Os Avós: eles não são obrigados!

 

Um facto curioso acerca dos avós e que é, desconfio, desconhecido da maioria dos próprios: eles não são obrigados!

Mas obrigados a quê? Perguntam vocês e bem.

Partilho duas situações exemplificativas (mas ambas reais) para introduzir a discussão.

Situação 1: Telefonema do meu pai

  • Inês, eu e a mãe estamos a pensar em ir ao Alentejo este fim-de-semana. Vês inconveniente? Vais precisar de nós?

Situação 2: Telefonema entre o Mário e a mãe dele

  • Mãe, em Agosto vais à terra?
  • Ainda não sei, mas precisas que fique? Se precisas não vou.

Não, não e não!

Os avós são um sistema de apoio fantástico e sim, todos nós sabemos que têm todo o gosto em ficar com os nossos filhos para que possamos trabalhar, namorar, vegetar que seja! Haja avós na nossa vida e na vida dos nossos filhos para sempre!

Mas…

Eles. Não. São. Obrigados.

Não são obrigados a gerir a sua vida em torno das nossas conveniências.

Não são obrigados a mudar os seus planos por causa dos nossos.

Não são obrigados a estarem ao nosso serviço.

Não são obrigados a serem avisados em cima da hora sobre o seu próprio calendário de fim-de-semana.

Não são obrigados, em suma, a dizerem-nos que ‘sim’ sempre que lhes oferecemos os nossos filhotes.

Falando por mim, tento que os meus filhos passem tempo de qualidade com os meus pais pelo menos um dia por semana. Obviamente, tento fazer coincidir esse dia com algum que me dê jeito por um motivo qualquer. Mas quando acontecem situações como aquela que descrevi é-me inevitável pensar se não andarei a abusar da sua disponibilidade, do seu tempo, das suas vidas.

É que, no fim do dia, os filhos são responsabilidade dos pais. Os avós são influências maravilhosas, mesmo com tudo o que nos aborrece que façam com os nossos filhos e pelo que os repreendemos vezes sem conta daqui até ao fim dos tempos. Mas também são indivíduos. E são indivíduos que já tiveram ou têm ainda, uma vida activa que os obrigou a obedecer a horários, hierarquias e todo o tipo de condicionantes. E que têm todo o direito de dispor do tempo que têm livre como bem entenderem. Isso inclui não condicionarem os seus dias à possibilidade, tantas vezes meramente virtual, de terem os netos ao seu cuidado.

Se alguém tem que adaptar ou redesenhar os seus planos são os pais aos dos avós, não o contrário. São os pais que precisam, tantas vezes, dos avós, não o contrário.

Para mim, aquelas duas situações deveriam ter-se desenrolado assim:

Situação 1:

  • Inês, eu e a mãe vamos passar o fim-de-semana no Alentejo. Se estavas a contar connosco para alguma coisa, talvez seja melhor pensares numa alternativa.

Situação 2:

  • Mãe, em Agosto vais à terra?
  • Sim / Não.

Porquê? Porque muito que se sintam assim, eles não são obrigados, ora pois!

Famílias são feitas de todos os tipos de momentos

 

Amanheceu cedo demais. Pelo menos eu não estava preparada.

Eles acordaram cedo demais. Pelo menos eu não estava preparada.

Subiram na minha cama, saltaram mesmo depois de lhes dizer que não o fizessem.

Ainda debocharam da minha cara. Riram, felizes um com o outro e com o pouco caso que me faziam.

Fiquei emburrada ainda não tinha saído do quarto.

O Miguel fugiu de mim durante 10 minutos antes de finalmente conseguir trocar-lhe a fralda, com ele aos gritos.

Nas correrias dos dois, conseguiu tropeçar no molho de fraldas que estava a arrumar e magoar-se numa mão.

De mãos nas ancas, e ainda antes de o apanhar do chão, pareceu-me relevante perguntar aos dois se estavam agora satisfeitos.

Pergunta parva (era óbvio que não).

O Miguel chorou no meu colo. O Miguel chorou no chão. O Miguel chorou enquanto o Martim trocava de sapatos três vezes e exercitava o seu novo tique de puxar o maxilar para a frente, que irrita mais do que por vezes gosto de admitir.

O Martim não me ouviu pedir que fosse lavar os dentes.

O Martim “não me ouviu” pedir que fosse lavar os dentes.

O Martim “não me ouviu” pedir aos gritos que fosse lavar os dentes.

Fechei-lhe o computador. Acabaram-se os bonecos. E ele continuou a não ir lavar os dentes argumentando, ainda para mais, que o computador era do pai e não podia chegar e fechá-lo sem autorização.

Pouco importam os factos de ter sido eu quem comprou a porcaria do computador e de a ‘autorização’ não ter sido relevante na hora de lho ligar, mas na hora eu achei que sim e que, além de tudo, valia a pena discutir isso com ele.

Decidi que ia embora, quer ele lavasse ou não os dentes.

Saí com o Miguel, que tinha parado de chorar, mas voltou a chorar na hora de o por na cadeira do carro porque o que ele quer mesmo é conduzir.

Voltei para trás para dar mais dois gritos ao Martim que se pôs aos pontapés à porta de casa. Disse-lhe que fosse lavar os dentes. Gritou-me que não.

Arrastei-o para fora de casa, para dentro do carro, para cima da sua cadeira, enquanto lhe explicava que meninos que não lavam os dentes não podem, nunca mais, meter à boca o que quer que tenha açúcar, para não os estragar.

Voltei para trás para ir buscar uma t-shirt para o Miguel. Quando voltei, o Martim tinha tirado o cinto e estava a tentar sair do carro.

Queria ir lavar os fucking dentes.

«NÃO!»

Gritou o caminho para escola inteiro.

Gritou quando lhe exigi que parasse de buzinar no meu carro enquanto deixava o Miguel na escola.

Gritou quando o arrastei comigo para a escola do Miguel porque não quis parar. Ou sair do carro. Ou sair da estrada. Ou mexer-se, de todo.

O Miguel tem a mão cheia de sangue. Ao cair cortou-se num dedo e achou engraçado esgravatar a ferida no caminho.

Eu não achei tanta graça, mas são perspectivas diferentes do que é humorístico.

Alguém palestrou ao Martim sobre os cuidados dos dentes, os bichinhos que se instalam, os dentistas e tudo mais. Depois ofereceu-lhe rebuçados de chocolate. Que eu não o deixei comer.

Estão no meu carro. A ver se chegam a casa…

Antes de deixar o Martim na escola conversámos. Pediu-me desculpa. Pedi-lhe desculpa.

Quando entrou na sua sala, continuava com os dentes sujos, mas tinha a alma lavada.

***

E eu também.

Porque a manhã foi um inferno, mas sentada ao volante do meu carro não consegui lembrar-me da última que tínhamos tido uma assim.

Dias de merda fazem parte.

Seguimos juntos e está tudo bem.

E se A cegonha criasse um blog?

«Mãe, de onde vêm os bebés?»

«São trazidos por uma cegonha, filho»

***

Acredito que esta já não seja uma ‘saída’ tão comum para este aperto no qual, enquanto pais, nos veremos mais cedo ou mais tarde mas, ainda assim, quem não conhece esta resposta?

Pois bem, os meus M’s, não tendo sido trazidos por uma cegonha, foram-me ambos entregues nos braços pela mesma pessoa, o mesmo enfermeiro, a minha cegonha: o Bruno Rito.

Quem é ele? Tenho a certeza de que já o mencionei algures por aqui. De há dez anos para cá é enfermeiro parteiro no Hospital Garcia de Orta, percursor do parto vertical naquelas instalações, com o banco e a cadeira de parto onde tive a felicidade de me sentar para ter cada um dos meus meninos e criador dos programas pré e pós parto que ministra no Clubcare, na margem sul.

Frequentei o curso de preparação para a parentalidade que o Bruno dá por indicação de uma amiga. Uma vez lá, arrastei comigo uma outra amiga. Depois disso, várias outras amigas e conhecidas minhas já lá foram parar. Esqueçam o currículo do homem: ouçam os pais. Todos, sem excepção, vos dirão, como eu própria ouvi, experienciei, e passei a dizer, que é o dinheiro mais bem gasto na vidinha de uns quase pais. Guru, Deus dos partos e, para mim, mais modestamente mas com todo o significado, A Cegonha, são coisas que frequentemente ouvirão dizer sobre ele a quem já frequentou as suas aulas.

É tão bom que quando engravidei do Miguel, voltei. Não que não me recordasse de praticamente tudo o que tinha aprendido. Não que não tivesse ainda todos os meus (muitos) apontamentos. Não que, verdadeiramente, precisasse. Mas o Bruno tem uma maneira de explicar os porquês de todas as coisas que envolvem os antes, durantes e depois de um parto que tranquiliza, além de muitas histórias para contar, exemplos para dar e dois pés muito bem assentes na terra… pelo menos na terra das mães. E isso faz com que a voz dele entre connosco para o bloco de parto e com que cada passo de tudo o que acontece seja identificado e reconhecido por nós. A resposta é automática, porque foi tão minuciosamente explicada e praticada que não pode haver outra no nosso cérebro. E tudo corre melhor quando estamos descontraídas, certo?

Como vos referi, o Bruno apresentou-me ao parto vertical em banco de parto. Sumariamente, o Bruno mandou fazer um banco de madeira cujo assento se assemelha muito ao de uma sanita, onde as parturientes podem parir, sentadas (em posição vertical, portanto), beneficiando das bençãos que a gravidade traz, com todo o conforto, metade da dor e muito menos trabalho, lacerações e outras coisitas desagradáveis. Quando se deparou com algumas dificuldades em convencer a instituição onde trabalha a utilizá-lo, virou o jogo e convenceu as mães. Quantas mais o utilizavam, mais apareciam a pedir para fazê-lo. Inevitavelmente, um Bruno só tornou-se parco para tanta demanda e os colegas começaram a aceder em aprender a técnica.

Eu tive, além de tudo, a sorte de ele estar de serviço quando chegou a hora dos meus dois partos. É alguém que está inevitavelmente ligado para sempre a dois dos momentos mais felizes e marcantes da minha vida. A minha gratidão só é igualada ao meu orgulho por fazer parte do leque das famílias que ajudou a aumentar e só pode ser superada pela minha vontade de gritar aos quatro ventos como ele é fantástico no que faz e como toooodas as grávidas que possam fazê-lo DEVEM recorrer aos seus serviços.

Mas… Nem todas podem, porque o Clubcare é so um e não sai do local onde está. E, por isso, quando A cegonha cria um blog, a gente faz serviço público e divulga (ah, se eu fosse uma blogger famosa, seria cá uma troca de @…). Tenho a certeza de que todas as informações que lá constarem serão úteis e divulgadas de uma forma simples, fundamentada, bem humorada e absolutamente esclarecedora.

Não sei, honestamente, onde irá desencantar tempo para escrever um blog, já que está sempre, sempre, sempre disponível por sms ou whatsapp para responder às nossas dúvidas existenciais e crises de maternidade, enquanto faz partos uns atrás dos outros, ensina turmas cheias na preparação para a parentalidade e na recuperação pós-parto e ainda recebe grávidas no Clubcare para CTG’s, vacinas e ajudas com probleminhas de amamentação, cólicas e afins. Ah! Não esquecendo que tem a sua própria família e que haverá, suponho, momentos em que dorme (mas só acredito, vendo).

Se quiserem conhecer mais, aqui ficam, para espreitar e seguir o blog e a página de Facebook do Bruno, acabadinhas de nascer e também o site do Clubcare, a quem possa interessar!

Blog: www.brunorito.pt

Facebook: www.facebook.com/BrunoRitoEnfermeiroParteiro/

Clubcare: www.clubcare.pt

Parentalidade positiva na blogosfera

Prefiro chamar-lhe consciente, numa óptica de se traçar um plano/propósito e direccionar as nossas acções de parentalidade a ele. Mas vamos lá.

O Gatilho

Sou fã confessa da página Ser super mãe é uma treta. É um banho de maternidade real e quase em directo, porque acompanhar os posts da Susana é como viver com ela (o que quero dizer não é, obviamente, que revela demais, mas que é extremamente impressiva em tudo o que escreve). Sentimos-lhe o desespero, que mais não é do que o nosso em inúmeras ocasiões, enquanto nos divertirmos com isso. Estamos juntas, Susana.

Também sou fã de um outro blog, o Not so fast, onde a Lénia fala do que bem lhe apetece, sempre num tom assertivo, mas dado à reflexão (ou pelo menos é como eu a interpreto), com uma escrita irrepreensível.

Calhou que recentemente estas duas mulheres cujos estilos e conteúdos admiro imensamente, abordaram um tema que me é cada vez mais caro: a parentalidade positiva. E fizeram-no de forma… negativa.

Li a perspectiva da Ser super mãe é uma treta com o maior dos humores. Li a perspectiva do Not so fast quase que rebatendo mentalmente cada ponto (é só clicar nos realces que vão direitinhos para os textos de que falo e valem ambos muito a pena, toca a ler (depois de acabar este, faxavori)).

Sobretudo, li ambas com o respeito que me merecem todas as suas postagens. Estas em particular, deram origem à presente reflexão.

 

Um par de disclaimers

Literalmente um par:

  1. SE a parentalidade positiva traduzisse aquilo de que ambas falam, eu odiaria o conceito tanto quanto qualquer uma das autoras.
  2. É sempre, sempre, sempre, uma questão de perspectiva: a parentalidade é, no fim do dia, o que os pais quiserem fazer com ela e o que funcionar melhor em cada caso. Se for forçado, não é ‘positivo’, mesmo que conceptualmente queiramos aplicar esses princípios.

O que a parentalidade positiva não é

Não é sobre tornarmo-nos pais permissivos.

Não é sobre andarmos às ordens dos nossos filhos.

Não é sobre sentirmos culpa quando, optando de forma consciente por aplicar os princípios da parentalidade positiva, deixamos em situações do dia-a-dia de o fazer (foda-se a culpa, certo Susana?).

Como decorre do disclaimer 2, também não é para todos os pais: é para os que se revêem naquele modelo e se sentem bem com ele (desde logo, posso dizer-vos que é para mim e não é, de todo, para o meu marido – e ESTÁ TUDO BEM, somos ambos, ele e eu, os melhores pais que sabemos ser independentemente dos ‘como’s desta vida!).

O que a parentalidade positiva pretende

Desde logo tem boas intenções e não pretende ser positiva por oposição às ‘outras’, todas negativas (=todas erradas). É positiva por se pretender moldar o comportamento das crianças de dentro para fora, com alternativas que todos os envolvidos considerem aceitáveis aos comportamentos que não queremos que tenham, ao invés de fazê-lo de fora para dentro, isto é, reprimindo/proibindo/corrigindo unilateralmente esses mesmos comportamentos. É positiva porque almeja resultados positivos para todos: maior cooperação voluntária deles para connosco, logo, menos drama e stresse para nós.

Promover a autoestima de pais e filhos:

Isto não pressupõe fazê-los sentir-se ‘donos do pedaço’. Pressupõe que eles se conheçam, se compreendam, se aceitem e consigam ver-se, de forma geral, uma luz positiva, apesar dos seus pontos fracos, vivendo bem com eles ou trabalhando neles, dependendo das prioridades que se estabeleçam.

Onde entram os pais nisto? Numa lógica bastante primitiva de que, querendo ou não, ensinamos pelo exemplo, a melhor maneira de lhes passar a ideia do que é uma autoestima saudável é cultivar a própria – e isso é sempre positivo, independentemente do contexto.

Fomentar o respeito mútuo:

Quando digo mútuo, incluo o deles por nós, naturalmente. É mais ou menos isto: eles têm o direito a fazer a birra e nós temos o direito a ficar de cabelos em pé com ela. O que se procura é que eles aprendam, pouco a pouco, a lidar com o que quer que os tenha empurrado para a birra, reduzindo-as em número e intensidade e que nós aprendamos igualmente a gerir todas as coisas mais ou menos loucas e, essas sim, mais ou menos negativas, que nos passam pela cabeça na fase mais aguda de um desafio desta natureza.

Dar espaço à inteligência emocional:

Crianças que sabem identificar correcta e especificamente o que sentem e o que os outros, designadamente os próprios pais, sentem, que dominam razoavelmente a linguagem não verbal e que são capazes de empatizar, i.e., colocarem-se no lugar do outro, geralmente são mais capazes de exercerem o auto-controlo, de adiarem a recompensa (ou seja, de se manterem num determinado rumo que apenas ao fim de algum tempo poderá dar frutos), de se auto-motivarem e de ‘auto’ uma série de outras coisas que os pais costumam desejar.

Estabelecer limites:

Esta é uma parte importantíssima de qualquer modelo de parentalidade. Ninguém, em sanidade de espírito, conseguiria conceber a parentalidade como um mundo de pequenos imperadores ditando as regras das famílias enquanto os pais, reduzidos ao seu papel de serviçais, se desdobram em 1000 para satisfazer todos os caprichos de suas excelências… pelo menos em teoria.

Há lugar para o ‘não’ na parentalidade positiva? Há! Todo! Há castigos? Há, pois! Podem chamar-lhes ‘consequências’ à vontade, o propósito primordial de admoestar um filho com uma consequência/castigo é o mesmo: que ela se responsabilize pelos seus actos. Apenas se procura que estas consequências tenham um qualquer nexo causal com a infracção desvirtue a sua essência. E não vejo mal algum nisso. Afinal, até os Tribunais vêm reconhecendo os benefícios de aplicar penas acessórias que mostrem aos infractores o mal que as suas acções causaram e os obrigue, activamente, a repará-lo ou a preveni-lo…

***

Não vai funcionar sempre.

Exige prática e congruência (o que é diferente de consistência).

Mas não é uma batalha campal com vencedores de palmo e meio pré-definidos.

Sobretudo, haverá, com certeza, mil outras maneiras de educar com sucesso e em clima de harmonia e (relativa) felicidade.

Uma nota pessoal

Não sou uma pessoa que grita. Com ninguém. Desde que me conheço. Consigo, aliás, ser bastante desagradável, ofensiva e cáustica, mas sempre de uma forma calculada, sem levantar demasiado o tom de voz (não, isto também não é uma coisa boa). Gritar não faz parte do meu estilo, mesmo quando profundamente aborrecida (não que não aconteça ocasionalmente, em situações extremas). Também sou uma pessoa que precisa de controlar o máximo do seu ambiente. O planeamento e a previsibilidade são elementos que me tranquilizam.

E é essencialmente por isso – porque gritar não faz parte de mim enquanto indivíduo e porque o não domínio do que se passa à minha volta me faz mal – que não me reconheço quando, em desespero, grito e ajo por puro impulso com os meus filhos.

É também por isso que acho que, para mim e só para mim, a parentalidade consciente faz sentido e que nada perco em aprender ferramentas que me ajudem a lidar com algo na minha própria maternidade, de que não gosto. É mais por mim, do que por eles. E é uma razão tão boa como outra qualquer.

Em jeito de conclusão, um pedido

Muuuuiiiiito diferente de eu, ou qualquer outra mãe optar, para si e para os seus filhos, por este ou outro modelo, é o fanatismo com que algumas pessoas passam a defender as suas escolhas e a depreciação deliberada que oferecem às mães que escolhem diferentemente.

Isso sim, é transversalmente tóxico e propulsor de más energias. Aliás, alguns dos comentários aos posts que me suscitaram este são bastante ilustrativos do que agora digo: mulheres ditando umas às outras o que «têm que» e o que «não podem» fazer para serem consideradas boas mães e o que as torna dignas de pena, vergonha e, consequentemente, indignas de educar uma criança… Bom, digamos que não há ‘receita’ de parentalidade cuja escolha pressuponha a sua validação às custas dos mínimos olímpicos do bom senso e da sororidade.

Aquilo que eu escolho é, sem dúvida, o melhor PARA MIM. Aquilo que outras mães fazem também é, seguramente, o melhor PARA ELAS. As hipóteses são sempre várias e cumulativas, não se excluem mutuamente.

Por isso, façam o que fizerem: concedam às mães do vosso mundo (ainda que virtual) e às suas opções, o mesmo respeito com que tratam as vossas próprias.

Ninguém gosta de ser constantemente questionado (até quando não tem senão certezas). Para isso, já existem a nossa consciência e as nossas próprias inseguranças, sempre a fazer das suas.

 

Era mais fácil sozinha

 

Alguém duvida que esta vida se fazia muito melhor sozinha?

Só nós, dispondo de 100% do nosso dinheiro, para gastar em 100% do nosso tempo livre, em actividades 100% do nosso agrado.

Sem cedências para fazer, sem grandes compromissos para honrar, sem outras vidas a nosso cargo.

Alguém, em sanidade de espírito, pode duvidar disso?

Eu não duvido.

Então porque são tão raras as pessoas que escolhem viver dessa forma?

Porque é que tão poucos de nós queremos e apreciamos verdadeiramente viver sozinhos?

Ninguém me perguntou mas eu vou falar, porque eu sou dessas: porque o mais fácil nem sempre (ou quase nunca) é o melhor.

Ou o mais prazeroso.

Ou o mais compensador.

Ou (principalmente) o que nos faz mais felizes.

Mas quererá isso dizer que, escolhendo uma opção menos fácil, nunca mais nas nossas vidas poderemos desabafar sobre o quão difícil é, às vezes, aquilo que escolhemos fazer?

Será que nos torna mães menos merecedoras dos nossos filhos o quanto nos queixarmos do cansaço, da falta de tempo, das estrias, da memória de peixe e do pavio curto? Porque, afinal, ‘se é assim tão difícil porque os tivemos’? E se ‘escolhemos ter agora não nos queixemos’…

Será que nos torna mulheres menos merecedoras de ter um relacionamento o facto de constatarmos o quanto o nosso marido pode ser inflexível/incompreensivo/preguiçoso/frio/ciumento/whatever? Porque ‘se não estamos satisfeitas, podemos sempre bater com a porta’?

Menos, gente! Acalmem lá esses dedinhos nervosos, afastem-nos do teclado onde habitualmente se dedicam a actividades de criticismo da vida alheia e pensem no que seria de vocês próprios se nunca pudessem queixar-se de circunstância nenhuma da vossa vida sem comerem logo com uma qualquer formulação do ‘fizeste a cama, agora deita-te nela’?

Desabafar sobre quanto pode ser difícil a vida a dois (ou, no meu caso particular, a quatro) serve apenas para colocar o difícil para fora de nós, partilhar, expelir o mau, relativizar: manter a saúde mental!

E isso está longe de querer significar que queremos voltar ao ‘fácil’.

Porque ‘fácil’ também significa uma certa dose de isolamento.

‘Fácil’ é não ter um abraço quentinho no frio da noite, um ombro onde pousar um pesadelo.

‘Fácil’ é não ter uma mãozinha pequenina à procura da nossa, um sorriso desdentado quando chegamos a casa.

‘Fácil’ é tantas vezes só isso mesmo: fácil, no sentido de ‘cómodo’, ou ‘menos trabalhoso do que’.

Era mais fácil sozinha? Era, claro!

Mas eu prefiro, de longe, convosco.

Nota:
O Facebook diminuiu o alcance das publicações de páginas. 
Para continuar a não 'perder pitada' do Entre M's pode: 
1) clicar no botão 'Seguir'no topo da nossa página do Facebook; 
2) seleccionar 'ver primeiro'.

«Porquê?» – O outdoor que vai levar-me ao divórcio

Há sensivelmente dois meses – DOIS MESES – que, a caminho do trabalho, passo pelo mesmo outdoor.

É um de vários que a Câmara Municipal espalhou pela cidade por ocasião do Dia Internacional da Mulher.

A colecção de outdoors tem um layout semelhante: fundos totalmente pretos, uma foto de um rosto de mulher com expressão pesada e um dado estatístico em letras brancas (há vários, é só escolher) que traduz a desigualdade de género. Estão a visualizar?

Boa!

Então, aqui vou eu, depois de largar os meus preciosos M’s na escola, a caminho do trabalho, mais ou menos entretida na minha costumeira enchurrada de pensamentos incontroláveis quando passo por aquele outdoor.

Tentei encontrar uma imagem dele, para perceberem o impacto que uma coisa daquelas pode ter pela manhã, mas não consegui, desculpem, terão que ficar com o meu relato e tentar imaginar.

Resumindo, diz qualquer coisa como:

Mulheres na distribuição das tarefas domésticas:

Mais 1h45 que os homens todos os dias.

PORQUÊ?

Duas coisas muito importantes para apreenderem o meu estado de espírito:

  1. «Todos os dias» deve ser lido assim: TODOS [pausa] os [pausa] dias. E com dicção perfeita!
  2. Aquele «porquê?» em letras garrafais faz eco. De verdade, creiam-me.

Leio «porquê?», mas o meu cérebro regista «PORQUÊ? Porquê…? quê…? ê…? ê…»

Começo a ficar com uma leve urticária.

Digo leve, porque não se compara ao bicho carpinteiro que me ataca quando começo a fazer contas: 1h45 por dia, 12h15 por semana, 49 horas por mês, 588 horas por ano!!!

F*da-se!!!

Eu gasto quase 600 horas a mais do que sua excelência, ‘o princeso’ a cuidar do que é dos dois?!

Inevitavelmente começo a pensar em tudo o que me espera quando chegar a casa: roupa, loiça, fraldas, banhos, jantares, histórias para dormir, ‘arrumar’ o dia seguinte. A imagem de fundo na minha cabeça mostra-me, claro está, o meu marido confortavelmente sentado no sofá. Outras vezes ouço-o também dizer, imaginariamente «deixa isso, vem um pouco para o pé de nós».

Neste ponto, já nem vejo o trânsito. Fervilho e insulto mentalmente o meu marido pelas 600 horas que eu não faço ideia se gasto ou não a mais do que ele em tarefas domésticas.

Chego ao trabalho a pensar em contactos de bons advogados de Direito da Família.

E mais: o próximo que me disser que estou com um ar cansado leva um murro na tromba e uma pilha de roupa para tratar.

Ele não lê o meu blog, mas…

Ele – o M mais crescido, com quem consta que sou casada – não lê o que partilho convosco por aqui (shame on him por não contribuir para o crescimento do blog!).

Em tempos, referi-vos este facto e mais ou menos deixei prometida uma explicação.

Acho que chegou a hora.

Ele não lê o meu blog.

Deixou de o fazer quando o blog era ainda praticamente um recém-nascido, no dia em que escrevi um texto – este – na sequência de um pequeno diferendo que tivemos.

O texto não era (não é) sobre ele. Não era sobre nós. Não era sequer sobre o tal diferendo.

Sucede que enquanto vivo o meu dia-a-dia penso sobre milhares de coisas e tudo o que penso me sugere temas sobre os quais me dá para escrever (ou não).

Foi o caso naquele dia. Era apenas uma reflexão que teve sim, como ponto embrionário de partida, aquele nosso diferendo. O texto era sobre a ideologia e os princípios que eu senti que, de alguma forma, podiam estar na base daquele nosso diferendo, em si mesmo, insignificante e ultrapassado.

Ele não lê o meu blog.

Creio (especulo) que tem medo de ler com o olhar único de quem vive comigo. De quem consegue perceber ‘de onde vêm’ as minhas palavras. De quem não quer sentir-se criticado.

Já lhe expliquei que tudo isto é, essencialmente, sobre mim, sobre as conversas intermináveis que tenho comigo mesma no carro, a caminho de casa, todos os dias, sobre a necessidade que tenho de falar, ‘sem medo de ser feliz’, sem amarras, sem grandes filtros. Falar para dar vazão a essa avalanche constante de reflexões que me invadem e distraem inoportunamente das minhas tarefas a todo o instante. Falar para esvaziar o compartimento do meu cérebro que precisa de se concentrar no que quer que seja.

Foi, todavia, inútil.

Ele não lê o meu blog.

Mas…

No último post partilhei o estado zombie em que me encontrava.

Recebi um feedback fantástico de mães desesperadas como eu (como isso me reconfortou só eu sei… Obrigada).

Quando cheguei a casa na sexta-feira ele disse-me «os meninos dormem fora hoje e nós vamos jantar».

E fomos. E eu dormi a noite toda sem interrupções. E o pequeno-almoço apareceu na minha cama pouco depois de me queixar que estava a ficar com fome. E os ecrãs foram deixados de lado até ao momento em que já não sabíamos mais o que fazer com o próprio ócio e decidimos ver um filme (seguido, imagine-se!).

Ele não lê o meu blog, é verdade.

Mas talvez não precise.

Ele não lê o meu blog porque lê tudo o que tenho dentro.

Sempre. Sem intermediários.

Crónicas de uma mãe privada do justo sono

Introdução minimalista porque hoje não dá para mais

É ao terceiro dia mal dormido que tudo fica mais negro.

É.

Um dia é suportável.

Ao segundo ainda há esperança.

Ao terceiro o cérebro queixa-se. O corpo queixa-se. Tudo se queixa.

A solidão traz melancolia. A companhia traz impaciência e ansiedade.

Manhã

Acordo (ou melhor, levanto-me porque, na verdade, pouco dormi) com uma ligeira dor de cabeça.

Tenho que me controlar para ser a mãe que os meus filhos merecem e conseguirmos atravessar as rotinas matinais e sair de casa sem nos irritarmos uns com os outros parvamente.

Não é nada intuitivo, devo dizer.

Porque ao terceiro dia, o intuitivo é zangar-me com tudo.

Esqueço-me de coisas. Saímos todos de casa com os dentes por lavar. E eu de pantufas nos pés.

Também me esqueço de coisas enquanto as estou a fazer. O leite do pequeno-almoço arrefece porque não me lembro que ainda não o bebi.

O trânsito, a que sou perfeitamente imune em dias ‘normais’, faz-me ‘bufar’ mil vezes de nervoso.

Pus gasolina. Esqueci-me de zerar o conta-quilómetros. Suspiro.

O meu dia mal começou.

Tenho vontade de chorar. Talvez o faça mais tarde. Ou talvez não espere.

Penso em escrever este texto e começo a registar mentalmente tudo o que já me causou mal-estar hoje.

Pensar nisso arrasta-me ainda mais para o fundo.

Tarde

O tempo passa simultaneamente demasiado devagar e demasiado rápido.

Quero voltar para casa, abraçar o marido que me parece o único ponto de conforto e, ao mesmo tempo, o monstro que me apetece culpar por todo o meu cansaço.

Mas há coisas para fazer e preciso de estar concentrada. Como?

Não saio para treinar (tinha-me feito bem).

Não saio para almoçar (tinha-me feito bem).

Lentamente, consigo terminar o que tinha para hoje.

Hora de me arrastar de volta para casa

Fim do dia

Ao terceiro dia tudo fica mais negro.

Preciso de dormir.

Preciso muito de dormir.

Enquanto não posso… Escrever ajuda.

Os M’s beberam demais…

O Marco

O Marco tem 19 anos e acabou de tirar a carta.

O Marco é um filho ‘certinho’ e um aluno exemplar. Entrou em medicina e todos se orgulham do seu percurso.

Apesar de se exigir muito no campo dos estudos, o Marco não abdica dos seus amigos e socializa de forma saudável.

Por isso o Marco saiu numa sexta-feira à noite para um barzinho e aconteceu algo inédito nele. O Marco bebeu demais.

Como nunca o tinha feito, pouco consciente dos efeitos do álcool no seu corpo e discernimento, o Marco achou-se ‘bem para conduzir’.

Não estava. Parado numa operação stop de rotina, acusou um volume de álcool superior a 0,5 g/l.

Foi condenado por crime de condução sob o efeito de álcool e cumpriu uma pequena pena de multa.

Pouco ou nada mudou na sua vida. Todos à sua volta o compreenderam e apoiaram, afinal, o Marco sempre foi bom rapaz e errar é humano,que injustiça seria roubar um futuro a uma mente tão brilhante.

 

A Miriam

A Miriam tem 17 anos e é uma menina que todos consideram rebelde.

Pinta-se demasiado, veste-se pouco, sai com frequência às escondidas dos pais.

A Miriam gosta de beijar na boca e não vê razões para não o fazer sempre que lhe apeteça.

As liberdades da Miriam valeram-lhe fama de ‘fácil’ na escola, que frequenta, de resto, apenas quando bem entende, o que já lhe valeu ter que repetir o ano.

Numa das suas escapadas nocturnas, a Miriam bebeu demais, como acontecia de vez em quando. Afinal YOLO, não é verdade?

Um rapaz ofereceu-lhe boleia para a ajudar a chegar a casa em segurança e ela aceitou, estava tão mal-disposta…

A Miriam foi levada para casa. Mas não para a sua. A Miriam foi levada para casa de um amigo do seu ‘salvador’ e violada pelos dois.

A Miriam queixou-se e ouviu de tudo: Quem manda sair? Quem manda beber? Quem manda vestir saia curta? Quem manda ‘andar com todos’?

A Miriam pôs-se a jeito. A Miriam estava a pedi-las.

A Miriam teve que mudar de escola, teve que mudar de casa, de cidade. Por onde andasse todos a apontavam e comentavam o ‘estado a que tinha chegado’.

 

***

Estas são histórias fictícias, mas não muito.

Em ambas as histórias foram praticados crimes.

O percurso e a personalidade do Marco pesaram como atenuantes no crime de que foi autor e que colocou virtualmente em risco uma série de vidas. Nada mais natural.

O percurso e a personalidade da Miriam pesaram como atenuantes também… mas para os autores do crime de que ela foi a vítima.

Se o Marco tivesse atropelado uma pessoa, alguém se lembraria de perguntar qual era o comportamento habitual dessa pessoa enquanto peão, quantas vezes tinha atravessado a estrada fora da passadeira, se tinha por hábito ofender os condutores que não lhe dessem passagem ou provocá-los simulando atravessar a estrada ou pedindo que ‘passem por cima’? Certamente que não… Porquê? Porque não interessa. Interessará eventualmente se naquela circunstância em concreto atravessou fora da passadeira ou se se atirou para a estrada de uma forma que um outro condutor que não o Marco, diligente e sóbrio, o teria atropelado de qualquer maneira…

A vítima não tem culpa. A vítima não tem que ser santa, não tem que ser boa aluna, boa filha, boa amiga, casta e pura para ser reconhecida como vítima de um crime. O seu carácter e a sua popularidade são irrelevantes para efeitos dos crimes praticados sobre ela, tal com a sua conduta do dia-a-dia ou os juízos de valor que essa conduta nos possa despertar enquanto indivíduos.

No caso da Miriam, ou ela deu consentimento aos dois rapazes ou não deu.

No que respeita especificamente aos crimes sexuais (quase) tudo se reconduz a saber se houve ou não consentimento naquele caso concreto e naquelas circunstâncias específicas.

Só isso importa.

Vamos parar de pôr as mulheres vítimas de crimes sexuais no banco dos réus?

E, já agora, vamos ensinar aos nossos filhos o significado, o valor e a importância do consentimento?

É sexta-feira (só que não)!

O Miguel está viciado no Panda e os Caricas.

Mal diz dez palavras, mas quando está entediado (ou doente) já aponta para o computador ou para o telemóvel e faz um ‘ôh! ôh!’ que não deixa dúvidas.

A propósito da música ‘Sexta-feira (estudei a semana inteira)’ na versão do grupo, o Martim costuma sempre comentar «Mas hoje não é sexta-feira!!!…» (pois, normalmente não é).

Ontem antecipei-me e comentei eu, ao ouvir a música, que não era sexta-feira e que se calhar os caricas tinham mesmo que passar mais tempo na escola, se não sabiam os dias da semana…
Martim concordou com um sorriso semi-trocista.
Então perguntei-lhe ‘Que dia é hoje?’
E ele respondeu: ‘Domingo’
E eu devolvi: ‘E amanhã?’

E ele respondeu: ‘Amanhã… Amanhã é dia de escola’.

Soltei uma gargalhada, mas por dentro fiquei emburrada.

Parece-me que ele também.

Acho que o espírito de segunda-feira nos castigou por troçarmos dos Caricas…

Boa semana minha gente!!!