Assinado, Mãe

 

O Convite

No cacifo do Martim encontrei um convite para a festa de uma amiga. Amiga dele a menina, amicíssima minha a mãe dela, vai para 25 anos tarda nada.

Já sabia, claro, do aniversário, da festa, do dia e por isso na hora não atentei no quadradinho de papel.

Só no dia seguinte reparei no pormenor que pedia confirmações até à data x para o seguinte contacto: Mãe – 9xxxxxxxx.

Assim mesmo. Quem convida é a pequena L. Quem organiza é a Mãe. Sem nome.

Talvez já me tenha cruzado com mil outros convites assim, talvez nunca tenha notado este pormenor até aqui, mas sucede que aquela ‘mãe’, para mim é a Cátia. A minha Cátia. A Cátia de sempre.

 

Mães sem nome

Não é novidade que a forma como o Mundo nos vê muda a partir do momento em que nos tornamos mães. E não é preciso nem parir para isso, porque na gravidez já perdemos toda a identidade.

Perdemos o nome, quase que automaticamente.

Passamos, simplesmente, a ser ‘a mãe’ de alguém: nas consultas, nas ecografias, no hospital do parto, nas lojas específicas de produtos de bebés, nas escolas dos miúdos, nos locais onde lhes organizamos as festas….

Mas é engraçado como vamos, nós próprias, assimilando, aceitando e resignando-nos com o facto de ninguém saber ou querer saber o nosso nome. Ao facto de só existirmos em função de uma parte específica da nossa vida, de um papel que desempenhamos, entre tantos outros.

Entendo que, na maior parte desses contextos, não seja, talvez, comportável, saber o nome de todas as mães que por ali circulam. Mas, caramba… Antes de sermos a ‘mãe’, ainda somos mulheres! E em qualquer situação em que nos tenhamos como perfeitamente desconhecidas e desacompanhadas dos nossos filhos, somos simplesmente ‘senhoras’, certo?

Não é que me ofenda ou me sinta diminuída ao ser constantemente chamada de ‘mãe’ por pessoas que não são meus filhos.  Não se trata disso (embora tenha que confessar que foi uma lufada de ar fresco perceber que a escola que os meus filhos frequentaram pela primeira vez este ano faz esse esforcinho extra de chamar os pais pelos seus nomes).

Ser mãe dá muito sentido à minha vida. ‘Mãe’ é um título que ostento com muito orgulho. O que me incomoda é constatar que nos acomodamos, aos poucos e até sem darmos por isso, com tudo aquilo que significa ser apenas, e na maior parte dos contextos e dos momentos das nossas vidas, ‘a mãe’.

Porque quando olhamos ao espelho e começamos a ver cada vez mais apenas ‘a mãe’, corremos o risco de nos perdermos da mulher que sempre fomos, da que somos e, sobretudo, da que queremos ser para lá da maternidade.

E com isso, deixamo-nos para trás. O tempo, já curto, é cada vez menos dedicado a coisas que nos apaixonam, absorvem, relaxam. E quando fazemos alguma dessas coisas é com a cabeça cheia de ‘tenho que me despachar’ e um estranho peso na boca do estômago que nos diz que estamos a fazer algo errado. Diz que se chama culpa.

E a culpa, pessoas… A culpa é uma treta inútil, frustrante e paralisante.

A culpa pertence ao nosso caixote do lixo emocional e sem direito a reciclagem.

 

De volta ao convite

Quanto ao convite, tenho apenas isto a dizer à pessoa que o subscreveu: Mãe?! Tu não és a porra da mãe, és a Cátia! Quando muito a ‘Cátia entre parêntesis mãe’. Quem és tem um valor inestimável, pelo menos para mim!

Ah!… E confirmo a nossa presença.

Com amor,

Inês

 

O que ele tem a dizer ao mundo

 

Achamos que ele fala pouco.

Dizem-nos que não. Que na sala dele é dos que mais palavras diz.

No médico reforçam esta ideia, informando-nos que o seu vocabulário é para lá de suficiente para um bebé da idade dele.

Compreendemos então que caímos na armadilha das comparações que amaldiçoa o segundo filho (e todos os que se lhe seguirem): o Martim sempre foi um falador e não se lhe conhecem palavras ‘tortas’, de sílabas trocadas ou mal ditas. Aliás, com um ano e dez meses o Martim já me acusava madrugada adentro, com uma dicção perfeita apesar do pranto com que se misturava e que me maltratava o coração e os ouvidos, naquelas circunstâncias «A mãe fugiu. A mãe foi embora.». Um «pequeno» preço a pagar pelos nossos dez dias de lua-de-mel… Sem ele, obviamente.

Com comparações ou sem elas, aqui vai:

Nãuum – uma das palavras favoritas durante muito tempo.

Xim – Custou a aprender a verbalizar o sim, mas depois de perceber que também servia para confirmar que queria comida, convenceu-se da sua utilidade.

Bola – Das primeiras palavras que aprendeu. Porque não lhe falta nada se tiver uma destas.

Páia = Pára. Adoptado para ataques de cócegas e contrariedades no geral.

Xai = Sai. Juntamente com um empurrãozinho, mostra quem é (ou devia ser) o dono do território.

cão, gato, cáô (cavalo), pêxe (peixe), fafa (girafa) – toda a bicharada é bem vinda.

Tim, Xalo = Martim, Gonçalo, o irmão e o primo, duas das suas pessoas favoritas.

Papa, xaxá (bolacha), nana (banana, mas também pode ser maçã ou qualquer outra fruta), quêx (queijo), pão, bôuô (bolo), áua (água) – comida, comida, comida, comida. Acho que ele adormece e acorda a pensar em comida. Sempre de boca aberta, come tudo o que lá lhe puserem, inclusive umas coisinhas caricatas, como um destes dias escrevi por aqui.

amãia = homem aranha no seu sentido literal. Mas pode metaforicamente representar qualquer super-herói. Todos são amãia.

Carro – nunca houve popó, foi sempre carro.

Mãe, mamã, mamãe/pai, papá, papai – as palavras mais repetidas. Over and over and over. Às vezes (a maior parte) sem qualquer propósito ou intenção. Só porque sim. Só para que alguém responda ‘Sim, Miguel?’

Mas de todas as coisas que ele diz e que são muitas mais o que consigo lembrar-me do pé para a mão, a melhor é quando lhe dizemos ‘gosto de ti’ e ele responde, com um sorriso safado e chinezinho ‘ti ti’.

Neste dia 15 de Junho de 2018 ele completa 1 ano e meio e isto é o que ele tem, para já, a dizer ao mundo, na sua inocência e sem saber que significa um Mundo para nós.

Meu querido Miguel. Ti ti. Muito.

Portaste-te bem hoje?

‘Até já meu amor, porta-te bem’

Todos os dias, ao deixar os M’s na escola, despedia-me com ‘até já meu amor, porta-te bem’.

Nada de especial, certo?

Num desses dias o Martim devolveu-me um ‘tu também, mamã!’ e eu achei piada. Ri-me.

Mas fiquei visceralmente a matutar naquilo e, mesmo não sabendo muito bem justificar porquê, passei a despedir-me com ‘até já meu amor, tem um bom dia’.

Do mesmo modo é corrente que mais ou menos qualquer pessoa próxima às crianças pergunte se se portaram bem na escola, com os pais, na festa, no parque, enfim, em qualquer que seja a circunstância.

Ontem à noite, enquanto conversavamos sobre os nossos dias respectivos o Martim concluiu: ‘eu portei-me bem na escola, a mamã portou-se bem no trabalho e o papá também’.

Aproveitei para lhe perguntar o que ele achava que queria dizer eu portar-me bem no trabalho, de que forma é que eu poderia, na perspectiva dele, portar-me bem no trabalho e ele respondeu, com a clareza de um murro no estômago, o seguinte: ‘Portares-te bem é fazeres tudo o que o teu chefe manda’.

Aquele sentimento visceral, que eu não soube identificar na altura, mas que me fez mudar a forma como os deixava na escola voltou e de repente percebi o que era: medo e repulsa.

Portar bem = fazer o que me mandam.

Portar bem = obedecer.

 

Questionamentos de cabeceira

Não é assim que eu quero que seja medida a minha performance profissional, pelo meu grau de obediência. Ninguém quer, eu acho. Somos seres pensantes. Questionar algo que não compreendemos ou com que não concordamos, sugerir alternativas que nos pareçam mais viáveis ou úteis ou vantajosas faz, necessariamente, parte de um núcleo de competências valorizado em qualquer ambiente profissional sadio. Também não é assim que eu quero ser avaliada no contexto das minhas relações interpessoais, pelo quanto eu concordo e me conformo com o que os demais pretendem.

Então, porque quereria eu medir a qualidade da minha relação com os meus filhos pelo seu grau de obediência aos meus comandos? Será que queremos mesmo filhos obedientes?

«SSSIIIIIMMMMM, claro»?

Entendo o impulso, mas peço-vos que não respondam já, sobretudo se estiverem a ler isto depois de pedir mais do que dez vezes ao vosso filho que vá lavar os dentes ou se acabaram de detectar mais um cabelo branco por conta da vossa filha insistir em fazer o exacto oposto daquilo que vos permite sair de casa a horas.

No curto prazo, e pensando em nós próprios como a autoridade, é claro que todos queremos filhos obedientes. E companheiros obedientes. E pais obedientes. E irmãos e amigos e vizinhos e funcionários e prestadores de serviços e estranhos com quem nos cruzamos na rua obedientes. Quem não gostaria que os outros fossem sempre de encontro àquilo que queremos que façam, quando queremos que façam e nos termos em que queremos que façam?

Mas, voltando aos nossos filhos, querê-los-emos obedientes quando um estranho os abordar dizendo ‘Vem comigo, se te portares bem, dou-te um rebuçado’? Querê-los-emos obedientes quando a pessoa dominante do seu grupo de amigos iniciar uma qualquer actividade perigosa ou desrespeitosa, como ridicularizar ou maltratar um colega, fumar, furtar um chocolate da mercearia? Querê-los-emos obedientes se alguém com autoridade sobre eles, educador, professor, treinador ou figura similar, abusar da autoridade que tem e ordenar que se calem sobre o assunto?

E no longo prazo? Qual será o preço da obediência que hoje exibimos como motivo de orgulho nos nossos filhos? O que diremos quando eles se desculparem por qualquer acção errada com ‘não tenho culpa, só fiz o que me mandaram?’ (Até sei. Responderemos, como todas as mães e pais do Mundo intemporalmente respondem, ‘e se te mandarem atirares-te a um poço, atiras-te?).

Compreendo que a obediência aos comandos possa ser essencial em determinados tipos de actividade – como na vida militar em que tantas vezes a vida e a morte se jogam na obediência – mas mesmo nesses contextos, deve a obediência ser cega?

Até ontem, de alguma maneira, eu já intuída que não.

Mas hoje, acredito assertivamente que não.

 

Obrigada Martim

Por muito que me custe argumentar constantemente porque é que a hora de ir dormir é esta e não outra, porque é que se come carne em vez de rebuçados ao almoço ou porque é que é dia de ir para a escola e não para o parque de insufláveis, pesando os prós e contras, é isso que quero fazer. Ser questionada sobre as minhas escolhas enquanto mãe pelas pessoas que mais são afectadas por elas: os meus filhos. Aliás, acho mesmo que, em terra de palpiteiros, eles serão talvez os únicos com alguma legitimidade para os dar.

Saber obedecer é relevante. Mas mais relevante do que saber obedecer é conhecer as circunstâncias nas quais é importante fazê-lo e quais aquelas em que o importante é questionar a ordem.

E quem sabe se uma vez por outra não terão razão?

***

Até já e tenham um bom dia.

A mulher que não sabia parar

Prelúdio

Esta é uma história que me foi contada na sua forma verídica e que passei a contar em termos mais abstractos a várias pessoas que me são queridas.

Num ou noutro momento das nossas vidas todos nós já nos vimos assoberbados pelas circunstâncias, pela lista de afazeres que não diminui, pelas exigências do dia-a-dia.

E nessas alturas… É preciso saber parar.

Esta é, por isso, uma história fictícia… mas não muito.

Era uma vez

Havia uma mulher que trabalhava numa clínica.

Trabalhava muito. Trabalhava por turnos. Trabalhava sem parar.

Era pouco reconhecida e muito cobrada.

A mulher começou a sentir algumas dores mas, ainda que trabalhando numa clínica, não sobrava tempo para ir ao médico.

O tempo passava… Mas as dores não. A mulher então consultou a chefia no sentido de tirar alguns dias para fazer todos os exames adequados.

A chefia riu-se da sua moleza, disse-lhe que havia muito trabalho e não podia dispensá-la naquela altura.

A mulher acedeu e seguiu trabalhando, dia após dia, com dores.

Até que elas se tornaram insuportáveis.

E a mulher decidiu fazer frente à chefia e ao seu próprio sentido de obrigação: era preciso parar. Era preciso tratar-se do que quer que causasse as dores. Era preciso melhorar antes de voltar a escravizar-se à custa do tempo em família, das noites passadas longe de casa, dos dias corridos pouco vendo os filhos.

E então a mulher foi e fez todos os exames há tanto tempo adiados.

A mulher morreu pouco depois. A mulher tinha um cancro que lhe foi diagnosticado tarde demais.

A mulher, quase literalmente, matou-se a trabalhar.

 

E agora pergunto

Quem irá aquela mulher ajudar agora?

Quem será mãe para os seus filhos, filha para os seus pais, mulher para o seu marido?

Quão boa profissional é ela neste momento?

Em suma: valeu a pena?

Os Avós: eles não são obrigados!

 

Um facto curioso acerca dos avós e que é, desconfio, desconhecido da maioria dos próprios: eles não são obrigados!

Mas obrigados a quê? Perguntam vocês e bem.

Partilho duas situações exemplificativas (mas ambas reais) para introduzir a discussão.

Situação 1: Telefonema do meu pai

  • Inês, eu e a mãe estamos a pensar em ir ao Alentejo este fim-de-semana. Vês inconveniente? Vais precisar de nós?

Situação 2: Telefonema entre o Mário e a mãe dele

  • Mãe, em Agosto vais à terra?
  • Ainda não sei, mas precisas que fique? Se precisas não vou.

Não, não e não!

Os avós são um sistema de apoio fantástico e sim, todos nós sabemos que têm todo o gosto em ficar com os nossos filhos para que possamos trabalhar, namorar, vegetar que seja! Haja avós na nossa vida e na vida dos nossos filhos para sempre!

Mas…

Eles. Não. São. Obrigados.

Não são obrigados a gerir a sua vida em torno das nossas conveniências.

Não são obrigados a mudar os seus planos por causa dos nossos.

Não são obrigados a estarem ao nosso serviço.

Não são obrigados a serem avisados em cima da hora sobre o seu próprio calendário de fim-de-semana.

Não são obrigados, em suma, a dizerem-nos que ‘sim’ sempre que lhes oferecemos os nossos filhotes.

Falando por mim, tento que os meus filhos passem tempo de qualidade com os meus pais pelo menos um dia por semana. Obviamente, tento fazer coincidir esse dia com algum que me dê jeito por um motivo qualquer. Mas quando acontecem situações como aquela que descrevi é-me inevitável pensar se não andarei a abusar da sua disponibilidade, do seu tempo, das suas vidas.

É que, no fim do dia, os filhos são responsabilidade dos pais. Os avós são influências maravilhosas, mesmo com tudo o que nos aborrece que façam com os nossos filhos e pelo que os repreendemos vezes sem conta daqui até ao fim dos tempos. Mas também são indivíduos. E são indivíduos que já tiveram ou têm ainda, uma vida activa que os obrigou a obedecer a horários, hierarquias e todo o tipo de condicionantes. E que têm todo o direito de dispor do tempo que têm livre como bem entenderem. Isso inclui não condicionarem os seus dias à possibilidade, tantas vezes meramente virtual, de terem os netos ao seu cuidado.

Se alguém tem que adaptar ou redesenhar os seus planos são os pais aos dos avós, não o contrário. São os pais que precisam, tantas vezes, dos avós, não o contrário.

Para mim, aquelas duas situações deveriam ter-se desenrolado assim:

Situação 1:

  • Inês, eu e a mãe vamos passar o fim-de-semana no Alentejo. Se estavas a contar connosco para alguma coisa, talvez seja melhor pensares numa alternativa.

Situação 2:

  • Mãe, em Agosto vais à terra?
  • Sim / Não.

Porquê? Porque muito que se sintam assim, eles não são obrigados, ora pois!

Famílias são feitas de todos os tipos de momentos

 

Amanheceu cedo demais. Pelo menos eu não estava preparada.

Eles acordaram cedo demais. Pelo menos eu não estava preparada.

Subiram na minha cama, saltaram mesmo depois de lhes dizer que não o fizessem.

Ainda debocharam da minha cara. Riram, felizes um com o outro e com o pouco caso que me faziam.

Fiquei emburrada ainda não tinha saído do quarto.

O Miguel fugiu de mim durante 10 minutos antes de finalmente conseguir trocar-lhe a fralda, com ele aos gritos.

Nas correrias dos dois, conseguiu tropeçar no molho de fraldas que estava a arrumar e magoar-se numa mão.

De mãos nas ancas, e ainda antes de o apanhar do chão, pareceu-me relevante perguntar aos dois se estavam agora satisfeitos.

Pergunta parva (era óbvio que não).

O Miguel chorou no meu colo. O Miguel chorou no chão. O Miguel chorou enquanto o Martim trocava de sapatos três vezes e exercitava o seu novo tique de puxar o maxilar para a frente, que irrita mais do que por vezes gosto de admitir.

O Martim não me ouviu pedir que fosse lavar os dentes.

O Martim “não me ouviu” pedir que fosse lavar os dentes.

O Martim “não me ouviu” pedir aos gritos que fosse lavar os dentes.

Fechei-lhe o computador. Acabaram-se os bonecos. E ele continuou a não ir lavar os dentes argumentando, ainda para mais, que o computador era do pai e não podia chegar e fechá-lo sem autorização.

Pouco importam os factos de ter sido eu quem comprou a porcaria do computador e de a ‘autorização’ não ter sido relevante na hora de lho ligar, mas na hora eu achei que sim e que, além de tudo, valia a pena discutir isso com ele.

Decidi que ia embora, quer ele lavasse ou não os dentes.

Saí com o Miguel, que tinha parado de chorar, mas voltou a chorar na hora de o por na cadeira do carro porque o que ele quer mesmo é conduzir.

Voltei para trás para dar mais dois gritos ao Martim que se pôs aos pontapés à porta de casa. Disse-lhe que fosse lavar os dentes. Gritou-me que não.

Arrastei-o para fora de casa, para dentro do carro, para cima da sua cadeira, enquanto lhe explicava que meninos que não lavam os dentes não podem, nunca mais, meter à boca o que quer que tenha açúcar, para não os estragar.

Voltei para trás para ir buscar uma t-shirt para o Miguel. Quando voltei, o Martim tinha tirado o cinto e estava a tentar sair do carro.

Queria ir lavar os fucking dentes.

«NÃO!»

Gritou o caminho para escola inteiro.

Gritou quando lhe exigi que parasse de buzinar no meu carro enquanto deixava o Miguel na escola.

Gritou quando o arrastei comigo para a escola do Miguel porque não quis parar. Ou sair do carro. Ou sair da estrada. Ou mexer-se, de todo.

O Miguel tem a mão cheia de sangue. Ao cair cortou-se num dedo e achou engraçado esgravatar a ferida no caminho.

Eu não achei tanta graça, mas são perspectivas diferentes do que é humorístico.

Alguém palestrou ao Martim sobre os cuidados dos dentes, os bichinhos que se instalam, os dentistas e tudo mais. Depois ofereceu-lhe rebuçados de chocolate. Que eu não o deixei comer.

Estão no meu carro. A ver se chegam a casa…

Antes de deixar o Martim na escola conversámos. Pediu-me desculpa. Pedi-lhe desculpa.

Quando entrou na sua sala, continuava com os dentes sujos, mas tinha a alma lavada.

***

E eu também.

Porque a manhã foi um inferno, mas sentada ao volante do meu carro não consegui lembrar-me da última que tínhamos tido uma assim.

Dias de merda fazem parte.

Seguimos juntos e está tudo bem.

E se A cegonha criasse um blog?

«Mãe, de onde vêm os bebés?»

«São trazidos por uma cegonha, filho»

***

Acredito que esta já não seja uma ‘saída’ tão comum para este aperto no qual, enquanto pais, nos veremos mais cedo ou mais tarde mas, ainda assim, quem não conhece esta resposta?

Pois bem, os meus M’s, não tendo sido trazidos por uma cegonha, foram-me ambos entregues nos braços pela mesma pessoa, o mesmo enfermeiro, a minha cegonha: o Bruno Rito.

Quem é ele? Tenho a certeza de que já o mencionei algures por aqui. De há dez anos para cá é enfermeiro parteiro no Hospital Garcia de Orta, percursor do parto vertical naquelas instalações, com o banco e a cadeira de parto onde tive a felicidade de me sentar para ter cada um dos meus meninos e criador dos programas pré e pós parto que ministra no Clubcare, na margem sul.

Frequentei o curso de preparação para a parentalidade que o Bruno dá por indicação de uma amiga. Uma vez lá, arrastei comigo uma outra amiga. Depois disso, várias outras amigas e conhecidas minhas já lá foram parar. Esqueçam o currículo do homem: ouçam os pais. Todos, sem excepção, vos dirão, como eu própria ouvi, experienciei, e passei a dizer, que é o dinheiro mais bem gasto na vidinha de uns quase pais. Guru, Deus dos partos e, para mim, mais modestamente mas com todo o significado, A Cegonha, são coisas que frequentemente ouvirão dizer sobre ele a quem já frequentou as suas aulas.

É tão bom que quando engravidei do Miguel, voltei. Não que não me recordasse de praticamente tudo o que tinha aprendido. Não que não tivesse ainda todos os meus (muitos) apontamentos. Não que, verdadeiramente, precisasse. Mas o Bruno tem uma maneira de explicar os porquês de todas as coisas que envolvem os antes, durantes e depois de um parto que tranquiliza, além de muitas histórias para contar, exemplos para dar e dois pés muito bem assentes na terra… pelo menos na terra das mães. E isso faz com que a voz dele entre connosco para o bloco de parto e com que cada passo de tudo o que acontece seja identificado e reconhecido por nós. A resposta é automática, porque foi tão minuciosamente explicada e praticada que não pode haver outra no nosso cérebro. E tudo corre melhor quando estamos descontraídas, certo?

Como vos referi, o Bruno apresentou-me ao parto vertical em banco de parto. Sumariamente, o Bruno mandou fazer um banco de madeira cujo assento se assemelha muito ao de uma sanita, onde as parturientes podem parir, sentadas (em posição vertical, portanto), beneficiando das bençãos que a gravidade traz, com todo o conforto, metade da dor e muito menos trabalho, lacerações e outras coisitas desagradáveis. Quando se deparou com algumas dificuldades em convencer a instituição onde trabalha a utilizá-lo, virou o jogo e convenceu as mães. Quantas mais o utilizavam, mais apareciam a pedir para fazê-lo. Inevitavelmente, um Bruno só tornou-se parco para tanta demanda e os colegas começaram a aceder em aprender a técnica.

Eu tive, além de tudo, a sorte de ele estar de serviço quando chegou a hora dos meus dois partos. É alguém que está inevitavelmente ligado para sempre a dois dos momentos mais felizes e marcantes da minha vida. A minha gratidão só é igualada ao meu orgulho por fazer parte do leque das famílias que ajudou a aumentar e só pode ser superada pela minha vontade de gritar aos quatro ventos como ele é fantástico no que faz e como toooodas as grávidas que possam fazê-lo DEVEM recorrer aos seus serviços.

Mas… Nem todas podem, porque o Clubcare é so um e não sai do local onde está. E, por isso, quando A cegonha cria um blog, a gente faz serviço público e divulga (ah, se eu fosse uma blogger famosa, seria cá uma troca de @…). Tenho a certeza de que todas as informações que lá constarem serão úteis e divulgadas de uma forma simples, fundamentada, bem humorada e absolutamente esclarecedora.

Não sei, honestamente, onde irá desencantar tempo para escrever um blog, já que está sempre, sempre, sempre disponível por sms ou whatsapp para responder às nossas dúvidas existenciais e crises de maternidade, enquanto faz partos uns atrás dos outros, ensina turmas cheias na preparação para a parentalidade e na recuperação pós-parto e ainda recebe grávidas no Clubcare para CTG’s, vacinas e ajudas com probleminhas de amamentação, cólicas e afins. Ah! Não esquecendo que tem a sua própria família e que haverá, suponho, momentos em que dorme (mas só acredito, vendo).

Se quiserem conhecer mais, aqui ficam, para espreitar e seguir o blog e a página de Facebook do Bruno, acabadinhas de nascer e também o site do Clubcare, a quem possa interessar!

Blog: www.brunorito.pt

Facebook: www.facebook.com/BrunoRitoEnfermeiroParteiro/

Clubcare: www.clubcare.pt

Parentalidade positiva na blogosfera

Prefiro chamar-lhe consciente, numa óptica de se traçar um plano/propósito e direccionar as nossas acções de parentalidade a ele. Mas vamos lá.

O Gatilho

Sou fã confessa da página Ser super mãe é uma treta. É um banho de maternidade real e quase em directo, porque acompanhar os posts da Susana é como viver com ela (o que quero dizer não é, obviamente, que revela demais, mas que é extremamente impressiva em tudo o que escreve). Sentimos-lhe o desespero, que mais não é do que o nosso em inúmeras ocasiões, enquanto nos divertirmos com isso. Estamos juntas, Susana.

Também sou fã de um outro blog, o Not so fast, onde a Lénia fala do que bem lhe apetece, sempre num tom assertivo, mas dado à reflexão (ou pelo menos é como eu a interpreto), com uma escrita irrepreensível.

Calhou que recentemente estas duas mulheres cujos estilos e conteúdos admiro imensamente, abordaram um tema que me é cada vez mais caro: a parentalidade positiva. E fizeram-no de forma… negativa.

Li a perspectiva da Ser super mãe é uma treta com o maior dos humores. Li a perspectiva do Not so fast quase que rebatendo mentalmente cada ponto (é só clicar nos realces que vão direitinhos para os textos de que falo e valem ambos muito a pena, toca a ler (depois de acabar este, faxavori)).

Sobretudo, li ambas com o respeito que me merecem todas as suas postagens. Estas em particular, deram origem à presente reflexão.

 

Um par de disclaimers

Literalmente um par:

  1. SE a parentalidade positiva traduzisse aquilo de que ambas falam, eu odiaria o conceito tanto quanto qualquer uma das autoras.
  2. É sempre, sempre, sempre, uma questão de perspectiva: a parentalidade é, no fim do dia, o que os pais quiserem fazer com ela e o que funcionar melhor em cada caso. Se for forçado, não é ‘positivo’, mesmo que conceptualmente queiramos aplicar esses princípios.

O que a parentalidade positiva não é

Não é sobre tornarmo-nos pais permissivos.

Não é sobre andarmos às ordens dos nossos filhos.

Não é sobre sentirmos culpa quando, optando de forma consciente por aplicar os princípios da parentalidade positiva, deixamos em situações do dia-a-dia de o fazer (foda-se a culpa, certo Susana?).

Como decorre do disclaimer 2, também não é para todos os pais: é para os que se revêem naquele modelo e se sentem bem com ele (desde logo, posso dizer-vos que é para mim e não é, de todo, para o meu marido – e ESTÁ TUDO BEM, somos ambos, ele e eu, os melhores pais que sabemos ser independentemente dos ‘como’s desta vida!).

O que a parentalidade positiva pretende

Desde logo tem boas intenções e não pretende ser positiva por oposição às ‘outras’, todas negativas (=todas erradas). É positiva por se pretender moldar o comportamento das crianças de dentro para fora, com alternativas que todos os envolvidos considerem aceitáveis aos comportamentos que não queremos que tenham, ao invés de fazê-lo de fora para dentro, isto é, reprimindo/proibindo/corrigindo unilateralmente esses mesmos comportamentos. É positiva porque almeja resultados positivos para todos: maior cooperação voluntária deles para connosco, logo, menos drama e stresse para nós.

Promover a autoestima de pais e filhos:

Isto não pressupõe fazê-los sentir-se ‘donos do pedaço’. Pressupõe que eles se conheçam, se compreendam, se aceitem e consigam ver-se, de forma geral, uma luz positiva, apesar dos seus pontos fracos, vivendo bem com eles ou trabalhando neles, dependendo das prioridades que se estabeleçam.

Onde entram os pais nisto? Numa lógica bastante primitiva de que, querendo ou não, ensinamos pelo exemplo, a melhor maneira de lhes passar a ideia do que é uma autoestima saudável é cultivar a própria – e isso é sempre positivo, independentemente do contexto.

Fomentar o respeito mútuo:

Quando digo mútuo, incluo o deles por nós, naturalmente. É mais ou menos isto: eles têm o direito a fazer a birra e nós temos o direito a ficar de cabelos em pé com ela. O que se procura é que eles aprendam, pouco a pouco, a lidar com o que quer que os tenha empurrado para a birra, reduzindo-as em número e intensidade e que nós aprendamos igualmente a gerir todas as coisas mais ou menos loucas e, essas sim, mais ou menos negativas, que nos passam pela cabeça na fase mais aguda de um desafio desta natureza.

Dar espaço à inteligência emocional:

Crianças que sabem identificar correcta e especificamente o que sentem e o que os outros, designadamente os próprios pais, sentem, que dominam razoavelmente a linguagem não verbal e que são capazes de empatizar, i.e., colocarem-se no lugar do outro, geralmente são mais capazes de exercerem o auto-controlo, de adiarem a recompensa (ou seja, de se manterem num determinado rumo que apenas ao fim de algum tempo poderá dar frutos), de se auto-motivarem e de ‘auto’ uma série de outras coisas que os pais costumam desejar.

Estabelecer limites:

Esta é uma parte importantíssima de qualquer modelo de parentalidade. Ninguém, em sanidade de espírito, conseguiria conceber a parentalidade como um mundo de pequenos imperadores ditando as regras das famílias enquanto os pais, reduzidos ao seu papel de serviçais, se desdobram em 1000 para satisfazer todos os caprichos de suas excelências… pelo menos em teoria.

Há lugar para o ‘não’ na parentalidade positiva? Há! Todo! Há castigos? Há, pois! Podem chamar-lhes ‘consequências’ à vontade, o propósito primordial de admoestar um filho com uma consequência/castigo é o mesmo: que ela se responsabilize pelos seus actos. Apenas se procura que estas consequências tenham um qualquer nexo causal com a infracção desvirtue a sua essência. E não vejo mal algum nisso. Afinal, até os Tribunais vêm reconhecendo os benefícios de aplicar penas acessórias que mostrem aos infractores o mal que as suas acções causaram e os obrigue, activamente, a repará-lo ou a preveni-lo…

***

Não vai funcionar sempre.

Exige prática e congruência (o que é diferente de consistência).

Mas não é uma batalha campal com vencedores de palmo e meio pré-definidos.

Sobretudo, haverá, com certeza, mil outras maneiras de educar com sucesso e em clima de harmonia e (relativa) felicidade.

Uma nota pessoal

Não sou uma pessoa que grita. Com ninguém. Desde que me conheço. Consigo, aliás, ser bastante desagradável, ofensiva e cáustica, mas sempre de uma forma calculada, sem levantar demasiado o tom de voz (não, isto também não é uma coisa boa). Gritar não faz parte do meu estilo, mesmo quando profundamente aborrecida (não que não aconteça ocasionalmente, em situações extremas). Também sou uma pessoa que precisa de controlar o máximo do seu ambiente. O planeamento e a previsibilidade são elementos que me tranquilizam.

E é essencialmente por isso – porque gritar não faz parte de mim enquanto indivíduo e porque o não domínio do que se passa à minha volta me faz mal – que não me reconheço quando, em desespero, grito e ajo por puro impulso com os meus filhos.

É também por isso que acho que, para mim e só para mim, a parentalidade consciente faz sentido e que nada perco em aprender ferramentas que me ajudem a lidar com algo na minha própria maternidade, de que não gosto. É mais por mim, do que por eles. E é uma razão tão boa como outra qualquer.

Em jeito de conclusão, um pedido

Muuuuiiiiito diferente de eu, ou qualquer outra mãe optar, para si e para os seus filhos, por este ou outro modelo, é o fanatismo com que algumas pessoas passam a defender as suas escolhas e a depreciação deliberada que oferecem às mães que escolhem diferentemente.

Isso sim, é transversalmente tóxico e propulsor de más energias. Aliás, alguns dos comentários aos posts que me suscitaram este são bastante ilustrativos do que agora digo: mulheres ditando umas às outras o que «têm que» e o que «não podem» fazer para serem consideradas boas mães e o que as torna dignas de pena, vergonha e, consequentemente, indignas de educar uma criança… Bom, digamos que não há ‘receita’ de parentalidade cuja escolha pressuponha a sua validação às custas dos mínimos olímpicos do bom senso e da sororidade.

Aquilo que eu escolho é, sem dúvida, o melhor PARA MIM. Aquilo que outras mães fazem também é, seguramente, o melhor PARA ELAS. As hipóteses são sempre várias e cumulativas, não se excluem mutuamente.

Por isso, façam o que fizerem: concedam às mães do vosso mundo (ainda que virtual) e às suas opções, o mesmo respeito com que tratam as vossas próprias.

Ninguém gosta de ser constantemente questionado (até quando não tem senão certezas). Para isso, já existem a nossa consciência e as nossas próprias inseguranças, sempre a fazer das suas.

 

Era mais fácil sozinha

 

Alguém duvida que esta vida se fazia muito melhor sozinha?

Só nós, dispondo de 100% do nosso dinheiro, para gastar em 100% do nosso tempo livre, em actividades 100% do nosso agrado.

Sem cedências para fazer, sem grandes compromissos para honrar, sem outras vidas a nosso cargo.

Alguém, em sanidade de espírito, pode duvidar disso?

Eu não duvido.

Então porque são tão raras as pessoas que escolhem viver dessa forma?

Porque é que tão poucos de nós queremos e apreciamos verdadeiramente viver sozinhos?

Ninguém me perguntou mas eu vou falar, porque eu sou dessas: porque o mais fácil nem sempre (ou quase nunca) é o melhor.

Ou o mais prazeroso.

Ou o mais compensador.

Ou (principalmente) o que nos faz mais felizes.

Mas quererá isso dizer que, escolhendo uma opção menos fácil, nunca mais nas nossas vidas poderemos desabafar sobre o quão difícil é, às vezes, aquilo que escolhemos fazer?

Será que nos torna mães menos merecedoras dos nossos filhos o quanto nos queixarmos do cansaço, da falta de tempo, das estrias, da memória de peixe e do pavio curto? Porque, afinal, ‘se é assim tão difícil porque os tivemos’? E se ‘escolhemos ter agora não nos queixemos’…

Será que nos torna mulheres menos merecedoras de ter um relacionamento o facto de constatarmos o quanto o nosso marido pode ser inflexível/incompreensivo/preguiçoso/frio/ciumento/whatever? Porque ‘se não estamos satisfeitas, podemos sempre bater com a porta’?

Menos, gente! Acalmem lá esses dedinhos nervosos, afastem-nos do teclado onde habitualmente se dedicam a actividades de criticismo da vida alheia e pensem no que seria de vocês próprios se nunca pudessem queixar-se de circunstância nenhuma da vossa vida sem comerem logo com uma qualquer formulação do ‘fizeste a cama, agora deita-te nela’?

Desabafar sobre quanto pode ser difícil a vida a dois (ou, no meu caso particular, a quatro) serve apenas para colocar o difícil para fora de nós, partilhar, expelir o mau, relativizar: manter a saúde mental!

E isso está longe de querer significar que queremos voltar ao ‘fácil’.

Porque ‘fácil’ também significa uma certa dose de isolamento.

‘Fácil’ é não ter um abraço quentinho no frio da noite, um ombro onde pousar um pesadelo.

‘Fácil’ é não ter uma mãozinha pequenina à procura da nossa, um sorriso desdentado quando chegamos a casa.

‘Fácil’ é tantas vezes só isso mesmo: fácil, no sentido de ‘cómodo’, ou ‘menos trabalhoso do que’.

Era mais fácil sozinha? Era, claro!

Mas eu prefiro, de longe, convosco.

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«Porquê?» – O outdoor que vai levar-me ao divórcio

Há sensivelmente dois meses – DOIS MESES – que, a caminho do trabalho, passo pelo mesmo outdoor.

É um de vários que a Câmara Municipal espalhou pela cidade por ocasião do Dia Internacional da Mulher.

A colecção de outdoors tem um layout semelhante: fundos totalmente pretos, uma foto de um rosto de mulher com expressão pesada e um dado estatístico em letras brancas (há vários, é só escolher) que traduz a desigualdade de género. Estão a visualizar?

Boa!

Então, aqui vou eu, depois de largar os meus preciosos M’s na escola, a caminho do trabalho, mais ou menos entretida na minha costumeira enchurrada de pensamentos incontroláveis quando passo por aquele outdoor.

Tentei encontrar uma imagem dele, para perceberem o impacto que uma coisa daquelas pode ter pela manhã, mas não consegui, desculpem, terão que ficar com o meu relato e tentar imaginar.

Resumindo, diz qualquer coisa como:

Mulheres na distribuição das tarefas domésticas:

Mais 1h45 que os homens todos os dias.

PORQUÊ?

Duas coisas muito importantes para apreenderem o meu estado de espírito:

  1. «Todos os dias» deve ser lido assim: TODOS [pausa] os [pausa] dias. E com dicção perfeita!
  2. Aquele «porquê?» em letras garrafais faz eco. De verdade, creiam-me.

Leio «porquê?», mas o meu cérebro regista «PORQUÊ? Porquê…? quê…? ê…? ê…»

Começo a ficar com uma leve urticária.

Digo leve, porque não se compara ao bicho carpinteiro que me ataca quando começo a fazer contas: 1h45 por dia, 12h15 por semana, 49 horas por mês, 588 horas por ano!!!

F*da-se!!!

Eu gasto quase 600 horas a mais do que sua excelência, ‘o princeso’ a cuidar do que é dos dois?!

Inevitavelmente começo a pensar em tudo o que me espera quando chegar a casa: roupa, loiça, fraldas, banhos, jantares, histórias para dormir, ‘arrumar’ o dia seguinte. A imagem de fundo na minha cabeça mostra-me, claro está, o meu marido confortavelmente sentado no sofá. Outras vezes ouço-o também dizer, imaginariamente «deixa isso, vem um pouco para o pé de nós».

Neste ponto, já nem vejo o trânsito. Fervilho e insulto mentalmente o meu marido pelas 600 horas que eu não faço ideia se gasto ou não a mais do que ele em tarefas domésticas.

Chego ao trabalho a pensar em contactos de bons advogados de Direito da Família.

E mais: o próximo que me disser que estou com um ar cansado leva um murro na tromba e uma pilha de roupa para tratar.