Amamentação – Uma ajuda que não chegou

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A amamentação é daqueles temas incontornáveis da maternidade em que toda a gente tem uma palavra a dizer.

Ultrapassemos a tonta e pseudo polémica da amamentação em público: gente, é só uma mama, get over it (é, cada vez mais e verdadeiramente, apenas isto que tenho a dizer sobre o assunto).

Hoje queria falar-vos de outra coisa. Das minhas experiências de amamentação, infelizmente tão similares, com o Martim e o Miguel.

E a razão pela qual quero falar disto é perfeitamente egoísta. É que ainda não consigo abordar o tema sem chorar e tenho uma (agora já não tão) secreta esperança de que escrever sobre o assunto me ajude a lidar com estes meus fantasmas.

Foi assim:

Passei, como quase todas as grávidas, nove meses (x2) a ouvir sobre a importância da amamentação e todos os seus incontáveis benefícios para mãe e bebé.

Independentemente de tudo isso, e porque amamentar ou não e em que circunstâncias é, no fim do dia, uma escolha estritamente pessoal, eu queria amamentar.

Reconheço que, com o Martim, não estava preparada para o quanto seria doloroso. A sensação era a de que estilhaços de vidro me circulavam no peito cada vez que dava mama. Chorei. Muito e muitas vezes ao dar de mamar. Tornou-se tão insuportável que tive que recorrer a mamilos de silicone. Para piorar, tive que adivinhar que o Martim era o único bebé à face da Terra que não suportava o gosto desse milagre que é a pomada Pureland e que era por isso que se recusava, tantas vezes, mamar.

Entre os meus traumas e os dele, e não obstante os meus esforços, o leite foi secando.

Mas também apesar dos meus traumas e dos dele, quando nasceu o Miguel eu não tinha a menor dúvida de que queria fazer tudo outra vez: continuava a querer amamentar.

Na primeira consulta e ainda durante os primeiros quinze dias do Miguel disseram-me que ele não tinha recuperado o peso à nascença e que teria que lhe dar fórmula. Recusei. Se ainda não tinha passado o tempo dentro do qual ele poderia recuperar esse peso eu não ia fazer absolutamente nada senão alimentá-lo com o meu leite.

Dois dias depois, tinha ganho 100g.

O tempo foi passando e os ganhos de peso do Miguel tornaram-se irregulares. O medo levou-me a ceder às insistências de lhe dar suplemento e, entre a facilidade da tetina e o trabalho que lhe dava sugar o meu leite, o Miguel rapidamente me substituiu definitivamente pelo biberão.

Não gostei, obviamente, do rumo que as coisas tomaram em ambos os casos, mas o que mais me desagradou, foi o profundo desamparo que senti naquilo que eram as minhas intenções e a minha vontade de mãe: amamentar os meus filhos.

Acredito que todos os bebés sabem mamar como acredito que todas as mães sabem amamentar. Mas às vezes uns e outros precisam de um empurrãozinho.

Que a mim me faltou.

Ao invés do reconhecimento do meu desejo e do apoio na sua concretização prática assisti antes à desconstrução, demasiado ligeira e demasiado rápida, na minha opinião, de todo aquele discurso sobre os benefícios e a importância da amamentação.

De repente, afinal, já não era assim tão importante e nenhum bebé morria ou se desenvolvia pior por ser alimentado a fórmula.

Eu compreendo que aqueles profissionais de saúde estavam somente a tentar zelar pela minha, nomeadamente mental, ao não querer que me sentisse incapaz ou menos mãe por não estar a conseguir amamentar com a eficácia desejável. Mas o que me parece que não compreenderam, não obstante o ter dito muitas vezes, é que eu não precisava de consolo. Só de ajuda.

Uma ajuda que não chegou.

Ambos os meus filhos são saudáveis. Alimentam-se bem e o seu desenvolvimento é óptimo.

Sucede que essa nunca foi a questão.

Eu era apenas uma mãe que queria amamentar.

E isso ainda me dói na memória.

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