Ele não lê o meu blog, mas…

Ele – o M mais crescido, com quem consta que sou casada – não lê o que partilho convosco por aqui (shame on him por não contribuir para o crescimento do blog!).

Em tempos, referi-vos este facto e mais ou menos deixei prometida uma explicação.

Acho que chegou a hora.

Ele não lê o meu blog.

Deixou de o fazer quando o blog era ainda praticamente um recém-nascido, no dia em que escrevi um texto – este – na sequência de um pequeno diferendo que tivemos.

O texto não era (não é) sobre ele. Não era sobre nós. Não era sequer sobre o tal diferendo.

Sucede que enquanto vivo o meu dia-a-dia penso sobre milhares de coisas e tudo o que penso me sugere temas sobre os quais me dá para escrever (ou não).

Foi o caso naquele dia. Era apenas uma reflexão que teve sim, como ponto embrionário de partida, aquele nosso diferendo. O texto era sobre a ideologia e os princípios que eu senti que, de alguma forma, podiam estar na base daquele nosso diferendo, em si mesmo, insignificante e ultrapassado.

Ele não lê o meu blog.

Creio (especulo) que tem medo de ler com o olhar único de quem vive comigo. De quem consegue perceber ‘de onde vêm’ as minhas palavras. De quem não quer sentir-se criticado.

Já lhe expliquei que tudo isto é, essencialmente, sobre mim, sobre as conversas intermináveis que tenho comigo mesma no carro, a caminho de casa, todos os dias, sobre a necessidade que tenho de falar, ‘sem medo de ser feliz’, sem amarras, sem grandes filtros. Falar para dar vazão a essa avalanche constante de reflexões que me invadem e distraem inoportunamente das minhas tarefas a todo o instante. Falar para esvaziar o compartimento do meu cérebro que precisa de se concentrar no que quer que seja.

Foi, todavia, inútil.

Ele não lê o meu blog.

Mas…

No último post partilhei o estado zombie em que me encontrava.

Recebi um feedback fantástico de mães desesperadas como eu (como isso me reconfortou só eu sei… Obrigada).

Quando cheguei a casa na sexta-feira ele disse-me «os meninos dormem fora hoje e nós vamos jantar».

E fomos. E eu dormi a noite toda sem interrupções. E o pequeno-almoço apareceu na minha cama pouco depois de me queixar que estava a ficar com fome. E os ecrãs foram deixados de lado até ao momento em que já não sabíamos mais o que fazer com o próprio ócio e decidimos ver um filme (seguido, imagine-se!).

Ele não lê o meu blog, é verdade.

Mas talvez não precise.

Ele não lê o meu blog porque lê tudo o que tenho dentro.

Sempre. Sem intermediários.

Crónicas de uma mãe privada do justo sono

Introdução minimalista porque hoje não dá para mais

É ao terceiro dia mal dormido que tudo fica mais negro.

É.

Um dia é suportável.

Ao segundo ainda há esperança.

Ao terceiro o cérebro queixa-se. O corpo queixa-se. Tudo se queixa.

A solidão traz melancolia. A companhia traz impaciência e ansiedade.

Manhã

Acordo (ou melhor, levanto-me porque, na verdade, pouco dormi) com uma ligeira dor de cabeça.

Tenho que me controlar para ser a mãe que os meus filhos merecem e conseguirmos atravessar as rotinas matinais e sair de casa sem nos irritarmos uns com os outros parvamente.

Não é nada intuitivo, devo dizer.

Porque ao terceiro dia, o intuitivo é zangar-me com tudo.

Esqueço-me de coisas. Saímos todos de casa com os dentes por lavar. E eu de pantufas nos pés.

Também me esqueço de coisas enquanto as estou a fazer. O leite do pequeno-almoço arrefece porque não me lembro que ainda não o bebi.

O trânsito, a que sou perfeitamente imune em dias ‘normais’, faz-me ‘bufar’ mil vezes de nervoso.

Pus gasolina. Esqueci-me de zerar o conta-quilómetros. Suspiro.

O meu dia mal começou.

Tenho vontade de chorar. Talvez o faça mais tarde. Ou talvez não espere.

Penso em escrever este texto e começo a registar mentalmente tudo o que já me causou mal-estar hoje.

Pensar nisso arrasta-me ainda mais para o fundo.

Tarde

O tempo passa simultaneamente demasiado devagar e demasiado rápido.

Quero voltar para casa, abraçar o marido que me parece o único ponto de conforto e, ao mesmo tempo, o monstro que me apetece culpar por todo o meu cansaço.

Mas há coisas para fazer e preciso de estar concentrada. Como?

Não saio para treinar (tinha-me feito bem).

Não saio para almoçar (tinha-me feito bem).

Lentamente, consigo terminar o que tinha para hoje.

Hora de me arrastar de volta para casa

Fim do dia

Ao terceiro dia tudo fica mais negro.

Preciso de dormir.

Preciso muito de dormir.

Enquanto não posso… Escrever ajuda.

Os M’s beberam demais…

O Marco

O Marco tem 19 anos e acabou de tirar a carta.

O Marco é um filho ‘certinho’ e um aluno exemplar. Entrou em medicina e todos se orgulham do seu percurso.

Apesar de se exigir muito no campo dos estudos, o Marco não abdica dos seus amigos e socializa de forma saudável.

Por isso o Marco saiu numa sexta-feira à noite para um barzinho e aconteceu algo inédito nele. O Marco bebeu demais.

Como nunca o tinha feito, pouco consciente dos efeitos do álcool no seu corpo e discernimento, o Marco achou-se ‘bem para conduzir’.

Não estava. Parado numa operação stop de rotina, acusou um volume de álcool superior a 0,5 g/l.

Foi condenado por crime de condução sob o efeito de álcool e cumpriu uma pequena pena de multa.

Pouco ou nada mudou na sua vida. Todos à sua volta o compreenderam e apoiaram, afinal, o Marco sempre foi bom rapaz e errar é humano,que injustiça seria roubar um futuro a uma mente tão brilhante.

 

A Miriam

A Miriam tem 17 anos e é uma menina que todos consideram rebelde.

Pinta-se demasiado, veste-se pouco, sai com frequência às escondidas dos pais.

A Miriam gosta de beijar na boca e não vê razões para não o fazer sempre que lhe apeteça.

As liberdades da Miriam valeram-lhe fama de ‘fácil’ na escola, que frequenta, de resto, apenas quando bem entende, o que já lhe valeu ter que repetir o ano.

Numa das suas escapadas nocturnas, a Miriam bebeu demais, como acontecia de vez em quando. Afinal YOLO, não é verdade?

Um rapaz ofereceu-lhe boleia para a ajudar a chegar a casa em segurança e ela aceitou, estava tão mal-disposta…

A Miriam foi levada para casa. Mas não para a sua. A Miriam foi levada para casa de um amigo do seu ‘salvador’ e violada pelos dois.

A Miriam queixou-se e ouviu de tudo: Quem manda sair? Quem manda beber? Quem manda vestir saia curta? Quem manda ‘andar com todos’?

A Miriam pôs-se a jeito. A Miriam estava a pedi-las.

A Miriam teve que mudar de escola, teve que mudar de casa, de cidade. Por onde andasse todos a apontavam e comentavam o ‘estado a que tinha chegado’.

 

***

Estas são histórias fictícias, mas não muito.

Em ambas as histórias foram praticados crimes.

O percurso e a personalidade do Marco pesaram como atenuantes no crime de que foi autor e que colocou virtualmente em risco uma série de vidas. Nada mais natural.

O percurso e a personalidade da Miriam pesaram como atenuantes também… mas para os autores do crime de que ela foi a vítima.

Se o Marco tivesse atropelado uma pessoa, alguém se lembraria de perguntar qual era o comportamento habitual dessa pessoa enquanto peão, quantas vezes tinha atravessado a estrada fora da passadeira, se tinha por hábito ofender os condutores que não lhe dessem passagem ou provocá-los simulando atravessar a estrada ou pedindo que ‘passem por cima’? Certamente que não… Porquê? Porque não interessa. Interessará eventualmente se naquela circunstância em concreto atravessou fora da passadeira ou se se atirou para a estrada de uma forma que um outro condutor que não o Marco, diligente e sóbrio, o teria atropelado de qualquer maneira…

A vítima não tem culpa. A vítima não tem que ser santa, não tem que ser boa aluna, boa filha, boa amiga, casta e pura para ser reconhecida como vítima de um crime. O seu carácter e a sua popularidade são irrelevantes para efeitos dos crimes praticados sobre ela, tal com a sua conduta do dia-a-dia ou os juízos de valor que essa conduta nos possa despertar enquanto indivíduos.

No caso da Miriam, ou ela deu consentimento aos dois rapazes ou não deu.

No que respeita especificamente aos crimes sexuais (quase) tudo se reconduz a saber se houve ou não consentimento naquele caso concreto e naquelas circunstâncias específicas.

Só isso importa.

Vamos parar de pôr as mulheres vítimas de crimes sexuais no banco dos réus?

E, já agora, vamos ensinar aos nossos filhos o significado, o valor e a importância do consentimento?

É sexta-feira (só que não)!

O Miguel está viciado no Panda e os Caricas.

Mal diz dez palavras, mas quando está entediado (ou doente) já aponta para o computador ou para o telemóvel e faz um ‘ôh! ôh!’ que não deixa dúvidas.

A propósito da música ‘Sexta-feira (estudei a semana inteira)’ na versão do grupo, o Martim costuma sempre comentar «Mas hoje não é sexta-feira!!!…» (pois, normalmente não é).

Ontem antecipei-me e comentei eu, ao ouvir a música, que não era sexta-feira e que se calhar os caricas tinham mesmo que passar mais tempo na escola, se não sabiam os dias da semana…
Martim concordou com um sorriso semi-trocista.
Então perguntei-lhe ‘Que dia é hoje?’
E ele respondeu: ‘Domingo’
E eu devolvi: ‘E amanhã?’

E ele respondeu: ‘Amanhã… Amanhã é dia de escola’.

Soltei uma gargalhada, mas por dentro fiquei emburrada.

Parece-me que ele também.

Acho que o espírito de segunda-feira nos castigou por troçarmos dos Caricas…

Boa semana minha gente!!!

“Tantos meninos castanhos!”

 

Tantos meninos castanhos! – exclamou o Martim perante uma peça jornalística filmada num país africano.

***

Cresci num cadinho de culturas, raças e religiões, pertíssimo de uma mesquita e de um bairro social maioritariamente habitado por ciganos, na margem sul, local para onde foram morar muitos brasileiros imigrados em Portugal.

As minhas turmas sempre tiveram meninos de todas as cores e credos e na minha rua – onde antes das tecnologias as crianças costumavam divertir-se, lembram-se? – a única coisa que interessava a todas as crianças era a disponibilidade das demais para brincar.

Tudo isso me tornou muito cega à cor da pele, à origem, à fé.

Compreenderão, por isso, o meu espanto perante a exclamação – tão reveladora da ignorância em relação ao Mundo – do meu filho mais velho.

A verdade é que a realidade dele, nos seus curtos quatro anos, não é idêntica à minha.

É que, se ele tem muitos ‘tios’ e ‘tias’ castanhos, adultos que nos rodeiam e cujo tom de pele varia muitíssimo – lá está, os nossos amigos de infância, meus e do Mário -, o mesmo já não acontece com as crianças que estão ao seu redor. Pensando friamente, na sua escolinha actual não me recordo de ver senão meninos e meninas de pele clara por isso, para o situar, tive que referenciar alguém da sua escola antiga.

Perguntei-lhe se se lembrava do Lucas, um coleguinha dessa primeira escola.

Os olhos dele brilharam ao lembrar-se ‘Pois é! Ele também era castanho!! Eramos bué amigos…’

Percebi aí que a exclamação inicial dele era toda feita de falta de familiaridade com a coexistência de muitos meninos não brancos no mesmo espaço (meninos = crianças, já tinham aparecido no plano várias imagens de adultos sem que ele estranhasse alguma delas) e expliquei-lhe que, da mesma maneira que aqui onde ele vive a maior parte das pessoas tem a pele como ele, eu, o papá e o mano, existem muitos países onde a maior parte das pessoas tem a pele de outras cores e que, naquele da televisão, a maior parte das pessoas, crianças incluídas naturalmente, tinha pele ‘castanha’.

Percebi na cara dele a curiosidade genuína com que me ouviu. Falámos depois sobre alguns desses países. Quis vê-los no mapa. Mostrei-lhes esses e outros, entusiasmou-se com o tamanho da Rússia, com o quão longe eram a Austrália e a Nova Zelândia com o caminho de avião que eu e o pai fizemos para o Brasil e a conversa fluiu para outros temas.

Não, não tinham sido os olhos de um princípio de preconceito a fazer aquele comentário.

Tinha sido apenas uma observação empírica relativamente a uma realidade com nunca tinha sido confrontado antes.

Confesso, respirei de alívio…

Frequentará outras escolas, terá muitos amigos, verá e conhecerá muitas pessoas diferentes.

Um dia, espero eu, olhará para trás e perceberá que naquela imagem estavam apenas ‘tantos meninos’.

Sem mais.

Entretanto, acho que vamos fazer uns desenhos com os tão bem recebidos lápis de ‘cor-de-pele’ da Giotto.

Medos… Os meus, desta vez.

No último post alguém comentou pertinentemente se não teríamos nós, eu e o Martim, medo de falhar, sendo esse o motor da nossa aversão a competição.

Como expliquei em resposta a esse comentário, no caso dele não sei ainda, mas no meu não se trata disso. Sei que as maiores recompensas estão fora da nossa zona de conforto e o medo que sinto perante a travessia que me leva a uma recompensa valiosa apenas me dá motivação para garantir que essa travessia é concluída, com ou sem precalços. Ganhar uma competição apenas não se me apresenta como uma recompensa que valha o meu desconforto e os precalços da travessia.

Mas há medos que eu, de facto, tenho.

Cada vez mais, aliás, à medida que me descubro como mulher e como mãe de dois rapazes!

Tenho medo que eles se sintam presos às minhas expectativas.

Tenho medo que essas expectativas não sejam possíveis de satisfazer.

Tenho medo que eles não se sintam livres de crescer ‘fora dos padrões’. Que queiram ser cabeleireiros, bailarinos, educadores de infância e se coíbam de o dizer e de lutar por isso. Que sejam apaixonados por mecânica automóvel, canalização, electricidade e eu considere que isso é ‘contentarem-se’ com menos do que as suas capacidades permitem.

Tenho medo que sejam vítimas. De bullying. De abuso.

Tenho medo que não falem se o forem.

Tenho medo que sejam agressores. Bullies. Abusadores.

Tenho medo que as suas vítimas não falem se eles o forem.

Tenho medo de me negar a ver ‘os meus meninos’ como capazes de tais coisas.

Tenho medo de não saber dizer-lhes que ‘não’ as vezes necessárias para que eles entendam que o Mundo não gira à sua volta e não lhes deve nada. Que o mérito importa. Que às vezes o dos outros é superior ao seu e está tudo bem.

Tenho medo de zombar da sua fé, caso eles encontrem a que eu nunca tive.

Tenho medo que cresçam machistas, racistas, homofóbicos (não necessariamente por esta ordem).

Tenho medo que nunca tenham oportunidade de amar alguém tanto quanto eu os amo a eles.

Tenho medo de interferir demasiado nas suas vidas.

Tenho medo de não interferir o suficiente.

Tenho, como vêem, muitos, muito medos.

Mas não tenho medo de os ter.

E para cada desses medos tenho, também, uma promessa: em cada dia o meu melhor com as ferramentas de que disponho.

 

A competição (sobre a empatia e a parentalidade consciente)

O Contexto

Sempre pratiquei desportos. Tudo o que possam imaginar: natação, ginástica rítmica, karaté, equitação, aeróbica, danças brasileiras, you name it

Posso dizer o minuto em que passei a odiar cada uma das modalidades que pratiquei: quando (e nos casos em que) me levaram a competir.

Competir nunca me trouxe adrenalina. Nunca me fez ter vontade de fazer mais e melhor. Nunca despertou qualquer sentimento positivo em mim e mesmo nos casos em que fui bem sucedida, a sensação de uma vitória era sempre associada ao alívio pelo fim da tarefa.

Competir é, para mim, profundamente desconfortável.

A competição directa e vista como um propósito em si mesma é algo que me é contra-intuitivo. Sempre me senti melhor a ajudar os outros naquilo em que era boa, do que a provar-lhes (ou a mim), que era melhor que eles.

Aliás, ainda há poucos dias em conversa dizia a alguém que a razão pela qual não sei jogar matraquilhos, snooker, dardos, cartas e qualquer outro jogo que exija alguma experiência para se ser bem sucedido é saber que a competição traz à tona o meu eu mais mesquinho, infantil e mal-disposto. E eu não gosto dele, pelo que abdico que um certo nível de socialização e, quem sabe, potencial divertimento, em prol da manutenção da sanidade mental e até das amizades.

A Situação

O Martim tem karaté na escola duas vezes por semana e foi convidado para participar numa pequena prova. Um circuito, tanto quanto me apercebi, montado mais para que os pequenos possam demonstrar o que vêm aprendendo, do que para outra coisa qualquer.

Porém, quando perguntei ao Martim se queria participar ele disse-me que não.

Não, porque não ia conseguir completar o circuito em primeiro, não ia ganhar e ia ficar triste.

Expliquei-lhe que podia ser divertido, que não tinha que se importar com isso de ganhar ou perder, que a mamã ia adorar ver o que ele aprendeu e ia bater muitas palmas e que, na verdade, nunca poderia ganhar nada se nunca se atrevesse a participar.

Expliquei-lhe tudo isso mas não me passou pela cabeça, por um minuto que fosse, fazê-lo mudar de ideias e convencê-lo a participar.

A minha criança interior aceitou o seu primeiro ‘não’ com a maior solidariedade do Universo. Ela também não quereria participar. Bolas, eu, adulta, não quereria participar.

Concordámos que iríamos apenas assistir, juntos, à prova e, quem sabe, se ele achasse giro, poderia participar numa próxima.

A Conclusão (um trabalho em curso)

Não é a primeira vez que isto me acontece.

A maior parte das minhas memórias de infância são bastante ligadas às sensações que tinha em determinadas circunstâncias. Consigo lembrar-me do desespero de ver a minha mãe sair para trabalhar, do entusiasmo da primeira vez que brinquei na rua depois do sol se por, da alegria medrosa de quando percebi que o meu pai já não estava a segurar a bicicleta e que estava a andar sozinha, da vergonha e desconforto da primeira vez que entrei na minha sala de aulas na primária….

Por isso, em relação aos temas em que tenho essas memórias tão sensitivas é-me muito fácil empatizar com os meus filhos e faço-o de forma praticamente automatica.

Olhando para trás não tenho a menor dúvida de que os meus melhores momentos de maternidade ocorreram quando consegui por-me no lugar deles, com esse grau de realidade e sem qualquer esforço mental para isso.

Gostava de conseguir (e estou comprometida a tentar) fazê-lo mais vezes.

Afinal, não sou eu que acredito que a empatia ainda vai mudar o mundo?

E não é esse o exercício primordial de uma parentalidade consciente? Procurar os porquês dos nossos filhos ao invés de lhes tentar apenas moldar os comportamentos?

Talvez a minha empatia ‘natural’ nesta situação em concreto tenha sido uma falsa empatia, condicionada pelas minhas próprias vivências e características. Talvez o meu filho não seja tão avesso à competição como eu sempre fui. Talvez ele tenha apenas medo do fracasso como qualquer comum mortal.

Seja qual for a situação, acho não precisamos de descobrir já…

Dia dos Pai (II) – O dos meus filhos

Depois do Pai que eu tenho, e sobre quem vos falei mais cedo, chegou a vez do Pai que eu escolhi.

O Mário sempre quis ser pai (ao contrário de mim, como vos contei aqui).

O Mário sempre teve sucesso com as crianças (ao contrário de mim, mais uma vez).

E o Mário viu todas as suas crenças acerca da paternidade destruídas no segundo em que viu o seu sonho cumprido.

Depois de eu recomeçar a trabalhar, o Mário, que na altura trabalhava poucas horas, viu-se a braços com um Martim de cinco meses de quem tinha medo. Muito medo.

Medo de falhar. Medo de o magoar. Medo de não ser bom o suficiente.

E durante meses alimentou o hábito irritante – tão, tão irritante! – de se refugiar, com o nosso bebé, em casa da mãe.

A mãe tirava-lhe o medo. E o bebé. Substituía-se a ele e ele não podia, dessa forma, falhar.

Nessa época não compreendi. Nessa época só consegui irritar-me todos os dias com as fugas do meu marido. Daquele que eu tinha escolhido para ser Pai e que estava, na minha perspectiva, a evitar, a todo o custo, desempenhar o papel que lhe pertencia. Que lhe incumbia. E que ele tinha escolhido tanto quanto eu.

Ele estava assustado. E eu não vi que o medo era apenas proporcional ao amor dele pelo filho. Tão paralisante que ele preferiu abdicar da proximidade, dos cuidados, das experiências para o preservar.

Talvez eu estivesse demasiado ocupada com os meus próprios demónios. Talvez estivesse a braços com as minhas próprias insuficiências como Mãe.

Pouco importa.

O Pai que vive comigo precisava de ter sabido, contado ao ouvido e entre sorrisos, aquilo que lhe disse tantas vezes em tom de censura e com uma carga acusatória: que ele é tão pai quanto eu sou mãe. E que isso é maravilhoso com tudo de assustador que tem e com toda a responsabilidade que acarreta.

Que isso quer dizer que, quanto melhor ele conhecer os filhos, quanto mais próximo estiver das rotinas deles, das manias, das fragilidades, mais pode dar-lhes e mais recebe também. Que isso quer dizer que os nossos filhos sobrevivem bem às nossas falhas, mas não tão bem à nossa ausência, à nossa inércia, à nossa indiferença.

Que isso quer dizer, hoje, para mim, que as falhas de um Pai podem reflectir-se de forma positiva num filho. Se eles não as conhecerem, talvez não saibam reagir a elas e, com grande probabilidade, talvez não conheçam também as (inúmeras) qualidades do seu Pai.

Ao pai dos meus filhos peço que volte, por um momento, àquele tempo e que me vá perdoando enquanto lê isto baixinho, como quem ouve um segredo: Amor, és tão pai como eu sou mãe. E mesmo que falhes… não há como falhar. És perfeito. E se algum dia duvidares… Olha para eles.

Dia do Pai (I) – O meu

Em minha casa discutia-se muitas vezes por dinheiro (no caso, por escassez de dinheiro).

Não fosse isso e pouco me teria apercebido das dificuldades que passávamos.

Ajudava ser a mais nova de seis irmãos (4 deles adultos e com as suas vidas encarreiradas), porque nas datas importantes choviam presentes, o que contribuía para diluir a perspectiva que eu tinha da situação económica doméstica.

É verdade que vivemos sempre na mesma casinha arrendada, que os nossos carros morreram de velhos e foram trocados por outros de meia-idade, que dividi o quarto com quantos lá morassem e quantos de visita viessem, até que todos saíram de casa e sobrei eu, que desde cedo aprendi a gerir os meus troquinhos, que sempre cumpri os requisitos do Escalão A da Acção Social Escolar, que desde que recebi a minha primeira bolsa de mérito, no 10.º ano, deixei de me sentir bem em pedir dinheiro aos meus pais para as minhas coisas pessoais.

Mas nunca faltou comida. Nunca faltou roupa. Nunca faltaram brinquedos. Nunca faltaram livros. Sempre tivemos acesso a actividades extra-curriculares.

Para mim aquela era e sempre foi uma vida normal.

Hoje, à distância, vejo o esforço que os meus pais fizeram para que eu percepcionasse a vida como normal.

Sobre o meu pai, em particular, lembro-me de uma época em que apareceram lá em casa milhares de páginas de revista. Sabem aquelas páginas de publicidade que vêm com uma amostra colada? Eram essas.

Durante aquilo que me pareceu uma eternidade todos nós lá em casa colámos amostras em páginas. Arranjámos, cada um o seu automatismo, a sua estratégia para colar o máximo de amostras no mínimo de tempo, agrupar páginas, arrumá-las em caixotes…

Na altura ninguém me explicou porque fazíamos aquilo. De vez em quando o meu pai fazia assim umas coisas fora da caixa e para mim era, lá está, normal.

Foi preciso crescer um pouco para entender o óbvio. O meu pai fazia coisas fora da caixa porque era preciso e tudo contava.

E fez tudo isso fazendo-me acreditar que era só algo diferente e divertido.

Com sucesso. Porque me diverti muito.

Enquanto ele mirabolava maneiras de fazer entrar mais algum rendimento em casa, eu brincava.

Como uma criança deve fazer.

Era isto que tinha para vos contar hoje.

Ah, É verdade! Já vos disse como o meu pai é fantástico?

Feliz Dia, Pai!

 

A Gabriela e o Rafael – os filhos que não tive

Apresento-vos a Gabriela e o Rafael.

São ambos meus filhos.

Não tenho uma foto decente de nenhum dos dois porque, na realidade, não sei bem que aspecto têm.

Desconheço a idade de qualquer deles e tampouco consigo justificar-vos porque ando há meses a apregoar que vivo entre M’s, tendo estes dois, cujo nome não começa por M, na minha vida. Escondidos.

A verdade é que a Gabriela e o Rafael são os filhos que eu não tive.

Os filhos que o meu filho arranjou para mim.

Os irmãos que ele inventou e nomeou.

Porque o Martim é assim.

Quando lhe disse, perante as saudades que verbalizou de quando o mano era bebé (porque agora é enorme, está visto!), que talvez pudéssemos um dia ter outro bebé lá em casa, ele fez entrar nas nossas vidas a Gabriela.

Assim mesmo, numa fracção de segundos, decidiu que queria uma irmã e o que chamar-lhe. Não sei porquê. Não conhecemos nenhuma Gabriela. Ele não vê nenhuns desenhos que tenham uma Gabriela. Talvez seja apenas, e genuinamente, um nome de que gosta…

‘Mas olha Martim, nós não escolhemos… E se em vez de uma mana, tiveres um mano?’

E foi assim que o Rafael entrou também nas nossas vidas.

Desde que planeámos o Miguel que sinto que não ficaríamos por aí, que há, ainda, um ‘M’ que nos falta…

Mas no que depender do Martim, parece que esse ‘M que nos falta’, será uma G ou um R…

Falo-vos deles, não porque tenha algum grande anúncio a fazer, mas porque quero guardar na memória estes dois filhos que não tive.

Talvez de hoje para amanhã eles deixem de ser desejados por quem os inventou.

Mas que mãe seria eu, se os esquecesse?

Bom fim-de-semana a todos!!!