A pedagogia da palmada

Spoiler: nenhuma. A pedagogia inerente a bater nos nossos filhos é essa, nenhuma.

Confessei-vos recentemente aqui que dei uma palmada ao Martim e também aqui que a situação não anda fácil com os ciúmes. Não foi a primeira que lhe dei na vida, embora consiga contar as ocasiões em que o fiz.

Talvez por isso, e também porque uma palmada no Martim hoje, implica um Miguel a ver, tentei fazer um exercício mental e recuar à primeira palmada que saiu das minhas mãos. Porque o fiz e o que resultou daí.

Fi-lo por falta de outros recursos enquanto mãe. Porque o desespero e o nível de ‘não sei que mais fazer’ me conduziram até aí. Fi-lo provavelmente pela mesma razão que o Martim teve o comportamento que a motivou: frustração.

Na prática funcionou. O comportamento cessou. Mas nenhum de nós se sentiu melhor com isso. Pior, a necessidade por detrás do comportamento não foi, certamente, satisfeita.

Porque é disso que se trata, não é? De curar à palmada a nossa incapacidade de perceber qual das necessidades dos nossos filhos está a levá-los a agir de determinada maneira, incorrecta aos nossos olhos.

O que me leva ao Miguel. Tem um ano e jamais nos passou pela cabeça dar-lhe uma palmada por mais disparates que faça e por mais tempo que chore. Porquê?

Porque ele não fala.

É isso, no fundo. À medida que os nossos filhos aprendem a expressar-se verbalmente, facilitando-nos a vida no que toca a descobrir o que se passa com eles e de que maneira podemos ajudá-los a ultrapassar isso, vamos desdenhando aquilo que ainda nos comunicam (e que é tanto!) de forma não verbal.

Deixamos de ver razões para nos questionarmos sobre a necessidade por detrás do comportamento e passamos a concentrar-nos em pará-lo ou mudá-lo. É aí que entram – mal – as palmadas.

E não me lixem com a conversa ‘eu também apanhei e não me fez mal nenhum’. Fez sim. O simples facto de alguém abrir a boca para soltar uma frase dessas é prova cabal disso. Quanto mais não seja, fez de nós pessoas que acham normal maltratar os filhos a pretexto de os ‘educar’.

Eu também apanhei, como quase todas as crianças da minha geração. Se isso me traumatizou? Não. Seguramente também não me matou, caso contrário não andaria por aqui a escrever estas linhas.

Mas sabem do que me recordo dessas ocasiões? Duas sensações apenas: medo e desapontamento. Fiz e deixei de fazer muitas coisas por ‘medo de apanhar’ e não porque tivesse alguma convicção sobre o certo e o errado delas. E o desapontamento… A minha mãe, que era a minha heroína, desferia um rasgão na sua capa mágica sempre que me batia ou ao meu irmão. E o meu pai, que raramente nos dava esse tipo de correctivos, causava-me tal espanto e desilusão quando o fazia que mais valia atirar-se do precipício da minha consideração por ele.

Não. Talvez não me tenha feito mal nenhum no sentido de que não me deixou marcas físicas.

Mas também não posso encher o peito de orgulho e dizer que me fez bem, não é verdade? Não aprendi nada. Não me recordo sequer dos motivos por que apanhei. Só dessas duas sensações: medo e desapontamento.

Por que raio quereria isso para os meus filhos?

Eles são nossos, mas não são propriedade nossa. Estão ao nosso cuidado. Para que façamos deles as melhores pessoas que conseguirmos.

Que mais-valia trazem as palmadas para essa hercúlea tarefa? É consultar o spoiler inicial: nenhuma.

Por isso, se não pelos nossos filhos, pelo menos pelos nossos netos, de quem vamos um dia sentir tanta peninha de ver levar uma palmada apesar de termos contribuído para normalizar essa conduta: paremos (e chamemos-lhe ‘resolução de ano novo’ se isso nos fizer sentir melhor).

O ‘dia do filho único’

O ‘dia do filho único’ pretende descrever a circunstância na qual os pais de mais de um filho reservam um dia para passar apenas com um deles, como se fossem ‘filho único’.

É um tema no qual, confesso, tive que morder a língua. No meu tempo pré-Miguel achava um pouco pateta largar um filho para me dedicar em exclusivo a outro. Ter irmãos, serem irmãos, era a sua realidade e havia que viver de acordo com ela.

Porém, há algum tempo que sentia falta do meu tempo a sós com o Martim, como vos descrevi aqui e, depois destes últimos dias em que o monstro do ciúme se apoderou dele, como vos falei aqui, tornou-se gritante que também ele precisava da minha atenção total, sem distracções.

Hoje deixámos o Miguel na escola e lá fomos, a caminho do Almada fórum para uma sessão de cinema a dois.

Embarquei no relógio leeento do meu filho mais velho e fizemos tudo ao seu ritmo.

Levámos uma hora para almoçar porque ele passou metade do tempo a fazer perguntas sobre o filme. Levámos outra hora entre duas lojas porque ele se distrai a dar conversa às lojistas da Ale Hop e brincou pela Fnac com uma luva dinossauro como se fosse o parque.

No carro, ele estava visivelmente cansado, mas quando lhe perguntei se queria deitar-se um pouco comigo para descansarmos, respondeu-me que não, que queria brincar.

E fez questão de brincar comigo até à hora de irmos buscar o Miguel. Inclusivamente, quando o Mário chegou a casa, informou o pai de que estávamos a brincar só os dois e que, caso ele quisesse participar, teria que ser ‘os maus’.

Fomos todos juntos buscar o irmão e ainda não tínhamos chegado à escola, que fica a cinco minutos de carro e já ele tinha adormecido, actividade a que continua a dedicar-se enquanto escrevo isto.

Eu estava redondamente enganada. Ele precisava. Eu precisava.

O ‘dia do filho único’ está longe de ser pateta. Pateta era eu, por acreditar nisso.

Boxing day – arrumar (com) o Natal

Hoje um acordou já a fazer birra. O outro acordou com o rabinho assado.

Hoje um bateu com a cabeça na parede. O outro não quis partilhar os mil brinquedos com o irmão.

Hoje confisquei um objecto de discórdia e os dois choraram.

Hoje um atirou tudo para o chão em sinal de protesto e em mais do que uma divisão da casa. O outro virou o prato do almoço ao contrário.

Hoje um fez-se cair de uma cadeira de propósito, porque o mandei não se levantar. O outro chorou pelo biberão com água e atirou-o para o chão assim que lho dei.

Hoje houve uma palmada e uma voz chorosa e pequenina a repetir o que lhe ensino: ‘bater é errado’.

Ele tem razão. Por isso, hoje sentei-me no chão da cozinha a chorar enquanto eles choravam os dois na sala, cada um por sua verdade.

Hoje um foi passear com a tia e eu desejei muito que o outro adormecesse só para conseguir ouvir-me pensar.

Hoje levei um tareão da maternidade e destes dois.

Hoje é dia 26 e parece que o boxing day serviu para arrumar a magia do Natal…

‘Já só choro lágrimas de mãe’

Foi o comentário que fiz há alguns dias a uma amiga.

‘Já só choro lágrimas de mãe’.

No contexto em que o disse queria transmitir a ideia de que estou perfeitamente em sintonia comigo mesma e que, apesar de me ver hoje com a lágrima mais fácil, normalmente os meus momentos de choro estão relacionados com os altos e baixos da maternidade.

Sem querer, por estes dias, acabei por ter um exemplo muito flagrante disso. Já mencionei por aqui algures que os M’s, embora não pelo mesmo motivo, sempre dormiram cada um na sua cama, e apenas muito raramente na nossa.

Pois bem. O Miguel tem cerca de 342 dentinhos a nascer ao mesmo tempo e a horizontalidade nocturna aumenta-lhe visivelmente o desconforto. Tem acordado muitas vezes a chorar e só pára se sentir a minha mão. Na prática, significa que, apesar de o deitar sempre na sua caminha, passado um par de horas tenho tido que ir buscá-lo para dormir comigo.

Depois de duas ou três noites neste regime e a dormir pouco e mal, ontem apenas tive que ir buscá-lo perto das 6h30. Que bom, não é? Sinal de que se sente um pouco melhor e de que eu vou voltar a dormir em condições…

Não.

A minha cabeça semi-esquizofrénica de mãe não conseguiu simplesmente encarar a boa notícia. Dei comigo a chorar abraçada ao meu bebé adormecido nos meus braços. Ele ia voltar a dormir a noite toda na cama dele e eu ia voltar a ficar sem aquele calorzinho bom dele a procurar consolo, sem aquelas mãozinhas frias a sossegar apenas nas minhas, sem aquele beicinho de chucha a dormir tranquilo.

Foi assim que descobri o REAL motivo pelo qual cada um deles sempre dormiu na sua caminha. Não foi para que eles não se habituassem. Foi para que EU não me habituasse.

E sim, já só choro ‘lágrimas de mãe’ o que significa coisas muito boas para a mulher.

Mas, ainda assim, lágrimas de mãe são uma torneira estragada: não precisam de motivo para correr.

Os ciúmes do Martim

O Miguel fez um ano e o mundo do Martim mudou um pouco.

Aconteceram por estes dias algumas coisas pela primeira vez. Coisas que ele ainda não tinha percebido que faziam parte do pacote ‘ter um irmão’ e com que ele não estava claramente preparado para lidar.

Desde logo, o Miguel teve um dia especial quando até aqui só ele tinha dias especiais. Toda a gente deu os parabéns ao Miguel e ele ficou sempre, sem excepção, com cara de ‘e eu?’

A contagem de presentes também não foi favorável. Muitos para o Miguel, dois ou três para o Martim.

O Miguel tem roupas novas. O Miguel tem, pela primeira vez, brinquedos que são dele de pleno direito e já não precisa de brincar só por empréstimo consentido do irmão.

Tudo isto tem sido visivelmente desconfortável para o Martim.

Pela primeira vez desde que o Miguel nasceu, o Martim demonstra ciúmes de forma evidente.

Há mais birras. Mais medição de força connosco. Mais proteccionismo em relação às suas coisas e maior necessidade em impôr-se ao irmão.

Foi o Martim quem estreou todos os brinquedos que o Miguel recebeu nos anos, aproveitando-se do mano ter adormecido no caminho para casa a seguir à festa e indiferente ao facto de serem, na sua maioria, brinquedos marcadamente para bebé (obviamente).

E, quando ontem de manhã vesti um casaquinho novo ao Miguel e perguntei ao Martim se achava que o mano estava giro, ele deixou cair um beiço até ao chão e não respondeu.

Como em todas as outras vezes que quero que ele fale comigo, abracei-o com força. Perguntei se estava triste. Abanou a cabeça que sim. Perguntei porquê.

‘É que eu também queria um casaco de tigre igual ao do mano’.

Choramingou um pouco e eu abracei-o com mais força.

Expliquei-lhe que o casaco é de bebé, que não há o tamanho dele, que cada um deles é único e que ele, com as roupinhas que veste, tem muito estilo.

Além disso, lembrei-o de que já pediu ao Pai Natal pijamas iguais para ele e para o irmão (lembram-se desse meu drama? ENCONTREI na Zara, dois pijamas bem quentinhos e iguais para os meus pinguins).

O Martim percebe. De verdade. o Martim compreende tudo. Mas ao mesmo tempo… Não. Porquê? Porque tem quatro anos e é tão sensível quanto qualquer um de nós.

Reconheço: ele é tão fantástico, tão ‘adulto’ na forma como fala, no vocabulário que usa, na maneira como demonstra apreender o que o rodeia, que às vezes me esqueço que ele é um bebézão. Um bebézão bem falante e extremamente inteligente, mas um bebézão.

Felizmente, de tão fantástico como é, o Martim ajuda-me a lembrar.

Mariana, Maria, Mafalda – A Mafalda

Reparei, sentada no espaço da Mariana (de quem vos falei anteontem aqui) e enquanto apreciava o quanto é extraordinária, que a minha vida tem muito mais M’s do que aqueles com quem vivo. M’s no feminino. Todas me trazem nada mais do que bem-estar e felicidade e não são as mulheres mais evidentes – mãe, irmãs, amigas – que nos vêem à cabeça quando pensamos nisso. Não sei se elas o saberão e, como tal, nesta semana que antecede o Natal, quero agradecer-lhes. Termino este set de histórias com a da Mafalda.

A Mafalda

A Mafalda foi um vendaval na minha vida. Este ano, com 33 anos, finalmente percebi-me, compreendi-me, perdoei-me, sarei as feridas que tinha comigo, segui em frente. A Mafalda ajudou-me a fazê-lo.

Não é preciso conhecer-me há muito tempo para já me ter visto com qualquer peso entre os 60kg e os 86kg. A facilidade com que ganho e perco peso, para o bem e para o mal, sempre me acompanhou. Os meus problemas de imagem e auto-estima, claro está, também. Sempre fui estupidamente bem sucedida com qualquer dieta com que me comprometesse e estupidamente mal sucedida a manter os estrondosos resultados que sempre consegui atingir.

Certo dia o facebook sugeriu-me a Mafalda e eu comecei a segui-la. Muitos de vós provavelmente conhecê-la-ão pelo seu trabalho como actriz em Portugal e com o nome Mafalda Pinto. Hoje a Mafalda adoptou o nome de casada, Rodiles, vive no Rio de Janeiro (que inveja!), é mamã da Mel e, agora, do recém-nascido Martim (também ela vive rodeada de M’s bons) e assumiu publicamente que não é mais actriz. O seu trabalho a tempo inteiro hoje é, justamente, ajudar mulheres como eu, a reencontrarem-se.

Depois de um pequeno workshop online resolvi dar um beijinho sentido ao meu dinheiro e dizer-lhe adeus. Comprei o curso dela ‘Seja feliz sem dietas’. Aqui para nós, e como ela já partilhou algumas vezes com as suas alunas, o curso deveria apenas chamar-se ‘Seja Feliz’. Comprei o curso a pensar que ia aprender sobre mudanças de hábitos alimentares, truques para alcançar o peso pretendido e rotinas para mantê-lo.

Foi tão mais. A Mafalda dá-se ao trabalho de conhecer profundamente cada uma das suas alunas, entender todo o seu background e curar a sua relação com a comida exactamente onde ela começou a correr mal. Exactamente onde começámos a castigar-nos, comendo, a compensar-nos, comendo, a distrair-nos, comendo, a descarregar os males da vida, comendo.

Aprendemos que, por muito que alcancemos aquele nosso ideal de corpo perfeito, nunca estaremos satisfeitos com ele porque o peso nunca foi o problema. Aprendemos a identificar os problemas e a resolvê-los lidando com eles da forma que eles devem ser tratados, em vez de os tapar com comida só para suportar mais um dia.

Acabo o ano uma pessoa muito diferente daquela que o iniciou. Não estou (ainda) no meu peso ideal. Continuo a esforçar-me para o alcançar, mas aprendi a respeitar o ritmo do meu corpo e a arte tão simples de comer quando tenho fome e parar quando estou satisfeita, algures perdida (por mim e por tantas outra mulheres) enquanto cresci.

O curso acabou há meses, mas ainda nos falamos. Gosto de saber dela e ela de mim. Trocamos ideias sobre muitas coisas e o pontapé de saída para o Entre M’s foi também uma das nossas conversas. Apesar de já lhe ter dito muitas vezes o quanto a minha postura perante a vida mudou por causa dela, não podia deixar que este ano terminasse sem assinalar devidamente esse facto.

Mafalda, o teu trabalho muda vidas. Mudou a minha. Sou (final e genuinamente) feliz comigo. Obrigada.

(se quiserem saber mais sobre o programa ‘Seja feliz sem dietas’ podem encontrar toda a informação no site ou entrar em contacto com a Mafalda pelo facebook).

 

Mariana, Maria, Mafalda – A Maria

Reparei, sentada no espaço da Mariana (de quem vos falei ontem aqui) e enquanto apreciava o quanto é extraordinária, que a minha vida tem muito mais M’s do que aqueles com quem vivo. M’s no feminino. Todas me trazem nada mais do que bem-estar e felicidade e não são as mulheres mais evidentes – mãe, irmãs, amigas – que nos vêem à cabeça quando pensamos nisso. Não sei se elas o saberão e, como tal, nesta semana que antecede o Natal, quero agradecer-lhes. Hoje é a vez da Maria.

A Maria.

Quem acompanha o Entre M’s sabe que este post já andava prometido há algum tempo. A Maria não é nenhuma novata no Entre M’s. Já a mencionei aqui e aqui.

Conheci-a quando decidi engravidar do Miguel. Vinha insatisfeita com a actividade física que tinha praticado na gravidez do Martim, muito por medo. Na consulta de planeamento e em resposta às minhas questões sobre exercício na gravidez fui aconselhada a manter o nível de exercício que praticasse há pelo menos três meses antes de engravidar para não ‘chocar’ o corpo.

Decidi, assim, que queria intensificar ao máximo o ritmo para poder, durante a gravidez, mantê-lo.

Comecei à procura de uma PT para me ajudar. Sim, uma. Queria uma mulher. Alguém que não tivesse cerimónias com as desculpas que eu viesse a tentar dar mas que pudesse também, de uma forma instintiva, colocar-se no meu lugar.

Conheci a Maria e a nossa empatia foi quase imediata. Percebi-lhe uma garra que a mim me faltava, uma enorme preocupação em perceber as minhas motivações e em desenhar um plano realista para chegar aos meus igualmente realistas objectivos. Nunca o ‘personal’ de ‘personal trainer’ fez tanto sentido.

Temos trabalhado juntas desde então. Às vezes treinamos juntas também. Ela faz-me ver o lado aventureiro da vida e eu partilho com ela o lado mais filosófico. Tem apenas menos cinco anos do que eu, mas estamos em lugares tão diferentes da vida que eu a vejo como uma super-atleta, super-mulher, suprasumo das suprasumos e ela me vê também como uma super… mamã.

Engravidei em menos tempo do que esperava e durante 38 semanas o Miguel  ‘treinou’ connosco (a prova disso está neste vídeo de mim enorme, no nosso último treino pré-parto). A Maria foi das primeiras pessoas a conhecer da existência do meu MigueLindo e ele tornou-se o seu ‘bebé fit’. Hoje, é também ela que me ajuda a regressar ao meu estado pré-Miguel (e embora a balança mo negue, eu sei e vejo que já o superei). Combinamos bem. Somos ambas ‘zen’. Apesar do nosso contacto ser bastante focado na tarefa que nos uniu, conto com ela como com uma amiga.

Os treinos, apesar de cuidadosamente programados podem ser alterados assim que ela me vê. ‘Hoje não me pareces muito bem, vamos fazer um treino mais leve’. Outras, praticamos pequenas metas – coisas que podem ser tão simples como entrar e sair de uma passadeira em movimento ou saltar para uma box (um pequeno trauma meu), mas que, uma vez conquistadas, me deixam com uma sensação de quase heroísmo muito satisfatória.

Mais importante que tudo isto, creio que nunca poderei agradecer-lhe o suficiente o gosto que plantou em mim pelos treinos. A hora de ir ao ginásio tornou-se terapêutica. A superação é constante e é um lugar que me ajuda a esvaziar a cabeça e a reorganizar as ideias.

O Mundo é um lugar melhor depois de um treino. Por muito que doa no corpo, a alma vem sempre mais leve.

Obrigada Maria, por me ajudares a parecer-me como me sinto e por me tirares as rugas de preocupação que te levo sempre do escritório.

(o facebook da Maria já está mais do que espalhado pelo blog, mas não custa relembrá-lo. Aqui fica novamente.)

Mariana, Maria, Mafalda – A Mariana

Reparei, sentada no espaço da Mariana e enquanto apreciava o quanto é extraordinária, que a minha vida tem muito mais M’s do que aqueles com quem vivo. M’s no feminino. Todas me trazem nada mais do que bem-estar e felicidade e não são as mulheres mais evidentes – mãe, irmãs, amigas – que nos vêem à cabeça quando pensamos nisso. Não sei se elas o saberão e, como tal, nesta semana que antecede o Natal, quero agradecer-lhes.

A Mariana

A Mariana é cabeleireira e maquilhadora e tem um salão na Costa de Caparica.

Quando me casei com o Mário, casei-me também com a Mariana e nunca mais a deixei.

Explico. Quando comecei à procura de tudo o que se procura quando se planeia um casamento – e eu planeei o nosso sozinha – houve algo que sempre soube: quem trataria do meu cabelo e maquilhagem no grande dia.

Não. Eu não conhecia a Mariana, mas uma das minhas melhores e mais antigas amigas é, também, uma amiga comum e o seu próprio casamento foi a montra perfeita para os serviços da Mariana.

Estava decidido antes mesmo de eu ter que decidir.

A Mariana não é só uma profissional admirável. A Mariana é uma mulher admirável. Trabalha por paixão e não foge das dificuldades.

A Mariana também é mãe de um menino maravilhoso. Mas, trabalhando por conta própria, não pôde gozar uma licença de maternidade como as trabalhadoras por conta de outrém.

Descobri que queria escrever sobre ela quando, há uns dias, cheguei na hora marcada e encontrei-a à porta do salão, a despedir-se do filho.

“Vá amor, vai para casa com o papá, a mamã tem que ir trabalhar.”

Nesse momento, a Mariana deixou de ser só ela e diante dos meus olhos vi todas as mães que, como ela, abdicam de tempo precioso com os seus filhos para trabalhar, para construir algo de que se orgulhem também enquanto pessoas.

Às demais não posso oferecer grande consolo, mas à Mariana, que me atende sempre com um sorriso e tem possivelmente o único salão do Mundo com a TV ligada na VH1, renunciando ao flagelo dos programas matinais e pós jornal das 13h, posso agradecer.

Posso dizer-lhe três coisas. 1. És fantástica no que fazes; 2. Não há cliente difícil que não consigas satisfazer; e 3. Tornas sempre o meu dia (e a minha auto-estima) um pouco melhor.

Os teus sacrifícios valem a pena. Obrigada.

(Se quiserem conhecer um pouco mais do que aquelas mãozinhas são capazes – a resposta é ‘tudo’ já agora – podem entrar em contacto com ela através do facebook ou do instagram).

Sinais do Natal III – a chegada do Miguel

É até injusto o título deste post. O Miguel não é UM sinal do Natal. O Miguel é O sinal do NATAL.

Em 15 de Dezembro de 2016, faz hoje precisamente um lindo, maravilhoso, mágico e único ano, em hora de ponta, como o irmão, sem esperar o pai chegar a casa do trabalho, como o irmão, o Miguel resolveu chutar a bolsa de águas com um pouco mais de força, como o irmão, e fazer a vontade à mãe, como o irmão, ao não ‘passar do prazo’.

Com tantas coisas ‘como o irmão’, senti que, como com o irmão, ia acontecer tudo muito rápido e por isso, ao contrário do que fiz com o irmão, não fiquei a pastelar no sofá, não me arrastei para comer um lanchinho, não desfilei para o duche. Levantei-me de um salto, fiz algumas chamadas essenciais, atirei-me para o chuveiro e preparei-me para sair.

Os meus pais trouxeram-me da escola o Martim. Expliquei-lhe o que ia passar-se, que a minha ausência seria curta e por um motivo muito feliz. Vi nos seus olhos que entendeu. Ele, porque é o melhor menino do Mundo, abraçou-me e ficou bem, como sempre fica.

As dores começaram a ficar muito sérias, muito depressa. Por momentos achei que o maridão não chegaria a tempo de me levar e isso deixou-me um pouco ansiosa. Felizmente ele chegou e arrancou de mim qualquer réstia de maus sentimentos, tão desnecessários nessa hora. Lá fomos para o Hospital Garcia de Orta, casa que viu nascer também o Martim.

Mas homem não sabe o que é uma contracção forte. Não sabe. Se soubesse, homem não perguntava à sua mulher com contracções fortes, enquanto conduz na bela estrada esburacada deste país, se vira à direita ou segue em frente. Se soubesse, homem não interpretava a falta de resposta como um incentivo para pedir mais qualquer coisa do tipo «aperta a minha mão uma vez para ‘frente’ e duas para ‘direita’». Se soubesse, homem não confundia o apertão que levou na mão com uma resposta. Não. Jamais. Mas homem não sabe. E por isso o meu preocupado marido fez esse papelão no carro a caminho do hospital. Hoje à distância, rio-me do grau de desorientação a que é levado um quase pai. Na hora… Bom, nem por isso.

Já no hospital recebi o retorno mais desejado que alguma vez tive relativamente a uma chamada feita e não atendida. O meu enfermeiro/guru/Deus Bruno Rito – o melhor enfermeiro parteiro à face da Terra e só não do Universo porque não consta que o Universo tenha face – disse-me o que eu queria ouvir, no mais perfeito dos timings: estou por aqui, vou buscar-te (grávidas que me lêem, podem – e devem – conhecer este anjo na Terra aqui, aqui e sobretudo, aqui, onde dá os seus cursos de preparação para a parentalidade).

Após avaliação, como antevia, constatou-se que o trabalho de parto já estava avançado e fui encaminhada para o Bloco de Parto. A bênção da analgesia epidural chegou pouco depois e também um pouco fora dos critérios (mais uma vez, tenho tudo a agradecer ao Enf. Bruno Rito pelo silêncio conivente e solidário que permitiu que me fosse administrada a epidural já ‘fora de horas’).

A dor morreu para deixar nascer o meu bebé. A partir daí foi tudo muito, muito rápido. Ou, pelo menos, foi assim que o percepcionei. Num piscar de olhos o Mário estava perto de mim e eu alternava entre o banco de parto – onde queria ter o meu filho – e a marquesa, para permitir que o Enf. posicionasse o Miguel da forma mais favorável possível. Num instante, tinhamo-lo nos braços, forte, grande e a fazer-se ouvir, cheio de vitalidade.

Eram 19h24 quando me tornei mãe pela segunda vez. Honestamente, foi como se fosse a primeira. Porque é única a sensação de olhar nos olhos aquela pessoinha com quem conversámos baixinho durante nove meses e que durante nove meses foi a nossa companhia permanente, para o bem e para o mal. Foi agridoce. Tinha-o finalmente nos braços, mas nunca mais moraria dentro de mim. Pelo menos, não literalmente.

O meu monstrinho chegou a dez dias do Natal. Trouxe presentes para o mano, como quem pede desculpa por todos os colinhos da mãe que já lhe havia roubado até aí e por todas as partilhas forçadas que ainda virão, mas não precisava. O Martim é, desde o momento em que conheceu o irmão, o mano mais velho mais orgulhoso do Mundo.

Mas melhor do que tudo: trouxe-se de presente para nós, lindo, saudável.

E hoje é o dia dele. Do meu anúncio de um Natal para sempre perfeito.

Dele e nosso com ele, tal como no primeiro momento.

Sinais de Natal II – uma nova bola na árvore

Cá por casa poucas coisas anunciam a chegada do Natal como a compra de uma nova bola, representativa do nosso ano.

Tudo começou quando, em 2012, prestes a passar o nosso primeiro Natal juntos, quis espicaçar um pouco do romantismo do meu hoje marido e lhe pedi que me surpreendesse com um enfeite original para a nossa primeira árvore de Natal em conjunto.

Ele ficou aflito, como fica sempre que lhe peço algo sem lhe dar grandes parâmetros. Tem medo de não corresponder à expectativa que já me cansei de explicar que não tenho.

Naquele caso, só queria mesmo que ele perdesse um tempo a escolher algo com significado para ele, logo, para nós.

Quando me ofereceu a primeira bola da fotografia que ilustra este artigo, com uma foto de nós dois dentro ainda não sabia que estava a criar uma tradição na nossa família (composta de nós dois na altura).

Achei enternecedora a escolha, pendurei-a com o maior carinho num lugar bem destacado.

No ano seguinte chegou o Martim para nos acabar de felicidade e achámos que o seu primeiro Natal nas nossas vidas tinha também que ter lugar na árvore.

Desde então cada Natal chega uma bola nova e já lá vão seis.

Afeiçoei-me muito ao simbolismo de fechar cada ano relembrando os momentos felizes da nossa família, cada vez maior.

Afeiçoei-me também ao bom prenúncio de começar um novo ano com o compromisso de criar momentos como aqueles.

O improviso do meu marido encurralado por um pedido meu tornou-se um dos meus sinais de Natal preferidos.