Esta é a história do Martim – Ou de como não ‘nasci para ser mãe’

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Esta é a história do Martim, o filho que eu nunca quis ter.

Calma… Permitam-me que me explique.

O facto é que não nasci para ser mãe. Nunca tive a menor empatia com bebés ou crianças. Nunca fui a menina que acarinha os bebés da família como os seus bonecos. Não. Os meus bonecos eram óptimos justamente porque eram bonecos e podia largá-los assim que me fartasse deles. Lembro-me de que na adolescência, quando comecei a frequentar aulas de danças brasileiras e até tinha jeito para aquilo, ganhei uma espécie de fã, com metade a minha idade. E só Deus sabe o que eu fazia para me esquivar de todo aquele amor inocente e, na minha opinião à época, francamente peganhento.

Não nasci para ser mãe. Sempre assumi isso como natural. Como apenas mais uma coisa sobre mim. Não achei que tivesse perfil para estar à disposição de alguém de forma tão ilimitada. Incondicional. Sempre achei que ser independente pressuporia uma liberdade de movimentos incompatível com a parentalidade. Mais do que achar que não tinha qualquer vocação ou instinto maternal (o que quer que isso seja), eu não tinha a menor vontade de ser mãe.

Com o tempo e o chegar da idade adulta, dei por mim a abrir-me a essa possibilidade, não porque a vontade que sempre faltou me tivesse invadido o espírito de forma avassaladora, mas porque, por convenção social ou outra coisa qualquer muito errada da mesma índole, convenci-me de que seria parte do ‘curso natural das coisas’.

Curso terminado. Trabalho na área. Relação longa. Casa comprada. Parecia relativamente inevitável.

Mas não era.

A relação longa terminou. A casa deixaria, a seu tempo, de ser minha. E foi no meio deste turbilhão de mudanças profundas em tudo o que eu tinha por (mais ou menos) certo na minha vida, numa rua de Lisboa, prestes a entrar num restaurante para mais uma longa discussão sobre uma relação já declarada morta, que olhei para o outro lado da estrada e vi. Na prática, era apenas uma mulher em apuros, como tantas outras, a empurrar um carrinho de bebé pela calçada esburacada abaixo, esforçando-se por se manter equilibrada, concentrada, acordada até. Mas na minha cabeça era eu. Eu queria aquilo. Eu queria ser aquela mulher em apuros. Com bebé, com carrinho, com olheiras, com tudo o que tinha direito. Eu queria ser mãe. Como podia alguma vez não ter querido?

Parece absurdo mas foi assim. De um momento para o outro e no mais ilógico do Mundo para pensar num bebé como o próximo passo. Foi assim que nasceu, não o Martim, mas o ideal de Martim. O meu bebé perfeito.

 

E é por isso que esta é a história do Martim, o filho que nunca quis ter…

Até perceber que queria.

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