M de Manos – Parte II/III

O Miguel.

O Miguel tem 10 meses e meio e é extrovertido, destemido, aventureiro. Assim é o Miguel.

Tal como o Martim, o Miguel é mágico. Faz desaparecer toda a sopa do prato para aparecer no chão segundos depois. Mas também faz desaparecer o mau humor acumulado ao longo de um dia inteiro e aparecer um sorriso seja a quem for. Mágico.

O Miguel é ruim. Ri-se quando nos magoamos. Quanto maior a batida na cabeça ou o pontapé com o dedo mindinho na esquina do móvel, maior a gargalhada. Ainda nos bate, para ajudar, enquanto urramos de dor. Ruinzinho o meu Miguel.

O Miguel é empenhado. Vive por objectivos e não descansa enquanto não chega lá. Acenar um adeus com aquela mãozinha sapuda: check. Arrastar-se pela escada acima: check. Bater palminhas: check. Andar, muito e com uma bola à frente dos pés, de preferência: check. Subir as escadas novamente, mas no nível acima, sem mãos: em curso. Falar: isso não interessa nada. Tão empenhado o Miguel.

O Miguel é um explorador. Gosta de brincar sozinho. Viver os sítios, os brinquedos e procurar todas as potenciais asneiras escondidas em cada objecto. E descobre-as. To-di-nhas. Porque o Miguel, o meu pequeno explorador, tem o mais empreendedor dos espíritos jamais vistos num bebé.

O Miguel ama o irmão. Arranha-o sempre que pode. Puxa-lhe o cabelo sempre que consegue deitar-lhe a mão. E ri-se a seguir, claro. Mas não há no Mundo inteiro olhos que brilhem mais do que os dele quando contempla o seu herói, a sua paixão, o seu mano Martim. O Miguel ama o irmão.

M de Manos – Parte I/III

O Martim.

O Martim tem quatro anos e é sensível, doce, conversador (muito, muuuiiiito). Assim é o Martim.

O Martim é mágico. Faz desaparecer toda a paciência em segundos para fazer aparecer toda a ternura e sensatez logo em seguida. Mágico.

O Martim é solidário. Gosta de ajudar e de sentir-se útil. Tem sempre um mimo pronto e um jeitinho muito especial de reconfortar aqueles de quem gosta. Tão solidário o meu Martim.

O Martim é sonhador. Vive de devaneio em devaneio e para ele ‘pressa’ é uma palavra desconhecida porque, pelo menos na prática, não faz uso dela. Para. Nada. Às vezes não sei se vive a dormir ou se sonha, constantemente, acordado. O meu sonhador.

O Martim é sociável. Já o tinha referido aqui. Prefere brincar acompanhado e é difícil conseguir que se entretenha  sozinho sem, pelo menos, um aceno de aprovação ou uma palavra de encorajamento. Faz amigos em qualquer lugar e, ainda que seja por apenas alguns minutos ou durante um par de horas ele lembrar-se-á sempre daquela vez em que brincou em tal lugar com tal menino. Mesmo que – e é o mais provável – nós não nos lembremos. Tão, mas tão sociável.

O Martim ama o irmão. Diz-nos com a cara franzida ‘ai ai ai, Mamã!’, ‘ai ai ai, Papá!’ quando algum de nós usa um tom mais ríspido com o Miguel depois de algum dos seus infindos disparates de pendor suicida. Protege-o sempre de tudo, mesmo que o lembremos sempre que o mano não é responsabilidade sua. E apesar de ter que dividir tudo com ele e se ter ressentido, sob a forma de carência, por toda essa partilha onde antes só existia Martim, nunca, nunca deu mostras de sentir ciúmes do Miguel… O Martim ama o irmão.

Mentira que me digo a mim mesma nos dias em que menos me apetece sair de casa para trabalhar

Seja porque não quero largar os meus meninos, nem na escola, nem em lado nenhum.

Seja porque já constatei que o trânsito está insuportável.

Seja porque me apetece desesperadamente ter 24h de pura dondoquice, vulgo não fazer nada.

“Um dia vou ganhar o Euromilhões”.

Podia ser hoje, que é sexta-feira… Mentira, naturalmente. Mais que isso, impossibilidade prática: nem sequer jogo.

Mas, por breves instantes, o pensamento de ter recursos ilimitados para fazer tudo o que quiser e nada, se for a essa a minha vontade, reconforta e encoraja.

Quem nunca?

Esta é a história do Mário – o primeiro M a entrar na minha vida

Prometi contar histórias e esta é uma das obrigatórias.

Esta é a história do Mário. O primeiro M a entrar na minha vida. E a história do Mário não é dele, é nossa.

É difícil escrevê-la e tem levado vários dias. Acho que chamar-lhe ‘história’ tem subjacente a ideia de que tenho que lhe dar um fim e que de alguma forma isso me deixa desconfortável. Lembrei-me, então, de escrevê-la primeiro em papel. É em papel que se escrevem as melhores cartas de amor…

Não vou contar como foi amor à primeira vista e como sempre soubemos estar destinados um ao outro. Não foi nada disso.

Aliás, o nosso ‘à primeira vista’ aconteceu depois de nos vermos muitas e muitas vezes. Crescemos no mesmo lugar, rodeados das mesmas pessoas, frequentando as mesmas escolas.

E apesar de não haver amor no nosso ‘à primeira vista’ ele teve qualquer coisa de ‘para sempre’.

O primeiro beijo, arranquei-lho eu. A primeira lágrima, ele a mim. Não era para ser. Não naquele lugar do tempo. Não naqueles 19 anos apaixonados que eram os meus.

Cada um foi para seu lado, não sem olhar muito para trás por cima do ombro e esperámos. Esperámos sem saber que esperávamos. Aprendemos sem saber com que propósito. Crescemos, mas não deixámos de ser aqueles dois jovens obstinados a inventar figuras nas nuvens e a perseguir pores do sol. Vimos muitos, acompanhados de outras pessoas. Vivemos outras vidas. Passaram oito anos.

Até que… A mesma sensação. O mesmo arrepio na espinha. Reconheci-o pelo cheiro quando passou furtivo nas minhas costas. Pela voz quando falou sem ser para mim. Um novo ‘à primeira vista’, um renovado ‘para sempre’. Desci do salto. É agora.

O segundo primeiro beijo arrancou-mo ele. A segunda primeira lágrima não lembro mais. Vivemos em poucos meses aqueles oito anos perdidos noutra Era.

‘Faz acontecer que eu faço valer a pena’. É o que dizem as solas dos sapatos com que casei. Com ele. O amor da minha vida.

Descobri entretanto que não é assim que funciona um casamento. Nada é assim tão certo, tão previsível tão contundente. Tudo é meio, cedência, compromisso. Raramente é tudo ou nada, preto ou branco, comigo ou contra mim. É muito mais q.b.. Vários cinzentos. Juntos.

E é por isso que já não ‘ouço’ as solas dos sapatos com que casei. É por isso que hoje eu faço acontecer só na maior parte dos dias e é só na maior parte dos dias que ele faz valer a pena.

Os outros… São ajustes.

E connosco… Connosco é amor.

As meninas dão mais dores de cabeça (?) – uma reflexão sobre modelos de educação

Ouvido um dia destes no ginásio, um futuro pai comentando que vai ter mais um menino:

«Ainda bem! As meninas dão mais dores de cabeça.»

Fiquei a matutar naquela afirmação tão corriqueira, tão banal, tão ouvida milhares de vezes. Porquê? Porque é que se assume que as meninas (ou que os meninos, para quem tenha a crença inversa) dão mais dores de cabeça?

Não estarão as ditas dores de cabeça, exactamente e apenas onde a expressão indica, isto é, na nossa cabeça? E não serão essas ‘dores’ que já trazemos connosco – chamemos-lhes assim ao invés de preconceitos – que condicionam as diferenças com que acabamos por educar meninos e meninas, muito mais do que as diferenças pretensamente existentes entre géneros nos condicionam a nós?

É verdade que eu não tenho essa experiência. Por aqui são dois meninos, zero meninas. Mas sei que, se algum dia vier a ter uma menina os valores que lhe quero passar, as liberdades e as responsabilidades que quero que tenha presentes serão as mesmas que tento hoje incutir nos meus M’s. Não digo que não haja diferenças entre meninos e meninas. O que digo é que as diferenças que relevam para qualquer que seja o modelo de educação que queiramos implementar na nossa família não derivam do sexo à nascença, tanto quanto derivam da personalidade de cada um. Deve ser essa a bússola norteadora das diferenças com que eventualmente tratamos cada um dos nossos filhos.

Li por aí, por sinal num blog de que gosto muito, que cada irmão é um filho único. É nisso que acredito. Cada um dos nossos filhos, mais do que menino ou menina, irmão mais velho, mais novo ou algures do meio, é um indivíduo diferente dos demais. Merece ‘atendimento personalizado’ por parte dos pais, que são, afinal, quem melhor o conhece e o seu melhor esforço em adaptar o modelo de educação que escolheram às suas características únicas, específicas, especiais.

Liberdade para se construírem, destruírem e reinventarem. Ferramentas para que possam fazê-lo com conhecimento, por opção e em consciência. Noção de que as suas escolhas acarretam consequências com as quais têm que viver e estrutura emocional para serem bem sucedidos nessa tarefa por vezes tão difícil. É este o quadro no qual quero que os meus filhos cresçam. Todos. Mas o quadro é isso mesmo: um quadro. Um conjunto de directrizes mais ou menos genéricas e carentes de concretização a cada dia, em cada caso e para cada um deles. E delas.

Como mãe, não quero ficar presa às expectativas que inevitavelmente construí para os meus filhos, sejam elas em função do que acredito hoje que são os seus talentos naturais, sejam em função dos exemplos que os meus próprios pais me deram e que quero que eles herdem ou dos outros que quero fazer questão de não repetir, sejam em função de algo tão de detalhe como o sexo de cada um.

Tomara antes eu poder estar à altura das deles.

Em conclusão, diria que as ‘dores de cabeça’ associadas àquilo que pré-determinamos que os nossos filhos devem ser com base em factores que lhes são externos, como a idade, o género, o ranking da escola em que andam, o seu signo astrológico ou o que for, nascem e crescem na nossa cabeça. E é exactamente onde devem morrer.

De preferência, sem que eles cheguem a dar por isso.

A Justiça quer-se cega – Não consigo ficar indiferente

Não consigo ficar indiferente.

Já lá vão dez anos sobre o fim do meu curso de Direito. Explicaram-me então que a Justiça era cega, no sentido de julgar assente apenas na Lei e independentemente do estatuto social, poder económico, religião, raça ou género de quem se lhe apresentasse.

Mas o ano é 2017 e o contexto é o seguinte:

Uma mulher teve um caso extra-conjugal. Terminou-o. Meses depois deu por terminado também o seu casamento e foi morar sozinha. O ex-marido, conhecendo da traição, insultou-a e ameaçou-a durante alguns meses. Por fim, concretizou as ameaças: no meio da rua, agrediu-a com uma moca cravejada de pregos. Na cabeça, para começar e depois onde calhou até que ela conseguiu fugir e procurar ajuda na vizinhança.

Estes são os factos. Provados em Tribunal.

E eu não consigo ficar indiferente.

Eis se não quando um de seis Tribunais da Relação deste nosso país, em concreto, o do Porto, profere acórdão onde pode ler-se o seguinte:

«não partilhamos da opinião da digna magistrada recorrente sobre a gravidade dos factos nem sobre a culpa dos arguidos, especialmente do arguido X.

Este caso está longe de ter a gravidade com que, geralmente, se apresentam os casos de maus tratos no quadro da violência doméstica.

Por outro lado, a conduta do arguido ocorreu num contexto de adultério praticado pela assistente.

Ora, o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem.

Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte.

Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte.

Ainda não foi há muito tempo que a lei penal (Código Penal de 1886, artigo 372.º) punia com uma pena pouco mais que simbólica o homem que, achando sua mulher em adultério, nesse acto a matasse.

Com estas referências pretende-se, apenas, acentuar que o adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras) e por isso vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher.

Foi a deslealdade e a imoralidade sexual da assistente que fez o arguido X cair em profunda depressão e foi nesse estado depressivo e toldado pela revolta que praticou o acto de agressão, como bem se considerou na sentença recorrida.»

Não consigo ficar indiferente.

Sobretudo porque as palavras que acima cito não são produto da minha imaginação, nem me passaram pela cabeça em pesadelo. Não. Estão aqui, uma por uma, na página 19 desta decisão. De um Tribunal. Superior. De um país democrático. Onde, nem precisaria de mencionar, o adultério não é crime, mas a violência – não só doméstica – sim.

Deixemos de parte as referências a sociedades manifestamente ditatoriais e onde o valor da vida de uma mulher é inferior ao de uma cabeça de gado. Esqueçamos as referências à Bíblia – essa obra de valor jurídico incalculável – como fundamento de uma decisão judicial. Ignoremos até a menção a um Lei há muito revogada em Portugal e substituída por aquela que estes juízes deveriam esforçar-se por aplicar.

O que realmente choca é a ligeireza com que se assume nas entrelinhas que, se a situação fosse a inversa, e uma mulher atingisse inúmeras vezes o ex-cônjuge com uma moca cravejada de pregos motivada por actividade extra-conjugal do sujeito, essa violência seria mais grave do que a do caso concreto. Porquê? Porque a sociedade assim o diz. É o adultério feminino – e não qualquer adultério – que constitui «gravíssimo atentado à honra e à dignidade do homem». Porquê? Porque a Bíblia – neste Estado, que é laico, ouvi dizer – assim o dita. Afinal, foi a vítima, com a sua «imoralidade sexual» quem se pôs a jeito. Pediu-as. Porquê? Porque o Código Penal de 1886 entendia assim.

Por mais que tente, não consigo ficar indiferente.

Seria capaz de contextualizar este argumentário no café, na porta da papelaria e até mesmo no gabinete destes juízes, à porta fechada, em conversa particular. Mas jamais conseguiria antecipar que um dia seria confrontada com uma declaração pública e com implicações sérias na vida desta vítima e de todas as outras vítimas, de que a violência doméstica é menos grave se a mulher se ‘portar mal’. E várias dúvidas me assolam: portar-se mal será apenas trair ou também sair à noite sem dizer para onde e desacompanhada do marido? Será apenas trair ou também conduzir, só e sem supervisão marital? E quanto a trabalhar fora de casa, negligenciando o tanto de trabalho que há a fazer no lar e o cuidado dos filhos? Será apenas trair ou abusar do sal no jantar do marido cansado no fim de uma extenuante jornada de trabalho?

Exmos. Srs. Juízes Desembargadores: a resposta adequada para tamanha ofensa causada por um cônjuge ao outro – reparem que omiti o género de ambos (não foi inocente) – está contemplada também na lei portuguesa. Chama-se divórcio, não violência.

E o que é, ou não, aceitável ou reprovável pela sociedade, não pode justificar decisões judiciais cujo objectivo último é a Justiça e cuja ferramenta é a Lei. A actual, de preferência.

Não minto, às vezes fantasio em ter uma menina, uma semelhante para educar. Mas por outro lado, quando me confronto com situações destas não posso deixar de agradecer o facto de ter dois meninos a quem ensinar verdadeiramente e na prática, o que é a igualdade. Seja a de género, seja perante a Lei, seja a que for.

E poderei sempre assegurar-lhes que não é isto.

Que, como me ensinaram, a Justiça quer-se cega.

E que nunca fiquem indiferentes.

Uma camisola nova – (des)amor de mãe

Não se deixem enganar pelo título. Apesar de se referir, literalmente, a uma camisola nova, a mensagem não tem nada a ver com roupa e tudo com bem-estar.

No fundo, o que quero dizer é (e perdoem se o trocadilho resultar mal conseguido): uma mãe não é um trapo. E não deve, seguramente, sentir-se como um.

Eu sei, eles nascem e o mundo passa a girar em torno das necessidades deles, do choro deles, das conquistas deles, da saúde deles, do mimo deles e da felicidade que nos dão e do tempo que nos tomam. Mas o tempo tem uma característica engraçada: ele não pára. E o que sucede é que o tempo vai passando e a mãe não dorme. E também não come (ou não se lembra de ter comido). Ou come alarvemente (porque tem cinco minutos enquanto eles não reparam que há comida na jogada e vêm a abrir e a fechar a boca quais peixinhos, ver o que há para eles). E o peso da gravidez tarda em ir embora e a mãe sente-se feia. E sendo assim, nem se atreve a insinuar alguma intimidade com o companheiro. Muito menos a comprar roupa que sirva a sua actual forma. Comprar roupa de gorda? Jamais!

(Prometo que ainda vai haver uma camisola nova neste post)

Então a mãe, que se recusa a aceitar as suas esperançosamente provisórias olheiras e o seu esperançosamente provisório corpo, não tem, por outro lado, qualquer dificuldade em aceitar, pacificamente, a ideia de que, além de tudo, também não é mãe o suficiente.

Para um aspecto tão mau «ao menos» que a quantidade de boa mãe que há em si compensasse. Mas nããããoooo… Os miúdos nem sempre tomam banho todos os dias e há sempre roupa deles por lavar/passar/arrumar/vestir/tirar… Conseguem visualizar a espiral de destruição que a mãe faz abater sobre a sua auto-estima? Eu consigo. Pela minha experiência, normalmente termina com um ‘coitadinhos…’ e muitas lágrimas à mistura.

E é por isso, porque conheço tão bem a mãe, que a convido a parar de chorar e olhar atentamente para os ‘coitadinhos’ à sua frente. De olhos arregalados e uma mãozinha estendida em direcção à sua cara para a consolar. Estão limpos. Estão vestidos. Estão bem alimentados. São saudáveis. E estão a borrifar-se para tudo isso.

Porque eles são felizes, mãe. E tudo o que querem é ver a mãe feliz também. Porque mães felizes têm mais paciência para brincar e eles sabem disso.

Então mãe, com olheiras ou sem elas, a vestir o velho 38 ou o novo 42, atreve-te a sentir-te bonita. Atreve-te a veres-te ao espelho e a lembrares-te que há mais em ti do que só ‘a mãe’. A mãe também é gente. E a mãe não se mima há tempo de mais.

Vai. Compra uma camisola nova. Do teu tamanho. Não será, prometo, «roupa de gorda». Será a tua roupa. E vai ficar-te bem, mãe. Vai ficar-te bem, mulher.

(Viram? Eu disse que havia uma camisola nova na história)

 

Esta é a minha camisola nova, comprada pelo face (ver marca de água). É um L.

Quando os miúdos se zangam

 

 

Lá em casa existe uma divergência recorrente. Discordamos sobre como aconselhar o Martim quando aparece mordido, arranhado, com galos na cabeça (ou qualquer outra opção do vasto e criativo menu que os miúdos têm na hora de se magoarem uns aos outros), sendo o autor sempre a mesma criança.

O pai é adepto firme de que tem que se defender, que não pode deixar que lhe façam essas coisas, que tem, em suma, que responder na mesma moeda se preciso for.

Eu entendo que as opções são i) manifestar o desagrado; ii) brincar com outras crianças; e iii) informar a pessoa responsável.

Não tenho sangue de barata… O meu também ferve quando o meu príncipe encantado de palmo e meio vem lesionado e abatido. Secretamente, posso até sentir algum orgulho quando incorpora o Hulk – o seu personagem favorito do momento – e efectivamente se defende. Mas, vamos lá ver: não nos sentimos todos – mães e pais – assim? Não ficamos todos igualmente nervosos pelo bem estar dos nossos filhos? E quando é o nosso filho o autor de brincadeiras mais imprudentes ou quando manifesta as suas frustrações de forma menos apropriada com os amiguinhos?

Por um lado, acho difícil fazer entender a uma criança com quatro anos em que circunstâncias é correcto defender-se e o que é que isso, na prática, pode implicar (se nem os adultos entendem muito bem o alcance da legítima defesa, quanto mais eles…). Devem reger-se por um princípio e, para mim, o princípio só pode ser ‘não se bate nas pessoas’. Nunca.

Nem sempre é fácil, mas tento fazer dois exercícios: um, de empatia, para com as outras crianças e os seus pais, se a situação fosse a inversa; outro, de pura prognose. Imagino o Martim com 12, 13, 14 anos. Imagino-o vítima de bullying na escola (é um pensamento horrível para se ter, mas acho que compensa antecipar um problema que não existe em nome da prevenção). Imagino o que gostaria que ele fizesse nessas circunstâncias. E a primeira coisa que me vem à cabeça é ‘contar a alguém’. Pedir ajuda. É isso que eu quero que o meu filho adolescente do futuro faça se se vir em apuros maiores do que aqueles que a sua maturidade lhe permite processar.

E isso não me parece compatível com incentivá-lo, hoje, a ser um justiceiro em causa própria por muito que, às vezes, (também) me apeteça.

E porque não acontece só aos outros, relembro a sugestão de evento para hoje, Dia Mundial de Combate ao Bullying.

 

 

 

A saída (ou porque lhes damos um poder que nos pertence)

 

 

“Vais assim?”

É o que ele pergunta, enquanto disfarça mal o esbugalhar dos olhos e o esgar de desconfiança nos lábios.

‘Aqui vamos nós’, pensa ela, mas questiona na mesma:

“Porquê, não me fica bem?”

Não. Não é isso. Ela sabe que não é isso. Ele sabe que ela sabe que não é isso. O olhar de reprovação inicial vai dando espaço à impaciência que lhe toma conta da face.

“Então? O que é?”

Depois de muitas evasivas lá confessa. O vestido/saia/calções/top/camisa (riscar o que não interessa) é demasiado curto/transparente/decotado/justo (repetir a operação).

Ela não se lembra bem em que momento ele começou a achar-se no direito de lhe censurar a roupa como quem avalia o estilo da mobília que quer em casa. Porque é disso que se trata. Não de não gostar, objectivamente, do que tem vestido. Pelo contrário, gosta muito. Mas é um estilo de mobília que não quer em casa. Não na SUA casa.

Ela não se lembra tampouco da primeira vez que acedeu a trocar de roupa depois de um destes diálogos. Ou da primeira vez que deixou de comprar aquela saia de ganga que procurava há meses porque ele ‘não deixou’.

Não consegue, sob perspectiva alguma, precisar o ‘quando’. Quando é que o sentimento de pertença mútua se objectificou e se tornou numa posse palpável. Quando é que ‘ser dele’ deixou de ser uma metáfora para o amor e passou a ser uma sentença de vida. Mas sabe, no fundo de si, o porquê.

Porque ele se sentiu confortável para o fazer. Porque nessa primeira vez ela disse ‘se não te agrada, eu troco’. Porque ela se permitiu ser a barbie com que ele teria tido vergonha de brincar quando era pequeno. Porque ela optou por ceder em nome de um ‘nós’.

Hoje ela sabe. Não foi por ‘nós’. Não foi por amor. Foi por medo. Porque a perspectiva da solidão a assustou mais do que um ciuminho tolo que ela moldaria com o tempo (que tonta, ao pensar que alguma vez aconteceria!).

Mas porque, de todos os dias, foi neste que ela soube, encolhe os ombros à e diz

“Achas? Pois olha, eu gosto assim. Vamos?”

Todas nós já fomos a mulher que começou a escrever esta história. Todas nós podemos ser a mulher que a terminou.

#feminismonãoépalavrão

Dia Mundial do Combate ao Bullying – antevisão

Não. O bullying não é só um estrangeirismo moderninho usado para para passar a mão na cabeça dos nossos igualmente moderninhos meninos mimados que nada sabem da vida senão o que aparece no ecrã do telemóvel e para quem tudo é terrivelmente traumatizante.

O bullying é uma forma de violência escolar real e angustiante para quem o vive, seja a criança/jovem que dele é alvo, seja a família que se apercebe, muitas vezes, tarde demais. Não deve nem pode ser pensado com a displicência de quem encolhe os ombros e sentencia ‘no meu tempo chamava-se a isso adolescência’.

E não só é angustiante a sua vivência como é, tão ou mais angustiante a antecipação, na cabeça de nós todos, mães e pais, de que os nossos filhos possam um dia vir a ser vítimas de bullying.

O que fazer? Como lidar e ajudar os nossos filhos a lidar com fenómenos de violência escolar? Não creio que seja possível estar-se inteiramente preparado para o dia em que uma situação destas nos bate à porta. Mas, felizmente, já existem algumas ferramentas ao dispor de pais e filhos, nomeadamente esta.

E porque no dia 20 de Outubro se assinala o Dia Mundial do Combate ao Bullying, deixo-vos uma sugestão de evento: a Associação No Bully Portugal – entidade sem fins lucrativos com a missão de combater o bullying nas escolas portuguesas -, vai realizar um workshop nesse mesmo dia, entre as 18h30 e as 20h30, subordinado ao tema “Torne o seu filho à prova de bullying”. O preço do workshop é de € 5 por adulto e é necessária inscrição, que pode ser feita aqui.

Bullying? Com os meus filhos não.