Uma perfeição de mãe

Eles têm tido dificuldades com a escola.

O Miguel chora desalmadamente no momento de lá ficar, embora me contem que a crise dura 30 segundos depois de eu sair.

Quando não chora diz que ‘nã quéia bebés’ (porque ele é um adulto, como todos sabemos…).

O Martim chora em alguma altura do dia. Diz que tem saudades da mãe.

De manhã pede-me ‘não me leves para a escola, por favor’.

Explico aos dois que as férias terminaram para toda a gente. Que eu e o pai precisamos de ir trabalhar e que eles precisam de regressar à escola.

Explico que também é difícil para mim, que também eu queria mais tempo com eles, como tivemos durante as férias.

Enquanto lhes explico, explico-me.

Porque não é mentira quando digo que também é difícil para mim.

É nessas alturas que os diálogos como o que se segue me aquecem mais o coração.

À noite, conversando com o Martim, digo-lhe que só mais para o fim do ano voltarei a ter férias. E que, mesmo nessa altura talvez precise de trabalhar em casa, no meu outro trabalho, que não é o do escritório.

Ele pergunta porquê, que vou eu fazer e explico-lhe que quero ajudar mamãs e papás a conversar com os filhos como nós conversamos os dois.

Pergunto-lhe se ele acha que eu sou capaz de fazer isso.

E ele responde as palavras que me dão vontade de tatuar algures, para nunca me esquecer delas, mesmo nos dias mais difíceis: «Tu és perfeita, mamã».

Sei que não sou.

Sei que tudo o que posso ser é única, perfeita jamais. Nem como mãe, nem como nada.

Mas quando ele o diz assim, acreditando que é verdade eu vou e acredito também. Só por um momento.

Só enquanto nos abraçamos no escurinho e nos deixamos adormecer…

***

A vocês, mães que me lêem, quero dizer-vos:

Tu és perfeita, mamã.

Esta é (um)a história – Por ti, por todos

A falta de luz nos teus olhos foi das coisas mais difíceis com que me confrontei na Vida.

Tenho sonhado contigo desde o dia em que soube o que aconteceu. Não só porque és tu. Mas também porque podia ser eu.

Eramos duas crianças literalmente analfabetas no dia em que nos conhecemos. Desde esse primeiro dia fomos muitas outras coisas: colegas, amigas, próximas, distantes, adolescentes rivalizando por coisas parvas, meninas mulheres apoiando-nos mutuamente, adultas com uma história comum para contar nos sorrisos e nas conversas que o acaso nos proporcionou.

Brincámos juntas. Estudámos juntas. Frequentámos a casa uma da outra incontáveis vezes. Estás nos albuns de fotografias que os meus pais guardam em casa com as nossas memórias de infância. Estás nos meus, com as primeiras fotos que tirei já ‘crescida’.

Foste tu que patrocinaste o meu primeiro beijo, forçando uma situação que não existia, como só uma adolescente sabe fazer, ali, num dia de chuva de Primavera, na entrada do teu prédio onde nos abrigámos todos.

Eras tu, nas festinhas de garagem e às escuras no meu quarto com luzes ‘psicadélicas’ e a banda sonora do Romeu e Julieta…

Fazes parte do que quer que eu tenha para deixar ao Mundo.

Não sei se é isso que torna tudo tão difícil.

Essa identificação perfeita com a pessoa que és, porque caminhámos lado a lado. Uma empatia particularmente dolorosa de sentir.

Naqueles tempos, da primária ao secundário, éramos todos miúdos com sonhos de curto prazo. Tanto quanto sei, nenhum de nós sonhava propriamente com uma família.

Éramos todos miúdos; hoje somos quase todos tu: mulheres, maridos, mães e pais.

A dor da tua perda é a nossa dor também.

Não sei o que fazer com a minha, aquela que sinto por ti.

E por isso só remotamente posso imaginar os caminhos que terás que percorrer para lidar com a tua.

E, no entanto, preciso que queiras percorrê-los.

Por ti. Por todos nós, miúdos como tu.

 

Faz o que eu digo, não o que eu faço(?) – sopas e descanso

Situação:

À mesa da refeição na Terra do Sempre, esse paraíso na (nossa) Terra, que visitámos este fim-de-semana, um pai recusa a sopa, depois de ter dado a dita cuja aos filhos.

Alfinetado pela anfitriã, que o questiona sobre o exemplo que estaria a dar, o pai responde ‘neste caso é usar a lógica do ‘faz o que eu digo e não o que eu faço”.

Não vou entrar no mérito da sopa ou não sopa, mas…

Ou até vou!

Um parêntesis: a mania da sopa!

Pessoalmente, odeio sopa!

Odeio!

Todas as sopas (e acreditem experimentei muitas e ainda hoje, de vez em quando, faço esse esforço).

Depois de uma infância inteira em que a única coisa que havia para comer ao jantar era… Isso mesmo, sopa (e não desmerecendo a minhã mãe que as fazia bem e variadas), livrei-me desse dessa obrigação mal tive um pingo de autonomia nesse sentido.

O que me leva à seguinte questão: de onde é que vem essa ideia peregrina de que é preciso comer sopa? Não me interpretem mal, acho super saudável e um óptimo hábito… PARA QUEM GOSTA! Mas para quê forçar alguém que não gosta a enfiar a dita cuja goela abaixo todo o santo dia, duas vezes ao dia? É mesmo necessário?

Há tantas, tantas outras formas de se inserirem vegetais na alimentação, custa muito descobrir com as crianças umazinha de que gostem? Pessoalmente acho preferível a associar para sempre as hora das refeições a um cheiro que se odeia, um sabor que causa asco e a episódios pouco bonitos de presenciar como aquele em que avisei continuamente que o caldo verde ia fazer-me vomitar e… Bom, poupo-vos dos pormenores.

E pronto. Findo este momento de disclosure acerca do meu traumazinha de infância, podemos prosseguir com o que constitui, realmente, o tema deste texto:

Faz o que eu digo e não o que eu faço

Sou muito, muito, muuuuuiiito fã desta ideia! Aliás, atenta a aversão à sopa de que, chegados a este ponto, são todos, quisessem ou não, conhecedores, tudo o que mais gostaria é de que ela fosse praticável…

Mas vá, todos sabemos que não é, certo?

Como convencer uma criança de que é óptimo comer sopa embora eu me contorça toda só de lhe ver o fumo?

Como convencer uma criança que é feio insultar as pessoas, se insultamos o nosso companheiro de cima abaixo em cada discussão que temos?

Como explicar que não se bate na mãe, enquanto se lhe dá umas palmadas ‘para aprender’?

Como fazê-la concentrar-se nos trabalhos de casa e desligar as redes sociais enquanto o faz, se nós não vamos nem à casa de banho sem carregar o telemóvel atrás?

Estão a ver a ideia, certo?

Por muito que eu seja fã confessa do ‘faz o que eu digo’, a verdade é que NÃO FUNCIONA. Nós fazemos o que vemos fazer. Simples assim.

Então: esta é daquelas situações em que por muito valiosa que seja a recomendação ou o valor que lhe está subjacente, se não serve para nós, dificilmente conseguiremos passá-lo aos nossos filhos.

E está tudo bem! Afinal… Se não serve para nós, é porque talvez não seja tão importante assim…

Em conclusão:

Pray what you preach!

Só assim conseguimos ter a confiança necessária para implementar verdadeiramente os hábitos que queremos que sejam os da nossa família e, por outro lado, cobrar que sejam cumpridos e mantidos.

O exemplo (temperado com um pouco de coerência) é tudo.

Esta é a história… de um novo primeiro dia

 

Ali dançámos pela primeira vez como marido e mulher.

E fizémo-lo como tinha que ser: só nós dois, face na face, arrastando preguiçosamente os pés na areia de um parque de estacionamento, nas traseiras do local onde todos nos esperavam para nos verem fazê-lo ‘a sério’. Levantando poeira, sujando os sapatos, longe da ‘ribalta’. Sem qualquer pretensão de sermos perfeitos.

Toda a gente sabe que esta é a minha imagem favorita do nosso casamento. De tão crua, transborda tudo o que somos juntos.

Sempre soubeste embalar-me com os teus meios sorrisos, meias palavras, meios olhares.

Com tudo o que fazes pelo meio e que tanto me apaixona, sei que te tenho por inteiro. Sei que me tens por inteiro também.

Não sei o que é amor (quem sou eu para saber tal coisa…). Mas sei o que é lealdade, transparência, companheirismo. Sei exactamente o que significa ‘para o que der e vier’. Sei o que é ser adulta e continuar a crescer. Sei o que é ser apoiada quando preciso, mesmo quando não digo que preciso.

E sei que, de todas as viagens que já fizemos juntos, a que mais gosto é aquela que invariavelmente nos leva do momento em que acordamos lado a lado até àquele em que voltamos a deitar-nos, lado a lado também. Seja em que circunstâncias for. Com toda a loucura que tiver havido pelo meio.

Escolhi-te muitas vezes até chegar o dia de (finalmente) me escolheres também.

Este dia que celebramos hoje e que nos leva de volta a um amanhecer de há bastante mais tempo do que os três anos que hoje tem o nosso jovem casamento.

Este não é um primeiro dia do mês como outro qualquer.

É um novo primeiro dia no calendário da nossa viagem a dois.

So let the adventures continue…

***

Não. Eu não sei nada sobre o que é o amor. Mas suspeito que seja algo próximo desta escolha diária em estar com alguém que não se basta em ‘deixar-me’ ser eu, mas que me faz sentir cada vez mais eu.

 

 

 

As 1001 noites (adaptado aos tempos modernos)

O Martim sempre foi relativamente fácil de adormecer… Até ter um irmão.

Quer dizer, ele continua a ser fácil de adormecer, mas o pouco que exige de nós, perante a existência de um Miguel que não sabe o que é ter sono, por vezes é demasiado.

Desde que dormem os dois no mesmo quarto tenho experimentado várias dinâmicas:

  • História improvisada para o Martim, colo para o Miguel.
  • História lida para os dois, os dois nas suas camas.
  • Canções para o Miguel embalado ao colo, que o Martim canta também até adormecer.
  • Dizer ‘dane-se!’ e eles que se arranjem… (e voltar 2 minutos depois para ‘terminar o trabalho’).
  • Deixá-los adormecer, esporadicamente, à vez na minha cama (ou os dois, se estiver sozinha).
  • Colocar o Miguel na cama, obrigando-me a ficar pendurada lá para dentro para lhe dar as duas (!) mãos enquanto vou pedindo silêncio ao Martim e informo que o dia terminou.

Enfim… Já perceberam a ideia. Ou a falta delas!

E eu também percebi, à custa de 1001 noites de resistências, ora de um ora de outro, pelos mais variados motivos.

Até que há exactos quatro dias descobri a pólvora quando, por mero acaso, me sentei no pequeno sofá que fica entre as camas dos dois, do lado que fica mais próximo da cama do Martim e com o Miguel sentado ao meu colo (e não deitado).

O Martim estava particularmente conversador e eu deixei-me levar… Quando dei por mim, o Miguel tinha adormecido, sentado, tal como estava.

No dia seguinte repeti a dose e no seguinte também.

Funciona.

E eu consigo perceber perfeitamente porquê (o que torna estúpido o facto de ter demorado tanto tempo a chegar a esta solução).

O Martim precisa da minha atenção individida durante um tempo: ao sentar-me ao seu lado a conversar, de igual para igual, sobre as nossas curiosidades e sem cronómetro, é exactamente o que ele obtém.

Já o Miguel precisa de acreditar que não está a ser adormecido porque, na cabecinha dele, o descanso não é uma necessidade: quando o sento no meu colo, desistindo de o convencer a fechar os olhos, ele desiste de lutar.

E eu… Até podia ir mais cedo para a cama. Mas descobri que também me acalma a mim conversar com um enquanto abraço o outro, sobre temas que não me preocupam em nada.

Olhando, acredito que pareça um quadro de uma simplicidade atroz.

Ninguém diria que levámos cerca de 1001 noites a chegar até aqui…

Mas no fim do(s) dia(s) (literalmente) o que importa são os finais felizes.

Dez euros para a rua (?)

«Foram dez euros para a rua!»

Foi assim que o Mário classificou a ida ao cinema com o Martim, no dia que tiraram para serem só eles dois.

O Martim não estava a gostar do filme e pediu para vir embora a meio.

«Foram dez euros para a rua!»

Respondi-lhe que não. Que foram dez euros para levar o filho ao cinema. E que ele gostou. Enquanto gostou.

Pensando um pouco, gostava de ser um pouco mais como o Martim.

Vir embora de uma sala de cinema, quando o filme não me interessa. Guardar aquele livro intragável na gaveta, que me pareceu tão interessante quando o comprei. Abandonar um curso ou formação quando percebo que entrega menos do que promete.

Mas não. Agarro-me ao quanto investi e continuo a perder tempo, como se o tempo que ainda não gastei e que posso gastar noutras coisas valesse um cêntimo menos do que o dinheiro que já perdi e não volta.

Tontos nós, os adultos, que andamos a toque de caixa das nossas expectativas e nos é tão difícil abrir mão delas, mesmo quando elas há muito voaram pela janela.

Sábios eles, as crianças, que se limitam a viver no agora, com toda a certeza do que em cada momento é a prioridade para o seu bem-estar e manifestando-o com clareza.

«Ah e tal, mas ele não tem contas para pagar, não dá valor ao dinheiro».

Justamente! Um dia ele pagará as suas contas e espero que quando esse dia chegar ele consiga manter o mesmo discernimento cru e simples que tem hoje: o seu tempo é valioso, o seu bem-estar também. O resto é acessório. Tudo o resto.

E talvez isso o ensine a fazer melhores escolhas do que eu, no que respeita àquilo em que opta por investir. O seu tempo, claro está.

Porque o resto é acessório (não tinha já dito isto?).

À noite quando cheguei a casa, perguntei ao Martim o que mais tinha gostado do dia com o pai.

Adivinham a resposta? Isso mesmo. A ida ao cinema.

Definitivamente… Não foram dez euros para a rua.

O meu bebé chama por mim

O meu bebé chama por mim.

Todo o dia, se eu estiver por perto.

Toda a noite também.

O meu bebé chama por mim. Às 00h. Às 2h. Às 3h30.

Convenço-o de que ‘a mãe está aqui’ e de que pode voltar a ‘fazer ó-ó’.

Ele acredita, mesmo à distância de um quarto. Às 00h. Às 2h. Às 3h30… Ele acredita.

Mas às 4h50 a minha voz ecoando a um quarto de distância já não convence ninguém e sou obrigada a iniciar uma conversa séria com o meu corpo cansado.

Digo-lhe que tem que ouvir. Que tem que despertar. Que tem que abrir os braços e oferecer a quem de direito o único consolo de que o meu bebé precisa.

Peço-lhe que esqueça que não tem vocação para noctívago.

Que ignore todas as vezes que, adolescente, tentou estudar noite dentro e deixou os olhos fecharem antes mesmo do recolher da Cinderela.

Que faça por não se lembrar que a ‘diversão nocturna’ sempre durou no máximo até às 3h e que dormir em discotecas é, para si, brincadeira de crianças.

Que varra para debaixo do tapete a memória das poucas vezes em que se forçou a trabalhar até tarde e de como as lágrimas caíram em todas, sem excepção.

Digo-lhe que apreenda que, por hoje, a noite terminou.

E o meu corpo ouve.

O meu bebé chama por mim e terá o seu colo.

Terá toda a minha cama e todo o meu corpo para se estender, amassar e espezinhar. Esse corpo que só quer descanso, abrigará, sem se queixar, os torcicolos, os braços dormentes, as caimbras nas pernas, as olheiras e a má disposição do dia seguinte.

O meu bebé chama por mim e o meu corpo faz-se forte para o atender.

Porque o meu corpo de adolescente a lutar pelo sucesso escolar, de jovem querendo acompanhar os amigos e os amores, e de profissional almejando reconhecimento não são ninguém perto do corpo que agora tenho.

Corpo de mãe não é nem corpo. É armadura.

Uso a minha com orgulho.

Por muito amolgada que esteja.

 

Quando eu era pequena…

Esta é Uma história…

Esta não é, definitivamente, a história da minha infância. Essa é muito feliz.

Mas esta é UMA história da minha infância que eu acho que preciso de contar.

 

Quando eu era pequena

Quando eu era pequena, eu apanhava, ocasionalmente. Não eram muitas vezes. Mas de vez em quando eu e o meu irmão… Nós apanhavamos.

Não sou traumatizada por isso. Não me sinto menos pessoa porque levei umas palmadas quando era miúda. Nada disso… Sobrevivi, como se diz por aí.

Mas se me perguntarem ‘Havia necessidade?’ Não, não havia necessidade alguma de me baterem.

Se me perguntarem ‘Lembras-te porque é que apanhavas?’ Tenho que responder que não. Com excepção de uma ocasião em particular em que a injustiça foi tão grande e os meios e palavras usadas foram tão violentos que não me consigo esquecer… Não. Realmente não me lembro das situações que me levavam a apanhar.

E se me perguntarem ‘Mas aprendeste alguma coisa sobre o certo e o errado nessa alturas? Fizeste alguma coisa diferente?’ Novamente tenho que responder que não. Se não me lembro porque é que apanhei, muito menos terei aprendido o que quer que seja sobre a rectidão dos meus comportamentos de acordo com o padrão de valores que se pretendia implementar em minha casa…

 

Aquela coisa que eu aprendi

Mas houve uma coisa que eu, infelizmente, aprendi.

Uma coisa que eu gostava muito, muito de não ter aprendido.

Eu aprendi que de vez em quando, só de vez em quando, não faz mal batermos nos nossos filhos.

E então, depois de ser mãe e mesmo tendo por dado adquirido que não seria ‘a mãe que bate nos filhos’, às vezes, só às vezes, quando eu ficava muito desesperada, muito assoberbada, muito descontrolada ou muito cansada… Eu batia no Martim. Não melhorava nada e ele não parava o que quer que estivesse a fazer por causa disso, mas eu batia no Martim.

E batia-lhe mesmo sabendo que um dia ele também não vai ter ideia de porque é que apanhou, que ele também vai achar completamente desnecessário ter apanhado e que ele vai conhecer, tal como eu, o tanto de nadas que se aprende sobre o certo e o errado quando se apanha.

E esse é… O melhor dos cenários. Porque se ele for como eu, se ele se lembrar como eu, mais do que sentiu nesses momentos do que do que aconteceu nesses momentos, talvez vá, também ele ter uma vozinha interior como eu tenho e que lhe diz que de vez em quando, só de vez em quando, não faz mal bater nos filhos. Para os corrigir. Para os disciplinar. Para os ensinar. Por amor.

É verdade. Sobrevivi. E, tal como eu como eu, ele vai, também sobreviver. E não vai amar-me menos por isso.

 

MAS (diz que há sempre um desses…)

Mas, a sério que a melhor justificação que conseguimos arranjar para fazermos ou não alguma coisa é a mera expectativa de que sobreviveremos, nós e eles, a isso?!

A sério que a MELHOR razão que conseguimos arranjar para fazermos ou não alguma coisa é o facto de ter sido ‘sempre assim’?

Será que não conseguimos melhor? Melhores razões, que seja? E será que é assim tão importante para nós mantermos tudo como sempre foi, apenas porque sempre o foi e se nós sobrevivemos também os nossos filhos sobreviverão?… Porquê?!

Ninguém duvida que os nossos pais fizeram o melhor que podiam e sabiam. Certamente não se sentirão feridos apenas pelo facto de não querermos imitá-los em tudo, nem isso limita o amor, a gratidão e o respeito que lhes temos…

Mas olhando para trás… De facto, eu lembro-me que, de vez em quando, apanhava. Mas, tirando isso, eu não me lembro de rigorosamente mais nada sobre apanhar.

Que raio de lição é essa?

Que raio de memória é essa?

Uma que eu não queria que os meus filhos tivessem… E que vou fazer por apagar ou, pelo menos, esbater.

Assinado, Mãe

 

O Convite

No cacifo do Martim encontrei um convite para a festa de uma amiga. Amiga dele a menina, amicíssima minha a mãe dela, vai para 25 anos tarda nada.

Já sabia, claro, do aniversário, da festa, do dia e por isso na hora não atentei no quadradinho de papel.

Só no dia seguinte reparei no pormenor que pedia confirmações até à data x para o seguinte contacto: Mãe – 9xxxxxxxx.

Assim mesmo. Quem convida é a pequena L. Quem organiza é a Mãe. Sem nome.

Talvez já me tenha cruzado com mil outros convites assim, talvez nunca tenha notado este pormenor até aqui, mas sucede que aquela ‘mãe’, para mim é a Cátia. A minha Cátia. A Cátia de sempre.

 

Mães sem nome

Não é novidade que a forma como o Mundo nos vê muda a partir do momento em que nos tornamos mães. E não é preciso nem parir para isso, porque na gravidez já perdemos toda a identidade.

Perdemos o nome, quase que automaticamente.

Passamos, simplesmente, a ser ‘a mãe’ de alguém: nas consultas, nas ecografias, no hospital do parto, nas lojas específicas de produtos de bebés, nas escolas dos miúdos, nos locais onde lhes organizamos as festas….

Mas é engraçado como vamos, nós próprias, assimilando, aceitando e resignando-nos com o facto de ninguém saber ou querer saber o nosso nome. Ao facto de só existirmos em função de uma parte específica da nossa vida, de um papel que desempenhamos, entre tantos outros.

Entendo que, na maior parte desses contextos, não seja, talvez, comportável, saber o nome de todas as mães que por ali circulam. Mas, caramba… Antes de sermos a ‘mãe’, ainda somos mulheres! E em qualquer situação em que nos tenhamos como perfeitamente desconhecidas e desacompanhadas dos nossos filhos, somos simplesmente ‘senhoras’, certo?

Não é que me ofenda ou me sinta diminuída ao ser constantemente chamada de ‘mãe’ por pessoas que não são minhas filhas.  Não se trata disso (embora tenha que confessar que foi uma lufada de ar fresco perceber que a escola que os meus filhos frequentaram pela primeira vez este ano faz esse esforcinho extra de chamar os pais pelos seus nomes).

Ser mãe dá muito sentido à minha vida. ‘Mãe’ é um título que ostento com muito orgulho. O que me incomoda é constatar que nos acomodamos, aos poucos e até sem darmos por isso, com tudo aquilo que significa ser apenas, e na maior parte dos contextos e dos momentos das nossas vidas, ‘a mãe’.

Porque quando olhamos o espelho e começamos a ver cada vez mais apenas ‘a mãe’, corremos o risco de nos perdermos da mulher que sempre fomos, da que somos e, sobretudo, da que queremos ser para lá da maternidade.

E com isso, deixamo-nos para trás. O tempo, já curto, é cada vez menos dedicado a coisas que nos apaixonam, absorvem, relaxam. E quando fazemos alguma dessas coisas é com a cabeça cheia de ‘tenho que me despachar’ e um estranho peso na boca do estômago que nos diz que estamos a fazer algo errado. Diz que se chama culpa.

E a culpa, pessoas… A culpa é uma treta inútil, frustrante e paralisante.

A culpa pertence ao nosso caixote do lixo emocional e sem direito a reciclagem.

 

De volta ao convite

Quanto ao convite, tenho apenas isto a dizer à pessoa que o subscreveu: Mãe?! Tu não és a porra da mãe, és a Cátia! Quando muito a ‘Cátia, entre parêntesis, mãe’. Quem és tem um valor inestimável, pelo menos para mim!

Ah!… E confirmo a nossa presença.

Com amor,

Inês

 

O que ele tem a dizer ao mundo

 

Achamos que ele fala pouco.

Dizem-nos que não. Que na sala dele é dos que mais palavras diz.

No médico reforçam esta ideia, informando-nos que o seu vocabulário é para lá de suficiente para um bebé da idade dele.

Compreendemos então que caímos na armadilha das comparações que amaldiçoa o segundo filho (e todos os que se lhe seguirem): o Martim sempre foi um falador e não se lhe conhecem palavras ‘tortas’, de sílabas trocadas ou mal ditas. Aliás, com um ano e dez meses o Martim já me acusava madrugada adentro, com uma dicção perfeita apesar do pranto com que se misturava e que me maltratava o coração e os ouvidos, naquelas circunstâncias «A mãe fugiu. A mãe foi embora.». Um «pequeno» preço a pagar pelos nossos dez dias de lua-de-mel… Sem ele, obviamente.

Com comparações ou sem elas, aqui vai:

Nãuum – uma das palavras favoritas durante muito tempo.

Xim – Custou a aprender a verbalizar o sim, mas depois de perceber que também servia para confirmar que queria comida, convenceu-se da sua utilidade.

Bola – Das primeiras palavras que aprendeu. Porque não lhe falta nada se tiver uma destas.

Páia = Pára. Adoptado para ataques de cócegas e contrariedades no geral.

Xai = Sai. Juntamente com um empurrãozinho, mostra quem é (ou devia ser) o dono do território.

cão, gato, cáô (cavalo), pêxe (peixe), fafa (girafa) – toda a bicharada é bem vinda.

Tim, Xalo = Martim, Gonçalo, o irmão e o primo, duas das suas pessoas favoritas.

Papa, xaxá (bolacha), nana (banana, mas também pode ser maçã ou qualquer outra fruta), quêx (queijo), pão, bôuô (bolo), áua (água) – comida, comida, comida, comida. Acho que ele adormece e acorda a pensar em comida. Sempre de boca aberta, come tudo o que lá lhe puserem, inclusive umas coisinhas caricatas, como um destes dias escrevi por aqui.

amãia = homem aranha no seu sentido literal. Mas pode metaforicamente representar qualquer super-herói. Todos são amãia.

Carro – nunca houve popó, foi sempre carro.

Mãe, mamã, mamãe/pai, papá, papai – as palavras mais repetidas. Over and over and over. Às vezes (a maior parte) sem qualquer propósito ou intenção. Só porque sim. Só para que alguém responda ‘Sim, Miguel?’

Mas de todas as coisas que ele diz e que são muitas mais o que consigo lembrar-me do pé para a mão, a melhor é quando lhe dizemos ‘gosto de ti’ e ele responde, com um sorriso safado e chinezinho ‘ti ti’.

Neste dia 15 de Junho de 2018 ele completa 1 ano e meio e isto é o que ele tem, para já, a dizer ao mundo, na sua inocência e sem saber que significa um Mundo para nós.

Meu querido Miguel. Ti ti. Muito.