Quando eu era pequena…

Esta é Uma história…

Esta não é, definitivamente, a história da minha infância. Essa é muito feliz.

Mas esta é UMA história da minha infância que eu acho que preciso de contar.

 

Quando eu era pequena

Quando eu era pequena, eu apanhava, ocasionalmente. Não eram muitas vezes. Mas de vez em quando eu e o meu irmão… Nós apanhavamos.

Não sou traumatizada por isso. Não me sinto menos pessoa porque levei umas palmadas quando era miúda. Nada disso… Sobrevivi, como se diz por aí.

Mas se me perguntarem ‘Havia necessidade?’ Não, não havia necessidade alguma de me baterem.

Se me perguntarem ‘Lembras-te porque é que apanhavas?’ Tenho que responder que não. Com excepção de uma ocasião em particular em que a injustiça foi tão grande e os meios e palavras usadas foram tão violentos que não me consigo esquecer… Não. Realmente não me lembro das situações que me levavam a apanhar.

E se me perguntarem ‘Mas aprendeste alguma coisa sobre o certo e o errado nessa alturas? Fizeste alguma coisa diferente?’ Novamente tenho que responder que não. Se não me lembro porque é que apanhei, muito menos terei aprendido o que quer que seja sobre a rectidão dos meus comportamentos de acordo com o padrão de valores que se pretendia implementar em minha casa…

 

Aquela coisa que eu aprendi

Mas houve uma coisa que eu, infelizmente, aprendi.

Uma coisa que eu gostava muito, muito de não ter aprendido.

Eu aprendi que de vez em quando, só de vez em quando, não faz mal batermos nos nossos filhos.

E então, depois de ser mãe e mesmo tendo por dado adquirido que não seria ‘a mãe que bate nos filhos’, às vezes, só às vezes, quando eu ficava muito desesperada, muito assoberbada, muito descontrolada ou muito cansada… Eu batia no Martim. Não melhorava nada e ele não parava o que quer que estivesse a fazer por causa disso, mas eu batia no Martim.

E batia-lhe mesmo sabendo que um dia ele também não vai ter ideia de porque é que apanhou, que ele também vai achar completamente desnecessário ter apanhado e que ele vai conhecer, tal como eu, o tanto de nadas que se aprende sobre o certo e o errado quando se apanha.

E esse é… O melhor dos cenários. Porque se ele for como eu, se ele se lembrar como eu, mais do que sentiu nesses momentos do que do que aconteceu nesses momentos, talvez vá, também ele ter uma vozinha interior como eu tenho e que lhe diz que de vez em quando, só de vez em quando, não faz mal bater nos filhos. Para os corrigir. Para os disciplinar. Para os ensinar. Por amor.

É verdade. Sobrevivi. E, tal como eu como eu, ele vai, também sobreviver. E não vai amar-me menos por isso.

 

MAS (diz que há sempre um desses…)

Mas, a sério que a melhor justificação que conseguimos arranjar para fazermos ou não alguma coisa é a mera expectativa de que sobreviveremos, nós e eles, a isso?!

A sério que a MELHOR razão que conseguimos arranjar para fazermos ou não alguma coisa é o facto de ter sido ‘sempre assim’?

Será que não conseguimos melhor? Melhores razões, que seja? E será que é assim tão importante para nós mantermos tudo como sempre foi, apenas porque sempre o foi e se nós sobrevivemos também os nossos filhos sobreviverão?… Porquê?!

Ninguém duvida que os nossos pais fizeram o melhor que podiam e sabiam. Certamente não se sentirão feridos apenas pelo facto de não querermos imitá-los em tudo, nem isso limita o amor, a gratidão e o respeito que lhes temos…

Mas olhando para trás… De facto, eu lembro-me que, de vez em quando, apanhava. Mas, tirando isso, eu não me lembro de rigorosamente mais nada sobre apanhar.

Que raio de lição é essa?

Que raio de memória é essa?

Uma que eu não queria que os meus filhos tivessem… E que vou fazer por apagar ou, pelo menos, esbater.

Esta é a história da minha t-shirt (o cabelo do Miguel e o raio dos palpites)

Introdução

Esta é a história da minha t-shirt.

E para a introduzir pergunto: quem nunca teve vontade de dar um bom chega para lá num palpiteiro de plantão e dizer ‘poupe nos palpites que a mãe sou eu’?!

Eu sou muitas vezes acusada de ser ‘senhora da razão’ e, talvez porque isso tenha qualquer coisa de verdade, sou pouco tolerante a palpites não solicitados.

Sou ainda mais intolerante quando o tema são os meus filhos e é muito difícil apanhar-me a fazer ‘sorrisos amarelos’ nessas ocasiões. São meus, porra! Que mania de haver sempre um doutorado naquilo que se passa na minha casa e, muitas mais vezes do que consigo contar, no meu colo!

Mas o pior é quando os palpites passam a transgressões expressas da vontade dos pais.

Posso dizer-vos que foi de uma dessas transgressões que nasceu a minha t-shirt.

Sério.

Continuem comigo…

O cabelo do Miguel

Pouco depois do Martim completar um ano cortámos-lhe, pela primeira vez, o cabelinho. Guardei-o todo. Aqueles caracóis lindões de cabelo sedoso de bebé.

Claro está que nunca voltou a tê-los e muitas vezes dei por mim a suspirar por ter, talvez, cortado o cabelo dele cedo demais.

Com o Miguel decidi que não queria cair no mesmo ‘erro’. Só que o cabelo do Miguel não tem caracóis lindões. É só… louco. Muito louco. Comprido nuns sítios, inexistente noutros.

Mas ele também é um louquinho e por isso, mesmo perante investidas recorrentes do Mário para lho cortarmos, finquei pé e gritei aos quatro ventos que ninguém tocaria no cabelo louco do meu bebé ainda mais louco.

Disse-o ao Mário, vezes sem conta. Disse-o à minha irmã quando brincou ameaçando que iria buscar uma tesoura sem eu dar por nada. Disse-o vezes sem conta à minha mãe sempre que ela insistia no discurso do ‘coitadinho, que tem o cabelo nos olhos’.

Um belo dia de manhã o Mário pergunta-me: o que aconteceu ao cabelo do Miguel?

Ele tinha vindo de casa dos meus pais já a dormir no dia anterior, de pijama vestido e de gorro na cabeça, por isso, quanto a mim, não tinha acontecido nada.

Mas aconteceu.

Aconteceu a minha mãe decidir, não só por mim como contra mim, dar uma tesourada na franja do Miguel. Bem torta, bem rente à testa, para ter certeza que cabeleireiro algum no Universo poderia consertar. Bem às escondidas. Bem… mal.

Da raiva ao papel, do papel ao algodão

Fiquei furiosa.

Fiquei furiosa muitos dias.

Furiosa a ponto da insónia.

Ainda fico, um pouco, quando penso que não vou guardar o primeiro cabelo cortado do meu bebé, porque alguém decidiu passar-me por cima e fazer o que entendeu melhor para ele quando não tinha que entender coisa nenhuma.

Bolas, não me interessa o que acham melhor para os meus filhos! Só há duas pessoas cuja opinião pesa quanto a isso: a minha e a do pai. Fim.

Na noite da insónia peguei no telemóvel (ainda antes da regra modo avião) e escrevi ‘a mãe sou eu’.

Mas o telemóvel não é sensível à raiva como uma caneta a pressionar o papel…

Por isso no dia seguinte quando me apanhei de papel e caneta em punho escrevi novamente ‘a mãe sou eu’. Em minúsculas, em maiúsculas. Em hastag.

Mas porque é que as pessoas não guardam para si o que pensam que é melhor? Porquê? Porque raio não poupam nos palpites que ninguém lhes pediu? Nas acções que ninguém lhes encomendou?

E fui escrevendo…

No final sobrou o que lêem na minha t-shirt.

‘Poupe nos palpites
#amãesoueu’

Apeguei-me rapidamente à ideia de passar a mensagem sem falar.

Daí a procurar uma empresa que estampasse o meu apelo desesperado para eu ostentar sem ter que ser (demasiado) desagradável com ninguém foi um piscar de olhos.

E cá está ela.

Esta é a história da minha t-shirt.

Gostam?

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Esta é a história do Miguel – Ou daquele tempo em que fui ‘mãe solteira’

Esta é, finalmente, a história do Miguel.

A história que faltava foi a mais dura de escrever. Mas com a chegada do novo ano, arrumei as desculpas e aqui está ela, com toda a honestidade que sei que tem que ter. E dura como a sinto.

Tal como a do Martim, a história do Miguel começa antes dele mesmo. Na minha cabeça. Na minha vontade. Nas circunstâncias em que o concebi, criei, imaginei, sozinha, comigo mesma.

E tal como o Martim, o Miguel chegou no mais inoportuno dos momentos…

Relações têm altos e baixos, não é segredo para ninguém. A minha não é excepção. Mas confesso que não esperava que o ano mais difícil de uma relação pudesse ser aquele que se segue ao casamento. Contudo, e porque estas coisas não se escolhem, para nós foi assim mesmo.

Sabem aquelas chamadas de má qualidade em que um não consegue ouvir o outro e este, por sua vez, entende mal e gera-se uma discussão por coisa nenhuma? Pois. Não foi nada disso. Nós éramos, simplesmente, dois telefones sem rede. Estranhos debaixo do mesmo tecto. Sem assunto que não o nosso filho. Aparentemente, sem caminho de volta um para o outro.

Mas, mesmo com tudo o que corria mal (ou, por outra não corria, para lado nenhum), eu sabia no fundo de mim que queria voltar a ser mãe.

Inevitavelmente, multiplicaram-se cenários na minha cabeça com um a sobrepor-se aos demais: e se eu engravido apenas para nos separarmos a seguir?

Quereria eu viver e enfrentar essa realidade de ser, mais do que essa patetice de ‘mãe solteira’ (não sei quem inventou este rótulo social, ou quem o carregou de sentido pejorativo, mas espero que tenha tido uma longa e dolorosa vida), mãe a meias?

Porque separar-nos, tendo filhos, representa para mim muito mais do que a dor emocional de um casamento que termina e, por isso, de um projecto de vida que falha. Representa sobretudo, se tudo correr bem e na melhor das hipóteses, perder metade das noites, metade dos dias, metade dos fins-de-semana, metade das férias, metade das festas, metade das conquistas, metade dos nossos filhos

Seria capaz?

Seria. A questão ainda não tinha terminado de se colocar na minha mente e a resposta já estava a ser gritada. Eu queria ser mãe outra vez, a melhor mãe possível nas circunstâncias que tivesse em cada momento e independentemente delas.

Então resolvi predispor-me a alcançar o que queria. Informei o Mário que deixaria de tomar a pílula a partir da data x. A partir daí, se ele não quisesse o mesmo que eu, que tomasse ele as devidas providências (foi assim mesmo. atendendo à nossa realidade da altura foi o máximo que consegui em termos de comunicação. uma merda, eu sei, mas na altura não deu para mais).

Fui a uma consulta de planeamento. Sozinha.

Na sequência dela, comecei a treinar com a Maria, como contei aqui.

Dois meses depois o Miguel não vivia mais só na minha imaginação.

Era real.

E foi muito difícil, mas resolvemos a nossa falta de rede. Hoje o Mário não faz ideia do que eu falo quando lhe lembro que estivemos em maus lençóis (true story, parece uma Dori dos maus momentos o meu marido).

Já eu faço por não me esquecer.

Aquele ano ensinou-me muito sobre quem sou e não sabia.

Que tudo o que sabe a fel nas nossas vidas seja assim.

Esta é a história de quase todas as fotografias com os M’s

Esta é a história de 99% das fotografias que tento tirar aos meus pequenos M’s.

Começa mais ou menos assim: um dia bonito, eu sozinha com eles ou eles a serem extremamente fofos numa situação qualquer.

Nesta história, o caso foi o primeiro.

 

 

 

 

 

 

Fomos até Cacilhas porque o Martim gosta muito de olhar para o rio. Eu gosto de os levar. Lembra-me de apreciar os pequenos prazeres da vida que tantas vezes temos como certos (qual foi a última vez que pararam para, simplesmente, olhar para o rio e comentar a cor da água ou os barcos ao longe?).

Os M’s estavam bem dispostos e divertidos e entretinham-se um com o outro. O Martim era um ninja do fogo e tentava trepar por uma grade e balançar num estacionamento de bicicletas.

O Miguel era, também, um ninja. Não importa do quê. Era um ninja porque é, desconfio, esse o seu alter-ego natural. Ninja (deus me ajude!). E porque é um ninja, o Miguel imitava o irmão.

Não ia perder a oportunidade. Telemóvel fora do saco e toca de tentar apanhar os meus lindos ninjas bem dispostos.

Foi mais ou menos assim:

«Martiiiim! Migueeeel! Olhem para a mamã!

 

 

 

 

 

 

Vá, outra vez! Olhem para a mamã!

 

 

 

 

 

 

 

 

Ok, esta ficou boa! Ah não… desfocada. Já agora aproveito e ponho-me um pouco mais contra o sol, que, se calhar, neste ângulo não se vê bem aquelas carinhas larocas.

Meninos! Meninos!

 

 

 

 

 

 

 

Vá Martim… Põe-te lá só um pouquinho ao pé do teu irmão… Faz lá esse favor à mãe!

 

 

 

 

 

 

Isso, mas agora sem o dedo no nariz, ok?

 

 

 

 

 

 

Boa, assim mesmo Tim, fica assim. Miguel!! Olha para a mamã!

Miguel não! Assim não! Vais cair! Miguel! MIGUEL!!!»

 

 

 

 

 

 

…Caiu. Claro.

Chorou. Claro.

Sangrou da boca. Claro.

E eu? Continuei sem a minha foto. Claro.

Bom, ao menos estava um dia bonito…

Esta é a história do Martim – Ou de como não ‘nasci para ser mãe’

Esta é a história do Martim, o filho que eu nunca quis ter.

Calma… Permitam-me que me explique.

O facto é que não nasci para ser mãe. Nunca tive a menor empatia com bebés ou crianças. Nunca fui a menina que acarinha os bebés da família como os seus bonecos. Não. Os meus bonecos eram óptimos justamente porque eram bonecos e podia largá-los assim que me fartasse deles. Lembro-me de que na adolescência, quando comecei a frequentar aulas de danças brasileiras e até tinha jeito para aquilo, ganhei uma espécie de fã, com metade a minha idade. E só Deus sabe o que eu fazia para me esquivar de todo aquele amor inocente e, na minha opinião à época, francamente peganhento.

Não nasci para ser mãe. Sempre assumi isso como natural. Como apenas mais uma coisa sobre mim. Não achei que tivesse perfil para estar à disposição de alguém de forma tão ilimitada. Incondicional. Sempre achei que ser independente pressuporia uma liberdade de movimentos incompatível com a parentalidade. Mais do que achar que não tinha qualquer vocação ou instinto maternal (o que quer que isso seja), eu não tinha a menor vontade de ser mãe.

Com o tempo e o chegar da idade adulta, dei por mim a abrir-me a essa possibilidade, não porque a vontade que sempre faltou me tivesse invadido o espírito de forma avassaladora, mas porque, por convenção social ou outra coisa qualquer muito errada da mesma índole, convenci-me de que seria parte do ‘curso natural das coisas’.

Curso terminado. Trabalho na área. Relação longa. Casa comprada. Parecia relativamente inevitável.

Mas não era.

A relação longa terminou. A casa deixaria, a seu tempo, de ser minha. E foi no meio deste turbilhão de mudanças profundas em tudo o que eu tinha por (mais ou menos) certo na minha vida, numa rua de Lisboa, prestes a entrar num restaurante para mais uma longa discussão sobre uma relação já declarada morta, que olhei para o outro lado da estrada e vi. Na prática, era apenas uma mulher em apuros, como tantas outras, a empurrar um carrinho de bebé pela calçada esburacada abaixo, esforçando-se por se manter equilibrada, concentrada, acordada até. Mas na minha cabeça era eu. Eu queria aquilo. Eu queria ser aquela mulher em apuros. Com bebé, com carrinho, com olheiras, com tudo o que tinha direito. Eu queria ser mãe. Como podia alguma vez não ter querido?

Parece absurdo mas foi assim. De um momento para o outro e no mais ilógico do Mundo para pensar num bebé como o próximo passo. Foi assim que nasceu, não o Martim, mas o ideal de Martim. O meu bebé perfeito.

 

E é por isso que esta é a história do Martim, o filho que nunca quis ter…

Até perceber que queria.

Esta é a história da minha mãe – Ou da dicotomia ter/ser mãe

Esta é a história da minha mãe.

Ou melhor, é a história da minha relação com a minha mãe, porque a dela, propriamente dita, é mais longa do que o tempo e o espaço alguma vez me permitiriam escrever num blog.

Há uma diferença substancial entre as comparações que fazemos com a nossa mãe antes e depois de sermos, nós próprias, mães.

Tantas frases começadas por ‘Quando for mãe, jamais…’, se transformam em ‘É a única maneira de…’. Tantas situações em que pensávamos que seríamos iguais às nossas mães nas quais verificamos hoje que não podemos ser mais diferentes…

No meu caso, dou comigo muitas vezes a pensar que a minha mãe foi óptima no papel de mãe da criança que fui mas foi tendo cada vez maiores dificuldades em adaptar-se à mulher em que essa criança se foi tornando, mesmo sendo eu exactamente o produto de tudo o que ela me quis ensinar.

Exemplifico:

A minha mãe educou-me para ser uma mulher independente e não precisar de homem nenhum. E conseguiu. Só não contemplou a possibilidade de eu, não precisando, querer partilhar a minha vida… E poder fazê-lo nos termos em que entender, justamente porque sou independente, como ela sonhou. Ser emocionalmente dependente (não no sentido de não conseguir viver sem, mas no do infinito reconforto interior que traz chorar no ombro de quem gostamos), é algo que me traz tranquilidade, que me ajuda a ser um pouco mais eu, que me ensina coisas sobre mim. Custa-lhe, eu sei. Nunca homem algum estará à altura da mulher de ‘cabeça boa’ que ela criou. Mas foi ela que me criou assim e eu agradeço.

A minha mãe educou-me para pensar pela minha própria cabeça, sempre. Mais uma vez, com sucesso. Sucede que estamos longe de ter feitios parecidos e ‘pensar pela minha própria cabeça’ é, 90% das vezes, pensar diferentemente dela. E, porque a minha mãe ainda quer tomar conta de mim e conduzir a criança que educou pelo bom caminho, ao invés de apreciar a adulta em que me tornei com sensação de dever cumprido, a nossa relação é muitas vezes conflituosa. Outras boa. Outras inexistente. E também isso lhe custa, bem sei. Mas foi também ela que me criou assim e eu agradeço.

A minha mãe educou-me para ser bem sucedida. E eu fui. A melhor aluna. A melhor tudo aquilo que ela achou por bem colocar-me a fazer. A melhor. Hoje eu sou aquilo que pode chamar-se de profissionalmente bem sucedida mas não sou, como já tenho confessado aqui e ali, a melhor. Porque ser a melhor tem implicações que não estou disposta a encarar. A melhor tem que ser um pouco menos mãe do que eu me imponho ser. A melhor tem que ser um pouco menos companheira do que eu me imponho ser. A melhor tem que abdicar de pedaços de alma. Ela é minha! Não quero abdicar dela. Não quero ser a melhor. Quero ser feliz. E isso implica contentar-me em ser, muitas vezes, média ou média/alta. Mas não a melhor. E foi ela que me criou assim, porque continuo a querer ser a melhor e a usar de toda a garra e preserverança que ela me ensinou… Noutras coisas. E eu agradeço.

Como venho percebendo, às vezes, ter mãe, com todos os desejos que qualquer comum mortal tem de agradar à sua mãe e de ser para ela motivo de orgulho, torna-se incompatível com a mãe que queremos ser para os nossos próprios filhos. Mais do que as comparações que fazíamos e que se estilhaçaram com o nascimento do nosso primeiro bebé, lidar com as expectativas da mãe que temos e com as expectativas que temos para a mãe que somos, pode ser um quebra-cabeças complicado de resolver.

Para mim, tem sido.

Para ela, também.

Mas só tem quebra-cabeças destes para resolver quem tem a sorte de ter a mãe por perto.

E eu tenho.

E por isso hoje, que é o seu aniversário, quero dar-lhe este presente:

Mãe, descansa. Fizeste um bom trabalho. 

Esta é a história do Mário – o primeiro M a entrar na minha vida

Prometi contar histórias e esta é uma das obrigatórias.

Esta é a história do Mário. O primeiro M a entrar na minha vida. E a história do Mário não é dele, é nossa.

É difícil escrevê-la e tem levado vários dias. Acho que chamar-lhe ‘história’ tem subjacente a ideia de que tenho que lhe dar um fim e que de alguma forma isso me deixa desconfortável. Lembrei-me, então, de escrevê-la primeiro em papel. É em papel que se escrevem as melhores cartas de amor…

Não vou contar como foi amor à primeira vista e como sempre soubemos estar destinados um ao outro. Não foi nada disso.

Aliás, o nosso ‘à primeira vista’ aconteceu depois de nos vermos muitas e muitas vezes. Crescemos no mesmo lugar, rodeados das mesmas pessoas, frequentando as mesmas escolas.

E apesar de não haver amor no nosso ‘à primeira vista’ ele teve qualquer coisa de ‘para sempre’.

O primeiro beijo, arranquei-lho eu. A primeira lágrima, ele a mim. Não era para ser. Não naquele lugar do tempo. Não naqueles 19 anos apaixonados que eram os meus.

Cada um foi para seu lado, não sem olhar muito para trás por cima do ombro e esperámos. Esperámos sem saber que esperávamos. Aprendemos sem saber com que propósito. Crescemos, mas não deixámos de ser aqueles dois jovens obstinados a inventar figuras nas nuvens e a perseguir pores do sol. Vimos muitos, acompanhados de outras pessoas. Vivemos outras vidas. Passaram oito anos.

Até que… A mesma sensação. O mesmo arrepio na espinha. Reconheci-o pelo cheiro quando passou furtivo nas minhas costas. Pela voz quando falou sem ser para mim. Um novo ‘à primeira vista’, um renovado ‘para sempre’. Desci do salto. É agora.

O segundo primeiro beijo arrancou-mo ele. A segunda primeira lágrima não lembro mais. Vivemos em poucos meses aqueles oito anos perdidos noutra Era.

‘Faz acontecer que eu faço valer a pena’. É o que dizem as solas dos sapatos com que casei. Com ele. O amor da minha vida.

Descobri entretanto que não é assim que funciona um casamento. Nada é assim tão certo, tão previsível tão contundente. Tudo é meio, cedência, compromisso. Raramente é tudo ou nada, preto ou branco, comigo ou contra mim. É muito mais q.b.. Vários cinzentos. Juntos.

E é por isso que já não ‘ouço’ as solas dos sapatos com que casei. É por isso que hoje eu faço acontecer só na maior parte dos dias e é só na maior parte dos dias que ele faz valer a pena.

Os outros… São ajustes.

E connosco… Connosco é amor.

Esta (ainda) não é a história do Miguel

 

Lá chegaremos, a seu tempo.

Mas o Miguel fez ontem dez meses e isso é digno de nota.

Assinalando os dez meses

Podia descrever o seu sorriso desdentado de cabeça jogada para trás e nariz franzido. Ou a maneira como se lamenta com sons perfeitos sem reproduzir uma única palavra. Podia falar de como já anda e nos faz suar atrás dele. Da sua veia futebolista e da sua outra paixão, o alpinismo. De como isso nos faz andar constantemente em alerta vermelho. Das ameaças do pai contra a mobília sempre que esta agride o bebé. De como os seus olhinhos ávidos balançam sempre que avistam comida, qualquer uma. De como é saudável e perfeito.

Indo onde os pés me levarem (que eu ainda não controlo isto muito bem)
Challenge accepted

 

 

 

Mas o Miguel fez ontem dez meses e isso é digno de nota. O resto pode esperar.

Esta é a história de como tudo começou

Estávamos em Março de 2014 e eu tinha acabado de voltar ao trabalho depois de ter sido mãe pela primeira vez. Gostava do que fazia e nunca me ocorreu fazer ou, sequer querer um dia fazer outra coisa. Mas sair de casa todos os dias, deixando para trás o meu bebé com cinco meses, tornou o meu trabalho uma tortura, um pesadelo, uma morte lenta e dolorosa durante a qual eu contava cada segundo que faltava até ser aceitável sair dali a correr e voltar para o meu pequenino.

Nessa época subscrevi todos os motores de busca de emprego que conhecia.

Nessa época inscrevi-me junto de todas as empresas de recrutamento de recursos humanos da minha área de que alguma vez ouvi falar.

Nessa época criei uma conta no site da Santa Casa da Misericórdia.

Nessa época… Nessa época chorava todos os dias (e agora, ao lembrar-me dessa época, também).

E percebi que até podia continuar a gostar do que fazia, mas o meu papel no Mundo tinha mudado e o que eu fazia já não era suficiente. Eu era mãe. Eu era e queria ser principalmente mãe e só depois outras coisas, designadamente profissional bem sucedida.

O tempo foi passando, a dor acomodou-se num cantinho de mim e foi falando mais baixinho, mas nunca se calou…

Passaram quase quatro anos e ainda trabalho fora de casa, no mesmo sítio, a fazer a mesma coisa, de que ainda gosto, mas que não voltou a realizar-me do mesmo modo. De vez em quando a dor torna-se um pouco mais sonora, um pouco mais incómoda, para depois se aquietar novamente.

Há uns dias tornou-se insuportável ao ponto da insónia.

Por isso, desta vez, só desta vez, ao invés de a calar e voltar a calcá-la para aquele cantinho onde não consigo ouvi-la tão bem, decidi escrevê-la.

E assim nasceu o Entre M’s – Histórias de uma mãe como tu.