A bonita, a calada, a estourada e a repetente

 

Quatro meninas no recreio da escola torcem o nariz umas para as outras.

Não se conhecem e, talvez por isso, estranham-se.

Uma é bonita demais, de certeza será metidinha.

Outra é calada demais, por certo será sonsa.

Outra ainda é estourada demais, não há dúvidas de que se acha melhor que os outros.

A última, normalmente é quem escreve e ouviu por aí que é feio opinar em causa própria (mas consta que a estourada achava que, com aquele tamanho todo, ela só podia ser repetente…).

Aos poucos a bonita, a calada, a estourada e a repetente foram-se conhecendo melhor, dando melhor, brincando mais.

Quatro adolescentes no pátio do secundário fofocam.

Partilham histórias sobre rapazes (menos a calada, que ouve), dançam no bar da escola (menos a calada, que vê), saem juntas para todo o lado (menos a calada, que não gosta), adormecem entre roupas e maquilhagens que não conseguiram escolher (com uma calada exausta de a obrigarem a experimentar tanta coisa tão pouco ‘ela’).

A estourada é, além de tudo, ciumenta das outras três. Faz a doida em locais públicos, é malcriada para as (outras) amigas das amigas, ri alto demais, canta alto demais, tudo demais. A estourada é demais!

A bonita não sabe o que quer, mas quer muita coisa sempre, de preferência o melhor (embora isso vá mudando). A bonita é capaz de querer uma coisa e o seu contrário. A bonita quer o mundo. A bonita é UM mundo!

A calada, porque é calada, é um túmulo de segredos. Sofre com as outras, sofre por elas, sofre sozinha também, sem ter porquê. Com ironia, quando a calada não está fica um silêncio no lugar dela. Porque quando a calada fala… Ah! Nem digo nada, que eu não sou dessas…

A repetente nunca repetiu ano nenhum e foi sempre top de tudo, mas vive de amor em amor porque todos são para sempre. Há quem diga contudo que não é, ela própria, um amor. Há quem diga que é um pouco arrogante, mas quem sou eu para falar…

Quatro jovens mulheres seguem os seus rumos.

Vão para faculdades diferentes e portas diferentes se abrem e fecham à sua frente. Cada uma com seu curso, universitário e na vida. A estourada e a bonita emigram. A calada e a repetente ficam.

Um dia a estourada liga para a repetente: ‘estou grávida’.

Nesse dia mesmo dia, ao telefone, a calada disse-lhe: ‘eu também’.

A repetente ficou com raiva. Ela queria engravidar e estava demorado (pelo calendário dela, pelo menos), mas um par de meses depois juntou-se, feliz, ao coro das barrigas.

A bonita foi três vezes no mesmo ano uma tia babada. E, porque não aguentou só ficar no camarote, dois anos depois foi mãe também.

Quatro mulheres mães não vivem sem as outras três.

Quatro meninas no recreio da escola cresceram e agora vêem os filhos crescer.

São mães e tias dos filhos umas das outras, que se conhecem e reconhecem quando se vêem também.

Dói a distância, aliviam as tecnologias.

Mas, quando essas quatro se juntam, ainda partilham histórias sobre rapazes, ainda dançam mais ou menos onde for, ainda vão juntas para onde calhar e ainda não conseguem resolver-se quanto a indumentária e maquilhagem. Até a calada, que foi aprendendo a falar!

***

A amizade não é só linda como necessária.

E todos os clichés sobre ela são verdadeiros.

Sejam quais forem as vossas circunstâncias, o vosso ritmo, a vossa situação familiar, laboral, pessoal, emocional, tirem dois minutos de vez em quando para dizer um ‘olá’ aos vossos amigos.

O fardo fica mais leve depois de umas boas gargalhadas e a maternidade já é demasiadas vezes demasiado solitária para nos privarmos de algo tão bom, ainda que em seu nome…

E porque esta é mais uma história fictícia mas não muito, aqui fica a minha homenagem às minhas irmãs da vida, de quem sinto tanta falta.

Amo-vos minhas pessoas!

 

Dar à luz no escuro

Chegou o momento por que ela esperou a vida toda e, em particular, os últimos meses. É agora.

Vai, finalmente, conhecer a cara da sua princesa, segurar-lhe as mãos, chamá-la de ‘meu amor’, prendê-la junto ao peito.

O trabalho de parto torna-se coisa menor perante a expectativa de ver, de mexer, de aconchegar o seu bebé.

Um pai nervoso leva-a para o hospital – grande palco do milagre da vida.

As coisas não correm como esperado. O pai nervoso é deixado à porta: os blocos de parto estão lotados e, por respeito às demais parturientes, ninguém pode ter acompanhantes.

Agora a mãe está nervosa também. Precisava daquela mão na sua. Precisava daquela voz familiar dizendo-lhe que ia correr tudo bem.

O trabalho de parto começa a arrastar-se. Ouve o pessoal médico a falar de relaxantes musculares, de cesarianas, de tudo. Como se ela não estivesse ali. Ninguém lhe pergunta nada. Ninguém reconhece a sua existência salvo para dizer-lhe que não grite.

Não grite, porque se na hora de fazer não pensou, agora aguente sem se queixar.

O desconforto aumenta. O trabalho de parto pára.

Aquele momento bonito, único na sua vida, quebra-se em todo o encanto com que foi sonhado. Agora é só dor, solidão, desespero.

Porque é que ninguém a consola? Porque é que ninguém lhe diz o que se passa? Mais, porque é que ninguém a ouve? Já perdeu a conta ao número de pessoas que invadiram com as mãos a sua privacidade, que entraram e saíram do espaço onde a depositaram, sozinha e vulnerável, que debocharam dos seus ‘ais’.

Passaram-se horas e horas e a princesa parece preparada, finalmente. Ela quer sentar-se, mas não a deixam. Ela não quer que lhe empurrem a barriga, mas ninguém respeita o seu desejo.

Ela é gado.

Com o tempo, tudo passou, porque tudo (ou quase tudo) passa. Mas ela levou para casa uma filha linda e uma ferida aberta na alma.

‘Dar à luz’ não se aplica a nada do que lhe aconteceu. Ela deu à luz no escuro.

***

A Associação Portuguesa para os Direitos da Mulher na Gravidez e no Parto disponibiliza, no separador ‘documentos’ um conjunto de informação muito relevante e essencialmente preventiva da violência obstétrica. Num momento de especial fragilidade da mulher e até do acompanhante (seja o pai, seja outra pessoa) é cada vez mais importante não ser apanhado de surpresa e estar-se seguro do que são os limites da actuação dos profissionais de saúde.

A violência obstétrica precisa de ser denunciada sempre. Se por acaso alguma das pessoas que me lêem é profissional de saúde: não compactuem com a violência obstétrica. Denunciem se a presenciarem e incentivem a denúncia.

Existe uma petição pública pelo fim da violência obstétrica nos blocos de parto dos hospitais portugueses. Peço-vos que assinem.

Porque nem só quase metade das mulheres portuguesas merece ter o parto que deseja (podem ver os pressupostos e resultados integrais do inquérito a que me refiro aqui). TODAS as mulheres merecem que se façam todos os esforços para que tenham a melhor experiência de parto. A experiência que eu tive a sorte de ter nos meus dois partos. A experiência que me entristece ter que apelidar de ‘sorte’.

Pelo fim da ‘sorte’. Pelo fim da violência obstétrica. Para que esta história passe a ser, verdadeiramente e não apenas vagamente, fictícia.

#PeloFimdaViolênciaObstétrica #PartoRespeitado

Uma camisola nova – (des)amor de mãe

Não se deixem enganar pelo título. Apesar de se referir, literalmente, a uma camisola nova, a mensagem não tem nada a ver com roupa e tudo com bem-estar.

No fundo, o que quero dizer é (e perdoem se o trocadilho resultar mal conseguido): uma mãe não é um trapo. E não deve, seguramente, sentir-se como um.

Eu sei, eles nascem e o mundo passa a girar em torno das necessidades deles, do choro deles, das conquistas deles, da saúde deles, do mimo deles e da felicidade que nos dão e do tempo que nos tomam. Mas o tempo tem uma característica engraçada: ele não pára. E o que sucede é que o tempo vai passando e a mãe não dorme. E também não come (ou não se lembra de ter comido). Ou come alarvemente (porque tem cinco minutos enquanto eles não reparam que há comida na jogada e vêm a abrir e a fechar a boca quais peixinhos, ver o que há para eles). E o peso da gravidez tarda em ir embora e a mãe sente-se feia. E sendo assim, nem se atreve a insinuar alguma intimidade com o companheiro. Muito menos a comprar roupa que sirva a sua actual forma. Comprar roupa de gorda? Jamais!

(Prometo que ainda vai haver uma camisola nova neste post)

Então a mãe, que se recusa a aceitar as suas esperançosamente provisórias olheiras e o seu esperançosamente provisório corpo, não tem, por outro lado, qualquer dificuldade em aceitar, pacificamente, a ideia de que, além de tudo, também não é mãe o suficiente.

Para um aspecto tão mau «ao menos» que a quantidade de boa mãe que há em si compensasse. Mas nããããoooo… Os miúdos nem sempre tomam banho todos os dias e há sempre roupa deles por lavar/passar/arrumar/vestir/tirar… Conseguem visualizar a espiral de destruição que a mãe faz abater sobre a sua auto-estima? Eu consigo. Pela minha experiência, normalmente termina com um ‘coitadinhos…’ e muitas lágrimas à mistura.

E é por isso, porque conheço tão bem a mãe, que a convido a parar de chorar e olhar atentamente para os ‘coitadinhos’ à sua frente. De olhos arregalados e uma mãozinha estendida em direcção à sua cara para a consolar. Estão limpos. Estão vestidos. Estão bem alimentados. São saudáveis. E estão a borrifar-se para tudo isso.

Porque eles são felizes, mãe. E tudo o que querem é ver a mãe feliz também. Porque mães felizes têm mais paciência para brincar e eles sabem disso.

Então mãe, com olheiras ou sem elas, a vestir o velho 38 ou o novo 42, atreve-te a sentir-te bonita. Atreve-te a veres-te ao espelho e a lembrares-te que há mais em ti do que só ‘a mãe’. A mãe também é gente. E a mãe não se mima há tempo de mais.

Vai. Compra uma camisola nova. Do teu tamanho. Não será, prometo, «roupa de gorda». Será a tua roupa. E vai ficar-te bem, mãe. Vai ficar-te bem, mulher.

(Viram? Eu disse que havia uma camisola nova na história)

 

Esta é a minha camisola nova, comprada pelo face (ver marca de água). É um L.

A saída (ou porque lhes damos um poder que nos pertence)

 

 

“Vais assim?”

É o que ele pergunta, enquanto disfarça mal o esbugalhar dos olhos e o esgar de desconfiança nos lábios.

‘Aqui vamos nós’, pensa ela, mas questiona na mesma:

“Porquê, não me fica bem?”

Não. Não é isso. Ela sabe que não é isso. Ele sabe que ela sabe que não é isso. O olhar de reprovação inicial vai dando espaço à impaciência que lhe toma conta da face.

“Então? O que é?”

Depois de muitas evasivas lá confessa. O vestido/saia/calções/top/camisa (riscar o que não interessa) é demasiado curto/transparente/decotado/justo (repetir a operação).

Ela não se lembra bem em que momento ele começou a achar-se no direito de lhe censurar a roupa como quem avalia o estilo da mobília que quer em casa. Porque é disso que se trata. Não de não gostar, objectivamente, do que tem vestido. Pelo contrário, gosta muito. Mas é um estilo de mobília que não quer em casa. Não na SUA casa.

Ela não se lembra tampouco da primeira vez que acedeu a trocar de roupa depois de um destes diálogos. Ou da primeira vez que deixou de comprar aquela saia de ganga que procurava há meses porque ele ‘não deixou’.

Não consegue, sob perspectiva alguma, precisar o ‘quando’. Quando é que o sentimento de pertença mútua se objectificou e se tornou numa posse palpável. Quando é que ‘ser dele’ deixou de ser uma metáfora para o amor e passou a ser uma sentença de vida. Mas sabe, no fundo de si, o porquê.

Porque ele se sentiu confortável para o fazer. Porque nessa primeira vez ela disse ‘se não te agrada, eu troco’. Porque ela se permitiu ser a barbie com que ele teria tido vergonha de brincar quando era pequeno. Porque ela optou por ceder em nome de um ‘nós’.

Hoje ela sabe. Não foi por ‘nós’. Não foi por amor. Foi por medo. Porque a perspectiva da solidão a assustou mais do que um ciuminho tolo que ela moldaria com o tempo (que tonta, ao pensar que alguma vez aconteceria!).

Mas porque, de todos os dias, foi neste que ela soube, encolhe os ombros à e diz

“Achas? Pois olha, eu gosto assim. Vamos?”

Todas nós já fomos a mulher que começou a escrever esta história. Todas nós podemos ser a mulher que a terminou.

#feminismonãoépalavrão