Sinais do Natal III – a chegada do Miguel

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É até injusto o título deste post. O Miguel não é UM sinal do Natal. O Miguel é O sinal do NATAL.

Em 15 de Dezembro de 2016, faz hoje precisamente um lindo, maravilhoso, mágico e único ano, em hora de ponta, como o irmão, sem esperar o pai chegar a casa do trabalho, como o irmão, o Miguel resolveu chutar a bolsa de águas com um pouco mais de força, como o irmão, e fazer a vontade à mãe, como o irmão, ao não ‘passar do prazo’.

Com tantas coisas ‘como o irmão’, senti que, como com o irmão, ia acontecer tudo muito rápido e por isso, ao contrário do que fiz com o irmão, não fiquei a pastelar no sofá, não me arrastei para comer um lanchinho, não desfilei para o duche. Levantei-me de um salto, fiz algumas chamadas essenciais, atirei-me para o chuveiro e preparei-me para sair.

Os meus pais trouxeram-me da escola o Martim. Expliquei-lhe o que ia passar-se, que a minha ausência seria curta e por um motivo muito feliz. Vi nos seus olhos que entendeu. Ele, porque é o melhor menino do Mundo, abraçou-me e ficou bem, como sempre fica.

As dores começaram a ficar muito sérias, muito depressa. Por momentos achei que o maridão não chegaria a tempo de me levar e isso deixou-me um pouco ansiosa. Felizmente ele chegou e arrancou de mim qualquer réstia de maus sentimentos, tão desnecessários nessa hora. Lá fomos para o Hospital Garcia de Orta, casa que viu nascer também o Martim.

Mas homem não sabe o que é uma contracção forte. Não sabe. Se soubesse, homem não perguntava à sua mulher com contracções fortes, enquanto conduz na bela estrada esburacada deste país, se vira à direita ou segue em frente. Se soubesse, homem não interpretava a falta de resposta como um incentivo para pedir mais qualquer coisa do tipo «aperta a minha mão uma vez para ‘frente’ e duas para ‘direita’». Se soubesse, homem não confundia o apertão que levou na mão com uma resposta. Não. Jamais. Mas homem não sabe. E por isso o meu preocupado marido fez esse papelão no carro a caminho do hospital. Hoje à distância, rio-me do grau de desorientação a que é levado um quase pai. Na hora… Bom, nem por isso.

Já no hospital recebi o retorno mais desejado que alguma vez tive relativamente a uma chamada feita e não atendida. O meu enfermeiro/guru/Deus Bruno Rito – o melhor enfermeiro parteiro à face da Terra e só não do Universo porque não consta que o Universo tenha face – disse-me o que eu queria ouvir, no mais perfeito dos timings: estou por aqui, vou buscar-te (grávidas que me lêem, podem – e devem – conhecer este anjo na Terra aqui, aqui e sobretudo, aqui, onde dá os seus cursos de preparação para a parentalidade).

Após avaliação, como antevia, constatou-se que o trabalho de parto já estava avançado e fui encaminhada para o Bloco de Parto. A bênção da analgesia epidural chegou pouco depois e também um pouco fora dos critérios (mais uma vez, tenho tudo a agradecer ao Enf. Bruno Rito pelo silêncio conivente e solidário que permitiu que me fosse administrada a epidural já ‘fora de horas’).

A dor morreu para deixar nascer o meu bebé. A partir daí foi tudo muito, muito rápido. Ou, pelo menos, foi assim que o percepcionei. Num piscar de olhos o Mário estava perto de mim e eu alternava entre o banco de parto – onde queria ter o meu filho – e a marquesa, para permitir que o Enf. posicionasse o Miguel da forma mais favorável possível. Num instante, tinhamo-lo nos braços, forte, grande e a fazer-se ouvir, cheio de vitalidade.

Eram 19h24 quando me tornei mãe pela segunda vez. Honestamente, foi como se fosse a primeira. Porque é única a sensação de olhar nos olhos aquela pessoinha com quem conversámos baixinho durante nove meses e que durante nove meses foi a nossa companhia permanente, para o bem e para o mal. Foi agridoce. Tinha-o finalmente nos braços, mas nunca mais moraria dentro de mim. Pelo menos, não literalmente.

O meu monstrinho chegou a dez dias do Natal. Trouxe presentes para o mano, como quem pede desculpa por todos os colinhos da mãe que já lhe havia roubado até aí e por todas as partilhas forçadas que ainda virão, mas não precisava. O Martim é, desde o momento em que conheceu o irmão, o mano mais velho mais orgulhoso do Mundo.

Mas melhor do que tudo: trouxe-se de presente para nós, lindo, saudável.

E hoje é o dia dele. Do meu anúncio de um Natal para sempre perfeito.

Dele e nosso com ele, tal como no primeiro momento.

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