OCR Wild Challenge Cascais – O Rescaldo

Em tempos escrevi sobre esta prova. Nessa ocasião, mencionei que me tinha inscrito por obra e graça da minha PT e que, para mim, seria mais ou menos o equivalente a pisar a lua.

Foi.

O que justifica que tenha precisado de deixar passar uns dias para escrever sobre ela (é que até agora os meus braços não respondiam muito bem às ordens do cérebro).

9h30. Chegada ao ponto de encontro. Percebi, ainda na qualidade de perfeitos desconhecidos uns dos outros, que tínhamos sido todos enganados da mesma maneira, pela mesma pessoa. Esmagadoramente estreantes nestas lides, havia alguma expectativa e ansiedade no ar, acompanhadas de uma boa dose de entusiasmo. Foram-se contando piadas, partilhando histórias e maldizendo a dita PT (só enquanto ela não chegou, claro).

11h30. Hora de partir. 10km. 40 obstáculos. Saltámos mais placas de madeira e estruturas metálicas do que consegui contar. Trepámos cordas, paredes de escalada, fomos amostras de american ninja warriors, chafurdámos na lama, carregámos sacos, troncos, pneus. Corremos. Subimos encostas tendo como única recompensa a vista de perder o fôlego que já tinha, de qualquer modo, ficado pelo caminho. Descemos trilhos aos tropeções e escorregões. Equilibrámo-nos em tábuas, em argolas, em nada às vezes (pelo menos parecia).

 

 

 

 

 

Foi duro. Foi… Wild.

Superámos muitos obstáculos. Outros levaram-nos a melhor. Ajudámo-nos. Rimos. Alguns de nós – leia-se ‘eu’, cof cof  – choraram também.

 

 

 

 

 

 

 

15h30. A preciosa meta. Exaustos. Sujos. Esfaimados.

Felizes. Muito felizes. Não necessariamente por ter terminado (ok, talvez um pouco), mas por termo-lo feito.

Tenho tantas marcas no corpo que neste momento já tenho um novo jogo para brincar com os meus filhos. Chama-se ‘nódoa negra ou tatuagem?’

Não sei o que os demais fizeram ao chegar a casa. Sei que a minha mente dormiu o sono dos justos, mas o corpinho teve que levantar-se quatro vezes durante a noite para atender a solicitações várias dos pequenos M’s.

A pior delas foi quando, às 6h40, o Martim gritou ‘Mamããããã! Anda cá!’

Arrastei-me, novamente, no meu modo atropelada por um camião TIR até ao quarto deles e perguntei ‘O que é?’ (o tom não foi, confesso, o mais amistoso).

‘Hoje ainda é Domingo?’

Chorei por dentro ao responder. Não, já não era Domingo. A minha mente adormecida e o meu corpo atropelado teriam que arranjar maneira de se arrastar até ao trabalho.

***

E agora gente boa, com licença, que eu vou só ali onde fomos felizes e já volto.

Bom fim-de-semana!

‘Amigo Pai Natal’ – A carta

Lá em casa andamos a resistir à abertura da época festiva. Por um lado, a sala está tão bagunçada que não consigo visualizar espírito natalício que não vá, apenas, adicionar confusão.

Por outro, vêm-me à memória o tanto de voos picados que fiz para agarrar pinheiros de natal cadentes quando o Martim, embora um pouco mais velho, tinha a destreza do Miguel e metade da malícia (lá está a maldição do segundo filho em acção).

Mas hoje… Hoje foi dia de escrever ao Pai Natal.

Aquelas letrinhas tortas e copiadas do texto carinhosamente escrito pela educadora ou pela auxiliar da sala mostram-me mais do que desejos de Natal. Até porque, aqui para nós, aquele menino tem tantos brinquedos que não é nada daquilo que ele quer. Na verdade, a única coisa de que ele precisa para brincar feliz é de um de nós a olhar para ele, a brincar com ele, a incentivá-lo quando chuta a bola, a perguntar sobre os desenhos que faz, a elogiar quando completa sozinho um puzzle.

A carta mostra-me outra coisa: o meu menino a crescer.

O primeiro Natal do Martim foi um sofrimento para os dois. Tinha dois meses e os cheiros, a quantidade de pessoas a pegar-lhe, o barulho, foi tudo demais para ele. Acabámos escondidos num quarto. Ambos exaustos (valeu-me um providencial prato de bacalhau à frente).

No seu segundo Natal o Martim ainda não entendia o que era. As luzes eram engraçadas e puxar os ramos do pinheiro era a actividade favorita.

Com dois anos, além das luzes, os presentes apareceram, por magia, aos seus olhos. Ainda não eram muito importantes. Mas rasgar papéis coloridos e ter coisas novas era entusiasmante. Esteve bem disposto com os primos e riu muito.

No ano passado o Natal já foi um Natal de crianças. A ansiedade, a contagem decrescente com o calendário de advento, a família, os desejos de Natal… Ajudou-me a decorar a casa com afinco e mostrou, orgulhoso, a sua participação a todos quantos entraram lá em casa nessa época.

Este ano… É tudo isso e mais. Este ano há uma carta. Uma expressão (escrita, imagine-se!) da(s) sua(s) vontade(s). O Martim já não é um bebé. É um menino. Quantos anos mais acreditará no Pai Natal? Quantas mais cartas escreverá?

Não sei. Mas esta convenceu-me: mesmo com bagunça, mesmo com um pequeno elfo terrorista presente, a nossa casa vai, sim, encher-se de Natal.

Enquanto é tempo.

‘Ainda sou o teu amor?’

Pergunta-me ele com os olhos maiores do Mundo.

Sempre que faz algo que não deve.

Sempre que lhe franzo o sobrolho.

Sempre que pressente que me vou aborrecer com ele ou, não pressentindo, quer quebrar o meu embalo já zangado.

‘Ainda sou o teu amor?

É o que ele pergunta sempre.

Não sei se quer mesmo saber ou se é só uma maneira de contornar qualquer que seja a asneira que sabe que fez.  Ou talvez eu até saiba e prefira brincar ao faz de contar e fingir que não.

‘Ainda sou o teu amor?’

Diz ele baixinho e com uma voz doce como o som do mar num dia sem ondas.

‘Mamã… ainda sou o teu amor?’

Ele pergunta. Todas as vezes. E independentemente da razão porque pergunta, todas as vezes o meu coração cede. Sem excepção.

E lá acabo por lhe explicar, calmamente, o que correu menos bem daquela vez.

‘Ainda sou o teu amor?’

Ia zangar-me, mas já não vou. Estava a zangar-me mas tenho que parar. Porque aquela pergunta é importante e é preciso responder-lhe.

‘Ainda sou o teu amor?’

Abraço-o.

‘Claro que sim, Martim, vais ser sempre o meu amor’.

E torço… Torço para que saiba que é verdade.

 

A maldição do segundo filho

Quem diz do segundo, diz do terceiro, do quarto e de quantos tivermos coragem e vontade de ter.

Facto é que o segundo filho nasce já com uma pequena chaga que dificilmente irá, algum dia, sarar. Pior, transmite-se, por via aérea, ao primeiro. Pode piorar ou melhorar várias vezes consoante o estado de espírito dos pais e demais familiares ou até mesmo em função da relação que com eles tenham os intervenientes, mas sarar… Nunca.

Falo de comparações.

Ainda o segundo filho não nasceu e já nós comparamos, querendo ou sem querer, a gravidez que temos com a que tivemose.

Mal o segundo filho nasce e já não é só a cara da mãe ou do pai, mas fatalmente ‘mais parecido com a mãe ou o pai do que o irmão’.

E a partir daí são infindáveis as possibilidades: com esta idade o Martim já não mamava; o Miguel começou a andar mais cedo do que o irmão; o Martim aprendeu a falar muito antes; o Miguel é mais traquina…

Eu própria já os comparei, aqui mesmo, no Entre M’s (aqui, aqui e aqui).

Na maioria das vezes, e independentemente de como em concreto o verbalizamos, a comparação é apenas instintiva e não queremos, verdadeiramente, comparar os nossos filhos um com o outro, num sentido em que um sobressai, de forma positiva face ao outro, mas antes e somente a nossa experiência enquanto pais numa e noutra situações.

E apesar de ser, em abstracto, um fardo pesado para duas crianças que vivem sob o mesmo tecto, as comparações podem, sim, ser inócuas. Podem, sim, não contribuir de forma nociva para o desenvolvimento de qualquer dos nossos filhos (não sejam as elas demasiado frequentes, demasiado deliberadas ou abertamente depreciativas para um deles…).

Mas quando, enquanto pais, estranhamos as diferenças entre os nossos rebentos argumentando com frases do género ‘como é que é possível? Criados da mesma maneira…’ iludimo-nos. Não foram criados da mesma maneira, mesmo que achemos ter feito todos os esforços nesse sentido. Pois se um já foi filho único, outro não conhece o que é viver sem um irmão. Se um teve pais de primeira viagem, com tudo o que isso implica, o outro beneficia de uma maior experiência. E se por acaso o primeiro teve algum problema de saúde ou alguma dificuldade de adaptação particularmente marcante para os pais, isso reflectir-se-á inevitavelmente na forma como tratarão o segundo em situações semelhantes.

Em suma, todos temos memória (e memórias). As comparações que fazemos entre eles têm a sua raíz em nós. Nós não somos os mesmos pais num primeiro e num segundo filho. Não seremos, quiçá, sequer as mesmas pessoas. E isso não tem que ser mau.

A ‘maldição’ não tem que ser má.

Se tivermos presente que comparamos nada mais do que as nossas próprias experiências parentais e não, necessariamente, os nossos filhos entre si, comparar deixa de ser uma vivência frustrante para todos e pode, na verdade, ser vista como uma oportunidade.

Para sermos pais mais aptos a tirar o melhor partido das qualidades únicas que cada um dos nossos filhos traz consigo. Para sermos mais ágeis a extrair delas ensinamentos valiosos. Para nos tornarmos melhores pais. Para os dois, mas à medida de cada um. Mesmo com comparações.

Essa maldição…

Esta é a história de quase todas as fotografias com os M’s

Esta é a história de 99% das fotografias que tento tirar aos meus pequenos M’s.

Começa mais ou menos assim: um dia bonito, eu sozinha com eles ou eles a serem extremamente fofos numa situação qualquer.

Nesta história, o caso foi o primeiro.

 

 

 

 

 

 

Fomos até Cacilhas porque o Martim gosta muito de olhar para o rio. Eu gosto de os levar. Lembra-me de apreciar os pequenos prazeres da vida que tantas vezes temos como certos (qual foi a última vez que pararam para, simplesmente, olhar para o rio e comentar a cor da água ou os barcos ao longe?).

Os M’s estavam bem dispostos e divertidos e entretinham-se um com o outro. O Martim era um ninja do fogo e tentava trepar por uma grade e balançar num estacionamento de bicicletas.

O Miguel era, também, um ninja. Não importa do quê. Era um ninja porque é, desconfio, esse o seu alter-ego natural. Ninja (deus me ajude!). E porque é um ninja, o Miguel imitava o irmão.

Não ia perder a oportunidade. Telemóvel fora do saco e toca de tentar apanhar os meus lindos ninjas bem dispostos.

Foi mais ou menos assim:

«Martiiiim! Migueeeel! Olhem para a mamã!

 

 

 

 

 

 

Vá, outra vez! Olhem para a mamã!

 

 

 

 

 

 

 

 

Ok, esta ficou boa! Ah não… desfocada. Já agora aproveito e ponho-me um pouco mais contra o sol, que, se calhar, neste ângulo não se vê bem aquelas carinhas larocas.

Meninos! Meninos!

 

 

 

 

 

 

 

Vá Martim… Põe-te lá só um pouquinho ao pé do teu irmão… Faz lá esse favor à mãe!

 

 

 

 

 

 

Isso, mas agora sem o dedo no nariz, ok?

 

 

 

 

 

 

Boa, assim mesmo Tim, fica assim. Miguel!! Olha para a mamã!

Miguel não! Assim não! Vais cair! Miguel! MIGUEL!!!»

 

 

 

 

 

 

…Caiu. Claro.

Chorou. Claro.

Sangrou da boca. Claro.

E eu? Continuei sem a minha foto. Claro.

Bom, ao menos estava um dia bonito…

E se fosse consigo? Assédio

O programa ‘E se fosse consigo?’ da SIC, da passada segunda-feira procurou retratar uma cena de assédio de rua, em que dois rapazes importunavam de forma insistente uma rapariga que se mostrava consistentemente constrangida e desagradada.

Quis a ironia que a cena fosse filmada numa paragem de autocarro do concelho onde cresci e onde, curiosamente, tantas vezes eu própria apanhei o autocarro. Onde tantas vezes eu própria fui o alvo de comentários constrangedores.

Veio-me imediatamente à cabeça um post da plataforma Capazes já com mais de dois anos, onde se relatava uma situação de assédio sob a hastag #queroandarempaznarua e que terminava com a pergunta ‘Sou a única?’ Ao ler esta pergunta, a minha reacção imediata foi comentar enumerando uma série de situações que me aconteceram desde muito, muito criança (era minha intenção reproduzir esse comentário mas, não sei porquê, eles já não me aparecem visíveis no artigo).

Em todo o caso, não parei para pensar ou para recordar essas situações. Elas vieram-me, simplesmente, à memória, de forma automática. Foram essas, de criança, podiam ter sido outras. Tantas, tantas outras.

Como a do vizinho que, conhecendo-me desde o berço, passou todos os anos da minha pré-adolescência e adolescência a comentar as roupas que eu vestia, a quantidade de pele que elas deixavam ver, a perguntar sobre namorados quando ainda os não havia e sobre o que eu fazia com eles quando passou a havê-los.

Ou como a do homem que me abordou no caminho de volta do ginásio para o trabalho, segurando-me o braço e perguntando-me se me podia conhecer (o tom tinha uma interrogação no fim, mas senti, de verdade, que não era uma pergunta).

Ou a de um outro, com idade para ser, pelo menos meu pai, que sentiu necessidade de verbalizar o desejo que eu, grávida de oito meses que estava do Martim, lhe despertava.

Podia continuar por largas linhas, sem hesitar e, mais uma vez, sem ter que puxar pela cabeça para me lembrar de inúmeras situações que, infelizmente – e digo ‘infelizmente’ porque traduz uma conformação com este tipo de comportamentos que considero, a todos os títulos, inaceitáveis – sinto como cada vez menos constrangedoras.

Não entendo que me tenha tornado uma adulta traumatizada pelas situações de assédio com que fui confrontada desde demasiado nova, mas não tenho dúvidas de que fizeram de mim uma pessoa um pouquinho pior do que poderia ser. Um pouco menos confiante. Um pouco mais agitada. Um pouco mais explosiva.

Em contrapartida, estou certa de que terão feito de mim uma mãe de meninos mais preparada. Para que outras meninas e mulheres não passem pelo mesmo. Não às mãos de homens que eu tenha tido oportunidade de educar para o respeito por cada indivíduo em si mesmo e não somente para o respeito restrito aos seus pares.

Quanto ao programa, embora, por experiência própria, não esperasse nada diferente, entristeceu-me. Entristeceram-me os relatos, entristeceram-me as pessoas que ainda vêem graça no desconforto de uma mulher acossada na sua intimidade, entristeceu-me o aparente descaso e desencorajamento das autoridades a que se reportem estas situações formalmente.

Mas mais que tudo isso, entristeceu-me o facto de, pela primeira vez, não conseguir rever-me no título do programa.

E se fosse consigo?? Como assim, ‘se’? É comigo! Foi comigo! Tem sido comigo a vida toda!

Comigo e com todas nós.

E não há perspectiva sob a qual isso possa estar certo ou vá, que seja, um pouco menos errado.

#feminismonãoépalavrão

Ando a perder qualquer coisa… – ainda as manhãs

No meio de todos os meus hercúleos esforços para ligar a minha conta de instagram ao blog – os quais, basicamente, materializam todas as minhas tentativas de fazer o que quer que seja que implique os mínimos olímpicos de domínio de informática – dei comigo perdida em postagens antigas das minha manhãs com o Martim.

E ali, perdida em fotos antigas, pensei que era isso mesmo o que sentia: que ando a perder qualquer coisa.

Nessas manhãs em que éramos só eu e ele, acordávamos cedinho os dois e havia tempo para tudo. Arranjávamo-nos na preguiça e enrolávamo-nos no sofá a ver bonecos nas manhãs mais frias. Que bem que me sabiam aqueles miminhos de mãos pequeninas!

Sobretudo, havia sempre tempo para brincar. Na sala ou no quarto, espalhávamos o que lhe apetecesse nesse dia e brincávamos os dois. Eu fazia-lhe bonecos de plasticina que, mal terminados, tinham que se transformar noutra coisa. Montávamos os carris do comboio de lego para o ver andar… e descarrilar. Fazíamos corridas de carrinhos em pistas imaginárias feitas de almofadas e franjas de tapete.

Às vezes, só às vezes, quando ele acordava demasiado cedo, usava das minhas melhores técnicas de flexibilidade para me deitar na cama de grades com ele. E lá ficávamos os dois, até que pelo menos o sol nascesse e chegasse de mansinho uma hora decente para se estar a pé.

Engravidei do Miguel. A agilidade com que me esgueirava para dentro da caminha de grades evaporou à medida que a barriga crescia. O cansaço tomou conta e começou a ser difícil sentar-me no chão com o Martim tanto tempo. Houve dias de análises e dias de consultas matinais em que não foi possível brincar ou acompanhá-lo à escola. Tempo que nos foi roubado, embora por ninguém.

O Miguel nasceu. Apesar de tudo o que exige um recém-nascido eu estava em casa e os meus horários eram apenas os dele. Havia tempo. Passado o primeiro mês, levava o Martim à escola de metro, sem pressa, e voltava com o Miguel, muitas vezes a pé. Pelo caminho contávamos histórias, observávamos as flores, víamos as pessoas nas suas vidas atarefadas e falávamos sobre tudo e sobre nada. Chegada a casa passava horas com o Miguel ao colo a vê-lo dormir e passeávamos sempre que havia bom tempo.

Mudámos de casa. E de alguma forma parece que mudámos de relógio também, porque o nosso tempo nunca mais foi o mesmo.

A sensação que tenho é que passava muito tempo de qualidade com o Martim antes de nascer o irmão e até voltar a trabalhar após a licença e que agora passo muito pouco com qualquer dos dois. Juntos, acordam mais tarde. Entre pequenos-almoços, fraldas e dentes por lavar já não brincamos. E à noite, entre banhos, jantares e o dia seguinte para preparar, a verdade é que também não. 

Estou sempre cansada. Sempre atrás do relógio. Chateio-me mais. O Martim não percebe e sei que se sente a desiludir-me. O Miguel também não percebe, embora por outras razões, mas já arregala os olhos e fica muito quietinho a olhar para mim quando me aborreço.

Ando a perder qualquer coisa. E ‘qualquer coisa’ é cada vez maior. E ‘qualquer coisa’ cresce de forma inversamente proporcional à minha vontade de perder o que quer que seja.

Não quero perder pitada deles.

Não quero ser ‘a mãe cansada demais para brincar’.

Não quero ser ‘a mãe que grita’.

E não quero fazer de conta que eles têm culpa disso.

Só quero as nossas manhãs de volta…

Voltar onde fomos felizes

Começo por contar um segredo: o Mário não segue o blog. 

Existe um motivo para isso mas fica, talvez, para uma outra história.

Hoje em particular, o facto do meu marido não ter a mais pálida ideia daquilo que faço com uma parte cada vez mais substancial do meu tempo (sorte a dele ser tempo e não dinheiro…), possibilita-me surpreendê-lo. Por isso vá, cooperem e não lhe contem nada do que vão ler…

 

Em 2012 fizemos a nossa primeira viagem juntos. Fomos a Roma e foi indescritível.

Sabem aqueles imprevistos chatos que acontecem em todas as viagens? Não tivemos nenhum.

Estávamos no início de Junho mas pelo tempo parecia pleno Verão.

Comemos gelados todos os dias.

Fizemos a cidade a pé e não demos por isso até o escaldão ser evidente no meu peito e ombros e até os pés se recusarem a andar mais.

Estávamos a cinco minutos a pé do Coliseu, onde também fomos todos os dias. De dia. De noite. Sempre que nos apeteceu. E de todas as vezes suspendemos a respiração ao primeiro vislumbre daquele colosso com mais de 1900 anos.

Tirámos toneladas de fotografias (obviamente!).

Um homem disse que o Mário era o mais bonito dos monumentos que ali estava (foi de uma lata sem precedentes mas soou bonito, em italiano…).

Vimos chineses agachados atrás de moitas a tentar fotografar não sei bem o quê e não sei bem em que ângulo;

Uma noiva linda de morrer a tirar fotos na rua;

E uma farmacêutica que parecia não ter nada por baixo da bata de serviço;

Não vimos o Papa;

Falámos com várias pessoas, em várias línguas;

O Mário foi tomado por brasileiro e eu… por coisa nenhuma.

Aprendemos que o inglês, em particular, é relativamente inútil quando usado com grande parte dos italianos;

E que a condução deles é mais louca do que a de qualquer taxista lisboeta.

Fiz 28 anos na Fontana di Trevi.

Recebi de presente uma aliança de namoro que só voltaria a tirar do dedo para a substituir por um anel de noivado.

Fomos incrivelmente felizes naqueles quatro dias que voaram por nós.

E desde aí que queremos muito, mas temos medo de voltar. Porque pode não ser tão bom. Porque um daqueles tais imprevistos pode, afinal, acontecer. Porque foi perfeito e, por isso, a fasquia está muito, muito elevada.

Hoje é o dia em que perdemos o medo, embora ele ainda não saiba.

Porque o medo não faz sentido.

O medo paralisa e impede-nos de criar novas memórias, igualmente felizes, mais ainda, talvez.

E por falar em memórias, pessoalmente, quero reproduzir esta, cinco anos depois:

Ele não completará os seus 36 anos na Fontana di Trevi e de certeza não apanharemos escaldões.

Mas é preciso voltar. Só isso faz sentido.

Voltar onde fomos felizes.

 

 

Vamos?

Eu, Ele, a Maria e o Miguel – quando a escola dos nossos filhos se porta mal

O título parece usurpado de uma página que talvez conheçam. E é. Bom, talvez ‘usurpado’ seja forte demais. Emprestado.

Eu, ele, a maria e o miguel é uma página que sigo atentamente há alguns anos. Também tem um blog com as fotos mais ternas, acompanhadas pelos descritivos mais tocantes que já vi. Em suma, adoro e não perco um post (a sério, visitem, vale muito a pena).

Há alguns dias, a Vera, autora da página e mãe da Maria, do Miguel e da Anita publicou isto, de partir o coração, sobre a escola do seu Migas.

Ontem, uma outra página que sigo atentamente, até porque é escrita por uma amiga minha, partilhou esse post, acrescentando que estava na mesma situação.

Pergunto: o que será que vai na cabeça de quem dirige estes jardins de infância? Sublinho: jardins de infância.

Não me refiro tanto ao facto de proibirem os pais de entrar nas instalações da escola. Não que considere que seja uma divisão de águas saudável à partida, na medida em me parece que pode acentuar, de forma desnecessária, o síndrome de separação em relação aos pais. Torna tudo um pouco menos fluído e natural do que o desejável, na minha opinião. Mas, como comecei por mencionar, nem é tanto a isso que me refiro. As crianças são mais fantásticas do que qualquer adulto que tenha tido o prazer de conhecer até hoje e adaptam-se a qualquer coisa, por muito má que seja (o que não significa, obviamente, carta branca para atirar para cima dos seus pequenos ombros todos os males do Mundo…).

Mas, caramba: mudar as regras a meio do jogo? É, no mínimo, desleal. Se há coisa que as crianças valorizam é a confiança que depositam nos seus cuidadores, a fiabilidade da sua palavra e a sua capacidade de cumprir o combinado, o que quer que o combinado seja. Falhar ao combinado é falhar à criança. Falhar o combinado é retirar à criança a possibilidade de saber com o que contar, de se sentir seguro. É ensinar-lhe que pouco importa aquilo com que ela própria se comprometa porque, na verdade, ‘depois logo se vê’. E, nos dois casos em concreto, não tenho dúvidas de que proibir, no decurso do ano lectivo e sem nenhuma razão superveniente de relevo, algo que até aí lhes era permitido, é falhar com que implicitamente estava ‘combinado’.

Também não consigo digerir muito bem o argumento de que é bom prepará-los para as mudanças que se avizinham com a entrada no primeiro ciclo, em que a rede de segurança dos pais lhes é retirada. É verdade, são mudanças. É verdade, são grandes. É verdade, pode ser difícil e eles podem levar mais ou menos tempo a aceitá-las e a adaptar-se a elas. Mas também é verdade que antecipar uma mudança não a torna necessariamente mais fácil. Diria até que antes pelo contrário. Porque eles crescem, a maturidade deles cresce. A vontade que têm de serem mais autónomos cresce. Por outro lado, a necessidade que têm da aprovação constante dos pais diminui à medida que se sentem mais seguros do seu lugar no Mundo. E tudo isso conta.

Para quê, forçá-los a uma realidade apenas para ‘antecipar’ uma outra? Que mania é esta de querer à força que os nossos filhos já quase que nasçam independentes dos pais? O que é isso, sequer? Independência é um conceito que significa muitas coisas, uma para cada idade e, muitas vezes, até uma para cada criança.

E acho muito difícil fomentar a independência numa criança que não se sente segura e a quem se dá o ‘dito por não dito’.

Perguntem ao Martim. Até ele, com quatro anos, já sabe como é importante ‘cumprir o combinado’.

Aos jardins de infância peço: deixem as crianças ter a idade que têm e deixem-nos a nós, pais, gozar os nossos pequeninos enquanto eles têm interesse nisso.

É só isto.

Bom fim-de-semana, gente boa!

Hoje não queria largar-te

Adormeceste no meu colo, como todos os dias.

Hoje não queria largar-te e segurei-te contra mim até me doerem os braços e até não haver almofadas que amparassem a dor para colocar debaixo deles. Hoje não queria largar-te porque sinto em todos os meus nervos que estás a deixar de ser pequenino. Dentro em breve farás um ano. Um ano desde que ouvi, pela primeira vez a tua voz. Um ano desde que te olhei nos olhos para te chamar ‘meu amor’ cara a cara, finalmente. Um ano desde que te apresentámos ao irmão mais orgulhoso que poderias ter.

Hoje não queria largar-te. Porque ver-te crescer é delicioso mas é doloroso também. Perco-te um pouquinho para o Mundo a cada novo raiar do dia. És um pouquinho menos meu a cada pôr do sol. Bem sei que é inevitável. Mas dói no coração da mãe que tatuou no braço o teu primeiro choro. É piroso. Mas caramba, foi o primeiro choro do bebé mais lindo do Universo! O meu bebé a deixar de o ser. Bebé e meu.

Por isso não queria largar-te. Queria trazer-te para dormir comigo mesmo sabendo que o teu ‘mau dormir’ me faria arrepender. Tu não sabes, mas cada vez que respiraste no meu colo, cresceste um pouco e contigo a minha dor. Pouco me importa se tudo isto soa egoísta e demasiado dramático. Hoje queria que fosses para sempre esse bebé pequenino feito por medida para os meus braços, onde o mano já não cabe tão bem e já não passa tanto tempo, um pouco por tua causa também.

Acordarás com 11 meses e eu não queria largar-te. Não queria despertar para ti, um mês mais crescido. Vou fazê-lo de qualquer modo, porque o tempo não pára, as noites não param, os dias correm e qualquer dia, tu também. Para longe do meu colinho dorido. Vazio.

Não queria largar-te, meu monstrinho, não queria… Mas larguei e prometo: vou fazê-o sempre, por muito que doa. Porque tu mereces.

 

 

 

 

 

 

 

 

Felizes 11 meses, meu MigueLindo!