Ando a perder qualquer coisa… – ainda as manhãs

Spread the love

No meio de todos os meus hercúleos esforços para ligar a minha conta de instagram ao blog – os quais, basicamente, materializam todas as minhas tentativas de fazer o que quer que seja que implique os mínimos olímpicos de domínio de informática – dei comigo perdida em postagens antigas das minha manhãs com o Martim.

E ali, perdida em fotos antigas, pensei que era isso mesmo o que sentia: que ando a perder qualquer coisa.

Nessas manhãs em que éramos só eu e ele, acordávamos cedinho os dois e havia tempo para tudo. Arranjávamo-nos na preguiça e enrolávamo-nos no sofá a ver bonecos nas manhãs mais frias. Que bem que me sabiam aqueles miminhos de mãos pequeninas!

Sobretudo, havia sempre tempo para brincar. Na sala ou no quarto, espalhávamos o que lhe apetecesse nesse dia e brincávamos os dois. Eu fazia-lhe bonecos de plasticina que, mal terminados, tinham que se transformar noutra coisa. Montávamos os carris do comboio de lego para o ver andar… e descarrilar. Fazíamos corridas de carrinhos em pistas imaginárias feitas de almofadas e franjas de tapete.

Às vezes, só às vezes, quando ele acordava demasiado cedo, usava das minhas melhores técnicas de flexibilidade para me deitar na cama de grades com ele. E lá ficávamos os dois, até que pelo menos o sol nascesse e chegasse de mansinho uma hora decente para se estar a pé.

Engravidei do Miguel. A agilidade com que me esgueirava para dentro da caminha de grades evaporou à medida que a barriga crescia. O cansaço tomou conta e começou a ser difícil sentar-me no chão com o Martim tanto tempo. Houve dias de análises e dias de consultas matinais em que não foi possível brincar ou acompanhá-lo à escola. Tempo que nos foi roubado, embora por ninguém.

O Miguel nasceu. Apesar de tudo o que exige um recém-nascido eu estava em casa e os meus horários eram apenas os dele. Havia tempo. Passado o primeiro mês, levava o Martim à escola de metro, sem pressa, e voltava com o Miguel, muitas vezes a pé. Pelo caminho contávamos histórias, observávamos as flores, víamos as pessoas nas suas vidas atarefadas e falávamos sobre tudo e sobre nada. Chegada a casa passava horas com o Miguel ao colo a vê-lo dormir e passeávamos sempre que havia bom tempo.

Mudámos de casa. E de alguma forma parece que mudámos de relógio também, porque o nosso tempo nunca mais foi o mesmo.

A sensação que tenho é que passava muito tempo de qualidade com o Martim antes de nascer o irmão e até voltar a trabalhar após a licença e que agora passo muito pouco com qualquer dos dois. Juntos, acordam mais tarde. Entre pequenos-almoços, fraldas e dentes por lavar já não brincamos. E à noite, entre banhos, jantares e o dia seguinte para preparar, a verdade é que também não. 

Estou sempre cansada. Sempre atrás do relógio. Chateio-me mais. O Martim não percebe e sei que se sente a desiludir-me. O Miguel também não percebe, embora por outras razões, mas já arregala os olhos e fica muito quietinho a olhar para mim quando me aborreço.

Ando a perder qualquer coisa. E ‘qualquer coisa’ é cada vez maior. E ‘qualquer coisa’ cresce de forma inversamente proporcional à minha vontade de perder o que quer que seja.

Não quero perder pitada deles.

Não quero ser ‘a mãe cansada demais para brincar’.

Não quero ser ‘a mãe que grita’.

E não quero fazer de conta que eles têm culpa disso.

Só quero as nossas manhãs de volta…

Facebook Comments

3 thoughts on “Ando a perder qualquer coisa… – ainda as manhãs

  1. Olá…

    É isso mesmo que ainda não me motivou para um segundo filho por mais vontade que tenha.

    Com o meu filhote agora o tempo é tão curto… chego a casa as 19:00h e ele vai para a cama as 21:00, a intensidade daquelas duas horas é muita mas ás vezes estamos ambos cansados… e a casa vai ficando para trás também… com dois não sei como seria… ele tem dois aninhos, vou esperar mais um pouco 🙂 acho eu…

    Beijinhos
    https://atitica.wordpress.com/

    1. Olá Andreia,
      Por aqui a casa já ficou para trás há muito tempo :).
      E há, sim, dias em que as actividades não cabem no tempo e tudo nos parece demasiado e temos uma mini depressão.
      Mas eles sorriem e brincam e mimam-se um ao outro e é tão bom vê-los juntos que o tempo curto acaba, na maior parte dos dias, por tornar-se um mal menor.
      Havendo vontade e amor para dar… O resto resolve-se (ainda que nuns dias melhor do que noutros).
      Beijinhos!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *