A maldição do segundo filho

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Quem diz do segundo, diz do terceiro, do quarto e de quantos tivermos coragem e vontade de ter.

Facto é que o segundo filho nasce já com uma pequena chaga que dificilmente irá, algum dia, sarar. Pior, transmite-se, por via aérea, ao primeiro. Pode piorar ou melhorar várias vezes consoante o estado de espírito dos pais e demais familiares ou até mesmo em função da relação que com eles tenham os intervenientes, mas sarar… Nunca.

Falo de comparações.

Ainda o segundo filho não nasceu e já nós comparamos, querendo ou sem querer, a gravidez que temos com a que tivemose.

Mal o segundo filho nasce e já não é só a cara da mãe ou do pai, mas fatalmente ‘mais parecido com a mãe ou o pai do que o irmão’.

E a partir daí são infindáveis as possibilidades: com esta idade o Martim já não mamava; o Miguel começou a andar mais cedo do que o irmão; o Martim aprendeu a falar muito antes; o Miguel é mais traquina…

Eu própria já os comparei, aqui mesmo, no Entre M’s (aqui, aqui e aqui).

Na maioria das vezes, e independentemente de como em concreto o verbalizamos, a comparação é apenas instintiva e não queremos, verdadeiramente, comparar os nossos filhos um com o outro, num sentido em que um sobressai, de forma positiva face ao outro, mas antes e somente a nossa experiência enquanto pais numa e noutra situações.

E apesar de ser, em abstracto, um fardo pesado para duas crianças que vivem sob o mesmo tecto, as comparações podem, sim, ser inócuas. Podem, sim, não contribuir de forma nociva para o desenvolvimento de qualquer dos nossos filhos (não sejam as elas demasiado frequentes, demasiado deliberadas ou abertamente depreciativas para um deles…).

Mas quando, enquanto pais, estranhamos as diferenças entre os nossos rebentos argumentando com frases do género ‘como é que é possível? Criados da mesma maneira…’ iludimo-nos. Não foram criados da mesma maneira, mesmo que achemos ter feito todos os esforços nesse sentido. Pois se um já foi filho único, outro não conhece o que é viver sem um irmão. Se um teve pais de primeira viagem, com tudo o que isso implica, o outro beneficia de uma maior experiência. E se por acaso o primeiro teve algum problema de saúde ou alguma dificuldade de adaptação particularmente marcante para os pais, isso reflectir-se-á inevitavelmente na forma como tratarão o segundo em situações semelhantes.

Em suma, todos temos memória (e memórias). As comparações que fazemos entre eles têm a sua raíz em nós. Nós não somos os mesmos pais num primeiro e num segundo filho. Não seremos, quiçá, sequer as mesmas pessoas. E isso não tem que ser mau.

A ‘maldição’ não tem que ser má.

Se tivermos presente que comparamos nada mais do que as nossas próprias experiências parentais e não, necessariamente, os nossos filhos entre si, comparar deixa de ser uma vivência frustrante para todos e pode, na verdade, ser vista como uma oportunidade.

Para sermos pais mais aptos a tirar o melhor partido das qualidades únicas que cada um dos nossos filhos traz consigo. Para sermos mais ágeis a extrair delas ensinamentos valiosos. Para nos tornarmos melhores pais. Para os dois, mas à medida de cada um. Mesmo com comparações.

Essa maldição…

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