Ele não lê o meu blog, mas…

Ele – o M mais crescido, com quem consta que sou casada – não lê o que partilho convosco por aqui (shame on him por não contribuir para o crescimento do blog!).

Em tempos, referi-vos este facto e mais ou menos deixei prometida uma explicação.

Acho que chegou a hora.

Ele não lê o meu blog.

Deixou de o fazer quando o blog era ainda praticamente um recém-nascido, no dia em que escrevi um texto – este – na sequência de um pequeno diferendo que tivemos.

O texto não era (não é) sobre ele. Não era sobre nós. Não era sequer sobre o tal diferendo.

Sucede que enquanto vivo o meu dia-a-dia penso sobre milhares de coisas e tudo o que penso me sugere temas sobre os quais me dá para escrever (ou não).

Foi o caso naquele dia. Era apenas uma reflexão que teve sim, como ponto embrionário de partida, aquele nosso diferendo. O texto era sobre a ideologia e os princípios que eu senti que, de alguma forma, podiam estar na base daquele nosso diferendo, em si mesmo, insignificante e ultrapassado.

Ele não lê o meu blog.

Creio (especulo) que tem medo de ler com o olhar único de quem vive comigo. De quem consegue perceber ‘de onde vêm’ as minhas palavras. De quem não quer sentir-se criticado.

Já lhe expliquei que tudo isto é, essencialmente, sobre mim, sobre as conversas intermináveis que tenho comigo mesma no carro, a caminho de casa, todos os dias, sobre a necessidade que tenho de falar, ‘sem medo de ser feliz’, sem amarras, sem grandes filtros. Falar para dar vazão a essa avalanche constante de reflexões que me invadem e distraem inoportunamente das minhas tarefas a todo o instante. Falar para esvaziar o compartimento do meu cérebro que precisa de se concentrar no que quer que seja.

Foi, todavia, inútil.

Ele não lê o meu blog.

Mas…

No último post partilhei o estado zombie em que me encontrava.

Recebi um feedback fantástico de mães desesperadas como eu (como isso me reconfortou só eu sei… Obrigada).

Quando cheguei a casa na sexta-feira ele disse-me «os meninos dormem fora hoje e nós vamos jantar».

E fomos. E eu dormi a noite toda sem interrupções. E o pequeno-almoço apareceu na minha cama pouco depois de me queixar que estava a ficar com fome. E os ecrãs foram deixados de lado até ao momento em que já não sabíamos mais o que fazer com o próprio ócio e decidimos ver um filme (seguido, imagine-se!).

Ele não lê o meu blog, é verdade.

Mas talvez não precise.

Ele não lê o meu blog porque lê tudo o que tenho dentro.

Sempre. Sem intermediários.

Crónicas de uma mãe privada do justo sono

Introdução minimalista porque hoje não dá para mais

É ao terceiro dia mal dormido que tudo fica mais negro.

É.

Um dia é suportável.

Ao segundo ainda há esperança.

Ao terceiro o cérebro queixa-se. O corpo queixa-se. Tudo se queixa.

A solidão traz melancolia. A companhia traz impaciência e ansiedade.

Manhã

Acordo (ou melhor, levanto-me porque, na verdade, pouco dormi) com uma ligeira dor de cabeça.

Tenho que me controlar para ser a mãe que os meus filhos merecem e conseguirmos atravessar as rotinas matinais e sair de casa sem nos irritarmos uns com os outros parvamente.

Não é nada intuitivo, devo dizer.

Porque ao terceiro dia, o intuitivo é zangar-me com tudo.

Esqueço-me de coisas. Saímos todos de casa com os dentes por lavar. E eu de pantufas nos pés.

Também me esqueço de coisas enquanto as estou a fazer. O leite do pequeno-almoço arrefece porque não me lembro que ainda não o bebi.

O trânsito, a que sou perfeitamente imune em dias ‘normais’, faz-me ‘bufar’ mil vezes de nervoso.

Pus gasolina. Esqueci-me de zerar o conta-quilómetros. Suspiro.

O meu dia mal começou.

Tenho vontade de chorar. Talvez o faça mais tarde. Ou talvez não espere.

Penso em escrever este texto e começo a registar mentalmente tudo o que já me causou mal-estar hoje.

Pensar nisso arrasta-me ainda mais para o fundo.

Tarde

O tempo passa simultaneamente demasiado devagar e demasiado rápido.

Quero voltar para casa, abraçar o marido que me parece o único ponto de conforto e, ao mesmo tempo, o monstro que me apetece culpar por todo o meu cansaço.

Mas há coisas para fazer e preciso de estar concentrada. Como?

Não saio para treinar (tinha-me feito bem).

Não saio para almoçar (tinha-me feito bem).

Lentamente, consigo terminar o que tinha para hoje.

Hora de me arrastar de volta para casa

Fim do dia

Ao terceiro dia tudo fica mais negro.

Preciso de dormir.

Preciso muito de dormir.

Enquanto não posso… Escrever ajuda.

O que o Dia da Mulher não é

Vocês que me acompanham desse lado há algum tempo, já terão reparado que para mim #feminismonãoépalavrão.

Aos 33 anos, mãe de dois filhos meninos, trabalhando num ambiente que alguns apelidariam de algo elitista e circulando diariamente na rua como o comum dos mortais, sinto na pele, sinto na alma, todas as razões pelas quais o Dia Internacional da Mulher faz sentido, ainda e infelizmente.

Por isso, quando chega esta data, há uma série de posturas e assumpções que me fazem uma comichão tremenda porque desvalorizam o peso e o impacto da luta do feminismo pela igualdade plena – de Direito e de facto – entre homens e mulheres.

Eis as coisinhas que todos os anos engulo, não como sapos, mas como verdadeiros dragões de Komodo e que mostram tudo, tudo, tudo o que o Dia da Mulher não é e tudo para o que não serve.

Uma data comercial

Não, meus caros. O Dia da Mulher não é a segunda edição do Dia dos Namorados. Se se esqueceram desse dia ou do vosso aniversário de namoro, casamento, o que seja, este não é o dia para compensar a vossa mais que tudo por esse facto, presenteando-a com um enorme ramo de flores ou um jantar fora.

Até porque este é um dia de todos. Homens e mulheres que lutaram e lutam ainda para alcançar a tão almejada igualdade. O facto de se chamar ‘Dia da Mulher’, serve apenas para elucidar os mais distraídos sobre quem é que está na mó de baixo nessa luta e quem é que precisa mais de ver a igualdade cumprida. Apenas isso.

Até podem ser bem intencionados mas poupem uns trocos (a menos que a vossa mais que tudo compreenda este dia da mesma maneira que vocês e, nesse caso, esqueçam tudo e comprem as rosas mais vermelhas com que se deparem… Quem sou eu para arruinar relações?…).

Senhoras, também vale para vocês… Hoje não é sobre jantares só de mulheres e strips masculinos. Tudo isso é, sim, um exercício maravilhoso da liberdade que felizmente já têm enquanto mulheres, mas, na minha humilde opinião, excluir os homens da celebração deste dia reforça a ideia errada de que é mais um ‘para inglês ver’ e logo, não é o ideal no que respeita a dar-lhe a força que ele merece. Convidem os homens a participar. Se quiserem, e tiverem coragem e à vontade para isso, convidem-nos a participar e falem de tudo o que falariam se eles não estivessem presentes. Incentivem-nos a compreender o vosso lado do Mundo. E pasmem-se: não precisam de dar baixa ao strip masculino. Acrescentem um feminino e há para todos os gostos e orientações sexuais. Olha que bela demonstração de igualdade…

Um dia de excepção

E falando em jantares fora… Não, meus caros. Este também não é o dia em que ela chega a casa e a roupa está lavada, passada e dobrada e só não está arrumada para não correrem o risco de ela não se aperceber da grande empreitada que levaram a cabo.

Atendendo a que partilham a mesma casa e produzem, presumivelmente, metade da lixeirada e desarrumação, se não fazem os vossos 50% TODOS OS DIAS nem pretendem passar a fazê-lo de forma consistente, este também não é, certamente, o dia de reforçarem a ideia de que as tarefas domésticas são ‘coisa de mulher’, das quais fazem magnanimamente o favor de as dispensar porque, afinal, é o “seu dia”.

Caso não tenham reparado, é justamente contra esses e outros estereótipos de género que o feminismo se insurge. É sobre esses e outros estereótipos de género que o Dia da Mulher pretende que se reflicta.

Ao passaram a vossa própria camisa, ao lavaram a loiça do vosso próprio jantar ou ao arrumarem os brinquedos dos filhos de quem são pais, não estão a aliviar a vossa mulher de um papel que lhe cabe: estão só a fazer aquilo que vos compete enquanto pessoas que coabitam debaixo do mesmo tecto com outras pessoas, em família.

Vá lá… não se envergonhem, a sério (em todo o caso, se pensaram em fazer algum tipo de tarefa doméstica que normalmente não fazem não deixem voar essa ideia: amanhã também é dia. E no dia seguinte. E no seguinte. E no seguinte. A boa notícia para estes impulsos de decência é que uma casa com uma família dentro é um trabalho doméstico contínuo e infinito, por isso: força aí!).

Exaltação das mulheres com quem convivem

A mãe, a mulher, a irmã, a filha, a vizinha… Não, o dia não é dedicado às ‘vossas mulheres’, às ‘grandes mulheres’ que fazem parte da vossa vida.

Já mencionei que é um dia que reflecte a luta, não apenas de mulheres, mas para que as mulheres possam aceder a um estatuto jurídico-socio-económico equivalente ao dos homens?

Pois é… Nada contra a exaltação das mulheres que admiram, sempre, mas hoje sugiro que reflictam em particular sobre o que elas vos ensinaram sobre igualdade, porque é que querem ser iguais a elas, como é que elas se viram nas dificuldades impostas pelo seu género. Exaltem ISSO.

Uma boa oportunidade para demonstrações de desprezo relativamente à data

Em regra o argumento é de que a igualdade já aí está e que mulher se queixa de barriga cheia. Que num país de primeiro mundo não faz sentido assinalar esta data. Afinal, não é como se as mulheres não pudessem votar ou conduzir ou trabalhar sem autorização masculina ou fossem apedrejadas por trair…

Tanto que eu podia dizer sobre isto… Mas vou limitar-me a duas observações:

A primeira é que o facto de haver países com problemas muito mais graves decorrentes da concepção da mulher como um ser menor, não faz das manifestações menos graves desses problemas um ‘não problema’.

A segunda é que não se pode confundir a igualdade aparente, que é a que inequivocamente resulta da lei, com a igualdade de facto, que é a que resulta da boa interpretação e aplicação da lei. Ora, os aplicadores da lei, que vão dos empregadores aos juízes são pessoas. E, como tal, imbuídas de determinadas convicções pessoais, religiosas, éticas, políticas e por aí vai… Uma sociedade composta por homens e mulheres machistas (muitas vezes sem consciência disso), toma decisões machistas. É inevitável. E digno de reflexão. Pelo menos hoje.

Não acreditam? Podem ler um exemplo prático aqui relativamente a empregadores e outro aqui, relativamente ao funcionamento do nosso sistema judicial no que respeita à criminalidade de género.

Não desprezem a data. Se não quiserem perder cinco minutos com ela, abstraiam-se… Amanhã é outro dia (mas se se depararem com informação de valor, também não magoa ler…).

Publicações no Facebook com um certo e determinado teor

Amig@s… AMIG@S! De todas as coisas que me fazem comichão, esta é a que me dá vontade de desligar o computador, ir até casa da pessoa e entalar-lhe a cabeça no seu portátil três ou quatro vezes. Com alguma força, vá.

Façam o que fizerem não publiquem nada no facebook que comece, termine ou inclua a expressão ‘mulheres de verdade’.

Porra (o que eu queria escrever era ‘foda-se’ mas atendendo ao meu último post mudei à última da hora)!

Mulheres de verdade somos todas.

Mesmo que eu não seja crente e Deus não saia da boca daquela mulher.

Mesmo que eu odeie a maneira como para aquela outra tudo se resume a quem tem o quê e seja essa a ordem de importância com que estabelece as suas prioridades.

Mesmo que a terceira insista em encher o meu saco com assuntos que não me interessam, ‘ensinar-me’ coisas que ambas sabemos que o mundo inteiro sabe ou meter-se na minha vida para além de tudo o que é razoável.

O facto de eu não gostar delas, do que fazem ou dos seus posicionamentos sobre as questões não as torna menos ‘de verdade’.

Mais que tudo isso, não distingam mulheres ‘de verdade’ das ‘outras’ por um critério do que na vossa cabeça é ‘decente’. Decente como em ‘respeitável’. Porque essa é uma premissa perigosa que conduz facilmente ao raciocínio de que existem pessoas (mulheres) que merecem ser respeitadas e outras que não.

Neste contexto: a mulher que usa uma bruta minissaia é tão de verdade como a que usa um hábito imaculado. A que vai pratica sexo casual apenas porque é o que lhe apetece, é tão de verdade como a que quer casar virgem porque é nisso que acredita. A que trai todos os seus companheiros ou os substitui com frequência é tão de verdade como a que casou com o seu primeiro e único parceiro sexual.

Tão de verdade = tão merecedora de respeito quanto.

Por isso, por favor, por favor, por favor… Não façam isto….

***

Termino dizendo que igualdade não pressupõe sermos todos iguais, mas termos toda idêntica liberdade para sermos o que quisermos, sem julgamentos ou penalizações externas.

Quem é que pode não querer isto? Porque é que não somos todos feministas ainda?

Feliz dia Internacional da Mulher a tod@s! Boas reflexões!

(as ilustrações são todas da Denise Silva e foram retiradas da sua página de Facebook)

Mãe é puta. Bom é o pai.

O texto de hoje, além de usar linguagem sensível, como já transparece do título, não é meu. Não é meu, nem poderia. Não passei pela experiência de que fala, pelo julgamento que descreve nem pela desigualdade profunda que resulta do que é exigido a um pai vs o que é exigido a uma mãe para que tenham ambos classificação de ‘bom’ no exame dessa disciplina contínua que é a parentalidade.

O texto de hoje não é meu, mas sinto em cada vírgula, em cada frase, em cada comparação, a dor, o peso, a culpa de tantas mulheres a quem é cobrado que deixem de o ser a partir do momento que nasce um filho, a qualquer custo, para todo o sempre e sozinhas, se assim tiver que ser. Porque mãe é sempre mãe e é o seu dever sê-lo. Já pai só é pai se quiser (e/ou se a Justiça obrigar).

O texto de hoje não é meu e é, obviamente, tal como as minhas palavras acima, uma generalização. Por favor, pais presentes e mães separadas deles, não levem a peito.

Coloco-o entre aspas, mas não sei quem o escreveu, apesar de já o ter lido muitas vezes, em diversas fontes. Perdoem-me, por isso, que não nomeie a sua autora (no entanto, se alguém souber, que me diga).

O texto de hoje não é meu, mas é tão honesto, tão cru(el). Agora, que tenho esta voz que o Entre M’s me dá, não consigo deixar de o dividir com quem me lê.

E pensar que tudo poderia resolver-se com um pouco de empatia

***

“São quase 15h. Meu filho está no meu sofá vendo desenho e me pedindo almoço que eu não fiz.

Hoje é o final de semana do pai, que começou a contar das 9h de sábado e vai até as 18h de domingo. O pai chegou cedo, milagrosamente, mas por volta do meio dia foi cortar o cabelo e não voltou ainda. Meu filho tá pulando no sofá e eu tô cansada de ser mãe. Eu queria ser pai.

Semana passada era o final de semana dele, mas fiquei sabendo na quinta que ele ia pra África, olha só que legal, mais uma viagem internacional, e eu nem passaporte tenho. Claro que eu fico com meu filho e desmarco meu rolê com meu namorado, minha foda atrasada em uma semana a mais, uma a menos, que diferença faz? Eu sou mãe, né não?
Ele tem pós na USP, mestrado na UFMG, fala um inglês fluente com certeza. Eu não consigo nem frequentar meu cursinho todos os dias da semana. Saio todo dia na penultima aula pra pegar meu filho na escola particular que ele paga. Bom pai, paga pensão alta, tenho que valorizar. Né, não?

Ele nunca namorou depois que nos divorciamos, não precisa assumir ninguém, a vida sexual dele é livre. O filho nunca fez ele desmarcar um compromisso de sexo casual, nunca teve uma febre e ele precisou largar o pernoite pra ir pro P.S.

Já eu, já eu, sempre de namoro em namoro, sempre morando junto, sempre transando no chuveiro, senão eu não transo. Só posso gozar depois que o filho dormir, isso se eu tiver disposição.

Foi pra França, trouxe a Torre Eiffel: bom pai.

Foi pra Maputo, atrasou a visitação mais um final de semana, trouxe uma girafa: bom pai.

Foi pra Recife, trouxe um lampeão: bom pai.

Paga pensão descontada na folha: bom pai.

Nunca ficou 15 dias seguidos com o filho de 6 anos: bom pai, estava trabalhando para pagar pensão senão vai preso.

Mãe mora junto com o primeiro namorado pra dividir conta e poder foder, porque mãe também fode: puta.

Mãe não tem formação universitária: vive de pensão, é puta.

Mãe termina com o primeiro namorado: não sabe formar família, é puta.

Mãe fica desempregada e usa parte da pensão pra pagar despesas: vive do dinheiro do ex, é puta.

Mãe ajunta com o segundo namorado pra dividir aluguel e conseguir foder no chuveiro: é puta, trazendo outro macho pra dentro de casa.

Mãe pensa em sumicídio (sumir ou suicídio-algo que não magoe o filho: ah, não tem essa opção)

Foda-se a mãe egoísta que quer desistir.

Vai ter que aguentar a pressão pra não desgraçar a vida do filho. Se vira, mãe.

Mãe tá esgotada. Mãe não fode. Mãe não pode. Mãe não presta.

Mãe é puta.

Bom é o pai.”

#feminismonãoépalavrão

O regresso – voltar é bom, ter ido é essencial.

No Rio de Janeiro, um motorista de Uber contou-nos porque conduzia: com 60 anos, tinha-se reformado e separado da mulher pouco depois. Ficou com pouco dinheiro e muito sozinho, portanto. Havia, por isso, decidido pegar no pouco que tinha de seu – o carro – e usá-lo para resolver ambos os problemas.

***

Oi gente!!! Que saudade de aparecer por aqui! Voltámos revigorados, ligeiramente mais coloridos e absolutamente apaixonados pelo Rio de Janeiro (a bem dizer, eu já ia apaixonada, mas voltei mais ainda).

Posto isto, chegou a hora de cair na realidade e, felizmente, a realidade tem coisas boas: os risos, os abraços, as saudades finalmente mortinhas que eu tinha dos meus M’s…

Estava com alguns receios em relação ao nosso regresso, sobretudo em relação à reacção do Miguel, que ficou, pela primeira vez, alguns dias sem nos ver.

As reminiscências da primeira viagem do género, que fizemos quando o Martim era (mais) pequeno não ajudaram. Ele tinha um ano e oito meses quando casámos e fomos de lua-de-mel. Pelo que nos contaram ficou óptimo, divertido, mimado e entretido por avós e tios durante os dez dias que passámos fora. No entanto, quando voltámos surpreendeu-nos, ainda no aeroporto, com uma recepção gélida. Nós, cheios de vontade de o apertar e ele, quase sem olhar para a nossa cara, claramente muito zangado com o nosso desaparecimento repentino e mais ainda com a cara de pau de voltarmos como nada se tivesse passado.

Durante o mês seguinte, o Martim acordou todas as noites aos gritos. Pareciam terrores nocturnos, mas não eram. Eram protestos sonoros pela ausência dos pais. Ou melhor, sendo rigorosa, pela ausência da mãe. Porque o Martim acordava a gritar, a plenos pulmões ‘Mamã! Mamã! A mamã fugiu!’.

Acabei pagando pela lua-de-mel muito mais do que apenas o quanto a viagem economicamente me custou… Paguei em sono perdido e em facas espetadas no coração a cada nova acusação de fuga pela madrugada adentro. Passou. Hoje o Martim é um menino descontraído no que respeita às escapadinhas dos pais para namorar. Agora ele sabe que voltaremos sempre para ele.

Mas o Miguel ainda não…

Quando fomos buscá-los o Martim fez a festa normal de quem tinha saudades, correu, gritou de entusiasmo, quis contar mil histórias. O Miguel… Quando nos viu deu um longo suspiro, como se estivesse exausto. Estendeu-me os braços para vir ao meu colo, encostou a cabecinha no meu peito e suspirou, suspirou… Depois quis ir ao colo do pai, onde fez o mesmo, e de novo ao meu, onde se deixou ficar, assim mesmo, cansado da espera, aliviado por estarmos ali os dois.

A primeira noite foi complicada. Acho que trocaram a cama do Miguel na nossa ausência e colocaram uma cheia de picos, porque não houve maneira de o manter lá. Dormiu em cima de mim. Não ao lado. Em cima. Marcando território, como se só a dormência do meu corpo inteiro por baixo dele fosse capaz de garantir que não voltaria a ir a lugar nenhum sem o meu bebé. Sempre que escorregava, por algum motivo e se sentia longe do contacto físico, choramingava até que o pusesse novamente em cima de mim.

O dia amanheceu e não se tornou mais fácil, o Miguel não quis largar o meu colo para (quase) nada. Fiz todas as refeições com ele sentado em cima de mim e todos os meus afazeres do dia com ele montado nos meus braços e com protestos infinitos sempre que o pus no ovo para circular de carro.

Espero que restaure a confiança em nós. Que aprenda com o tempo que voltaremos sempre para ele também.

Tudo visto, não me importo de pagar este preço por momentos a dois. No caso, pela viagem que eu sempre quis fazer. Não me importo porque estes momentos sem filhos, sem fraldas, sem noites mal dormidas, sem a loiça, a roupa, os compromissos escolares, lúdicos e médicos deles nos permitem olhar um para o outro sem distracções. Conversar. Criar memórias que não envolvem os nossos filhos.

Porque um dia, se tudo correr bem, eles irão embora de casa e se tudo tiver corrido igualmente bem até aí, nós voltaremos a ficar apenas na companhia um do outro.

De que falaremos se não tivermos feito nada nos últimos 25 anos senão viver em torno dos nossos filhos?

Memórias com eles são maravilhosas. Mas memórias só nossas também são imprescindíveis.

***

Não conheço a história do casamento ou da separação daquele motorista super bem-humorado e cheio de experiência de vida com quem trocámos 20 minutos de agradável conversa. Mas, na minha cabeça, aquele homem e a sua ex-mulher viram os filhos crescerem e saírem de casa. Na minha cabeça, aquele ex-casal viu-se estranho ao fim de tantos anos debaixo do mesmo tecto. Tão estranho que não encontrou outra solução senão, à beira da velhice, irem cada um para seu lado. Aprenderem a ser fisicamente o que já eram sem saber até aí: duas pessoas sozinhas. É um acto de coragem sentir que nunca é tarde para ser feliz de outra maneira. E acredito piamente que nunca é! Mas à mesa do pequeno-almoço, sentada a olhar para o homem por quem sou apaixonada não pude evitar pensar que não queria que esta história que, na minha cabeça, inventei para aquela pessoa, fosse a nossa.

Que haja muitas viagens a dois, nem que seja ao quarteirão adiante do nosso, de mãos dadas, para um beijo roubado sem olhares de gente pequenina e atenta.

Dilemas de mãe – A viagem

 

Daqui a pouco mais de 48h estarei num avião para o Rio de Janeiro.

Pelo menos é o que dirá o meu cartão de embarque. Na minha cabeça, estarei a caminho da ‘minha terra’, aquela que não conheço, na qual não tenho a menor raíz, mas que me preenche a alma desde menina.

É a minha viagem de sonho. Carnaval no Rio de Janeiro.

E, como tal, estou uma pilha de entusiasmo qual criança nas vésperas do Natal.

Mas não sou uma criança. Sou uma mulher de 33 anos. Sou uma mãe de dois meninos que precisam de mim e do pai.

Dois meninos que ficam cá, enquanto vamos viajar.

No meio de tudo o que a minha cabeça já viveu milhares de vezes ao longo dos anos e que o corpo só agora se prepara para viver também é inevitável pensar neles.

Não sinto qualquer culpa em viajarmos só os dois. Nem tão pouco acho que os sonhos devam morrer no mesmo bloco de partos onde nos nascem os filhos.

Mas sinto medo.

O Rio de Janeiro não é, certamente, conhecida por ser a cidade mais segura do Mundo. E se não voltamos?

Que disparate! Porque não voltaríamos?

Mas… E se não voltamos?

Que nó na garganta, que falta de ar, que aperto do peito…

Tento pensar friamente: o que quer que possa acontecer lá, pode perfeitamente acontecer igualmente aqui ou em qualquer outro ponto do planeta. Pensemos em Paris ou em Barcelona, lugares aparentemente seguros e que têm visto tanta coisa acontecer. Basta um louco com um ideal. Basta estar no lugar errado à hora errada.

Mas é mesmo necessário pensar na desgraça alheia para me reconfortar?

Nunca uma viagem me deixou tão feliz e tão angustiada… Por um lado, só vou acreditar que lá estou quando efectivamente pisar aquela terra, por outro só descanso quando voltar a abraçá-los.

Se leram até aqui, já perceberam que este é um post perfeitamente inútil.

Não há ‘moral da história’, opinião estruturada, punch line ou final surpresa, é apenas o que é: um desabafo de alguém que não sabe se ri ou se chora e por isso tem feito ambas em abundância.

Fevereiro é para…

Pular Carnaval

Beber água de côco

Comer biscoito Globo em Copacana

Desfilar na Sapucaí

Gritando a nação tijucana

Subir no morro

Descer no bondinho

Pedir a bença pro Cristo

Amar no jardim botânico

Se aventurar no Telégrafo

E ser boémio na Lapa

Trazer o Rio no corpo

e para sempre no coração.

***

Sonho de menina esse, de ir cariocar. Fevereiro é para cumprir.

O bem multiplica-se – o abraço

 

Hoje recebi um abraço tão genuíno e inesperado que a minha disposição mudou por completo.

***

O meu dia começou péssimo.

Desde logo porque começou ontem.

O Miguel dormiu mal e choramingou de hora a hora.

Alternou com o Martim que foi chamando para ir à casa de banho, para o ir ‘tapar bem’, para o ir tirar da cama porque às 6h30 já tinha dormido o suficiente.

Claro está que não tinha. Nem ele… nem eu.

O que complicou substancialmente a nossa manhã. Houve birras, lágrimas, soluços, dores de cabeça, uma falta monumental de paciência e toda aquela amálgama de coisas sobre as quais já escrevi tanto que quase já não tenho contexto para linkar todos os posts que fiz a propósito (por isso que se lixe o contexto, podem ‘apanhar o fio à meada’ aqui, aqui e aqui).

Mas depois veio aquele abraço, tão espontâneo, despoletado por um gesto meu que qualquer um consideraria uma patetice.

Olhando as coisas com frieza, é tão fácil distribuir bem-estar. O bem não tem que ter a forma de doações regulares à Unicef ou participações assíduas nas campanhas do Banco Alimentar.

O bem não tem que assumir o porte dos grandes gestos, como adoptar uma criança ou saldar todas as dívidas dos nossos pais.

Não me interpretem mal, todo esse bem é BEM. Só quero dizer que há bem ao nosso alcance por todo o lado. No detalhe das coisas que, de tão corriqueiras, já não vemos.

Nas vezes em que mostrámos o caminho a alguém em vez de apenas o indicarmos. Nas ocasiões em que deixamos passar alguém à frente na fila por puro bom senso e não porque a lei obriga. Nas alturas em que nos oferecemos para carregar metade dos sacos de alguém visivelmente aflito com o peso.

Pequenas coisas.

A minha patetice de hoje fez com que alguém se sentisse apreciado. O abraço com que fui retribuída pode bem ter salvo a minha segunda-feira.

Se abrirmos os olhos ele está lá, por todo o lado, para o fazermos, quase sem esforço, e é justamente aquele que nos sabe melhor.

O bem multiplica-se.

 

Nota:
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“Mãe que é mãe” – Ode às mães perfeitas

Mãe,

Tu que vives cansada,

Olheirenta,

Que te culpas pelo tempo que passas no trabalho,

E pela má gestão que fazes dele,

Que não te lembras da última vez que entraste num cabeleireiro:

Tu és perfeita.

Mãe,

Tu que és descolada e carregas três meninos e dois sacos de compras em saltos altos,

Que preferes acordar de madrugada do que sair de casa sem maquilhagem,

Tu que adormeces com a culpa de que talvez ‘penses demais em ti’:

Tu és perfeita.

Mãe,

Tu que reclamas cooperação do pai,

Mas não deixas que ele te substitua em nada porque, afinal ‘ele não sabe tão bem’,

Que assumes os dias, as noites, os banhos, as refeições, o veste e despe, o transporte para cá e para lá,

Tu que carregas a culpa de sempre ser quem faz por eles e nunca quem faz com eles,

Tu és perfeita.

Mães,

Tu que saíste ontem à noite com as amigas e te sentiste culpada;

E tu, que perdeste a paciência pela manhã e te sentiste culpada;

Tu que os mantiveste entretidos com o tablet para apreciar um pouco de silêncio e te sentiste culpada;

E também tu que te compraste uns sapatos novos em vez do brinquedo que eles pediram e te sentiste culpada:

Perfeita. Perfeita. Perfeita. Perfeita.

Todas perfeitas.

“Mãe que é mãe” faz uma coisa só: o melhor que pode.

E o melhor que pode é perfeito.

Sabem o que não é perfeito? A culpa.

A ela podem mandá-la embora.

***

Costumava pensar que odiava mães perfeitas, desde logo, porque não existiam. Porque a fasquia que nos impunham era inatingível. Depois descobri que somos nós que criamos essa fasquia. Que quem não existe é ela. E que perfeitas…

Perfeitas somos todas.

Ginásio, mamãs? Sim, claro! Mas talvez não por ESSE motivo.

Levante a mão quem integra aquele grupo de clientes perfeitos do ginásio que nunca, nunca, nunca lá põe os pés!

Aposto que consigo adivinhar como isso aconteceu: terminou o Verão ou as festas de final de ano ou nasceu a coisinha mais linda do vosso mundo e a balança deu um grito (ou vários). Chega! Segunda-feira (é sempre segunda-feira…) começa a dieta! E o ginásio! E cá vai de procurar condições ou aderir aquela campanha que aparece, majestosa e providencial, naquelas alturas chave e que nos promete maravilhas ao preço da chuva.

O primeiro mês é maravilhoso! Frequência diária, energia inesgotável! Tirando naquele dia em que houve almoço da empresa/o bebé ficou doente/a amiga terminou o casamento… Bom, excepções. No segundo mês as excepções aconteceram com um pouco mais de frequência e entretanto a porcaria da balança vai parecendo nunca se calar, sempre ali, mal humorada, aos gritos, aos gritos. E há tanta coisa para fazer e uma pessoa esforça-se e os resultados não aparecem, apesar de só se comerem folhas de alface e de se frequentar toda a santa aula do extenso cardápio que qualquer ginásio tem para oferecer. No terceiro mês é um ‘que se lixe’ em toda a extensão. Sou gorda vou morrer gorda e dá cá esse chocolate que eu não vejo disso há demasiado tempo… E não! Não tenciono partilhar!

A ordem natural das coisas vai-se restabelecendo. O açúcar reconforta o cérebro e até parece que o nosso batimento cardíaco desacelera. A vida é um paraíso, por um momento… Mas aquela malvada daquela balança continua lá a gritar… Não faz mal, para a semana voltamos ao ginásio. Entretanto passaram seis meses e a única parte de vós que foi para o ginásio foi aquela, por sinal já bem magrinha, que habita na conta bancária…

Se calhar… Se calhar está na altura de parar e aceitar a realidade: quem faz isto não gosta de ir ao ginásio. E não me ocorre uma única razão no Mundo para que deva sentir-se obrigada a fazê-lo.

‘Ah e tal, mas eu já vi por aí que tu vais ao ginásio’, dir-me-ão. Verdade.

Desde os três anos que me habituei a praticar algum tipo de exercício físico. Fiz de tudo um pouco: natação, ginástica rítmica, equitação, karaté, aeróbica, danças brasileiras, zumba e mais recentemente frequentei toda a miríade de aulas que a maior parte dos ginásios disponibilizam – menos spinning (como eu odeio spinning!). Acostumei-me a estar activa e faz-me alguma confusão ‘estar parada’ durante muito tempo.

Mas o que é estar parada? Dar uma caminhada matinal com os miúdos ou os animais de estimação é estar parada? Não abdicar de pegar na bicicleta e ir dar uma volta algumas vezes por semana é estar parada? Fazer os seus percursos diários essencialmente a pé e utilizar o carro só em caso de excepção é estar parada? Claro que não! Actividade física não tem que equivaler a ginásio. E a actividade física que nos faz bem – sei-o hoje – é aquela de que gostamos, aquela que fazemos não porque tem que ser, mas porque somos um pouco menos nós se no-la tiram. E essa é a actividade física certa. Tudo o resto… É ruído e dinheiro ao lixo. E não… Fazer algo que odiamos de morte só para parar de ouvir os gritos da balança não vai fazer com que ela se cale. Sabem o que vai fazê-la calar-se? Deitarem-na fora (se não de facto, pelo menos metaforicamente).

A única medida de que precisam é-vos dada pelo vosso nível de bem-estar. E se calhar até não é a balança que incomoda… Se calhar é o marido que não pára de vos chamar, ainda que carinhosamente, de ‘minha gordinha’. Se calhar é aquela censura velada da tia, que sempre que vos vê pergunta que dieta estão a fazer ‘agora’ enquanto olha de alto a baixo em jeito de ‘não está a funcionar, só para que saibas’. Se calhar o trabalho está tão stressante que comer parece a única alegria na Terra. E se calhar… Se calhar são essas as coisas que precisam de ser resolvidas.

Não me interpretem mal, exercício físico é tudo de bom e adoro ir ao ginásio, até porque encontrei a melhor PT do Universo, com quem tenho a maior das empatias e que me faz apreciar cada treino e cada pequena evolução. Mas é esse mesmo o ponto: eu adoro ir ao ginásio. E claro que seria simpático terminar de perder o peso que eu sei que anda aqui a mais, mas por ‘pequena evolução’ o que quero dizer é um pouco mais de resistência, mais alguns metros em menos tempo, mais algum peso na barra, umas quantas flexões sem joelhos no chão… Desafios superados.

São essa empatia e essas pequenas evoluções que me fazem sentir bem comigo mesma. A balança tornou-se um acessório que uso de tempos a tempos para me manter informada e nada mais do que isso. Não me diz que sou perfeita, seguramente. Mas sabem que mais? Também não me diz que não sou.

E quem é ela para opinar, de qualquer maneira? Até lhe fazia bem um chá, para lhe acalmar tanto mau humor…