“Tantos meninos castanhos!”

 

Tantos meninos castanhos! – exclamou o Martim perante uma peça jornalística filmada num país africano.

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Cresci num cadinho de culturas, raças e religiões, pertíssimo de uma mesquita e de um bairro social maioritariamente habitado por ciganos, na margem sul, local para onde foram morar muitos brasileiros imigrados em Portugal.

As minhas turmas sempre tiveram meninos de todas as cores e credos e na minha rua – onde antes das tecnologias as crianças costumavam divertir-se, lembram-se? – a única coisa que interessava a todas as crianças era a disponibilidade das demais para brincar.

Tudo isso me tornou muito cega à cor da pele, à origem, à fé.

Compreenderão, por isso, o meu espanto perante a exclamação – tão reveladora da ignorância em relação ao Mundo – do meu filho mais velho.

A verdade é que a realidade dele, nos seus curtos quatro anos, não é idêntica à minha.

É que, se ele tem muitos ‘tios’ e ‘tias’ castanhos, adultos que nos rodeiam e cujo tom de pele varia muitíssimo – lá está, os nossos amigos de infância, meus e do Mário -, o mesmo já não acontece com as crianças que estão ao seu redor. Pensando friamente, na sua escolinha actual não me recordo de ver senão meninos e meninas de pele clara por isso, para o situar, tive que referenciar alguém da sua escola antiga.

Perguntei-lhe se se lembrava do Lucas, um coleguinha dessa primeira escola.

Os olhos dele brilharam ao lembrar-se ‘Pois é! Ele também era castanho!! Eramos bué amigos…’

Percebi aí que a exclamação inicial dele era toda feita de falta de familiaridade com a coexistência de muitos meninos não brancos no mesmo espaço (meninos = crianças, já tinham aparecido no plano várias imagens de adultos sem que ele estranhasse alguma delas) e expliquei-lhe que, da mesma maneira que aqui onde ele vive a maior parte das pessoas tem a pele como ele, eu, o papá e o mano, existem muitos países onde a maior parte das pessoas tem a pele de outras cores e que, naquele da televisão, a maior parte das pessoas, crianças incluídas naturalmente, tinha pele ‘castanha’.

Percebi na cara dele a curiosidade genuína com que me ouviu. Falámos depois sobre alguns desses países. Quis vê-los no mapa. Mostrei-lhes esses e outros, entusiasmou-se com o tamanho da Rússia, com o quão longe eram a Austrália e a Nova Zelândia com o caminho de avião que eu e o pai fizemos para o Brasil e a conversa fluiu para outros temas.

Não, não tinham sido os olhos de um princípio de preconceito a fazer aquele comentário.

Tinha sido apenas uma observação empírica relativamente a uma realidade com nunca tinha sido confrontado antes.

Confesso, respirei de alívio…

Frequentará outras escolas, terá muitos amigos, verá e conhecerá muitas pessoas diferentes.

Um dia, espero eu, olhará para trás e perceberá que naquela imagem estavam apenas ‘tantos meninos’.

Sem mais.

Entretanto, acho que vamos fazer uns desenhos com os tão bem recebidos lápis de ‘cor-de-pele’ da Giotto.

Medos… Os meus, desta vez.

No último post alguém comentou pertinentemente se não teríamos nós, eu e o Martim, medo de falhar, sendo esse o motor da nossa aversão a competição.

Como expliquei em resposta a esse comentário, no caso dele não sei ainda, mas no meu não se trata disso. Sei que as maiores recompensas estão fora da nossa zona de conforto e o medo que sinto perante a travessia que me leva a uma recompensa valiosa apenas me dá motivação para garantir que essa travessia é concluída, com ou sem precalços. Ganhar uma competição apenas não se me apresenta como uma recompensa que valha o meu desconforto e os precalços da travessia.

Mas há medos que eu, de facto, tenho.

Cada vez mais, aliás, à medida que me descubro como mulher e como mãe de dois rapazes!

Tenho medo que eles se sintam presos às minhas expectativas.

Tenho medo que essas expectativas não sejam possíveis de satisfazer.

Tenho medo que eles não se sintam livres de crescer ‘fora dos padrões’. Que queiram ser cabeleireiros, bailarinos, educadores de infância e se coíbam de o dizer e de lutar por isso. Que sejam apaixonados por mecânica automóvel, canalização, electricidade e eu considere que isso é ‘contentarem-se’ com menos do que as suas capacidades permitem.

Tenho medo que sejam vítimas. De bullying. De abuso.

Tenho medo que não falem se o forem.

Tenho medo que sejam agressores. Bullies. Abusadores.

Tenho medo que as suas vítimas não falem se eles o forem.

Tenho medo de me negar a ver ‘os meus meninos’ como capazes de tais coisas.

Tenho medo de não saber dizer-lhes que ‘não’ as vezes necessárias para que eles entendam que o Mundo não gira à sua volta e não lhes deve nada. Que o mérito importa. Que às vezes o dos outros é superior ao seu e está tudo bem.

Tenho medo de zombar da sua fé, caso eles encontrem a que eu nunca tive.

Tenho medo que cresçam machistas, racistas, homofóbicos (não necessariamente por esta ordem).

Tenho medo que nunca tenham oportunidade de amar alguém tanto quanto eu os amo a eles.

Tenho medo de interferir demasiado nas suas vidas.

Tenho medo de não interferir o suficiente.

Tenho, como vêem, muitos, muito medos.

Mas não tenho medo de os ter.

E para cada desses medos tenho, também, uma promessa: em cada dia o meu melhor com as ferramentas de que disponho.

 

A competição (sobre a empatia e a parentalidade consciente)

O Contexto

Sempre pratiquei desportos. Tudo o que possam imaginar: natação, ginástica rítmica, karaté, equitação, aeróbica, danças brasileiras, you name it

Posso dizer o minuto em que passei a odiar cada uma das modalidades que pratiquei: quando (e nos casos em que) me levaram a competir.

Competir nunca me trouxe adrenalina. Nunca me fez ter vontade de fazer mais e melhor. Nunca despertou qualquer sentimento positivo em mim e mesmo nos casos em que fui bem sucedida, a sensação de uma vitória era sempre associada ao alívio pelo fim da tarefa.

Competir é, para mim, profundamente desconfortável.

A competição directa e vista como um propósito em si mesma é algo que me é contra-intuitivo. Sempre me senti melhor a ajudar os outros naquilo em que era boa, do que a provar-lhes (ou a mim), que era melhor que eles.

Aliás, ainda há poucos dias em conversa dizia a alguém que a razão pela qual não sei jogar matraquilhos, snooker, dardos, cartas e qualquer outro jogo que exija alguma experiência para se ser bem sucedido é saber que a competição traz à tona o meu eu mais mesquinho, infantil e mal-disposto. E eu não gosto dele, pelo que abdico que um certo nível de socialização e, quem sabe, potencial divertimento, em prol da manutenção da sanidade mental e até das amizades.

A Situação

O Martim tem karaté na escola duas vezes por semana e foi convidado para participar numa pequena prova. Um circuito, tanto quanto me apercebi, montado mais para que os pequenos possam demonstrar o que vêm aprendendo, do que para outra coisa qualquer.

Porém, quando perguntei ao Martim se queria participar ele disse-me que não.

Não, porque não ia conseguir completar o circuito em primeiro, não ia ganhar e ia ficar triste.

Expliquei-lhe que podia ser divertido, que não tinha que se importar com isso de ganhar ou perder, que a mamã ia adorar ver o que ele aprendeu e ia bater muitas palmas e que, na verdade, nunca poderia ganhar nada se nunca se atrevesse a participar.

Expliquei-lhe tudo isso mas não me passou pela cabeça, por um minuto que fosse, fazê-lo mudar de ideias e convencê-lo a participar.

A minha criança interior aceitou o seu primeiro ‘não’ com a maior solidariedade do Universo. Ela também não quereria participar. Bolas, eu, adulta, não quereria participar.

Concordámos que iríamos apenas assistir, juntos, à prova e, quem sabe, se ele achasse giro, poderia participar numa próxima.

A Conclusão (um trabalho em curso)

Não é a primeira vez que isto me acontece.

A maior parte das minhas memórias de infância são bastante ligadas às sensações que tinha em determinadas circunstâncias. Consigo lembrar-me do desespero de ver a minha mãe sair para trabalhar, do entusiasmo da primeira vez que brinquei na rua depois do sol se por, da alegria medrosa de quando percebi que o meu pai já não estava a segurar a bicicleta e que estava a andar sozinha, da vergonha e desconforto da primeira vez que entrei na minha sala de aulas na primária….

Por isso, em relação aos temas em que tenho essas memórias tão sensitivas é-me muito fácil empatizar com os meus filhos e faço-o de forma praticamente automatica.

Olhando para trás não tenho a menor dúvida de que os meus melhores momentos de maternidade ocorreram quando consegui por-me no lugar deles, com esse grau de realidade e sem qualquer esforço mental para isso.

Gostava de conseguir (e estou comprometida a tentar) fazê-lo mais vezes.

Afinal, não sou eu que acredito que a empatia ainda vai mudar o mundo?

E não é esse o exercício primordial de uma parentalidade consciente? Procurar os porquês dos nossos filhos ao invés de lhes tentar apenas moldar os comportamentos?

Talvez a minha empatia ‘natural’ nesta situação em concreto tenha sido uma falsa empatia, condicionada pelas minhas próprias vivências e características. Talvez o meu filho não seja tão avesso à competição como eu sempre fui. Talvez ele tenha apenas medo do fracasso como qualquer comum mortal.

Seja qual for a situação, acho não precisamos de descobrir já…

Dia dos Pai (II) – O dos meus filhos

Depois do Pai que eu tenho, e sobre quem vos falei mais cedo, chegou a vez do Pai que eu escolhi.

O Mário sempre quis ser pai (ao contrário de mim, como vos contei aqui).

O Mário sempre teve sucesso com as crianças (ao contrário de mim, mais uma vez).

E o Mário viu todas as suas crenças acerca da paternidade destruídas no segundo em que viu o seu sonho cumprido.

Depois de eu recomeçar a trabalhar, o Mário, que na altura trabalhava poucas horas, viu-se a braços com um Martim de cinco meses de quem tinha medo. Muito medo.

Medo de falhar. Medo de o magoar. Medo de não ser bom o suficiente.

E durante meses alimentou o hábito irritante – tão, tão irritante! – de se refugiar, com o nosso bebé, em casa da mãe.

A mãe tirava-lhe o medo. E o bebé. Substituía-se a ele e ele não podia, dessa forma, falhar.

Nessa época não compreendi. Nessa época só consegui irritar-me todos os dias com as fugas do meu marido. Daquele que eu tinha escolhido para ser Pai e que estava, na minha perspectiva, a evitar, a todo o custo, desempenhar o papel que lhe pertencia. Que lhe incumbia. E que ele tinha escolhido tanto quanto eu.

Ele estava assustado. E eu não vi que o medo era apenas proporcional ao amor dele pelo filho. Tão paralisante que ele preferiu abdicar da proximidade, dos cuidados, das experiências para o preservar.

Talvez eu estivesse demasiado ocupada com os meus próprios demónios. Talvez estivesse a braços com as minhas próprias insuficiências como Mãe.

Pouco importa.

O Pai que vive comigo precisava de ter sabido, contado ao ouvido e entre sorrisos, aquilo que lhe disse tantas vezes em tom de censura e com uma carga acusatória: que ele é tão pai quanto eu sou mãe. E que isso é maravilhoso com tudo de assustador que tem e com toda a responsabilidade que acarreta.

Que isso quer dizer que, quanto melhor ele conhecer os filhos, quanto mais próximo estiver das rotinas deles, das manias, das fragilidades, mais pode dar-lhes e mais recebe também. Que isso quer dizer que os nossos filhos sobrevivem bem às nossas falhas, mas não tão bem à nossa ausência, à nossa inércia, à nossa indiferença.

Que isso quer dizer, hoje, para mim, que as falhas de um Pai podem reflectir-se de forma positiva num filho. Se eles não as conhecerem, talvez não saibam reagir a elas e, com grande probabilidade, talvez não conheçam também as (inúmeras) qualidades do seu Pai.

Ao pai dos meus filhos peço que volte, por um momento, àquele tempo e que me vá perdoando enquanto lê isto baixinho, como quem ouve um segredo: Amor, és tão pai como eu sou mãe. E mesmo que falhes… não há como falhar. És perfeito. E se algum dia duvidares… Olha para eles.

Dia do Pai (I) – O meu

Em minha casa discutia-se muitas vezes por dinheiro (no caso, por escassez de dinheiro).

Não fosse isso e pouco me teria apercebido das dificuldades que passávamos.

Ajudava ser a mais nova de seis irmãos (4 deles adultos e com as suas vidas encarreiradas), porque nas datas importantes choviam presentes, o que contribuía para diluir a perspectiva que eu tinha da situação económica doméstica.

É verdade que vivemos sempre na mesma casinha arrendada, que os nossos carros morreram de velhos e foram trocados por outros de meia-idade, que dividi o quarto com quantos lá morassem e quantos de visita viessem, até que todos saíram de casa e sobrei eu, que desde cedo aprendi a gerir os meus troquinhos, que sempre cumpri os requisitos do Escalão A da Acção Social Escolar, que desde que recebi a minha primeira bolsa de mérito, no 10.º ano, deixei de me sentir bem em pedir dinheiro aos meus pais para as minhas coisas pessoais.

Mas nunca faltou comida. Nunca faltou roupa. Nunca faltaram brinquedos. Nunca faltaram livros. Sempre tivemos acesso a actividades extra-curriculares.

Para mim aquela era e sempre foi uma vida normal.

Hoje, à distância, vejo o esforço que os meus pais fizeram para que eu percepcionasse a vida como normal.

Sobre o meu pai, em particular, lembro-me de uma época em que apareceram lá em casa milhares de páginas de revista. Sabem aquelas páginas de publicidade que vêm com uma amostra colada? Eram essas.

Durante aquilo que me pareceu uma eternidade todos nós lá em casa colámos amostras em páginas. Arranjámos, cada um o seu automatismo, a sua estratégia para colar o máximo de amostras no mínimo de tempo, agrupar páginas, arrumá-las em caixotes…

Na altura ninguém me explicou porque fazíamos aquilo. De vez em quando o meu pai fazia assim umas coisas fora da caixa e para mim era, lá está, normal.

Foi preciso crescer um pouco para entender o óbvio. O meu pai fazia coisas fora da caixa porque era preciso e tudo contava.

E fez tudo isso fazendo-me acreditar que era só algo diferente e divertido.

Com sucesso. Porque me diverti muito.

Enquanto ele mirabolava maneiras de fazer entrar mais algum rendimento em casa, eu brincava.

Como uma criança deve fazer.

Era isto que tinha para vos contar hoje.

Ah, É verdade! Já vos disse como o meu pai é fantástico?

Feliz Dia, Pai!

 

A Gabriela e o Rafael – os filhos que não tive

Apresento-vos a Gabriela e o Rafael.

São ambos meus filhos.

Não tenho uma foto decente de nenhum dos dois porque, na realidade, não sei bem que aspecto têm.

Desconheço a idade de qualquer deles e tampouco consigo justificar-vos porque ando há meses a apregoar que vivo entre M’s, tendo estes dois, cujo nome não começa por M, na minha vida. Escondidos.

A verdade é que a Gabriela e o Rafael são os filhos que eu não tive.

Os filhos que o meu filho arranjou para mim.

Os irmãos que ele inventou e nomeou.

Porque o Martim é assim.

Quando lhe disse, perante as saudades que verbalizou de quando o mano era bebé (porque agora é enorme, está visto!), que talvez pudéssemos um dia ter outro bebé lá em casa, ele fez entrar nas nossas vidas a Gabriela.

Assim mesmo, numa fracção de segundos, decidiu que queria uma irmã e o que chamar-lhe. Não sei porquê. Não conhecemos nenhuma Gabriela. Ele não vê nenhuns desenhos que tenham uma Gabriela. Talvez seja apenas, e genuinamente, um nome de que gosta…

‘Mas olha Martim, nós não escolhemos… E se em vez de uma mana, tiveres um mano?’

E foi assim que o Rafael entrou também nas nossas vidas.

Desde que planeámos o Miguel que sinto que não ficaríamos por aí, que há, ainda, um ‘M’ que nos falta…

Mas no que depender do Martim, parece que esse ‘M que nos falta’, será uma G ou um R…

Falo-vos deles, não porque tenha algum grande anúncio a fazer, mas porque quero guardar na memória estes dois filhos que não tive.

Talvez de hoje para amanhã eles deixem de ser desejados por quem os inventou.

Mas que mãe seria eu, se os esquecesse?

Bom fim-de-semana a todos!!!

De fada a bruxa em poucas noites

Andamos há três semanas no fantástico carrossel das doenças.

Um apanha, passa adiante até percorrer a família toda e, entretanto, quando o ciclo termina, já outro apanhou qualquer outra coisinha de qualidade para partilhar, com todo o altruísmo que se quer em família…

O mote da última ronda foi dado pelo Miguel: febre alta, garganta inflamada, ouvidos vermelhos, conjuntivite e tudo o que teve direito.

Bebé doente, bebé carente.

Inevitavelmente, seguiram-se noites passadas em cima de mim. Dias também. Actividades impensáveis desenvolvidas com um bebé não tão leve assim no colo. Gritos lancinantes sempre que era pousado no chão, por qualquer motivo.

A mãe foi a fada que lhe roubou as dores só por carregá-lo nos braços, beijar-lhe o cabelo, afagar-lhe as costinhas…

Mas, por que estamos no carrossel, ele ficou bom e a minha vez chegou fatalmente, como o preço a pagar por toda aquela proximidade estranhamente deliciosa, com o meu bebé…

A sensação é a de uma bola de golfe na garganta e uma gargantilha apertada no pescoço. Ter fome dá medo, porque vou ter que engolir alguma coisa e vai doer horrores. Dormir é uma miragem, porque não existe posição confortável. As dores no corpo, os ben-u-ron, o frio, o calor, o frio de novo… Enfim, toda a gente sabe como funciona.

Mas tudo isso é uma vírgula comparado com o que tive que fazer com os resquícios da carência do Miguel, deixados pela doença e pela nossa ausência de há algumas semanas atrás.

É que ele acostumou-se a dormir no meu colo, na minha cama, em mim. E eu acostumei-me a socorrê-lo. A ser a fada. A fada que, para variar e ainda que apenas por alguns dias, tinha o condão de estar sempre lá com ele. A mandar embora as lágrimas, as dores e os desconfortos.

Mas há dois dias eu simplesmente não estava em condições de passar a noite com ele em cima de mim, por muito boa vontade que tivesse.

Adormeci-o no meu colo e torci para que tudo corresse pelo melhor.

Não correu.

Foi mais de uma hora a tentar adormecê-lo e pousá-lo na caminha dele. Ainda eu ia a meio caminho e já ele gritava como se não tivesse há dois segundos suspirado profundamente no seu soninho…

Foi horrível.

E piorou.

Acabei por pousá-lo na cama, com choros e gritos e fiquei perto dele, procurando consolá-lo com a minha presença, tentando segurar-lhe a mão, falar-lhe baixinho ao ouvido e dizer-lhe que estava tudo bem. Mas não estava e nós dois sabíamos. Ele precisava de mim e eu… eu precisava que ele não precisasse tanto. Só nessa noite.

Passei de fada a bruxa num sopro.

O carrasco que negava colo ao seu menino.

E se sentava ao seu lado, segurando-lhe a mão e vendo-o chorar.

Acabou por adormecer, vencido pelo cansaço e pela resignação.

Eu demorei mais.

Não quero ser bruxa agora. Já basta os tantos «nãos» que provavelmente lhe direi, por falta de opção ou para o bem dele.

Quero ser fada para o meu bebé que não vai sê-lo para sempre.

A razão por que o choro vai embora, não a que o faz chorar.

Mas, na vida real, por vezes não é possível ser a fada.

Nessa noite tive que contentar-me em ser a bruxa menos má que as circunstâncias me permitiram…

(e esperar, como sempre, que isso seja suficiente).

O que o Dia da Mulher não é

Vocês que me acompanham desse lado há algum tempo, já terão reparado que para mim #feminismonãoépalavrão.

Aos 33 anos, mãe de dois filhos meninos, trabalhando num ambiente que alguns apelidariam de algo elitista e circulando diariamente na rua como o comum dos mortais, sinto na pele, sinto na alma, todas as razões pelas quais o Dia Internacional da Mulher faz sentido, ainda e infelizmente.

Por isso, quando chega esta data, há uma série de posturas e assumpções que me fazem uma comichão tremenda porque desvalorizam o peso e o impacto da luta do feminismo pela igualdade plena – de Direito e de facto – entre homens e mulheres.

Eis as coisinhas que todos os anos engulo, não como sapos, mas como verdadeiros dragões de Komodo e que mostram tudo, tudo, tudo o que o Dia da Mulher não é e tudo para o que não serve.

Uma data comercial

Não, meus caros. O Dia da Mulher não é a segunda edição do Dia dos Namorados. Se se esqueceram desse dia ou do vosso aniversário de namoro, casamento, o que seja, este não é o dia para compensar a vossa mais que tudo por esse facto, presenteando-a com um enorme ramo de flores ou um jantar fora.

Até porque este é um dia de todos. Homens e mulheres que lutaram e lutam ainda para alcançar a tão almejada igualdade. O facto de se chamar ‘Dia da Mulher’, serve apenas para elucidar os mais distraídos sobre quem é que está na mó de baixo nessa luta e quem é que precisa mais de ver a igualdade cumprida. Apenas isso.

Até podem ser bem intencionados mas poupem uns trocos (a menos que a vossa mais que tudo compreenda este dia da mesma maneira que vocês e, nesse caso, esqueçam tudo e comprem as rosas mais vermelhas com que se deparem… Quem sou eu para arruinar relações?…).

Senhoras, também vale para vocês… Hoje não é sobre jantares só de mulheres e strips masculinos. Tudo isso é, sim, um exercício maravilhoso da liberdade que felizmente já têm enquanto mulheres, mas, na minha humilde opinião, excluir os homens da celebração deste dia reforça a ideia errada de que é mais um ‘para inglês ver’ e logo, não é o ideal no que respeita a dar-lhe a força que ele merece. Convidem os homens a participar. Se quiserem, e tiverem coragem e à vontade para isso, convidem-nos a participar e falem de tudo o que falariam se eles não estivessem presentes. Incentivem-nos a compreender o vosso lado do Mundo. E pasmem-se: não precisam de dar baixa ao strip masculino. Acrescentem um feminino e há para todos os gostos e orientações sexuais. Olha que bela demonstração de igualdade…

Um dia de excepção

E falando em jantares fora… Não, meus caros. Este também não é o dia em que ela chega a casa e a roupa está lavada, passada e dobrada e só não está arrumada para não correrem o risco de ela não se aperceber da grande empreitada que levaram a cabo.

Atendendo a que partilham a mesma casa e produzem, presumivelmente, metade da lixeirada e desarrumação, se não fazem os vossos 50% TODOS OS DIAS nem pretendem passar a fazê-lo de forma consistente, este também não é, certamente, o dia de reforçarem a ideia de que as tarefas domésticas são ‘coisa de mulher’, das quais fazem magnanimamente o favor de as dispensar porque, afinal, é o “seu dia”.

Caso não tenham reparado, é justamente contra esses e outros estereótipos de género que o feminismo se insurge. É sobre esses e outros estereótipos de género que o Dia da Mulher pretende que se reflicta.

Ao passaram a vossa própria camisa, ao lavaram a loiça do vosso próprio jantar ou ao arrumarem os brinquedos dos filhos de quem são pais, não estão a aliviar a vossa mulher de um papel que lhe cabe: estão só a fazer aquilo que vos compete enquanto pessoas que coabitam debaixo do mesmo tecto com outras pessoas, em família.

Vá lá… não se envergonhem, a sério (em todo o caso, se pensaram em fazer algum tipo de tarefa doméstica que normalmente não fazem não deixem voar essa ideia: amanhã também é dia. E no dia seguinte. E no seguinte. E no seguinte. A boa notícia para estes impulsos de decência é que uma casa com uma família dentro é um trabalho doméstico contínuo e infinito, por isso: força aí!).

Exaltação das mulheres com quem convivem

A mãe, a mulher, a irmã, a filha, a vizinha… Não, o dia não é dedicado às ‘vossas mulheres’, às ‘grandes mulheres’ que fazem parte da vossa vida.

Já mencionei que é um dia que reflecte a luta, não apenas de mulheres, mas para que as mulheres possam aceder a um estatuto jurídico-socio-económico equivalente ao dos homens?

Pois é… Nada contra a exaltação das mulheres que admiram, sempre, mas hoje sugiro que reflictam em particular sobre o que elas vos ensinaram sobre igualdade, porque é que querem ser iguais a elas, como é que elas se viram nas dificuldades impostas pelo seu género. Exaltem ISSO.

Uma boa oportunidade para demonstrações de desprezo relativamente à data

Em regra o argumento é de que a igualdade já aí está e que mulher se queixa de barriga cheia. Que num país de primeiro mundo não faz sentido assinalar esta data. Afinal, não é como se as mulheres não pudessem votar ou conduzir ou trabalhar sem autorização masculina ou fossem apedrejadas por trair…

Tanto que eu podia dizer sobre isto… Mas vou limitar-me a duas observações:

A primeira é que o facto de haver países com problemas muito mais graves decorrentes da concepção da mulher como um ser menor, não faz das manifestações menos graves desses problemas um ‘não problema’.

A segunda é que não se pode confundir a igualdade aparente, que é a que inequivocamente resulta da lei, com a igualdade de facto, que é a que resulta da boa interpretação e aplicação da lei. Ora, os aplicadores da lei, que vão dos empregadores aos juízes são pessoas. E, como tal, imbuídas de determinadas convicções pessoais, religiosas, éticas, políticas e por aí vai… Uma sociedade composta por homens e mulheres machistas (muitas vezes sem consciência disso), toma decisões machistas. É inevitável. E digno de reflexão. Pelo menos hoje.

Não acreditam? Podem ler um exemplo prático aqui relativamente a empregadores e outro aqui, relativamente ao funcionamento do nosso sistema judicial no que respeita à criminalidade de género.

Não desprezem a data. Se não quiserem perder cinco minutos com ela, abstraiam-se… Amanhã é outro dia (mas se se depararem com informação de valor, também não magoa ler…).

Publicações no Facebook com um certo e determinado teor

Amig@s… AMIG@S! De todas as coisas que me fazem comichão, esta é a que me dá vontade de desligar o computador, ir até casa da pessoa e entalar-lhe a cabeça no seu portátil três ou quatro vezes. Com alguma força, vá.

Façam o que fizerem não publiquem nada no facebook que comece, termine ou inclua a expressão ‘mulheres de verdade’.

Porra (o que eu queria escrever era ‘foda-se’ mas atendendo ao meu último post mudei à última da hora)!

Mulheres de verdade somos todas.

Mesmo que eu não seja crente e Deus não saia da boca daquela mulher.

Mesmo que eu odeie a maneira como para aquela outra tudo se resume a quem tem o quê e seja essa a ordem de importância com que estabelece as suas prioridades.

Mesmo que a terceira insista em encher o meu saco com assuntos que não me interessam, ‘ensinar-me’ coisas que ambas sabemos que o mundo inteiro sabe ou meter-se na minha vida para além de tudo o que é razoável.

O facto de eu não gostar delas, do que fazem ou dos seus posicionamentos sobre as questões não as torna menos ‘de verdade’.

Mais que tudo isso, não distingam mulheres ‘de verdade’ das ‘outras’ por um critério do que na vossa cabeça é ‘decente’. Decente como em ‘respeitável’. Porque essa é uma premissa perigosa que conduz facilmente ao raciocínio de que existem pessoas (mulheres) que merecem ser respeitadas e outras que não.

Neste contexto: a mulher que usa uma bruta minissaia é tão de verdade como a que usa um hábito imaculado. A que vai pratica sexo casual apenas porque é o que lhe apetece, é tão de verdade como a que quer casar virgem porque é nisso que acredita. A que trai todos os seus companheiros ou os substitui com frequência é tão de verdade como a que casou com o seu primeiro e único parceiro sexual.

Tão de verdade = tão merecedora de respeito quanto.

Por isso, por favor, por favor, por favor… Não façam isto….

***

Termino dizendo que igualdade não pressupõe sermos todos iguais, mas termos toda idêntica liberdade para sermos o que quisermos, sem julgamentos ou penalizações externas.

Quem é que pode não querer isto? Porque é que não somos todos feministas ainda?

Feliz dia Internacional da Mulher a tod@s! Boas reflexões!

(as ilustrações são todas da Denise Silva e foram retiradas da sua página de Facebook)

Mãe é puta. Bom é o pai.

O texto de hoje, além de usar linguagem sensível, como já transparece do título, não é meu. Não é meu, nem poderia. Não passei pela experiência de que fala, pelo julgamento que descreve nem pela desigualdade profunda que resulta do que é exigido a um pai vs o que é exigido a uma mãe para que tenham ambos classificação de ‘bom’ no exame dessa disciplina contínua que é a parentalidade.

O texto de hoje não é meu, mas sinto em cada vírgula, em cada frase, em cada comparação, a dor, o peso, a culpa de tantas mulheres a quem é cobrado que deixem de o ser a partir do momento que nasce um filho, a qualquer custo, para todo o sempre e sozinhas, se assim tiver que ser. Porque mãe é sempre mãe e é o seu dever sê-lo. Já pai só é pai se quiser (e/ou se a Justiça obrigar).

O texto de hoje não é meu e é, obviamente, tal como as minhas palavras acima, uma generalização. Por favor, pais presentes e mães separadas deles, não levem a peito.

Coloco-o entre aspas, mas não sei quem o escreveu, apesar de já o ter lido muitas vezes, em diversas fontes. Perdoem-me, por isso, que não nomeie a sua autora (no entanto, se alguém souber, que me diga).

O texto de hoje não é meu, mas é tão honesto, tão cru(el). Agora, que tenho esta voz que o Entre M’s me dá, não consigo deixar de o dividir com quem me lê.

E pensar que tudo poderia resolver-se com um pouco de empatia

***

“São quase 15h. Meu filho está no meu sofá vendo desenho e me pedindo almoço que eu não fiz.

Hoje é o final de semana do pai, que começou a contar das 9h de sábado e vai até as 18h de domingo. O pai chegou cedo, milagrosamente, mas por volta do meio dia foi cortar o cabelo e não voltou ainda. Meu filho tá pulando no sofá e eu tô cansada de ser mãe. Eu queria ser pai.

Semana passada era o final de semana dele, mas fiquei sabendo na quinta que ele ia pra África, olha só que legal, mais uma viagem internacional, e eu nem passaporte tenho. Claro que eu fico com meu filho e desmarco meu rolê com meu namorado, minha foda atrasada em uma semana a mais, uma a menos, que diferença faz? Eu sou mãe, né não?
Ele tem pós na USP, mestrado na UFMG, fala um inglês fluente com certeza. Eu não consigo nem frequentar meu cursinho todos os dias da semana. Saio todo dia na penultima aula pra pegar meu filho na escola particular que ele paga. Bom pai, paga pensão alta, tenho que valorizar. Né, não?

Ele nunca namorou depois que nos divorciamos, não precisa assumir ninguém, a vida sexual dele é livre. O filho nunca fez ele desmarcar um compromisso de sexo casual, nunca teve uma febre e ele precisou largar o pernoite pra ir pro P.S.

Já eu, já eu, sempre de namoro em namoro, sempre morando junto, sempre transando no chuveiro, senão eu não transo. Só posso gozar depois que o filho dormir, isso se eu tiver disposição.

Foi pra França, trouxe a Torre Eiffel: bom pai.

Foi pra Maputo, atrasou a visitação mais um final de semana, trouxe uma girafa: bom pai.

Foi pra Recife, trouxe um lampeão: bom pai.

Paga pensão descontada na folha: bom pai.

Nunca ficou 15 dias seguidos com o filho de 6 anos: bom pai, estava trabalhando para pagar pensão senão vai preso.

Mãe mora junto com o primeiro namorado pra dividir conta e poder foder, porque mãe também fode: puta.

Mãe não tem formação universitária: vive de pensão, é puta.

Mãe termina com o primeiro namorado: não sabe formar família, é puta.

Mãe fica desempregada e usa parte da pensão pra pagar despesas: vive do dinheiro do ex, é puta.

Mãe ajunta com o segundo namorado pra dividir aluguel e conseguir foder no chuveiro: é puta, trazendo outro macho pra dentro de casa.

Mãe pensa em sumicídio (sumir ou suicídio-algo que não magoe o filho: ah, não tem essa opção)

Foda-se a mãe egoísta que quer desistir.

Vai ter que aguentar a pressão pra não desgraçar a vida do filho. Se vira, mãe.

Mãe tá esgotada. Mãe não fode. Mãe não pode. Mãe não presta.

Mãe é puta.

Bom é o pai.”

#feminismonãoépalavrão

‘Menino da mamã’

‘O que é que está escrito na tua camisola papá?’

Foi o diálogo que se seguiu a esta a pergunta do Martim – e que agora faz habitualmente em relação a tudo o que é texto, curioso que anda a explorar as letras – que despoletou não só este post como uma valente gargalhada minha. É que, como se diz pela boca morre o peixe, mas é muito mais divertido quando o ‘pescador’ tem quatro anos e uma memória aguçada.

Explico.

O Mário vive lamentando a preferência evidente que os pequenos M’s mostram pela mãe.

Quer dizer, não é que o pai não seja fixe. Até é… Mas só enquanto a mãe não chega a casa.

Nisto, vai-lhes lançando armadilhas, jogos de palavras, queixumes, para testar os seus afectos e ouvir um ‘gosto de ti’ que seja ou ganhar um abraço de misericórdia. Alguns desavisados chamar-lhe-iam ‘ciúmes’, mas não eu…

Uma das artimanhas que usa frequentemente é aproveitar as minhas declarações de amor ao Martim para me dar um ‘chega para lá’ e dizer que o Martim é dele. Eu riposto e digo que é meu. Depois de algum ping pong de ‘é meu’ entre os pais, o Martim é chamado a decidir. Durante muito tempo nem pestanejava para responder que era ‘da mamã’. Ultimamente, depois de lhe explicarmos muitas, muitas vezes que é só uma brincadeira, que nenhum de nós se aborrece por isso, que ele não tem que escolher e que ele é, e sempre será, dos dois, em actos de justiça salomónica, lá vai respondendo que é ‘dos dois’ (rematando às vezes com um ‘não discutam’).

Em suma, dá ao pai uma colher de chá e faz com que nos calemos com aquela lenga-lenga do ‘é meu’ que apenas serve para interromper a actividade super importante em que se encontrava envolvido (qualquer uma) antes daquele show decadente de carência parental.

E agora, devidamente enquadrados, voltemos à camisola do papá e à pergunta do Martim.

Por alturas do Natal o Mário encontrou no facebook (aqui) estas camisolas e achou graça. Comprou duas. Porquê? Porque elas têm escrito exactamente o que ele próprio é e se considera:

E foi isso que o Mário respondeu ao filho quando ele lhe perguntou o que estava escrito na camisola: está escrito ‘menino da mamã’.

Depois de uma bateria de questões sobre onde estava cada palavra, que espaço ocupava cada uma na camisola e o respectivo esquema de cores, o Martim repete, sublinhando com o dedo as palavras na camisola: ‘menino da mamã’.

E aí, pára um pouco para pensar e pergunta:

“Porque é que a camisola não diz que é ‘dos dois’?

Touché! Pois é, papá… Não há como um menino da mamã, para reconhecer outro. E assim se desarma retroactivamente um pai…

Como é desse lado? Muitos meninos da mamã?