A pedagogia da palmada

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Spoiler: nenhuma. A pedagogia inerente a bater nos nossos filhos é essa, nenhuma.

Confessei-vos recentemente aqui que dei uma palmada ao Martim e também aqui que a situação não anda fácil com os ciúmes. Não foi a primeira que lhe dei na vida, embora consiga contar as ocasiões em que o fiz.

Talvez por isso, e também porque uma palmada no Martim hoje, implica um Miguel a ver, tentei fazer um exercício mental e recuar à primeira palmada que saiu das minhas mãos. Porque o fiz e o que resultou daí.

Fi-lo por falta de outros recursos enquanto mãe. Porque o desespero e o nível de ‘não sei que mais fazer’ me conduziram até aí. Fi-lo provavelmente pela mesma razão que o Martim teve o comportamento que a motivou: frustração.

Na prática funcionou. O comportamento cessou. Mas nenhum de nós se sentiu melhor com isso. Pior, a necessidade por detrás do comportamento não foi, certamente, satisfeita.

Porque é disso que se trata, não é? De curar à palmada a nossa incapacidade de perceber qual das necessidades dos nossos filhos está a levá-los a agir de determinada maneira, incorrecta aos nossos olhos.

O que me leva ao Miguel. Tem um ano e jamais nos passou pela cabeça dar-lhe uma palmada por mais disparates que faça e por mais tempo que chore. Porquê?

Porque ele não fala.

É isso, no fundo. À medida que os nossos filhos aprendem a expressar-se verbalmente, facilitando-nos a vida no que toca a descobrir o que se passa com eles e de que maneira podemos ajudá-los a ultrapassar isso, vamos desdenhando aquilo que ainda nos comunicam (e que é tanto!) de forma não verbal.

Deixamos de ver razões para nos questionarmos sobre a necessidade por detrás do comportamento e passamos a concentrar-nos em pará-lo ou mudá-lo. É aí que entram – mal – as palmadas.

E não me lixem com a conversa ‘eu também apanhei e não me fez mal nenhum’. Fez sim. O simples facto de alguém abrir a boca para soltar uma frase dessas é prova cabal disso. Quanto mais não seja, fez de nós pessoas que acham normal maltratar os filhos a pretexto de os ‘educar’.

Eu também apanhei, como quase todas as crianças da minha geração. Se isso me traumatizou? Não. Seguramente também não me matou, caso contrário não andaria por aqui a escrever estas linhas.

Mas sabem do que me recordo dessas ocasiões? Duas sensações apenas: medo e desapontamento. Fiz e deixei de fazer muitas coisas por ‘medo de apanhar’ e não porque tivesse alguma convicção sobre o certo e o errado delas. E o desapontamento… A minha mãe, que era a minha heroína, desferia um rasgão na sua capa mágica sempre que me batia ou ao meu irmão. E o meu pai, que raramente nos dava esse tipo de correctivos, causava-me tal espanto e desilusão quando o fazia que mais valia atirar-se do precipício da minha consideração por ele.

Não. Talvez não me tenha feito mal nenhum no sentido de que não me deixou marcas físicas.

Mas também não posso encher o peito de orgulho e dizer que me fez bem, não é verdade? Não aprendi nada. Não me recordo sequer dos motivos por que apanhei. Só dessas duas sensações: medo e desapontamento.

Por que raio quereria isso para os meus filhos?

Eles são nossos, mas não são propriedade nossa. Estão ao nosso cuidado. Para que façamos deles as melhores pessoas que conseguirmos.

Que mais-valia trazem as palmadas para essa hercúlea tarefa? É consultar o spoiler inicial: nenhuma.

Por isso, se não pelos nossos filhos, pelo menos pelos nossos netos, de quem vamos um dia sentir tanta peninha de ver levar uma palmada apesar de termos contribuído para normalizar essa conduta: paremos (e chamemos-lhe ‘resolução de ano novo’ se isso nos fizer sentir melhor).

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