruturada, punch line ou final surpresa, é apenas o que é: um desabafo de alguém que não sabe se ri ou se chora e por isso tem feito ambas em abundância.

Fevereiro é para…

Pular Carnaval

Beber água de côco

Comer biscoito Globo em Copacana

Desfilar na Sapucaí

Gritando a nação tijucana

Subir no morro

Descer no bondinho

Pedir a bença pro Cristo

Amar no jardim botânico

Se aventurar no Telégrafo

E ser boémio na Lapa

Trazer o Rio no corpo

e para sempre no coração.

***

Sonho de menina esse, de ir cariocar. Fevereiro é para cumprir.

O bem multiplica-se – o abraço

 

Hoje recebi um abraço tão genuíno e inesperado que a minha disposição mudou por completo.

***

O meu dia começou péssimo.

Desde logo porque começou ontem.

O Miguel dormiu mal e choramingou de hora a hora.

Alternou com o Martim que foi chamando para ir à casa de banho, para o ir ‘tapar bem’, para o ir tirar da cama porque às 6h30 já tinha dormido o suficiente.

Claro está que não tinha. Nem ele… nem eu.

O que complicou substancialmente a nossa manhã. Houve birras, lágrimas, soluços, dores de cabeça, uma falta monumental de paciência e toda aquela amálgama de coisas sobre as quais já escrevi tanto que quase já não tenho contexto para linkar todos os posts que fiz a propósito (por isso que se lixe o contexto, podem ‘apanhar o fio à meada’ aqui, aqui e aqui).

Mas depois veio aquele abraço, tão espontâneo, despoletado por um gesto meu que qualquer um consideraria uma patetice.

Olhando as coisas com frieza, é tão fácil distribuir bem-estar. O bem não tem que ter a forma de doações regulares à Unicef ou participações assíduas nas campanhas do Banco Alimentar.

O bem não tem que assumir o porte dos grandes gestos, como adoptar uma criança ou saldar todas as dívidas dos nossos pais.

Não me interpretem mal, todo esse bem é BEM. Só quero dizer que há bem ao nosso alcance por todo o lado. No detalhe das coisas que, de tão corriqueiras, já não vemos.

Nas vezes em que mostrámos o caminho a alguém em vez de apenas o indicarmos. Nas ocasiões em que deixamos passar alguém à frente na fila por puro bom senso e não porque a lei obriga. Nas alturas em que nos oferecemos para carregar metade dos sacos de alguém visivelmente aflito com o peso.

Pequenas coisas.

A minha patetice de hoje fez com que alguém se sentisse apreciado. O abraço com que fui retribuída pode bem ter salvo a minha segunda-feira.

Se abrirmos os olhos ele está lá, por todo o lado, para o fazermos, quase sem esforço, e é justamente aquele que nos sabe melhor.

O bem multiplica-se.

 

Nota:
O Facebook diminuiu o alcance das publicações de páginas. 
Para continuar a não 'perder pitada' do Entre M's: 
1) clique no botão 'Seguir'no topo da nossa página do Facebook; 
2) seleccione 'ver primeiro'.

 

 

“Mãe que é mãe” – Ode às mães perfeitas

Mãe,

Tu que vives cansada,

Olheirenta,

Que te culpas pelo tempo que passas no trabalho,

E pela má gestão que fazes dele,

Que não te lembras da última vez que entraste num cabeleireiro:

Tu és perfeita.

Mãe,

Tu que és descolada e carregas três meninos e dois sacos de compras em saltos altos,

Que preferes acordar de madrugada do que sair de casa sem maquilhagem,

Tu que adormeces com a culpa de que talvez ‘penses demais em ti’:

Tu és perfeita.

Mãe,

Tu que reclamas cooperação do pai,

Mas não deixas que ele te substitua em nada porque, afinal ‘ele não sabe tão bem’,

Que assumes os dias, as noites, os banhos, as refeições, o veste e despe, o transporte para cá e para lá,

Tu que carregas a culpa de sempre ser quem faz por eles e nunca quem faz com eles,

Tu és perfeita.

Mães,

Tu que saíste ontem à noite com as amigas e te sentiste culpada;

E tu, que perdeste a paciência pela manhã e te sentiste culpada;

Tu que os mantiveste entretidos com o tablet para apreciar um pouco de silêncio e te sentiste culpada;

E também tu que te compraste uns sapatos novos em vez do brinquedo que eles pediram e te sentiste culpada:

Perfeita. Perfeita. Perfeita. Perfeita.

Todas perfeitas.

“Mãe que é mãe” faz uma coisa só: o melhor que pode.

E o melhor que pode é perfeito.

Sabem o que não é perfeito? A culpa.

A ela podem mandá-la embora.

***

Costumava pensar que odiava mães perfeitas, desde logo, porque não existiam. Porque a fasquia que nos impunham era inatingível. Depois descobri que somos nós que criamos essa fasquia. Que quem não existe é ela. E que perfeitas…

Perfeitas somos todas.

Ginásio, mamãs? Sim, claro! Mas talvez não por ESSE motivo.

Levante a mão quem integra aquele grupo de clientes perfeitos do ginásio que nunca, nunca, nunca lá põe os pés!

Aposto que consigo adivinhar como isso aconteceu: terminou o Verão ou as festas de final de ano ou nasceu a coisinha mais linda do vosso mundo e a balança deu um grito (ou vários). Chega! Segunda-feira (é sempre segunda-feira…) começa a dieta! E o ginásio! E cá vai de procurar condições ou aderir aquela campanha que aparece, majestosa e providencial, naquelas alturas chave e que nos promete maravilhas ao preço da chuva.

O primeiro mês é maravilhoso! Frequência diária, energia inesgotável! Tirando naquele dia em que houve almoço da empresa/o bebé ficou doente/a amiga terminou o casamento… Bom, excepções. No segundo mês as excepções aconteceram com um pouco mais de frequência e entretanto a porcaria da balança vai parecendo nunca se calar, sempre ali, mal humorada, aos gritos, aos gritos. E há tanta coisa para fazer e uma pessoa esforça-se e os resultados não aparecem, apesar de só se comerem folhas de alface e de se frequentar toda a santa aula do extenso cardápio que qualquer ginásio tem para oferecer. No terceiro mês é um ‘que se lixe’ em toda a extensão. Sou gorda vou morrer gorda e dá cá esse chocolate que eu não vejo disso há demasiado tempo… E não! Não tenciono partilhar!

A ordem natural das coisas vai-se restabelecendo. O açúcar reconforta o cérebro e até parece que o nosso batimento cardíaco desacelera. A vida é um paraíso, por um momento… Mas aquela malvada daquela balança continua lá a gritar… Não faz mal, para a semana voltamos ao ginásio. Entretanto passaram seis meses e a única parte de vós que foi para o ginásio foi aquela, por sinal já bem magrinha, que habita na conta bancária…

Se calhar… Se calhar está na altura de parar e aceitar a realidade: quem faz isto não gosta de ir ao ginásio. E não me ocorre uma única razão no Mundo para que deva sentir-se obrigada a fazê-lo.

‘Ah e tal, mas eu já vi por aí que tu vais ao ginásio’, dir-me-ão. Verdade.

Desde os três anos que me habituei a praticar algum tipo de exercício físico. Fiz de tudo um pouco: natação, ginástica rítmica, equitação, karaté, aeróbica, danças brasileiras, zumba e mais recentemente frequentei toda a miríade de aulas que a maior parte dos ginásios disponibilizam – menos spinning (como eu odeio spinning!). Acostumei-me a estar activa e faz-me alguma confusão ‘estar parada’ durante muito tempo.

Mas o que é estar parada? Dar uma caminhada matinal com os miúdos ou os animais de estimação é estar parada? Não abdicar de pegar na bicicleta e ir dar uma volta algumas vezes por semana é estar parada? Fazer os seus percursos diários essencialmente a pé e utilizar o carro só em caso de excepção é estar parada? Claro que não! Actividade física não tem que equivaler a ginásio. E a actividade física que nos faz bem – sei-o hoje – é aquela de que gostamos, aquela que fazemos não porque tem que ser, mas porque somos um pouco menos nós se no-la tiram. E essa é a actividade física certa. Tudo o resto… É ruído e dinheiro ao lixo. E não… Fazer algo que odiamos de morte só para parar de ouvir os gritos da balança não vai fazer com que ela se cale. Sabem o que vai fazê-la calar-se? Deitarem-na fora (se não de facto, pelo menos metaforicamente).

A única medida de que precisam é-vos dada pelo vosso nível de bem-estar. E se calhar até não é a balança que incomoda… Se calhar é o marido que não pára de vos chamar, ainda que carinhosamente, de ‘minha gordinha’. Se calhar é aquela censura velada da tia, que sempre que vos vê pergunta que dieta estão a fazer ‘agora’ enquanto olha de alto a baixo em jeito de ‘não está a funcionar, só para que saibas’. Se calhar o trabalho está tão stressante que comer parece a única alegria na Terra. E se calhar… Se calhar são essas as coisas que precisam de ser resolvidas.

Não me interpretem mal, exercício físico é tudo de bom e adoro ir ao ginásio, até porque encontrei a melhor PT do Universo, com quem tenho a maior das empatias e que me faz apreciar cada treino e cada pequena evolução. Mas é esse mesmo o ponto: eu adoro ir ao ginásio. E claro que seria simpático terminar de perder o peso que eu sei que anda aqui a mais, mas por ‘pequena evolução’ o que quero dizer é um pouco mais de resistência, mais alguns metros em menos tempo, mais algum peso na barra, umas quantas flexões sem joelhos no chão… Desafios superados.

São essa empatia e essas pequenas evoluções que me fazem sentir bem comigo mesma. A balança tornou-se um acessório que uso de tempos a tempos para me manter informada e nada mais do que isso. Não me diz que sou perfeita, seguramente. Mas sabem que mais? Também não me diz que não sou.

E quem é ela para opinar, de qualquer maneira? Até lhe fazia bem um chá, para lhe acalmar tanto mau humor…

 

Em modo avião – a gestão do tempo e o que fica para trás

Estar em ‘modo avião’ significa, na sua forma pura, pegar nos nossos queridos dispositivos móveis e calá-los. Calar-lhes o som, o wi-fi, os dados, as mensagens e qualquer conexão com o Mundo. Transformá-los em pequenas televisões interactivas que dão as horas, no fundo…

Chamam-lhe ‘modo avião’ porque é o único local onde nos é pedido que o calemos assim: no avião.

Mas o modo avião, seja neste sentido mais fiel à origem, seja num sentido mais figurado, é útil e digno de reflexão…

Há pouco mais de uma semana o Mário fez uso de um vale retirado de um caderninho que lhe ofereci num Dia dos Namorados e que nos proibia, durante uma semana, de mexer nos telemóveis, mal nos deitássemos.

Durante essa semana, sem telemóveis, reparei nos dias que se passavam antes sem quase olharmos um para o outro, conversarmos um com o outro ou o que quer que seja um com o outro.

Vamos acreditando que não. Que é cansaço, que os dias são curtos, que os miúdos nos dão imenso trabalho. E tudo isso é verdade.

Mas o facto é que, com tudo isso, eu consigo escrever neste espaço, gastar tempo à procura de fotos para ilustrar os artigos, mais tempo a escrever e a aperfeiçoar os textos e muito, muito tempo à volta de questões técnicas que ignoro e abomino, porque adoro o meu blog…

O facto é que, com tudo isso, eu sacrifico três horas de almoço por semana para ir ao ginásio, porque adoro treinar.

O facto é que, com tudo isso, ainda acompanho o This is Us, mesmo que nunca tenha conseguido ver um episódio em tempo real, e alguns dos meus canais de youtube favoritos, ainda que seja enquanto trato da roupa ou qualquer outra tarefa, porque a série me causa arrepios e os ditos canais gargalhadas e introspecções.

Ou seja, com tudo isso, ainda há (ou se força) tempo para as coisas do dia-a-dia que nos dão prazer.

Porque é que num mundo em que cabem crianças e blog e ginásio e séries, não haveria também lugar – todos os dias e não só quando fazemos programas a dois – para aquele sobre quem encho o peito para dizer que é o amor da minha vida? Faz pouco sentido…

Tão pouco sentido que o vale, entretanto, expirou.

Mas o ‘modo avião’… esse veio para ficar.

Mariana, Maria, Mafalda – A Maria

Reparei, sentada no espaço da Mariana (de quem vos falei ontem aqui) e enquanto apreciava o quanto é extraordinária, que a minha vida tem muito mais M’s do que aqueles com quem vivo. M’s no feminino. Todas me trazem nada mais do que bem-estar e felicidade e não são as mulheres mais evidentes – mãe, irmãs, amigas – que nos vêem à cabeça quando pensamos nisso. Não sei se elas o saberão e, como tal, nesta semana que antecede o Natal, quero agradecer-lhes. Hoje é a vez da Maria.

A Maria.

Quem acompanha o Entre M’s sabe que este post já andava prometido há algum tempo. A Maria não é nenhuma novata no Entre M’s. Já a mencionei aqui e aqui.

Conheci-a quando decidi engravidar do Miguel. Vinha insatisfeita com a actividade física que tinha praticado na gravidez do Martim, muito por medo. Na consulta de planeamento e em resposta às minhas questões sobre exercício na gravidez fui aconselhada a manter o nível de exercício que praticasse há pelo menos três meses antes de engravidar para não ‘chocar’ o corpo.

Decidi, assim, que queria intensificar ao máximo o ritmo para poder, durante a gravidez, mantê-lo.

Comecei à procura de uma PT para me ajudar. Sim, uma. Queria uma mulher. Alguém que não tivesse cerimónias com as desculpas que eu viesse a tentar dar mas que pudesse também, de uma forma instintiva, colocar-se no meu lugar.

Conheci a Maria e a nossa empatia foi quase imediata. Percebi-lhe uma garra que a mim me faltava, uma enorme preocupação em perceber as minhas motivações e em desenhar um plano realista para chegar aos meus igualmente realistas objectivos. Nunca o ‘personal’ de ‘personal trainer’ fez tanto sentido.

Temos trabalhado juntas desde então. Às vezes treinamos juntas também. Ela faz-me ver o lado aventureiro da vida e eu partilho com ela o lado mais filosófico. Tem apenas menos cinco anos do que eu, mas estamos em lugares tão diferentes da vida que eu a vejo como uma super-atleta, super-mulher, suprasumo das suprasumos e ela me vê também como uma super… mamã.

Engravidei em menos tempo do que esperava e durante 38 semanas o Miguel  ‘treinou’ connosco (a prova disso está neste vídeo de mim enorme, no nosso último treino pré-parto). A Maria foi das primeiras pessoas a conhecer da existência do meu MigueLindo e ele tornou-se o seu ‘bebé fit’. Hoje, é também ela que me ajuda a regressar ao meu estado pré-Miguel (e embora a balança mo negue, eu sei e vejo que já o superei). Combinamos bem. Somos ambas ‘zen’. Apesar do nosso contacto ser bastante focado na tarefa que nos uniu, conto com ela como com uma amiga.

Os treinos, apesar de cuidadosamente programados podem ser alterados assim que ela me vê. ‘Hoje não me pareces muito bem, vamos fazer um treino mais leve’. Outras, praticamos pequenas metas – coisas que podem ser tão simples como entrar e sair de uma passadeira em movimento ou saltar para uma box (um pequeno trauma meu), mas que, uma vez conquistadas, me deixam com uma sensação de quase heroísmo muito satisfatória.

Mais importante que tudo isto, creio que nunca poderei agradecer-lhe o suficiente o gosto que plantou em mim pelos treinos. A hora de ir ao ginásio tornou-se terapêutica. A superação é constante e é um lugar que me ajuda a esvaziar a cabeça e a reorganizar as ideias.

O Mundo é um lugar melhor depois de um treino. Por muito que doa no corpo, a alma vem sempre mais leve.

Obrigada Maria, por me ajudares a parecer-me como me sinto e por me tirares as rugas de preocupação que te levo sempre do escritório.

(o facebook da Maria já está mais do que espalhado pelo blog, mas não custa relembrá-lo. Aqui fica novamente.)

Amamentação – Uma ajuda que não chegou

A amamentação é daqueles temas incontornáveis da maternidade em que toda a gente tem uma palavra a dizer.

Ultrapassemos a tonta e pseudo polémica da amamentação em público: gente, é só uma mama, get over it (é, cada vez mais e verdadeiramente, apenas isto que tenho a dizer sobre o assunto).

Hoje queria falar-vos de outra coisa. Das minhas experiências de amamentação, infelizmente tão similares, com o Martim e o Miguel.

E a razão pela qual quero falar disto é perfeitamente egoísta. É que ainda não consigo abordar o tema sem chorar e tenho uma (agora já não tão) secreta esperança de que escrever sobre o assunto me ajude a lidar com estes meus fantasmas.

Foi assim:

Passei, como quase todas as grávidas, nove meses (x2) a ouvir sobre a importância da amamentação e todos os seus incontáveis benefícios para mãe e bebé.

Independentemente de tudo isso, e porque amamentar ou não e em que circunstâncias é, no fim do dia, uma escolha estritamente pessoal, eu queria amamentar.

Reconheço que, com o Martim, não estava preparada para o quanto seria doloroso. A sensação era a de que estilhaços de vidro me circulavam no peito cada vez que dava mama. Chorei. Muito e muitas vezes ao dar de mamar. Tornou-se tão insuportável que tive que recorrer a mamilos de silicone. Para piorar, tive que adivinhar que o Martim era o único bebé à face da Terra que não suportava o gosto desse milagre que é a pomada Pureland e que era por isso que se recusava, tantas vezes, mamar.

Entre os meus traumas e os dele, e não obstante os meus esforços, o leite foi secando.

Mas também apesar dos meus traumas e dos dele, quando nasceu o Miguel eu não tinha a menor dúvida de que queria fazer tudo outra vez: continuava a querer amamentar.

Na primeira consulta e ainda durante os primeiros quinze dias do Miguel disseram-me que ele não tinha recuperado o peso à nascença e que teria que lhe dar fórmula. Recusei. Se ainda não tinha passado o tempo dentro do qual ele poderia recuperar esse peso eu não ia fazer absolutamente nada senão alimentá-lo com o meu leite.

Dois dias depois, tinha ganho 100g.

O tempo foi passando e os ganhos de peso do Miguel tornaram-se irregulares. O medo levou-me a ceder às insistências de lhe dar suplemento e, entre a facilidade da tetina e o trabalho que lhe dava sugar o meu leite, o Miguel rapidamente me substituiu definitivamente pelo biberão.

Não gostei, obviamente, do rumo que as coisas tomaram em ambos os casos, mas o que mais me desagradou, foi o profundo desamparo que senti naquilo que eram as minhas intenções e a minha vontade de mãe: amamentar os meus filhos.

Acredito que todos os bebés sabem mamar como acredito que todas as mães sabem amamentar. Mas às vezes uns e outros precisam de um empurrãozinho.

Que a mim me faltou.

Ao invés do reconhecimento do meu desejo e do apoio na sua concretização prática assisti antes à desconstrução, demasiado ligeira e demasiado rápida, na minha opinião, de todo aquele discurso sobre os benefícios e a importância da amamentação.

De repente, afinal, já não era assim tão importante e nenhum bebé morria ou se desenvolvia pior por ser alimentado a fórmula.

Eu compreendo que aqueles profissionais de saúde estavam somente a tentar zelar pela minha, nomeadamente mental, ao não querer que me sentisse incapaz ou menos mãe por não estar a conseguir amamentar com a eficácia desejável. Mas o que me parece que não compreenderam, não obstante o ter dito muitas vezes, é que eu não precisava de consolo. Só de ajuda.

Uma ajuda que não chegou.

Ambos os meus filhos são saudáveis. Alimentam-se bem e o seu desenvolvimento é óptimo.

Sucede que essa nunca foi a questão.

Eu era apenas uma mãe que queria amamentar.

E isso ainda me dói na memória.

OCR Wild Challenge Cascais – O Rescaldo

Em tempos escrevi sobre esta prova. Nessa ocasião, mencionei que me tinha inscrito por obra e graça da minha PT e que, para mim, seria mais ou menos o equivalente a pisar a lua.

Foi.

O que justifica que tenha precisado de deixar passar uns dias para escrever sobre ela (é que até agora os meus braços não respondiam muito bem às ordens do cérebro).

9h30. Chegada ao ponto de encontro. Percebi, ainda na qualidade de perfeitos desconhecidos uns dos outros, que tínhamos sido todos enganados da mesma maneira, pela mesma pessoa. Esmagadoramente estreantes nestas lides, havia alguma expectativa e ansiedade no ar, acompanhadas de uma boa dose de entusiasmo. Foram-se contando piadas, partilhando histórias e maldizendo a dita PT (só enquanto ela não chegou, claro).

11h30. Hora de partir. 10km. 40 obstáculos. Saltámos mais placas de madeira e estruturas metálicas do que consegui contar. Trepámos cordas, paredes de escalada, fomos amostras de american ninja warriors, chafurdámos na lama, carregámos sacos, troncos, pneus. Corremos. Subimos encostas tendo como única recompensa a vista de perder o fôlego que já tinha, de qualquer modo, ficado pelo caminho. Descemos trilhos aos tropeções e escorregões. Equilibrámo-nos em tábuas, em argolas, em nada às vezes (pelo menos parecia).

 

 

 

 

 

Foi duro. Foi… Wild.

Superámos muitos obstáculos. Outros levaram-nos a melhor. Ajudámo-nos. Rimos. Alguns de nós – leia-se ‘eu’, cof cof  – choraram também.

 

 

 

 

 

 

 

15h30. A preciosa meta. Exaustos. Sujos. Esfaimados.

Felizes. Muito felizes. Não necessariamente por ter terminado (ok, talvez um pouco), mas por termo-lo feito.

Tenho tantas marcas no corpo que neste momento já tenho um novo jogo para brincar com os meus filhos. Chama-se ‘nódoa negra ou tatuagem?’

Não sei o que os demais fizeram ao chegar a casa. Sei que a minha mente dormiu o sono dos justos, mas o corpinho teve que levantar-se quatro vezes durante a noite para atender a solicitações várias dos pequenos M’s.

A pior delas foi quando, às 6h40, o Martim gritou ‘Mamããããã! Anda cá!’

Arrastei-me, novamente, no meu modo atropelada por um camião TIR até ao quarto deles e perguntei ‘O que é?’ (o tom não foi, confesso, o mais amistoso).

‘Hoje ainda é Domingo?’

Chorei por dentro ao responder. Não, já não era Domingo. A minha mente adormecida e o meu corpo atropelado teriam que arranjar maneira de se arrastar até ao trabalho.

***

E agora gente boa, com licença, que eu vou só ali onde fomos felizes e já volto.

Bom fim-de-semana!